domingo, 15 de julho de 2007

NIETZSCHE E A CRÍTICA RADICAL DA CULTURA MODERNA

In Reencontro com Nietzsche no 1º. Centenário da sua Morte (1900-2000). Porto: Granito, 2001, p.9-28.


«Onde quer que se busquem responsabilidades, costuma ser o instinto do querer castigar e julgar que aí campeia. Despojou-se o devir da sua inocência, quando de qualquer modo se reduz à vontade, a intenções, a actos de responsabilidade: a doutrina da vontade foi essencialmente inventada para fins de castigo, isto é, do querer-enctrar-culpados. […] Mas, fora do todo, nada existe! — Que mais ninguém se tenha como responsável, que a espécie do ser não se refira a uma causa prima; que o mundo é uma unidade, mas não como sensório nem como «espírito»: eis a primeira grande libertação — assim é reinstaurada a inocência do devir… O conceito de «Deus» foi, até agora, a maior objecção contra a existência… negamos Deus, negamos a responsabilidade perante Deus: é deste modo que redimimos o mundo.»
NIETZSCHE[1]




As diversas interpretações do pensamento de Nietzsche que têm sido propostas debatem-se, na sua maior parte, com o problema da «unidade» ou, como diz Patrick Wotling, a «questão da inteligibilidade»[2] do seu pensamento. Autores tão diferentes entre si como Klages[3], Baümler[4], Jaspers[5], Heidegger[6], Löwith[7], Fink[8], Kaufmann[9], Lukács[10], Deleuze[11] ou mesmo Vattimo[12], movendo-se na dimensão escolhida pelo próprio Nietzsche — o niilismo[13], procuraram, cada qual à sua maneira, abordar o conjunto dos aforismos como se tratasse de um sistema, muitas vezes usado para projectar a sua própria filosofia. Contudo, estas tentativas de atribuir a Nietzsche uma filosofia «sistemática» chocam não só com a escolha do fragmento como forma literária adoptada por um pensamento que procura escapar à coacção do sistema, mas também com a própria intenção expressa por Nietzsche em diversos aforismos, dos quais destacamos o mais enfático: «Desconfio de todos os sistemáticos e afasto-me do seu caminho. A vontade de sistema é uma falta de probidade»[14].
Em vez de procurar reconstruir a filosofia de Nietzsche, articulando temas — tais como niilismo, transmutação de todos os valores, vontade de poder, eterno retorno do mesmo e super-homem — que aparentemente resistem à sistematização coerente, pretendemos, aliás na peugada de Jürgen Habermas[15], encará-lo, entre os mais inflexíveis teóricos da desocultação da modernidade, como aquele que mais radicaliza o anti-esclarecimento. Com efeito, com Nietzsche a crítica da modernidade renuncia pela primeira vez à preservação do seu conteúdo emancipatório, de resto já estabelecido por Kant: «O Iluminismo é a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem. Tal menoridade é por culpa própria se a sua causa não reside na falta de entendimento, mas na falta de decisão e de coragem em se servir de si mesmo sem a orientação de outrem. Sapere aude! Tem a coragem de te servires do teu próprio entendimento! Eis a palavra de ordem do Iluminismo!»[16]. Despojada do seu «conteúdo» emancipatório, a razão centrada no sujeito é confrontada com o «inteiramente» outro da razão: o mito, donde Nietzsche invoca as experiências de auto-desocultação, relegadas ao arcaico e à experiência trágica, de uma subjectividade liberta de todas as coacções da ciência e da actividade teleológica e de todos os imperativos da utilidade e da moral. Deste modo, Nietzsche «renuncia a uma nova revisão do conceito de razão e destitui a dialéctica do iluminismo»[17].

1. Cultura e domesticação. De todos os chamados «mestres da suspeita» (P. Ricoeur), Nietzsche é aquele que efectua a crítica mais radical da civilização ocidental, a partir da denúncia e da tentativa de superação do niilismo da cultura moderna, de resto uma crítica «regressiva» que procura «resgatar» a visão trágica do mundo, anterior à degenerescência e à falsificação a que tinha sido submetida tanto por Sócrates como pelo judeo-cristianismo, ambos acusados de roubar a «inocência do devir», mediante a invenção de uma terrível mentira: a do ideal ascético entendido desde logo como a perversão da vontade de poder.
Nas Considerações Intempestivas, Nietzsche define a cultura como «uma unidade de estilo que se manifesta em todas as actividades de uma nação» e o seu contrário, a barbárie, como «a ausência de estilo» ou como «a mistura caótica de todos os estilos»[18]. Ora, o que diferencia a cultura da barbárie é a presença ou ausência de estilo. No Crepúsculo dos Ídolos, Nietzsche, referindo-se à arquitectura, diz-nos o que entende por grande estilo:

«Os homens mais poderosos inspiraram sempre os arquitectos; o arquitecto esteve sempre sobre a sugestão do poder. Na construção deve tornar-se visível o orgulho, a vitória sobre a gravidade, a vontade de poder; a arquitectura é uma espécie de eloquência do poder em formas, por vezes persuasivas, e mesmo aduladoras, por vezes simplesmente imperativas. O maior sentimento de poder e de segurança exprime-se no que tem grande estilo. O poder, que já não tem necessidade de demonstração, que desdenha cair, que dificilmente responde, que não sente testemunhas à sua volta, que vive sem a consciência de contra si haver contradição; que em si se alicerça, fatalisticamente, uma lei entre leis: eis o que por si exprime enquanto grande estilo»[19].

Daqui resulta a distinção entre dois tipos de cultura: a cultura superior, intimamente ligada à «formação» e à «educação», que Nietzsche procura recuperar e salvaguardar, chegando mesmo a opô-la à política, e a cultura plebeia, considerada como degenerescência e decadência. Escusado será dizer que esta última formação cultural se identifica com a cultura moderna nas sua diversas formas históricas de perversão da vontade de poder. Esta distinção, bem como outras oposições correlacionadas, atravessa todo o pensamento de Nietzsche, dando origem a diversas oposições categoriais que, no fundo, exprimem avaliações fundadas em reivindicações de poder. Assim, em Para a Genealogia da moral, no âmbito da crítica do cristianismo como «espírito do ressentimento», Nietzsche afirma que «o sentido de toda a cultura é precisamente fazer da fera-“homem” um animal manso e civilizado, um animal doméstico» (p.42). E, em O Anticristo, Nietzsche não se inibe em identificar a civilização e a domesticação:

«O cristianismo quer assenhorear-se de animais de rapina; o meio para esse efeito é torná-los doentes — o enfraquecimento é a receita cristã para a domesticação, para a «civilização». O budismo é uma religião para o final e para a fadiga da civilização, o cristianismo nem sequer depara com esta — fundou-a, de certo modo»[20].

2. O exílio da sociedade e da paz. A cultura ocidental moderna é assim encarada como uma cultura cristã, degenerescente, decadente e niilista, enfim como uma cultura doente. No entanto, a definição da modernidade como «a autocontradição fisiológica»[21], de resto equivalente à de ideal ascético[22], leva Nietzsche a encarar a «cultura moderna» num sentido mais dilatado, como o desenrolar de diversas metamorfoses daquilo a que chama a «ordem moral do mundo», apregoada tanto pela Igreja como pela filosofia: «Que significa a «ordem moral do mundo»? — interroga-se Nietzsche em O Anticristo. E responde: «Que existe, de uma vez para sempre, uma vontade de Deus, a qual dita o que o homem tem de fazer e de não fazer; que o valor de um povo ou de um indivíduo se mede consoante for muito ou pouco obedecida a vontade de Deus; que nos destinos de um povo ou de um indivíduo a vontade de Deus se mostra soberana, ou seja, castigadora e recompensadora, conforme o grau de obediência. A realidade, em lugar desta mentira lastimável, é a seguinte: um género de homem parasítico, que só prospera à custa de todas as formas sãs da vida, o sacerdote, faz um uso abusivo do nome de Deus: chama «Reino de Deus» a uma situação da sociedade, em que o sacerdote determina o valor das coisas; chama «vontade de Deus» aos meios, graças aos quais se alcança ou se mantém uma tal situação; com insensível cinismo, avalia os povos, as épocas, os indivíduos, consoante sejam proveitosos ou acessos à supremacia sacerdotal»[23].
Ora, a sua crítica toma a forma de uma crítica genealógica da moral, entendida como «investigação das origens»[24] das nossas noções de bem e mal, tendo em vista questionar radicalmente «o próprio valor desses valores»[25]. Ao contrário de Walter Benjamim, para quem a história é, nas suas Teses sobre a Filosofia da História, a história dos vencedores[26], Nietzsche vê a história da civilização ocidental como uma imensa e terrível teia de mentiras tecida pelos homens mais fracos, os escravos, para dominar e domesticar os homens fortes, isto é, os espíritos nobres e livres. A sua concepção da civilização como domesticação significa precisamente que a história é a vitória dos escravos sobre os mais fortes, mediante a criação e a invenção de razões, justificações, ficções, convicções e invenções — aquilo a que Nietzsche chama os «instrumentos da cultura»[27] — que, quando incorporados e interiorizados pelo homem, destroem e pervertem a sua vontade de poder na qual reside a essência da vida[28].
Antecipando-se a S. Freud[29], cujo ensaio O Mal-Estar na Civilização é, nos seus aspectos mais fundamentais, uma reformulação psicanalítica da Genealogia da Moral, Nietzsche desenvolve uma explicação do processo evolutivo pelo qual o animal humano se torna instruído e disciplinado como animal social — ou, como prefere Nietzsche dizer, um «animal de rebanho» que pode fazer promessas e ser considerado responsável pelas suas acções —, através do mecanismo de repressão dos seus instintos mais vitais. Nesta perspectiva, a consciência é vista como uma faculdade moral resultante do trabalho áspero e cruel da disciplina e do castigo associados à «moralidade dos costumes». Este desenvolvimento da consciência foi transformado pela cultura moral-cristã numa «má consciência» incapaz de se livrar do seu «sentimento de culpa». Como escreve Nietzsche:

«Considero que a má consciência é a doença profunda que necessariamente tinha que atingir o homem colocado sob a pressão da mais radical das mudanças pelas quais ele passou, a mudança que se deu a partir do momento em que o homem se viu aprisionado no autêntico exílio que para ele foi a sociedade e a paz»[30]. Assim que «viram, de um momento para o outro, os seus instintos perderem todo o valor», os homens — «esses infelizes estavam agora reduzidos a pensar, a raciocinar, a calcular, a combinar causas e efeitos, limitados ao órgão mais miserável e mais falível, a sua “consciência”»[31].

