quinta-feira, 7 de maio de 2009

Trilogia Poética de Guerra Junqueiro

«O nosso grande poeta Guerra Junqueiro, atingindo a maturidade da razão adulta, revelou-se uma mui rara intuição filosófica, tornando incisivo o pensamento metafísico, que nele é sempre profundo, mercê da nítida flagrância duma imaginação igualmente opulenta na concepção e na expressão». (Sampaio Bruno, A Ideia de Deus)
Numa nota final datada de 1885 e anexada pelos editores à sua obra A Velhice do Padre Eterno, Guerra Junqueiro (1850-1923) apresenta em andamento a sua trilogia poética: a Morte de D. João, A Velhice do Padre Eterno e, finalmente, o Prometeu Libertado. Os dois primeiros poemas foram publicados, embora o segundo livro d' A Velhice do Padre Eterno, cujo título primitivo era A Morte de Jeová, não tenha sido editado com o título previsto d' A Morte do Padre Eterno, e do último restam alguns fragmentos. Mas sabemos que, "depois de morto D. João e morto Jeová", Guerra Junqueiro pretendia "ressuscitar Jesus e desagrilhoar Prometeu": "Este último poema, o Prometeu Libertado, será o fecho da trilogia, o complemento da minha obra", cujo plano estava concebido há muito tempo na mente de Guerra Junqueiro. O que prova a unidade substancial do pensamento de Guerra Junqueiro que, como qualquer outro grande criador e pensador, manifesta indecisões ou oscilações que, em vez de romper a linha condutora do pensamento em andamento, lhe emprestam rasgos de génio.
A cristologia de Guerra Junqueiro, elaborada no seu texto O «Sacré-Coeur» (1888), onde apresenta a doutrina do "cristianismo integral", sempre foi e continua a ser anti-católica ou, pelo menos, anti-eclesial e anticlerical, e, se o poeta-filósofo parece romper com A Velhice do Padre Eterno, quando chama "loucura monstruosa" à negação de Deus, proclamada por Nietzsche, o evangelista de "Satanás", fá-lo levado pela crítica hipócrita e difamatória que lhe foi dirigida pelos "homens entendidos", a "escória do público, a multidão instintiva e ordinária", porque o seu suposto período místico em que vive recolhido em si mesmo e coagido pela sua doença não significa uma adesão ao catolicismo e muito menos à Igreja Católica, cuja "opulência" constitui o seu maior "crime", sem escutar e seguir o voto de pobreza de S. Francisco de Assis: o seu misticismo inspirado nos místicos cristãos é contra a mediação de qualquer Igreja e, como tal, constitui uma força política revolucionária colocada ao serviço da revolução espiritual da humanidade: "O mundo caminha para um cristianismo integral, puro e perfeito, que absolutamente harmonize coração e razão, ciência e fé, natureza e Deus", termos que estiveram afastados uns dos outros durante séculos devido à própria "tragédia divina" que se repercute nos "dramas da alma humana e dos povos". A realização da justiça absoluta pertence ao futuro eterno reconciliado e redimido, donde Deus chama a sua criação à reconciliação santa e fraterna, que, apesar desse aspecto puramente escatológico, pode ser realizada pelo homem no seu exílio na Terra e na cidade dos homens, através da santificação e da espiritualização crescentes das obras dos "grandes homens" que antecipam aqui e agora o infinito. Este processo de ascensão é pensado a partir de uma dialéctica do desejo, a qual nos reconduz à fenomenologia da consciência antecipante de Ernst Bloch, até mesmo quando este filósofo apresenta a fome como a tendência fundamental que move o «desejo» humano de justiça plena: "D. João resume em si tudo quanto há de doentio na sociedade moderna: o idealismo, o tédio, as nevroses, a indiferença, a dúvida, os paradoxos, a falta de carácter. D. João anda nos cafés, nos boulevards, nos teatros, na literatura, nas igrejas e nas consciências. Simboliza perfeitamente uma parte da sociedade moderna, pelo lado exterior dos costumes. É necessário matá-lo; moralmente, já se vê". E Guerra Junqueiro mata-o moralmente: "D. João, na sua qualidade de parasita, morre como deve morrer: de fome. Quem não trabalha não tem direito à vida".