Ao mesmo tempo que emergia a consciência, os antigos instintos tiveram de ser domesticados, e a natureza das necessidades, que já não encontrava qualquer possibilidade de expansão, teve de ser reprimida. Neste processo de repressão dos instintos e da interiorização constituiu-se, sob o signo da renúncia ou da «má consciência», a subjectividade de uma natureza interior:

«Todos os instintos que não se libertam para o exterior viram-se para dentro: a este processo chamo a interiorização do homem. Só com ele começa a surgir no homem aquilo a que mais tarde se dará o nome de “alma”. Todo o mundo interior, que originariamente era tão delgado como se estivesse apertado entre duas epidermes, desenvolveu-se e ampliou-se, ganhou profundidade, largura e altura, na proporção em que foram sendo restringidas as descargas para fora»[32].

Estes dois elementos da dominação sobre a natureza interior e a natureza exterior ligam-se e consolidam-se, finalmente, na dominação institucionalizada do homem sobre o homem. Todas as instituições sociais, da Igreja ao Estado, assentam no «exílio da paz e da sociedade», visto que forçam e condenam o homem à renúncia e à «dependência». De acordo com Nietzsche:

«Os temíveis baluartes que a organização estatal ergueu para se defender dos antigos instintos de liberdade (e as punições são sobretudo um elemento integrante desses baluartes) fizeram com que todos esses instintos do homem selvagem, livre e nómada, se voltassem contra o próprio homem. A hostilidade, a crueldade, o prazer da perseguição, do ataque, da transformação, da destruição, tudo isto virando-se contra os possuidores desses mesmos instintos: esta é a origem da “má consciência”»[33].

A ascensão da má consciência não só tornou possível a «revolta dos escravos» na moralidade, na medida em que eles — inicialmente os judeus — descobriram que, sendo mais subtis que os seus senhores, podiam exercitar a sua «vontade de poder» por meios de tal modo eficazes que acabaram por converter os senhores aos seus valores hostis à vida, como também abre novas possibilidades de desenvolvimento futuro:

«Mas acrescentemos também de imediato que esse novo facto, que era uma alma animal virando-se contra si própria, tomando partido contra si mesma, a Terra viu surgir algo de novo, profundo, inaudito, enigmático, contraditório e carregado de futuro, que o aspecto do mundo se transformou essencialmente. […] A partir desse momento o homem passa a fazer parte dos lances mais inesperados e mais excitantes do jogo com que se entretém o «menino grande» de Heráclito — chame-se-lhe Zeus ou acaso —, passa a despertar sobre si mesmo um interesse, uma atenção, uma esperança, quase uma certeza, como se com ele alguma coisa se anunciasse, se preparasse, como se o homem, em vez de ser uma meta, fosse apenas um caminho, um episódio, uma ponte, uma enorme promessa…»[34]. E, mais adiante acrescenta: «Mas um dia, numa época mais forte do que este nosso presente podre e incapaz de acreditar em si próprio, terá que vir até nós o homem redentor do grande amor e do grande desprezo, o espírito criador cuja força impulsionadora o arrancará constantemente aos desvios e aos aléns, cuja solidão será mal compreendida pelo povo, como se fosse uma fuga para diante em relação à realidade…, quando de facto é apenas a sua maneira de mergulhar, de se introduzir profundamente dentro da realidade, para mais tarde, ao sair dela, ao voltar à luz, trazer consigo a redenção dessa realidade: a redenção dessa realidade face à maldição que o ideal até hoje reinante lançou sobre ela. Este homem do futuro, que nos salvará não só desse ideal, mas de tudo aquilo que dele tinha que nascer, da grande náusea, da vontade do nada, do niilismo (essa badalada do meio-dia e da hora da grande decisão), que voltará a libertar a vontade, que devolverá à Terra o seu objectivo e ao homem a sua esperança, este anticristo e antiniilista, este homem que triunfará sobre Deus e sobre o nada… virá necessariamente um dia…»[35].

Ressoam aqui não só as metáforas mas também as mensagens desenvolvidas no Assim Falava Zaratustra[36]: o homem esperado é «Zaratustra, o sem-deus»[37] que ensinará ao homem decadente do presente que «Deus está morto» e que, doravante, o «super-homem» será o sentido da Terra. O anúncio do «super-homem» é, de resto, encarado como a auto-superação da modernidade e do seu niilismo.

3. «Agora é o nosso gosto que decide». Do mesmo modo, a crítica nietzscheana do conhecimento[38] e da moral revela que, por trás dos ideais de objectividade e das exigências de verdade da chamada «teoria pura», por trás dos ideais ascéticos e das exigências de justeza da moral universalista, ocultam-se imperativos de autopreservação e dominação. Uma teoria pragmática do conhecimento e uma doutrina afeccional da moral desmascaram a razão teórica e a razão prática enquanto ficções puras, onde as pretensões de poder vão buscar a sua justificação, com a ajuda da imaginação, do «impulso de metaforização», inerente à própria linguagem[39], ao qual os estímulos externos apenas possibilitam uma teia de interpretações e de representações por trás da qual o texto desaparece. No Crepúsculo dos Ídolos, Nietzsche afirma mesmo que «não há factos morais. O juízo moral tem em comum com o religioso crer em realidades que o não são. A moral é unicamente uma interpretação de certos fenómenos; mais estritamente, uma falsa interpretação»[40].
Ao contemplar a modernidade a partir de uma teoria da vontade de poder, parcialmente inspirada na modernidade estética, Nietzsche pode explicar por que a natureza objectivada e a sociedade moralizada se degradam em correspondentes formas de manifestação de uma vontade pervertida de poder: «Chamo pervertido a um animal, a um género, a um indivíduo, quando este perde os seus instintos, quando escolhe, quando prefere o que lhe é prejudicial. Uma história dos «sentimentos mais elevados», dos «ideais da humanidade» […] quase seria também a explicação dos motivos pelos quais o homem está tão pervertido. A própria vida, considero-a eu como instinto de crescimento, de duração, de acumulação de energias, de poder: onde falta a vontade de poder, há decadência. A minha asserção é que a todos os valores supremos da humanidade falta essa vontade — que são valores de decadência, valores niilistas, que reinam, sob os nomes mais sagrados»[41]. É certo que a perspectiva a partir da qual Nietzsche contemplou a cultura moderna floresceu com a modernidade estética, com essa tenaz desvelamento — levada ao extremo na arte de vanguarda — de uma subjectividade descentrada liberta de todos os constrangimentos da cognição e da actividade orientada para fins e de todos os imperativos do trabalho e da utilidade, mas a abundância de metáforas «biomédicas» — tais como vida, diagnóstico, sintomas, cura, saúde, degenerescência, doença, evolução, instintos, forças activas e reactivas, adaptação, crescimento, energia e tantas outras — indicam claramente que os pressupostos fundamentais de uma tal perspectiva são «biológicos». Biologia e estética tendem a fundir-se num mesmo solo: o da vontade de poder e da afirmação incondicional da vida. É, por isso, que Nietzsche escolhe como grandes adversários Sócrates e Cristo, esses advogados de uma fé na vontade de verdade e no ideal ascético, de uma fé hostil à vida e, por conseguinte, à «beleza»: ao negarem a vida, eles negam, num só e mesmo acto, os valores estéticos. Para Nietzsche, só a arte «na qual se dá precisamente a santificação da mentira, na qual a vontade de enganar tem a boa consciência do seu lado, encontra-se face ao ideal ascético numa oposição muito mais radical do que a ciência: assim o percebeu o instinto de Platão, o maior inimigo da arte que a Europa até hoje produziu. Platão contra Homero…, é este o verdadeiro antagonismo, o antagonismo completo: de um lado o grande caluniador da vida, sempre voluntariosamente «para-além», do outro a natureza áurea, o adorador incondicional da vida»[42]. Numa palavra, só a arte enquanto «antagonista natural do ideal ascético» é capaz de não se deixar cativar pelo mundo imaginário da ciência e da moral.
Dado que rejeita a existência de um «órgão para o conhecimento, para a “verdade”»[43], Nietzsche entroniza o gosto, «o sim e o não do palato», como único órgão de um «conhecimento» para além do verdadeiro e do falso e para além do bem e do mal. Deste modo, o juízo de gosto é elevado de árbitro da arte a modelo de juízo de valor ou, mais precisamente, de «apreciação de valores». O sentido legítimo de crítica é o de um juízo de valor, capaz de instituir uma hierarquia que avalia as coisas e os homens e que mede as suas forças. E toda a interpretação é uma avaliação. O «sim» exprime alta consideração, o «não» menosprezo. São o «alto» e o «baixo» que caracterizam, de um modo geral, a dimensão das tomadas de posição de «sim» e «não», a qual está associada ao «pathos da distância»: «Até agora todo o crescimento da espécie humana foi obra de uma sociedade aristocrática — e assim será sempre; de uma sociedade que acredita numa longa escala hierárquica e na distinção de valor entre os homens, e tem necessidade de escravos, em todos os sentidos da palavra. Sem o pathos da distância, tal como ele cresce da encarniçada diferença entre as classes, sem a visão e o olhar de desprezo permanentes das castas dominantes em relação aos subordinados e aos instrumentos de trabalho, e sem o exercício, também permanente, da obediência e do comando, da opressão e do distanciamento, não poderia, de forma alguma, crescer aquele outro misterioso pathos, aquela exigência de um contínuo alargamento da própria alma, a criação de estados sempre mais elevados, mais raros, mais longínquos, de maior tensão e amplitude, em resumo, não haveria crescimento do género humano, a prograssiva «auto-superação do homem», para empregarmos uma fórmula moral num sentido extramoral»[44].
A subversão das tomadas de posição de «sim» e «não» em pretensões criticáveis de validade permite a Nietzsche depreciar a verdade das proposições assertivas e a justeza das proposições normativas, remetendo a validade e a invalidade a juízos de valor positivos e negativos: assim, as proposições complexas pelas quais reivindicamos validade para proposições de afirmação («p é verdadeiro») e do dever-ser («p é justo») são reduzidas a meras proposições avaliativas, com as quais damos expressão a apreciações de valor, dizendo concretamente que preferíamos o verdadeiro ao falso e o bom ao mau. Nietzsche começa, pois, por reinterpretar pretensões de validade em preferências pessoais, para depois levantar a questão: dando-se o caso de querermos antes verdade (e justiça): por que não antes in-verdade (e injustiça)? São os juízos de gosto que respondem à questão do «valor» da verdade e da justiça.
Parece evidente que, por trás destas apreciações fundamentais de valor, se esconde ainda a tentativa kantiana de ancorar e fundamentar a unidade da razão teórica e da razão prática na faculdade estética do juízo, mas Nietzsche só consegue realizar a assimilação integral da razão ao poder retirando aos juízos de valor o estatuto cognitivo e comprovando que, nas tomadas de posição valorativas de sim/não, já não estão expressas pretensões de validade, mas sim puras reivindicações de poder. Daí que tenha de assimilar os juízos de gosto a imperativos e as apreciações de valor a manifestações da vontade de poder. Nietzsche discute a análise kantiana do juízo de gosto para fundamentar a tese segundo a qual as valorações são necessariamente subjectivas e pessoais e não podem estar vinculadas com uma pretensão de validade intersubjectiva. A aparência de agrado desinteressado e também de impessoalidade e de universalidade do juízo estético só poderá resultar da perspectiva do espectador; a visão do artista produtor dá-nos, porém, a conhecer que as apreciações de valor são induzidas por posicionamentos de valor criadores. A estética da produção ostenta a experiência do artista genial, que cria valores: do seu ponto de vista, as apreciações de valor são ditadas por um «olhar que cria valores». A produtividade que põe valores prescreve a lei à apreciação de valores. Daí que a validade exigida pelo juízo de valor apenas exprima «a excitação da vontade («do interesse») por intermédio do belo»[45]. Uma vontade responde a outra vontade, uma força apodera-se da outra. Deste modo, partindo das tomadas de posição valorativas de sim/não, para logo a seguir as descontaminar de todas as exigências cognitivas, Nietzsche clarifica o seu conceito de vontade de poder. Se o belo é «o estimulante da vontade de poder», então o seu núcleo estético é a faculdade de uma sensibilidade que se deixa afectar tão multifacetadamente quanto possível.

4. A maldição do afastamento das origens. Contudo, se o pensamento já não pode mover-se no elemento da verdade e, de um modo geral, das pretensões de validade, dado que «as verdades são ilusões que foram esquecidas enquanto tais, metáforas que foram gastas e que ficaram esvaziadas do seu sentido, moedas que perderam o seu cunho e que agora são consideradas, não já como moedas, mas como metal»[46], então a contradição e a crítica perdem o sentido. Contradizer ou, mais precisamente, dizer-não retém apenas o significado de «querer ser diferente». No entanto, Nietzsche não se contenta com isso ao levar a cabo a sua crítica radical das tradições ocidentais. A sua missão não deve esgotar-se em agitação, mas sim mostrar a razão por que é falso, ou incorrecto, ou mau, reconhecer o domínio dos ideais e dos ídolos hostis à vida da ciência e da moral universalista. Aqui reside uma dificuldade que se torna extremamente inquietante quando, anteriormente, Nietzsche tinha desvalorizado todas as pretensões de validade e reduzido as apreciações de valor a meras reivindicações de poder. A crítica é, assim, privada de um padrão racional que lhe permita continuar a fazer distinções, restando-lhe apenas a capacidade de discriminar entre um poder que merece ser estimado — o dos nobres, e um outro que merece ser depreciado — o dos escravos, em função de uma determinada perspectiva da vida, a do próprio Nietzsche. Embora «o valor da vida não possa ser apreciado», no entanto, «quando falamos de valores, falamos sob a inspiração e sob a óptica da vida: é a própria vida que nos força a fixar valores; a mesma vida é que valora quando nós fixamos valores…»[47]. Daqui resulta que a moral cristã que concebe Deus como «condenação da vida» mais não é que um juízo de valor da «vida moribunda, enfraquecida, cansada, condenada».
A saída dessa aporia exige, portanto, o recurso a uma teoria do poder encarada como teoria susceptível de ser verdadeira ou falsa. No entanto, Nietzsche move-se, segundo a sua própria perspectiva, num mundo de aparência e de jogo onde é possível distinguir entre matizes mais claros e mais escuros da vontade de poder, mas não entre razão e desrazão: o mundo recaído no mito, onde as potências e as forças actuam umas sobre as outras sem que tenha subsistido um elemento capaz de transcender o seu combate. Tal como sucede no mundo da percepção a-histórica da modernidade estética, na filosofia nietzschiana da transmutação de todos os valores as épocas, individualmente, perdem o rosto a favor de uma heróica afinidade entre o presente e o mais remoto, o que mais próximo está das origens: o decadente pretende de um salto estabelecer contacto com o bárbaro, o selvagem, o primitivo. Dado que a cultura autêntica entrou em declínio após a morte da tragédia grega e o advento do «homem teórico», paira sobre o presente a maldição do afastamento das origens. Daí que Nietzsche conceba o prenúncio da cultura que está para vir — anti-utopicamente — como um regresso e um recomeço da visão trágica da vida. E é, neste âmbito, que procura justificar a sua filosofia da transmutação de todos os valores com uma teoria da vontade de poder e com a doutrina do eterno retorno do mesmo.
A renovação nietzschiana do mito originário prepara o terreno para a actividade paradoxal de uma crítica aliviada das hipotecas de um pensamento esclarecido. Como vimos, a crítica nietzschiana da ideologia, tornada total, transforma-se mesmo naquilo a que Nietzsche chama «crítica genealógica». Ao suspender o sentido crítico do dizer-não, desactivando o procedimento de negação, Nietzsche retoma aquela dimensão do mito da origem que permite uma distinção que se propaga a todas as outras dimensões: o mais antigo é o mais recente na cadeia das gerações, o mais próximo da origem. O mais originário é considerado como mais distinto, mais intacto, mais puro, em suma, como o melhor. Origem e proveniência funcionam como critério de categoria, simultaneamente no sentido social e no sentido lógico.
Ao tomar a forma de uma genealogia, a crítica do cristianismo e da sua moral ou, simplesmente, da «moralidade da moral», remete a apreciação moral de valores, que atribui a um indivíduo ou a um modo de agir um lugar numa ordem de categorias estabelecida segundo critérios de validade, para a proveniência e, consequentemente, para a categoria social dos que emitem um juízo moral. A este respeito Nietzsche é peremptório:

«A indicação do rumo certo foi-me dada pela questão de saber qual em rigor a significação etimológica das designações de “bom” cunhadas pelas diferentes línguas. Verifiquei então que todas essas designações remontam a uma mesma metamorfose dos conceitos: por toda a parte o conceito fundamental é o de “distinto”, de “nobre” no sentido do lugar ocupado na ordem social, e é necessariamente a partir dele que se desenvolve a ideia de “bom”, no sentido de «animicamente distinto», a ideia de nobre, no sentido de “superior no plano da alma”, de “privilegiado quanto à alma”. E este desenvolvimento corre sempre em paralelo com um outro que faz com que “vulgar”, “plebeu”, “baixo”, se transforme invariavelmente no conceito de “mau”»[48].

Deste modo, a localização genealógica dos poderes parece ganhar um sentido «crítico»: as forças que por origem são mais antigas e mais distintas são as activas e criativas, enquanto as forças que por proveniência são mais tardias e baixas são as reactivas, nas quais se manifesta uma vontade pervertida de poder. Munido destes meios conceptuais, Nietzsche está pronto para denunciar o prevalecimento da fé na razão e do ideal ascético, da ciência e da moral — como triunfo puramente factual, sem dúvida determinante para o destino da modernidade e da humanidade — das forças inferiores e reactivas. Ora, como sabemos, estas forças reactivas derivam do ressentimento dos mais fracos, mais precisamente «do instinto de conservação e de salvação de uma vida em degenerescência»[49]. Como escreve Nietzsche:

«A revolta dos escravos no âmbito da moral começa no momento em que o ressentimento se torna, ele próprio, criativo e começa a produzir valores: o ressentimento de seres a quem está vedada a verdadeira reacção, o acto de reagir, e que só encontram compensação numa vingança imaginária. Enquanto a moral aristocrática nasce de um «sim» triunfante, dirigido pelo próprio ao próprio, a moral dos escravos, desde o primeiro momento, diz «não», e dirige esse «não» a algo de «exterior», a um «outro», a um «não-o-próprio»…, e a sua acção criadora reside neste «não». Esta inversão do olhar definidor dos valores — este direccionamento para fora, que se apresenta como necessário, e que se substitui ao direccionamento para dentro, para si próprio — é precisamente parte integrante do ressentimento: a moral dos escravos necessita sempre em primeiro lugar de um mundo exterior; de um mundo em oposição, ou seja, em termos fisiológicos, necessita de estímulos exteriores para poder agir… A sua acção é fundamentalmente reacção. Com o modo de avaliação aristocrático passa-se o contrário: age e cresce espontaneamente e só procura o seu contrário para poder, com redobrada gratidão e alegria, dizer «sim» a si próprio […]»[50].