A "ideia simples e bela" que preside à concepção deste fecho da trilogia poética foi apresentada por Guerra Junqueiro assim: "A primeira parte é a epopeia do Trabalho, a glorificação de Prometeu pela humanidade e pela natureza. Na segunda parte, Jesus Cristo, levantando-se do seu túmulo, vem fulminar o abutre e desacorrentar Prometeu. O herói é libertado pelo santo. A crença e a ciência, a razão e a fé, depois dum combate de milhares de séculos, reúnem-se finalmente numa paz luminosa, numa comunhão indestrutível. A liberdade de Prometeu significa o desaparecimento de todas as tiranias, e a ressurreição de Jesus, a morte de todos os dogmas. Um é a justiça humana, e o outro a aspiração imortal para uma justiça absoluta. O Cáucaso e o Gólgota ficam sendo para a humanidade os dois grandes altares da religião eterna do Futuro". Na nota d' A Morte de D. João, Guerra Junqueiro lembra que "toda a questão tem dois lados, toda a medalha tem duas faces" e, por isso, depois da negação do "verme", a "face de Judas" personificada nas figuras de D. João e do Padre Eterno, levada a cabo nos dois poemas já publicados, respectivamente, é necessário "afirmar (no Prometeu Libertado) a justiça encarnada em duas figuras sublimes (do espírito humano), Cristo e Prometeu". Com efeito, "quando estes dois termos do espírito humano, há tantos séculos afastados, se identificarem numa harmonia completa, (em última análise, escatológica) o homem desde esse momento será justo, será bom, será feliz". Sem abdicar da noção de progresso, Guerra Junqueiro submete-a a uma crítica imanente que visa reconciliar num horizonte escatológico os dois grandes "altares da religião eterna do Futuro", Cristo e Prometeu. A santidade é "o termo e o destino da evolução do Ser" e "o universo não existe, nem se move senão para chegar a esse supremo resultado" que, no último poema, é apresentado nestes termos: "cada homem será (potencial e virtualmente) um deus" no advento da criação reconciliada no futuro eterno de Deus. Das ruínas da história (passada) governada pelo "Deus-Milhão" emergem, quais fagulhas incandescentes e despertas, as forças adormecidas do futuro: a reconciliação do homem com a natureza e a realização dos ideais da justiça, da república e da democracia. Segundo Sampaio Bruno, o primeiro filósofo português do Porto, aquele que teve a ousadia de enunciar que "Deus é omnisciente actualmente, mas não é omnipotente", antecipando o mito relatado recentemente por Hans Jonas para «justificar» o Holocausto, a novidade de Guerra Junqueiro reside no facto de ter esboçado, anulando a moral religiosa, a moral filosófica e a moral ascética, uma "moral cósmica", cujo princípio foi estabelecido por Novalis: "O fim do Homem é ajudar a evolução da Natureza". Para Bruno, "o homem tem de dar contas do supremo dever que lhe incumbe, o dever para com a natureza inteira. Libertando-se a si, libertando os seus irmãos de espécie, ele contribuirá já para a libertação universal".
O Esboço do Poema publicado e prefaciado por Luís de Magalhães compreende cinco cantos. No Canto I, Prometeu no Cáucaso e Cristo no Calvário dialogam entre si: "Cristo quer levar o mundo para Deus" e "Prometeu quer destruir os deuses e fazer um deus de cada homem". O Canto II trata do Sermão de S. Paulo em prole da cristianização de um mundo devastado e corrupto, onde impera o "niilismo da alma" e, por conseguinte, a "luxúria" da carne, "o pecado escandaloso", já denunciada num poema anterior, A Morte de D. João. O Canto III é dedicado à "ressurreição pagã" e, portanto, à Renascença: Prometeu desagrilhoado escala o céu e mata os deuses. O Olimpo é transferido para a Terra, onde Prometeu revela, domina e entrega aos homens "as forças prodigiosas da natureza", de modo a libertar a humanidade e a tornar "cada homem um deus". Contudo, o Canto IV mostra que o "Deus-Milhão", o ídolo do homem fera, serve-se das "revelações e descobertas de Prometeu" para concentrar o seu poder "omnipotente" e escravizar a humanidade. Prometeu fica indignado ao ver que da sua obra "resultou o despotismo, a tirania, a miséria, o crime, a devassidão" e, sem desanimar, "prega a revolta aos escravos", convicto de que "os homens serão livres, serão iguais, serão fraternos". Porém, os escravos libertos tornam-se, por sua vez, tiranos, o que significa a "hecatombe da revolução" (francesa de 1789), portanto, o "triunfo do Deus-Milhão" e do "niilismo". O Canto V relata a "desilusão de Prometeu" que "supunha que os homens eram bons naturalmente e que, entregando-lhes as forças maravilhosas da natureza, se libertariam para sempre de todas as misérias terrestres". Prometeu medita: "E ainda que os homens se libertassem