Ao considerar a cultura como uma «segunda natureza» do homem, Nietzsche pretende mostrar que o seu desenvolvimento se realizou à custa da repressão e da interiorização da «natureza biológica» do animal humano. Vista como uma «colonização espiritual» ou mesmo como um «narcótico», a cultura priva o indivíduo de si mesmo, anulando-o e mergulhando-o no «rebanho», onde todos são iguais uns aos outros. Tal como Kant, Nietzsche afirma que a autonomia é uma precondição do ser moral, mas encara o seu alcance sob o aspecto de um momento de individuação e de diferença que distingue o eu dos outros seres humanos, sobretudo daqueles que não atingiram a autonomia e que, por isso, não adquiriram o direito de fazer promessas. Para Nietzsche, o «homem livre» possui o seu próprio «padrão de valor: ao considerar os outros a partir de si próprio, ou preza ou despreza. Prezará necessariamente os que são seus iguais, os fortes, aqueles em quem se pode confiar (os que podem prometer), ou seja, todo aquele que promete enquanto indivíduo soberano, com dificuldade, com pouca frequência e pouca pressa, aquele que não desbarata a confiança que tem nos outros e que, ao confiar, distingue um outro, aquele que, dando a sua palavra, dá uma coisa segura, porque se sabe suficientemente forte para a manter, contra todos os acidentes, até «contra o destino». E necessariamente também reservará sempre um pontapé para os cães sem fibra que prometem sem estarem em condições de o fazer e umas vergastadas para o mentiroso que quebra a palavra dada no próprio momento em que a profere»[51]. Neste sentido, ser «supramoral» é ser um agente reflexivo e independente, dotado de uma «vontade duradoura e inquebrantável» de auto-responsabilidade. Daqui não decorre, como sucede em Kant, a crença de que todos os seres humanos devem conformar-se às mesmas máximas universais de acção. Kant afirma que, ao considerarmos a máxima que inspira qualquer acção dada, devemos perguntar-nos, para avaliar a sua legitimidade, se ela pode ser universalizada a fim de ser aplicável a todos os seres humanos racionais. Colocando-se na perspectiva para além do bem e do mal, Nietzsche insiste que uma «virtude» precisa ser a invenção pessoal de cada indivíduo: «Uma virtude tem de ser invenção nossa, a nossa legítima defesa e a nossa necessidade mais pessoais; em qualquer outro sentido, ela é meramente um perigo. O que não é condição da nossa vida, prejudica-a: uma virtude apenas devida a um sentimento de respeito pelo conceito de «virtude», conforme queria Kant, é prejudicial. A «virtude», o «dever», o «bem em si», o Bem com um carácter de impessoalidade e de validade universal… são quimeras em que se exprime o declínio, a derradeira debilitação da vida […]. É o contrário que determina as mais profundas leis da subsistência e do crescimento: que cada qual invente para si a sua virtude, o seu imperativo categórico»[52]. Ora, é evidente que, para Nietzsche, um tal homem que se libertou por si mesmo das mentiras milenares é, ele próprio, a transmutação de todos os valores.

5. Metacrítica e epílogo. A crítica nietzschiana da cultura moderna — enquanto crítica totalizante e auto-referencial — encontra-se, portanto, num apuro. Sem querer renunciar ao efeito de uma derradeira desocultação do esclarecimento, já que manifesta o desejo de prosseguir a crítica, Nietzsche é obrigado, para explicar a corrupção de todos os padrões racionais e morais, a preservar um de entre eles como intacto: «[…] só enquanto fenómeno estético é que a existência e o mundo surgem legitimados: neste sentido, o mito trágico tem precisamente de nos convencer de que mesmo o que é feio e carece de harmonia constitui um jogo artístico que a vontade, na eterna plenitude do seu prazer, joga consigo própria»[53]. Perante este paradoxo, a crítica recaída sobre si mesma perde a orientação. Para escapar a este paradoxo, Nietzsche procura refúgio numa teoria da vontade de poder, uma posição coerente na medida em que a fusão entre razão e poder que a crítica desvela condena o mundo, como se fosse mundo mítico, ao inconciliável combate das potências. Contudo, a tese das forças activas e meramente reactivas, peculiarmente analisada por Deleuze[54], também não oferece saída para o embaraço de uma crítica que ataca os pressupostos da sua própria validade: desbrava, quando muito, caminho para uma evasão do horizonte da modernidade. Enquanto teoria, ela não tem «fundamento racional», se a distinção categorial entre reivindicações de poder e pretensões de validade constituir a base sobre a qual todo o trabalho teórico tem de se efectuar. Por isso, o próprio efeito de desocultação transforma-se numa «viragem regressiva» — mais bárbara que o condenado «progresso» — que ameaça colocar as forças de emancipação ao serviço do contra-esclarecimento e, até mesmo, daquilo que Nietzsche não considerava digno de ser pensado: a Morte. De facto, a «grande política» preconizada por Nietzsche contra a «política democrática» tornou-se fatal e ironicamente trágica:

«Conheço a minha sorte. Um dia, ligar-se-á ao meu nome a recordação de algo imenso — de uma crise como ainda não houve nenhuma no mundo, da mais profunda colisão de consciências, de uma decisão tomada contra tudo o que, até então, fora crido, requerido, santificado. Eu não sou um ser humano, sou dinamite. E, com tudo isso, nada há em mim do fundador de uma religião — as religiões são assuntos da plebe, e, depois de estar em contacto com pessoas religiosas, tenho necessidade de lavar as minhas mãos… Não quero «crentes», penso que sou demasiado malicioso para crer em mim próprio, nunca falo às massas… Tenho um medo terrível de que, algum dia, me canonizem; adivinhar-se-á porque é que, antecipadamente, publico este livro: ele deve evitar que façam comigo algum disparate… Não quero ser santo, antes ser um bobo… Talvez eu seja um bobo… E apesar disso — ou melhor, não apesar disso, pois não houve nada, até hoje, mais mentiroso que os santos —, a verdade fala pela minha boca. Mas a minha verdade é temível: pois, até ao presente, chamou-se à mentira verdade. Inversão de todos os valores: eis a minha fórmula para designar um acto de suprema auto-reflexão da humanidade, que em mim se fez carne e génio. Quer o meu destino que eu tenha de ser o primeiro homem decente, que eu me saiba em contradição com a falsidade de milénios… Só eu descobri a verdade, porque fui o primeiro a sentir — a cheirar… — a mentira como mentira. O meu génio está nas minhas narinas… Contradigo como nunca se contradisse e, no entanto, sou o contrário de um espírito negador. Sou um portador da boa nova como nunca houve outro, conheço missões de uma tal elevação que, até agora, nem se tinha noção delas; só depois de mim é que volta a haver esperanças. Com tudo isso, sou também, necessariamente, o homem da fatalidade. Pois quando a verdade entrar em luta com a mentira de milénios, teremos convulsões, um espasmo de terramotos, uma deslocação de montes e vales como nunca se sonhou. O conceito de política estará, então, completamente absorvido numa guerra dos espíritos, todas as estruturas de poder da antiga sociedade serão atiradas ao ar — porque todas elas assentam na mentira. Haverá guerras como ainda nunca as houve na Terra. Só a partir de mim é que há no mundo grande política»[55].

Não é necessário recorrer a Adorno e à sua «meditação sobre a metafísica»[56] para compreender que Auschwitz mostra não só a falsidade da perspectiva nietzschiana da vida, mas também os perigos inerentes à crítica da ideologia reduzida a uma mera crítica da cultura, sobretudo quando encarada como um simples expediente para amansar o «animal humano». Se Nietzsche tivesse alargado o âmbito da sua crítica teria vislumbrado que, actualmente, a «ordem moral do mundo» foi substituída pela «ordem económica do mundo» que ameaça verdadeiramente a vida na Terra.



BIBLIOGRAFIA ACTIVA

NIETZSCHE, Friedrich – A Gaia Ciência. Lisboa: Relógio D’Água, 1997.
— Assim Falava Zaratrusta: Um livro para todos e para ninguém. Lisboa: Relógio D’Água, 1997.
— Aurora. Porto: Rés, 19—.
— Considerações Intempestivas. Lisboa: Presença, 1976.
— Crepúsculo dos Ídolos ou como se filosofa com o martelo. Lisboa: Edições 70, 1988.
— Humano, Demasiado Humano: Um livro para espíritos livres. Lisboa: Relógio D’Água, 1997.
— La Volonté de Puissance: Essai d’une transmutation de toutes les valeurs, 2 vol.. Paris: Mercure de France, 1930.
— O Anticristo / Ecce Homo / Nietzsche contra Wagner. Lisboa: Relógio D’Água, 2000.
— O Nascimento da Tragédia / Acerca da Verdade e da Mentira. Lisboa: Relógio D’Água, 1997.
— Para a Genealogia da Moral: Um escrito polémico. Lisboa: Relógio D’Água, 2000.
— Para Além do Bem e do Mal: Prelúdio a uma filosofia do futuro. Lisboa: Relógio D’Água, 1997.

BIBLIOGRAFIA PASSIVA

ANSELL-PEARSON, Keith – Nietzsche como Pensador Político: Uma introdução. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.
BLONDEL, Éric – Nietzsche: Le corps et la culture. Paris: PUF, 1986.
DELEUZE, Gilles – Nietzsche e a Filosofia. Porto: Rés, 19—.
FRANCK, Didier – Nietzsche et l’Ombre de Dieu. Paris: PUF, 1998.
HABERMAS, Jürgen – La Lógica de las Ciencias Sociales. Madrid: Tecnos, 1996.
— O Discurso Filosófico da Modernidade. Lisboa: Dom Quixote, 1990.
HEIDEGGER, Martin – Nietzsche, 2 vol.. Paris: Gallimard, 1961.
JASPERS, Karl – Nietzsche: Introduction à sa Philosophie. Paris: Gallimard, 1950.
KREMER-MARIETTI, Angèle – Nietzsche et la Rhétorique. Paris: PUF, 1992.
LEFEBVRE, Henri – Hegel, Marx, Nietzsche ou o reino das sombras. Lisboa: Ulisseia, 1976.
LÖWITH, Karl – De Hegel à Nietzsche. Paris: Gallimard, 1941.
VATTIMO, Gianni – El Sujeto y la Máscara. Barcelona: Península, 1989.
— Introdução a Nietzsche. Lisboa: Editorial Presença, 1990.
WOTLING, Patrick – Nietzsche et le problème de la Civilisation. Paris: PUF, 1995.




JOAQUIM FRANCISCO SARAIVA DE SOUSA

[1] NIETZSCHE, F. – Crepúsculo dos Ídolos. Lisboa: Edições 70, 1988, p. 53-54.
[2] WOTLING, p. – Nietzsche et le Problème de la Civilisation. Paris: PUF, 1995, p. 7-34.
[3] KLAGES, L. – Die Psychologischen Errungenschaften Nietzsches. Berlim, 1924.
[4] BÄUMLER, A. – Nietzsche: Der Philosoph und Politiker. Leipzig, 1931.
[5] JASPERS, Karl – Nietzsche: Introduction à sa philosophie. Paris: Gallimard, 1950.
[6] HEIDEGGER, Martin – Nietzsche, 2 vol.. Paris: Gallimard, 1961.
[7] LÖWITH, Karl – Nietzsches Philosophie der Ewing Wiederkehr des Gleichen. In IDEM – Sämtliche Schriften, 6. Stuttgart: J. B. Metzlersche Verlagsbuchhandlung, 1987.
[8] FINK, Eugen – A Filosofia de Nietzsche. Lisboa: Presença, 1988.
[9] KAUFMANN, W. – Nietzsche, Philosopher, Psychologist, Antichrist. New Jersey: Princeton University Press, 1974.
[10] LUKÁCS, G. – Die Zerstörung der Vernunft. Berlim, 1955.
[11] DELEUZE, Gilles – Nietzsche e a Filosofia. Porto: Rés, 19—.
[12] VATTIMO, Gianni – Introdução a Nietzsche. Lisboa: Presença, 1990.
[13] «É precisamente aqui que reside a fatalidade da Europa: ao perdermos o temor perante o homem, deixámos também de ter amor e respeito por ele, esperança nele, e até mesmo a vontade que conduz a ele. Doravante, o espectáculo deste homem só pode provocar cansaço. O que é hoje o niilismo, senão isto mesmo?… Estamos cansados do homem…». NIETZSCHE, F. – Para a Genealogia da Moral: Um escrito polémico. Lisboa: Relógio D’Água, 2000, p. 45.
[14] NIETZSCHE, F. – Crepúsculo dos Ídolos ou como se filosofa com o martelo. Lisboa: Edições 70, 1988, p. 17.
[15] HABERMAS, J. – O Discurso Filosófico da Modernidade. Lisboa: Publicações dom Quixote, 1990.
[16] KANT, I. – A Paz Perpétua e outros opúsculos. Lisboa: Edições 70, 1992, p. 11.
[17] HABERMAS, J. – O Discurso Filosófico da Modernidade. Lisboa: Publicações dom Quixote, 1990, p. 91.
[18] NIETZSCHE, F. – Considerações Intempestivas. Lisboa: Presença, 1976, p. 11.
[19] NIETZSCHE, F. – Crepúsculo dos Ídolos. Lisboa: Edições 70, 1988, p. 77.
[20] NIETZSCHE, F. – O Anticristo: Imprecação contra o cristianismo. Lisboa: Relógio D’Água, 2000, p. 32.
[21] NIETZSCHE, F. – Crepúsculo dos Ídolos. Lisboa: Edições 70, 1988, p. 111.
[22] «Não restam dúvidas de que uma contradição como esta que parece manifestar-se no asceta, «a vida contra a vida»,é em termos fisiológicos — deixando de lado por um momento as considerações psicológicas — simplesmente um contra-senso». NIETZSCHE, F. – Para a Genealogia da Moral. Lisboa: Relógio D’Água, 2000, p. 146.
[23] NIETZSCHE, F. – O Anticristo. Lisboa: Relógio D’Água, 2000, p. 39.
[24] NIETZSCHE, F. – Para a Genealogia da Moral. Lisboa: Relógio D’Água, 2000, p. 24.
[25] NIETZSCHE, F. – Para a Genealogia da Moral. Lisboa: Relógio D’Água, 2000, p. 14.
[26] «O Messias não vem apenas como redentor; ele vem como vencedor do anticristo. O dom de atiçar através do passado a chama da esperança pertence apenas ao historiógrafo perfeitamente convencido que diante do inimigo, e no caso deste vencer, nem sequer os mortos estarão em segurança. E este inimigo não tem cessado de vencer». BENJAMIN, Walter – Discursos Interrumpidos I. Madrid: Taurus, 1989, p. 180-181. Seria extremamente interessante confrontar a doutrina nietzschiana do eterno retorno do mesmo com a concepção messiânica da história de Benjamin, nomeadamente com o conceito do presente como «agora» no qual penetraram estilhaços messiânicos.
[27] NIETZSCHE, F. – Para a Genealogia da Moral. Lisboa: Relógio D’Água, 2000, p. 43.
[28] «Acima de tudo, aquilo que é vivo quer manifestar a sua força — a própria vida é vontade de poder […]». NIETZSCHE, F. – Para a Genealogia da Moral. Lisboa: Relógio D’Água, 2000, p. 25.
[29] FREUD, S. – O Mal-Estar na Civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1974.
[30] NIETZSCHE, F. – Para a Genealogia da Moral. Lisboa: Relógio D’Água, 2000, p. 96.
[31] NIETZSCHE, F. – Para a Genealogia da Moral. Lisboa: Relógio D’Água, 2000, p. 96.
[32] NIETZSCHE, F. – Para a Genealogia da Moral. Lisboa: Relógio D’Água Editores, 2000, p. 97.
[33] NIETZSCHE, F. – Para a Genealogia da Moral. Lisboa: Relógio D’Água Editores, 2000, p. 97.
[34] NIETZSCHE, F. – Para a Genealogia da Moral. Lisboa: Relógio D’Água Editores, 2000, p. 98.
[35] NIETZSCHE, F. – Para a Genealogia da Moral. Lisboa: Relógio D’Água, 2000, p. 113.
[36] NIETZSCHE, F. – Assim Falava Zaratustra: Um livro para todos e para ninguém. Lisboa: Relógio D’Água, 1998.
[37] NIETZSCHE, F. – Para a Genealogia da Moral. Lisboa: Relógio D’Água, 2000, p. 114.
[38] Cf. HABERMAS, J. – Sobre la Teoría del Conocimiento de Nietzsche. In IDEM – La Lógica de las Ciencias Sociales. Madrid: Tecnos, 1996, p. 423-441.
[39] Cf. NIETZSCHE, F. – Acerca da Verdade e da Mentira no Sentido Extramoral. Lisboa: Relógio D’Água Editores, 1997.
[40] NIETZSCHE, F. – Crepúsculo dos Ídolos. Lisboa: Edições 70, 1988, p. 55.
[41] NIETZSCHE, F. – O Anticristo. Lisboa: Relógio D’Água Editores, 2000, p. 12-13.
[42] NIETZSCHE, F. – Para a Genealogia da Moral. Lisboa: Relógio D’Água Editores, 2000, p. 191.
[43] NIETZSCHE, F. – A Gaia Ciência. Lisboa: Relógio D’Água Editores, 1998, p. 271.
[44] NIETZSCHE, F. – Para Além do Bem e do Mal: Prelúdio a uma filosofia do futuro. Lisboa: Relógio D’Água, 1999, p. 219.
[45] NIETZSCHE, F. – Para a Genealogia da Moral. Lisboa: Relógio D’Água, 2000, p. 126.
[46] NIETZSCHE, F. – Acerca da Verdade e da Mentira. Lisboa: Relógio D’Água, 1997, p. 221.
[47] NIETZSCHE, F. – Crepúsculo dos Ídolos. Lisboa: Edições 70, 1988, p. 41.
[48] NIETZSCHE, F. – Para a Genealogia da Moral. Lisboa: Relógio D’Água, 2000, p. 24.
[49] NIETZSCHE, F. – Para a Genealogia da Moral. Lisboa: Relógio D’Água, 2000, p. 147.
[50] NIETZSCHE, F. – Para a Genealogia da Moral. Lisboa: Relógio D’Água, 2000, p. 35-36.
[51] NIETZSCHE, F. – Para a Genealogia da Moral. Lisboa: Relógio D’Água, 2000, p. 62-63.
[52] NIETZSCHE, F. – O Anticristo. Lisboa: Relógio D’Água, 2000, p. 18.
[53] NIETZSCHE, F. – O Nascimento da Tragédia ou Mundo Grego e Pessimismo. Lisboa: Relógio D’Água, 1997, p. 168.
[54] DELEUZE, Gilles – Nietzsche e a Filosofia. Porto: Rés, 19—.
[55] NIETZSCHE, F. – Ecce Homo: Como vir a ser o que se é. Lisboa: Relógio D’Água, 2000, p. 232-233.
[56] ADORNO, T. W. – Dialéctica Negativa. Madrid: Taurus Ediciones, 1975.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Alfred Schutz: a Fenomenologia do Lar

FENOMENOLOGIA DO LAR
Alfred Schutz estabelece uma diferença entre as atitudes daquele indivíduo que regressa ao lar (o Retornado) e a do forasteiro (estrangeiro):

· O forasteiro «dispõe-se a ingressar num grupo que não é nem nunca foi o seu. Sabe que se encontrará num mundo não familiar, organizado de outra maneira que (o grupo) do qual provem, cheio de obstáculos e difícil de dominar»[1].
· «O que volta ao lar, pelo contrário, prevê o seu regresso a um ambiente do qual sempre teve e crê continuar a ter um conhecimento íntimo e que o basta pressupor para se orientar dentro dele»[2].