da miséria e da desigualdade das riquezas pela minha obra, os homens seriam absolutamente felizes, isto é, seriam perfeitos?" A resposta é um rotundo "não", porque "só a perfeição moral é perfeitamente verdadeira" e "a perfeição completa das almas exige necessariamente a imortalidade". Prometeu continua a meditar: "De que serviria converter o globo (terrestre) num paraíso, se o globo há-de morrer e voltar ao caos? De que serviria o triunfo da minha obra, se a morte ao cabo a aniquilava". E, como em sonho, Prometeu imaginou-se um Hamlet, precisamente o de William Shakespeare, que, no "cemitério do infinito", erguia da "vala comum eterna" as "caveiras pútridas dos mundos" (históricos anteriores), para as interrogar, quase à boa maneira socrática. Porém, este "inquérito arqueológico" dos mundos passados foi infrutífero, a arqueologia é muda, porque as caveiras "perderam a voz" e nada lhe disseram, e, por isso, "Prometeu acorda do sonho com um grito de angústia pavoroso": "A sua obra falira, e, em vez de libertado, sente-se mais escravo do que nunca. Agora as cadeias, que o agrilhoam, são muito mais duras do que o bronze, e nem todas as forças da Terra, juntando-se, as poderiam despedaçar. O abutre do Cáucaso roía-lhe o fígado, agora rói-lhe a alma. É o abutre da desilusão e do desespero, o abutre satânico, o abutre invencível. E então Prometeu, chorando, tem saudades das suas cadeias de escravo nas penedias do Cáucaso". Na Cena final, Guerra Junqueiro parece ansiar pelo reencantamento do mundo. "Cristo aparece-lhe e converte-o" e Prometeu "cristianizado" exclama: «Só agora sou livre. Foi Jesus Cristo que me libertou»". Este sumário do esboço do poema, escassamente preenchido pelos versos do poeta, representa o maior esboço de uma História Universal realizado por um pensador português, que, apesar de implicar Camões, o supera pela sua absoluta universalidade, deixando a «filosofia da história nacional», a mitologia do Quinto Império, de Fernando Pessoa reduzida à sua insignificância obscurantista glorificada, mais recentemente, por dois luso-filósofos imbuídos de espírito metabolicamente gordo chamados Agostinho da Silva e António Quadros. A postura de Guerra Junqueiro não é a de quem aguarda a chegada de um Messias que faça por todos aquilo que cada um deve fazer, mas a postura de um homem de acção: "Rezar e chorar, mas heroicamente, na acção e na luta, no mundo e para o mundo". E tal como Ernst Bloch, Guerra Junqueiro é um optimista militante, cuja concepção de história é habitada pela ideia de Revolução, pela qual se hão-de realizar o direito, a justiça e o resgate de todas as sociedades, porque, como diz o poeta, "A ideia é uma torrente e a História é uma montanha./ É a torrente de luz, torrente de verdades,/ que arrasa quando passa impérios e cidades,/ tronos, religiões, crenças e monumentos./ Desce co'a rapidez eléctrica dos ventos./ O fantasma da noite em vão lhe grita: Pára!"
Em termos de periodização da História Universal, Guerra Junqueiro parece aceitar a periodização da historiografia «normal»: Antiguidade Clássica, Idade Média e Tempos Modernos, períodos a que correspondem, na linguagem marxista, o modo de produção esclavagista, o modo de produção feudal e o modo de produção capitalista, respectivamente. Porém, os seus «critérios» não são puramente materiais mas espirituais, ou melhor, culturais, à luz dos quais encara e avalia o progresso da humanidade de um modo «paradoxal». Sem negar o progresso material da humanidade, Guerra Junqueiro destaca preferencialmente o seu lado negro e regressivo: Prometeu ajudou os escravos a libertarem-se das cadeias, mas estes, uma vez libertos, converteram-se em tiranos que servem unicamente o Deus-Milhão. O resultado da epopeia do Trabalho é sempre em qualquer período o niilismo da alma, aquilo a que podemos chamar a regressão cultural, que Guerra Junqueiro permite pensar em termos de pensamento gordo, isto é, da ditadura do engorda. S. Paulo evangelizou o mundo antigo, mas o resultado foi a emergência de um Igreja sedenta de poder e de riqueza, profundamente corrompida pelo poder estabelecido, o contrário da mensagem de S. Francisco de Assis. A revolução francesa foi levada a cabo em nome da liberdade, igualdade e fraternidade, e o resultado foi uma nova tirania e o niilismo da alma, talvez mais suavizada pelo facto de ter libertado a humanidade do jugo das Igrejas, mediante a secularização. No prefácio à segunda edição do primeiro poema, A Velhice do Padre Eterno, na secção da "defesa" contra a "acusação", Guerra Junqueiro ainda responsabiliza o Deus-Ídolo, aquele que habita os tronos dos imperadores, dos reis, dos governantes ou dos dirigentes