Em suma: «O forasteiro que se aproxima do grupo deve antecipar, de maneira mais ou menos vazia, o que encontrará; o que volta ao lar basta-lhe recorrer às suas recordações»[3]. O forasteiro antecipa (futuro), enquanto o que regressa ao lar recorda (passado). As duas atitudes deixam-se captar na oposição entre antecipação e recordação.
Schutz propõe-se analisar as «experiências típicas do que volta ao lar em termos gerais de psicologia social»[4]. A sua análise gira essencialmente em torno da experiência dos ex-combatentes que retornam ao lar depois de uma temporada passada no campo de batalha. No entanto, o viajante que regressa do estrangeiro, o emigrante que volta à sua terra natal ou o jovem que, depois de ter prosperado noutro sítio, se estabelece seguidamente na sua cidade de origem são outros exemplos de indivíduos que regressam ao lar. Segundo Schutz, o indivíduo que «volta ao lar» é aquele que «retorna ao seu lar de modo definitivo (não temporário, como o soldado de licença ou o estudante pupilo que passa as férias de fim de ano com a sua família»[5].
Mas o que é o lar? Schutz responde:

«O lar é tanto um ponto de partida como um ponto terminal. É o ponto de origem do sistema de coordenadas que aplicamos ao mundo para nos orientarmos nele. Geograficamente, o «lar» é determinado lugar da superfície da Terra. O lugar em que me encontro é a minha «morada»; o lugar onde penso permanecer é a minha «residência»; o lugar donde provenho e aonde quero retornar é o meu «lar». Mas não é somente o lugar — a minha casa, a minha habitação, o meu jardim, a minha cidade —, mas tudo o que representa. O carácter simbólico da noção de «lar» é emocionalmente evocativo e difícil de descrever. O lar significa diferentes coisas para pessoas diferentes»[6].

Para Schutz, o lar é o lugar donde se provem e para onde se quer retornar depois de uma longa ausência, bem como tudo aquilo que representa para cada pessoa particular. Neste sentido, o lar pode significar diferentes coisas, tais como a casa paterna, a língua materna, a família, a noiva ou o noivo, os amigos, uma paisagem querida, as canções que me ensinou a minha mãe, a comida preparada de uma maneira particular, coisas familiares de uso quotidiano, enfim costumes e hábitos pessoais. Em síntese, Schutz considera o lar como «um modo peculiar de vida composto de pequenos elementos mas importantes, aos quais se tem afecto»[7]. Entre esses pequenos elementos existem coisas que ocupam um modesto lugar no valor colectivo das «coisas do lar», mas, quando deixam de estar disponíveis a qualquer momento, começam a ser apreciadas de uma outra forma — mais «forte» e intensa. Isto significa que o lar representa «uma coisa para quem nunca o tenha abandonado, outra para quem habita longe dele e outra para (aquele) que retorna»[8].
O lar toma essencialmente três significações em função da significação atribuída por diferentes pessoas, nomeadamente para quem nunca o abandonou (os presentes), para quem está longe dele (os ausentes) e para quem regressa (os retornados). Dado que adopta o ponto de vista do participante, Schutz é levado a descrever o lar em função daquilo que ele significa para cada um desses três participantes. Trata-se, pois, de uma fenomenologia da experiência quotidiana do lar.
PRESENTES. Schutz começa por descrever a estrutura social do mundo do lar em função do modo «como a vê» o homem que vive no lar e que nunca o abandonou. “Sentir-se como em sua casa”: esta expressão remete directa e imediatamente para o maior grau de familiaridade e de intimidade. O mundo do lar é o que há de mais familiar e íntimo:

«A vida do lar segue um padrão rotineiro organizado; tem objectivos bem estabelecidos e meios comprovados para os atingir (lograr), corporificados num conjunto de tradições, hábitos, instituições e horários para as actividades de toda a espécie, etc.. A maior parte dos problemas da vida diária são abordáveis mediante esses padrões. Não é necessário definir ou redefinir situações que apareceram muitas vezes, nem procurar novas soluções para velhos problemas até então satisfatoriamente resolvidos. O modo de vida no lar governa, como esquema de expressão e interpretação, não só os meus próprios actos, mas também os dos outros membros do endogrupo. Posso confiar em que, utilizando este esquema, compreenderei os propósitos do outro e poderei fazer-me compreender por ele. O sistema de significações adoptado pelos membros do endogrupo mostra um elevado grau de conformidade. Tenho sempre uma boa probabilidade — subjectiva e objectivamente — de predizer a acção do Outro para mim, assim como a reacção do Outro frente aos meus próprios actos sociais. Não só podemos prever o que sucederá amanhã; também temos uma boa probabilidade de planificar com acerto um futuro mais distante. Em essência, as coisas continuarão a ser o que têm sido até agora, embora, por suposto, surjam novas situações e sucessos inesperados. Mas no lar até os desvios em relação à vida rotineira quotidiana são dominados de uma maneira que é definida pelo estilo geral em que as pessoas do lar encaram as situações extraordinárias. Existe uma maneira — uma maneira comprovada — de enfrentar uma crise na vida de trabalho, de dirimir problemas familiares, de estabelecer a atitude que se deve adoptar ante a doença e inclusive a morte. Formulado de maneira paradoxal, até existe uma maneira rotineira de tratar a novidade»[9].

Em termos de relações sociais, a vida no lar transcorre, de modo actual ou, pelo menos, potencial, nos grupos primários — expressão forjada por Cooley para designar a relação íntima cara a cara. Como não partilha o conceito cooliano de intimidade, Schutz distingue entre relações cara a cara e relações íntimas.

· «Uma relação cara a cara pressupõe que aqueles que participam nela partilham um espaço e tempo durante a relação. Por um lado, a comunidade de espaço significa que cada participante pode observar de modo imediato o corpo do Outro, as suas expressões faciais, os seus gestos, etc., como sintomas do seu pensamento. O campo das expressões do Outro abre-se plenamente às possíveis interpretações e o actor pode controlar de forma imediata e directa, pela reacção do seu comparticipe, o efeito dos seus próprios actos sociais. Por outro lado, (a comunidade de espaço) significa que determinado sector do mundo externo é igualmente acessível a todos os co-participantes na relação cara a cara, que pode tocar, ver, ouvir, etc., as mesmas coisas. Dentro deste horizonte comum, há objectos de interesse comum e de significatividade comum; coisas com as quais ou sobre as quais operar, de modo actual ou potencial. A comunidade de tempo refere-se menos à medida de tempo externo (objectivo) que partilham os co-participantes que à participação de cada um deles na vida interior do Outro nesse momento. Na relação cara a cara, posso captar os pensamentos do Outro num presente vivido, à medida que são elaborados e construídos; o mesmo pode fazer ele com respeito à minha corrente de pensamento e ambos conhecemos e levamos em conta esta possibilidade. O Outro é para mim e eu sou para o Outro, não uma abstracção, não um mero exemplo de conduta típica, mas — precisamente por compartilhar um presente vivido em comum — esta única personalidade individual nesta única situação particular»[10].

Estas são algumas das características da relação cara a cara, que Schutz prefere chamar relação Nós pura. De acordo com Schutz, as demais relações sociais podem e devem ser interpretadas como derivações da relação Nós pura.

· A relação Nós pura «refere-se somente à estrutura formal de relações sociais baseadas na comunidade de espaço e de tempo e (...) pode ser preenchida com uma grande variedade de conteúdos, que apresentam graus diversos de intimidade e de anonimia»[11].

Cooley estava errado ao atribuir a intimidade — como conteúdo específico — à relação cara a cara no âmbito do grupo primário, uma vez que «a categoria de intimidade é independente da relação cara a cara»[12]. Compartilhar o presente vivido da pessoa que amamos ou da pessoa com quem viajamos no metro são tipos diferentes de relações cara a cara: a primeira é uma relação íntima, a segunda, não o é.
O conceito grupo primário implica uma terceira noção, independente das outras duas já mencionadas — a do carácter recorrente de certas relações sociais. Este carácter não se limita às relações Nós puras e às relações íntimas. Os grupos primários — tais como um matrimónio, uma amizade, um grupo familiar ou um jardim infantil — «são situações institucionalizadas que permitem restabelecer a relação interrompida e continuá-la onde foi interrompida a última vez»[13]. Pelo menos, todos os membros integrantes do grupo primário pressupõem a existência dessa possibilidade — o restabelecimento e continuação da relação social. Os exemplos referidos mostram que essas relações não consistem numa relação cara a cara primária, permanente e estritamente contínua, mas numa série de relações cara a cara apenas intermitentes. Como esclarece Schutz: «Em geral, a vida no lar equivale a uma vida em grupos primários actuais ou potenciais»[14]. Isto significa, pelo menos, três coisas:

1. Significa «partilhar com os outros um sector do espaço e do tempo — que inclui objectos circundantes como fins e meios possíveis — e interesses baseados num sistema de significatividades subjacente e mais ou menos homogéneo»;
2. «Significa, além disso, que os participantes numa relação primária se experimentam uns aos outros como personalidades singulares num presente vivido, ao seguir o desenrolar do seu pensamento como um sucesso em curso e compartilhar, por fim, as suas antecipações do futuro em forma de planos, esperanças ou ansiedades»;
3. «Significa, por último, que cada um deles tem a possibilidade de restabelecer a relação Nós, se for interrompida, e continuá-la como se não houvesse produzido nenhuma intermitência»[15].

Deste modo, «para cada co-participante, a vida do Outro passa a ser, de tal modo, uma parte da sua própria autobiografia, um elemento da sua história pessoal. O que é, o que chegou a ser e o que será são codeterminados pela sua participação nas múltiplas relações primárias actuais ou potenciais vigentes no grupo do lar»[16].

AUSENTES. O aspecto que a estrutura social do mundo do lar apresenta muda totalmente para o homem que deixou o lar — para quem a vida no lar já não é acessível de maneira imediata, tal como sucede para o homem que vive no lar.
O indivíduo que deixou o lar entra noutra dimensão social que já «não abarca o sistema de coordenadas usado como esquema de referência para a vida no lar»[17]. «Já não experimenta como participante, num presente vivido, as múltiplas relações Nós que formam a textura do grupo do lar. Ao abandoná-lo, substituiu essas experiências vividas por recordações, que conservam apenas o que a vida no lar significava até ao momento em que o deixou. O que até então era uma série de constelações singulares, formadas por pessoas, relações e grupos particulares, recebe o carácter de meros tipos; esta tipificação determina inevitavelmente uma deformação da estrutura subjacente de significatividades. Em certa medida, o mesmo é válido em relação àqueles que deixou. Ao se interromper a comunidade de espaço e de tempo, por exemplo, restringiu-se o campo dentro do qual se manifestam e se abrem à interpretação as expressões do Outro. A personalidade do Outro já não é acessível como unidade; ficou esmiuçada (esmigalhada). Já não se possui a experiência total da pessoa amada, dos seus gestos, da sua maneira de caminhar e de falar, de escutar e de fazer coisas; ficam recordações, uma fotografia, algumas linhas manuscritas, etc. Até certo ponto, a situação das pessoas separadas é a dos que morrem; “partir, c’est mourir un peu”»[18].
Partir é morrer um pouco: De facto, a separação das pessoas resultante do abandono do lar é um momento antecipador da morte que é certa e inevitável. O destino é irrevogavelmente a morte. As relações interrompidas nunca mais poderão ser retomadas e continuadas. Embora não tenha necessariamente consciência disso, quem abandona o lar inicia um processo de separação que irá culminar inevitavelmente na morte. O lar está, pois, condenado à morte e as lembranças que dele permanecem são, como diz Schutz, tipificações que deformam a estrutura subjacente às relações (domésticas) das significações. Os que ficam no lar, sobretudo os mais velhos, aguardando a morte, são reduzidos a tipos e recordados como tais, como se todo o processo de desenvolvimento e mais precisamente envelhecimento tivesse ficado prisioneiro daquele momento único da separação. No lar a vida continua de modo vagaroso, lento e triste, mas quem o abandonou há muito tempo recorda um lar fixado num momento do tempo: o lar vivo é congelado na memória reificadora daquele que partiu. As suas lembranças já não são as recordações de um lar vivo mas as de um lar morto.
É certo que existem diversos meios de comunicação, em particular a correspondência e o telefone, que podem ser utilizados para tentar manter algum tipo de relação com o que resta do lar, mas nenhum deles é suficiente para travar os efeitos reificadores da separação. Schutz menciona como exemplo a correspondência:

«Mas quem escreve uma carta dirige-se à tipificação do destinatário, tal como o conhecia quando se separaram e este lê a carta como escrita por uma pessoa que é tipicamente a mesma que deixou. Pressupor tal tipicidade (e qualquer tipicidade) significa dar por assente a probabilidade de que o que antes era típico continua a sê-lo no futuro; por outras palavras, que a vida continuará a ser o que foi até então: continuarão a ser significativas as mesmas coisas, reinará o mesmo grau de intimidade nas relações pessoais, etc.. Sem dúvida, a mera mudança de ambiente faz que ambos atribuam importância a outras coisas e reavaliem velhas experiências; na vida de cada comparticipante surgiram novas experiências, inacessíveis para o Outro»[19].

A separação veda o acesso directo, imediato e vivido ao Outro: cada participante tem novas experiências que já não pode partilhar, num presente vivido, com o Outro. Daqui decorre a perda de intimidade entre os participantes. Mesmo que se encontrem ocasionalmente, numa relação cara a cara, a comunicação que estabelecem é sistematicamente deformada e distorcida pela falta de intimidade: comunicam em função de tipificações que já não correspondem efectivamente a cada um deles. Num fundo, são dois estranhos que tentam restabelecer e continuar um contacto que se perdeu no tempo. Como escreve Schutz:

«Esta mudança do sistema de significatividades tem o seu corolário no grau cambiante de intimidade. Aqui, o termo “intimidade” designa apenas o grau de conhecimento seguro que temos de outra pessoa ou de uma relação social, um grupo, um padrão cultural ou uma coisa. No que diz respeito a uma pessoa, o conhecimento íntimo permite-nos interpretar o que quer expressar e prever as suas acções e reacções. Na forma mais elevada da intimidade, conhecemos, como diz Kipling, a «alma nua» do Outro, mas a separação oculta-o por detrás de um estranho disfarce, difícil de eliminar»[20].

O abandono do lar é uma separação, tal como a definiu Bowlby: as pessoas separam-se umas das outras e as que deixam o lar ficam afastadas das coisas que lhe dizem respeito. A separação implica a perda de intimidade. Schutz chama ausentes aos indivíduos que deixam, por qualquer motivo ou razão, o lar.

«Do ponto de vista do ausente, a ânsia de restabelecer a velha intimidade, não só com pessoas mas também com coisas, é a característica principal do que se chama «saudade»»[21] — a mágoa que se sente de coisas ou pessoas ausentes.

Schutz atribui a saudade somente aos que abandonam o lar, mas a saudade também é vivida intensamente pelos que ficaram no lar. A saudade é nostalgia de algo e/ou de alguém que se perdeu algures no passado. A saudade é sempre a nostalgia de uma unidade primordial rompida pela partida ou pela perda de alguém. Mas a unidade primordial que se visa em qualquer uma das situações é puramente imaginária, para não dizer mesmo mitológica. Os que partem constróem uma imagem idílica do lar e os que ficam querem recuperar o lar esmiuçado pela partida. Ambos anseiam pelo regresso ao lar, mas esse regresso é sempre entendido como um regresso ao paraíso. Eis aqui o núcleo mitológico da saudade.
A mudança descrita no sistema de significatividades e no grau de intimidade é experimentada de maneira diferente pelo ausente e pelo grupo do lar:

· O grupo do lar «continua a sua vida quotidiana dentro do esquema habitual»[22]. É certo que também este esquema terá mudado e até de uma maneira mais ou menos abrupta após a separação, mas os que ficaram no lar, embora conscientes desta mudança, continuam a conviver neste mundo cambiante, experimentam-no como cambiante no imediato, adoptam o seu sistema interpretativo e ajustam-no à mudança. Como diz Schutz: «O sistema pode ter mudado na sua totalidade, mas como sistema, sem nunca ter sido desbaratado e destruído; embora modificado, continua a ser um recurso útil para se desempenhar na vida. O endogrupo tem agora outros objectivos e outros meios para os alcançar, mas continua a ser um endogrupo»[23].

Regra geral, quem abandona o lar vai à procura de uma vida nova ou até mesmo vai criar um novo lar. Deixa para trás um mundo que congela na (sua) memória. Nem sempre tem consciência das implicações da sua partida: o lar que abandona transforma-se irremediavelmente e os que ficam têm plena consciência disso. Mas Schutz não se apercebe que os que ficam também querem partir — ou seja, recomeçar uma vida nova. Mas querem essencialmente o regresso do seu lar. A sua memória é activada — uma memória genealógica. Este aspecto da partida tem sido sistematicamente negligenciado por todos os que abordaram esta temática do regresso ao lar: os que ficam, sobretudo os mais idosos, com menos possibilidades de recomeçar uma nova vida ou mesmo de refazer a vida que têm, acordam memórias adormecidas. A saudade não lhes é estranha. As possibilidades não actualizadas, irremediavelmente perdidas para sempre, atormentam a (sua) consciência: a memória converte-se em imaginação e, neste movimento, recupera imagens perdidas. O objecto visado pela saudade começa por ser a «recuperação» de possibilidades que foram reprimidas pelas possibilidades que foram actualizadas: a sua vida poderia ter sido diferente... Aqui a saudade é vizinha do arrependimento. Provavelmente, o último arrependimento! A morte, essa, avizinha-se.

· «O ausente tem a vantagem de conhecer o estilo geral»[24] do esquema habitual em que decorre a vida quotidiana do endogrupo. As suas experiências prévias — adquiridas no decorrer da sua permanência no lar antes do abandono — permitem-lhe deduzir «o que se passa no lar», mas os que ficaram no lar não têm experiência imediata de como vive o ausente.

Convém recordar que Schutz refere-se aqui, bem como em todo o seu ensaio, à experiência do soldado que teve, voluntária ou involuntariamente, de abandonar o (seu) lar para ir para a Guerra[25]. Há neste caso uma discrepância que se torna particularmente evidente aquando do regresso do soldado a casa: «Esta discrepância entre a singularidade e decisiva importância que o ausente atribui às suas experiências e o facto de que as pessoas do lar as pseudotipificam atribuindo-lhes uma pseudosignificatividade é um dos maiores obstáculos para o mútuo restabelecimento das relações Nós interrompidas. Sem dúvida, o êxito ou o fracasso do retorno ao lar dependerá da probabilidade de transformar essas relações sociais em relações decorrentes. Mas, ainda que tal discrepância não perdure, a solução total deste problema continuará a ser um ideal irrealizável»[26].