corruptos, por esta fatalidade da história da humanidade: "O Criador selvagem, o Átila furibundo, castrado e piolhoso, (...) civilizou-se. Ao deitar-se, era ainda um bárbaro; quando se levantou, era já um corrupto," que habitava "no luxo resplandecente da Grécia de Alexandre e da Roma dos Césares". Nesta crítica do Deus-Milhão, Guerra Junqueiro salvaguarda "o Rabi Jesus Cristo" que foi morto pelo Pai que o temia por causa dele ameaçar o seu "trono", deixando-o "depois, a um canto, na penumbra, (como) Deus aposentado, Deus honorário, sem influência, sem autoridade, mascando as suas cóleras, gemendo os seus reumatismos, com umas migalhas apenas da lista civil, que vergonha, que opróbrio! Jamais!" Porém, neste esboço do poema, Prometeu Libertado, Guerra Junqueiro parece inclinar-se mais para a maldade radical (Kant) inerente à condição humana e, contrariando Rousseau, põe o seu Prometeu a pensar que, afinal, os homens não são naturalmente bons, porque, após lhes ter entregue as forças maravilhosas da natureza, eles não se libertaram para sempre de todas as misérias terrestres; pelo contrário, reproduziram-nas sempre de modo quase idêntico, o eterno retorno do mesmo, servindo o Deus-Milhão e aprofundando a "niilite" que domina o homem fera dilatada. Ao desvelar a dupla-face do progresso, uma visível e fenoménica, a da corrupção e das ruínas, a outra "encoberta" e essencial, a do espírito humano, Guerra Junqueiro vislumbra o «motor imóvel» que dinamiza e coloca em movimento perpétuo o ciclo infernal do eterno retorno que caracteriza a civilização: a mortalidade do mundo, dos seus habitantes e das coisas que o povoam. De certo modo, como pensa Prometeu, a mortalidade do homem justifica essa gula que o move ao longo da sua história vista enfaticamente como "inferno social", a catástrofe de Baudelaire e de Walter Benjamin. Só a esperança de imortalidade ou o Ideal enfrentando e aperfeiçoando o Real, pode contrabalançar a niilite, a doença crónica do processo civilizacional, e despertar a história para uma nova tarefa revolucionária: o reencantamento do mundo. Por isso, Guerra Junqueiro procede à ressuscitação poética de Jesus Cristo, o maior passo do Homem para o Divino, que, no mesmo texto, diz ao seu Pai:
"«Salvei o género humano. Purifiquei-o. Dum rebanho de corpos, fiz um exército de almas. De milhões de vermes, fiz milhões de astros. Como? Dizendo ao corpo: és nada!, e dizendo ao espírito: és tudo! Corpo, vai para o sepulcro. Espírito, vai para a glória eterna./ «Eliminando a carne, eliminei o pecado. O globo, que eu vi povoado de crimes, deixei-o estrelado de consciências. Converti a Terra e pus-lhe por cima um outro Céu. De hoje em diante, o Olimpo inteiro pertence-te. Os deuses gregos e romanos, deuses de prata, de oiro, de bronze, de alabastro, deuses de cinza, morreram para sempre./ Trago-te o império do universo. Aí o tens, meu Pai!»"
A saúde precária de Guerra Junqueiro, agravada pela recepção odiosa da sua obra, personificada na sua força maléfica e invejosa pela crítica positivista e estúpida de António Sérgio ou de Vieira de Almeida e até mesmo pela incompreensão de Leonardo Coimbra ou pela ambiguidade reconciliatória de Amorim de Carvalho, não lhe permitiram concluir a sua trilogia poética, que, de certo modo, antecipa uma reconciliação entre a razão e a fé, entre a ciência e a crença, entre Prometeu e Jesus Cristo, enfim entre a Grécia e a Religião Judaico-Cristã, as duas colunas essenciais da Civilização Ocidental. O Cristo de Guerra Junqueiro é um Cristo helenizado, mais precisamente platónico: O Sofrimento, a Dor ou a Luta espiritualizam a vida e o mundo e é nesta espiritualização que se conquista a Imortalidade. Num estudo anterior, intitulado
Guerra Junqueiro: Poesia e Filosofia (2003), apresentei uma nova chave de leitura da Filosofia da História de Guerra Junqueiro, onde tento alinhavar as linhas gerais da obra filosófica que o poeta-filósofo pretendia escrever com o título A Unidade do Ser, sem ter levado em conta este projecto da trilogia poética que não foi concluído. A leitura crítica deste projecto da trilogia revela agora a robustez hermenêutica e redentora dessa chave de leitura, que, apesar de poder ser aperfeiçoada, ajuda a recuperar Guerra Junqueiro para o pensamento essencial, libertando-o desse exílio do esquecimento que se chama História da Literatura Portuguesa e sem abdicar da unidade essencial do seu pensamento. (Publicado aqui.)
J Francisco Saraiva de Sousa

1 comentário:

J Francisco Saraiva de Sousa disse...

Aconselho a leitura do estudo que refiro no último parágrafo, porque esclarece a chave de leitura que usei para interpretar o pensamento de Guerra Junqueiro. :)