RETORNADOS. O retorno ao lar é, conforme reconhece Schutz, «um ideal irrealizável», pelo menos na sua plenitude, tal como é perspectivada pelos participantes envolvidos no restabelecimento das relações Nós. Como observa Schutz, coloca-se aqui o problema da irreversibilidade do tempo interior, tal como foi analisado por Heráclito, Bergson, Kierkegaard, Péguy e G. H. Mead:

«O mero facto de que envelhecemos, de que novas experiências surjam de modo contínuo dentro da nossa corrente de pensamento, de que experiências anteriores recebam permanentemente significados interpretativos adicionais à luz dessas novas experiências que têm modificado, em maior ou menor grau, o nosso estado de ânimo, todas estas características básicas da nossa vida mental impedem que o mesmo se repita. Ao ser recorrente, o recorrente já não é mais o mesmo. Ainda que se procure e anseie a repetição, o que pertence ao passado nunca pode ser reinstaurado em outro presente exactamente tal como era antes. Num começo, coadjuvava antecipações vazias, horizontes de processos futuros e referências a probabilidades e possibilidades; agora a visão retrospectiva comprova se essas antecipações se têm concretizado ou não; as perspectivas têm mudado; o que somente estava no horizonte tem-se deslocado para o centro da atenção ou tem desaparecido por completo; as que antes eram probabilidades têm-se convertido em realidades ou têm mostrado ser impossibilidades; em resumo, a experiência anterior tem agora outro sentido»[27].

Schutz reconhece que a análise fenomenológica do regresso ao lar envolve três complicados problemas filosóficos — o tempo, a memória e o significado, sem no entanto os analisar. Alega apenas duas razões para os mencionar:

1. A análise de um problema sociológico concreto conduz inevitavelmente a determinadas questões filosóficas básicas que não podem ser elucidadas mediante a utilização de termos «abstractos» cujo significado não tenha sido clarificado pelos especialistas em ciências sociais. Sem essa clarificação, termos tais como «adaptação», «ajustamento», «ambiente» ou «padrão cultural» funcionam mais como conceitos-tampão do que como conceitos «explicativos».
2. Estes problemas determinam a forma e até mesmo o conteúdo da atitude do indivíduo que regressa ao lar.

Embora não observe mudanças substanciais na vida do endogrupo ou nas suas relações com ele, «o lar a que retorna não é, de modo algum, o lar que deixou ou o lar que recordava e ansiava durante a sua ausência. E, pela mesma razão, o (indivíduo) que volta ao lar não é o mesmo homem que o abandonou. Não é o mesmo nem para ele nem para aqueles que esperam o seu retorno»[28]. Este enunciado é, conforme acentua Schutz, válido para qualquer tipo de regresso ao lar, inclusive para aqueles que regressam ao lar depois de umas breves férias:

«Ainda ao regressar ao lar depois de umas breves férias, comprovamos que o antigo ambiente habitual tem para nós um significado adicional, que deriva das nossas experiências durante a nossa ausência e baseia-se nelas. Seja qual for a avaliação concomitante, as coisas e os homens, pelos menos no começo, terão outro rosto. Será necessário certo esforço para retransformar as nossas actividades em tarefas de rotina e reactivar as nossas relações recorrentes com os homens e com as coisas. E isto não é de estranhar, já que nos propusemos que as nossas férias fossem uma interrupção da nossa rotina quotidiana»[29].

Quebrar a rotina e retomar a rotina são dois momentos do mesmo fenómeno: a ida e a volta.

«Em certa medida, todo aquele que volta ao lar tem experimentado o fruto mágico do estranho, quer seja doce ou amargo. Por mais que nos domine a saudade do lar, sempre desejamos transplantar ao velho esquema algo dos novos objectivos, dos meios recém-descobertos para os concretizar e experiências obtidas no exterior»[30]. Daqui Schutz deduz uma conclusão prática: «Num primeiro momento, não só o que regressa à sua terra natal descobre nela um aspecto desusado. Também ele parece estranho para aqueles que o esperam e a névoa que o rodeia faz dele um desconhecido. Tanto o que retorna ao lar como os que o esperam necessitarão da ajuda de um Mentor que “lhes diga o que ocorre”»[31].

A nostalgia do lar é sintoma do desenraizamento que caracteriza estruturalmente o homem moderno. Este sente-se estranho a si mesmo em qualquer lugar onde quer que se encontre. Nenhum desses lugares constitui o seu vero lar. Como diz P. Berger, vivemos num mundo sem lar. Daí que sinta a necessidade de regressar ao lar, ao lugar donde partiu há muito tempo. Ora, um lar desse tipo só pode ser a casa paterna. É aí que o retornado irá procurar as suas raízes, mas, quando lá chega, observa que nem ele é o mesmo homem, nem o lar é o mesmo lar. Tudo se modificou de modo irreversível. A nostalgia do lar transforma-se numa tremenda desilusão: a anomia encontra-se espalhada por todos os lugares da Terra e nenhum deles parece ser o nosso verdadeiro lar. Frustrada a saudade resta apenas sondar o último lar — o túmulo. É aqui que entra Guerra Junqueiro. Com Schutz ou mesmo Marcuse, aprendemos que o tempo é o nosso maior inimigo. No esboço do seu Poema (épico) Prometheu Libertado, Guerra Junqueiro não podia ser mais explícito: «O tempo — esse coveiro imortal do universo»[32].
J Francisco Saraiva de Sousa

[1] SCHUTZ, Alfred — La Vuelta al Hogar. In SCHUTZ, Alfred — Estudios sobre Teoría Social. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1974, p.108.
[2] SCHUTZ, Alfred — La Vuelta al Hogar. In SCHUTZ, Alfred — Estudios sobre Teoría Social. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1974, p.108.
[3] SCHUTZ, Alfred — La Vuelta al Hogar. In SCHUTZ, Alfred — Estudios sobre Teoría Social. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1974, p.108.
[4] SCHUTZ, Alfred — La Vuelta al Hogar. In SCHUTZ, Alfred — Estudios sobre Teoría Social. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1974, p.108.
[5] SCHUTZ, Alfred — La Vuelta al Hogar. In SCHUTZ, Alfred — Estudios sobre Teoría Social. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1974, p.109.
[6] SCHUTZ, Alfred — La Vuelta al Hogar. In SCHUTZ, Alfred — Estudios sobre Teoría Social. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1974, p.109.
[7] SCHUTZ, Alfred — La Vuelta al Hogar. In SCHUTZ, Alfred — Estudios sobre Teoría Social. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1974, p.109.
[8] SCHUTZ, Alfred — La Vuelta al Hogar. In SCHUTZ, Alfred — Estudios sobre Teoría Social. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1974, p.110.
[9] SCHUTZ, Alfred — La Vuelta al Hogar. In SCHUTZ, Alfred — Estudios sobre Teoría Social. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1974, p.110.
[10] SCHUTZ, Alfred — La Vuelta al Hogar. In SCHUTZ, Alfred — Estudios sobre Teoría Social. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1974, p.111.
[11] SCHUTZ, Alfred — La Vuelta al Hogar. In SCHUTZ, Alfred — Estudios sobre Teoría Social. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1974, p.111.
[12] SCHUTZ, Alfred — La Vuelta al Hogar. In SCHUTZ, Alfred — Estudios sobre Teoría Social. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1974, p.112.
[13] SCHUTZ, Alfred — La Vuelta al Hogar. In SCHUTZ, Alfred — Estudios sobre Teoría Social. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1974, p.112.
[14] SCHUTZ, Alfred — La Vuelta al Hogar. In SCHUTZ, Alfred — Estudios sobre Teoría Social. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1974, p.112.
[15] SCHUTZ, Alfred — La Vuelta al Hogar. In SCHUTZ, Alfred — Estudios sobre Teoría Social. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1974, p.112.
[16] SCHUTZ, Alfred — La Vuelta al Hogar. In SCHUTZ, Alfred — Estudios sobre Teoría Social. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1974, p.112-113.
[17] SCHUTZ, Alfred — La Vuelta al Hogar. In SCHUTZ, Alfred — Estudios sobre Teoría Social. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1974, p.113.
[18] SCHUTZ, Alfred — La Vuelta al Hogar. In SCHUTZ, Alfred — Estudios sobre Teoría Social. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1974, p.113.
[19] SCHUTZ, Alfred — La Vuelta al Hogar. In SCHUTZ, Alfred — Estudios sobre Teoría Social. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1974, p.113.
[20] SCHUTZ, Alfred — La Vuelta al Hogar. In SCHUTZ, Alfred — Estudios sobre Teoría Social. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1974, p.114.
[21] SCHUTZ, Alfred — La Vuelta al Hogar. In SCHUTZ, Alfred — Estudios sobre Teoría Social. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1974, p.114.
[22] SCHUTZ, Alfred — La Vuelta al Hogar. In SCHUTZ, Alfred — Estudios sobre Teoría Social. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1974, p.114.
[23] SCHUTZ, Alfred — La Vuelta al Hogar. In SCHUTZ, Alfred — Estudios sobre Teoría Social. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1974, p.114.
[24] SCHUTZ, Alfred — La Vuelta al Hogar. In SCHUTZ, Alfred — Estudios sobre Teoría Social. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1974, p.114.
[25] Cf. SCHUTZ, Alfred — La Vuelta al Hogar. In SCHUTZ, Alfred — Estudios sobre Teoría Social. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1974, p.114-115.
[26] SCHUTZ, Alfred — La Vuelta al Hogar. In SCHUTZ, Alfred — Estudios sobre Teoría Social. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1974, p.115.
[27] SCHUTZ, Alfred — La Vuelta al Hogar. In SCHUTZ, Alfred — Estudios sobre Teoría Social. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1974, p.116.
[28] SCHUTZ, Alfred — La Vuelta al Hogar. In SCHUTZ, Alfred — Estudios sobre Teoría Social. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1974, p.116.
[29] SCHUTZ, Alfred — La Vuelta al Hogar. In SCHUTZ, Alfred — Estudios sobre Teoría Social. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1974, p.116.
[30] SCHUTZ, Alfred — La Vuelta al Hogar. In SCHUTZ, Alfred — Estudios sobre Teoría Social. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1974, p.117.
[31] SCHUTZ, Alfred — La Vuelta al Hogar. In SCHUTZ, Alfred — Estudios sobre Teoría Social. Buenos Aires: Amorrortu Editores, 1974, p.119.
[32] JUNQUEIRO, Guerra — Prometheu Libertado. Porto: Lello & Irmão Editores, 1926, p.39.