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sexta-feira, 27 de junho de 2008

Happy BirthDay to my Blog


Hoje este blogue festeja o seu primeiro aniversário, juntamente com o seu irmão gémeo "CyberCultura e Democracia Online": Feliz aniversário "CyberCultura e Democracia Online" e "CyberPhilosophy"! E obrigado a todos os ciberamigos/as que os frequentam e que os enriquecem com os seus comentários. Os meus blogues têm sido ao longo deste último ano a minha casa virtual, cujos quartos "CyberBiologia e CyberMedicina" e "NeuroFilosofia" partilho com todos aqueles que a visitam. Sobre a casa Gaston Bachelard escreveu:
«A casa é uma das maiores forças de integração para os pensamentos, as lembranças e os sonhos do homem. Nessa integração, o princípio de ligação é o devaneio. (...) Sem ela, o homem seria um ser disperso. Ela mantém o homem através das tempestades do céu e das tempestades da vida. É corpo e é alma. É o primeiro mundo do ser humano. Antes de ser "jogado no mundo" (...), o homem é colocado no berço da casa.»
A minha casa virtual tornou-se, com o decorrer do tempo, um espaço de ligação e de diálogo, onde emergem pensamentos, lembranças e sonhos diurnos, por vezes numa blogosfera adversa e pouco preparada para os sonhos de um mundo melhor. Tal como as casas literárias de George Spyridaki e de René Cazelles, a minha casa virtual é de tal modo dinâmica que permite a todos os que a frequentam habitar o universo: as paredes foram abolidas e nela é possível curar a claustrofobia.
A minha querida amiga Denise dedicou este post ao primeiro aniversário dos cybergémeos: Parabéns Gémeos. E agradeço ao blogue "Aniversário de Blogues" por me ter recordado deste acontecimento.
J Francisco Saraiva de Sousa

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Teoria Social da Internet

A Internet é frequentemente descrita em termos que implicam um espaço virtual ou ciberespaço (Adams, 1997). A Internet é uma rede de computadores interconectados de modo a criar uma matriz de troca de informação, através de Web sites (páginas estáticas ou interactivas), e-mail (mail electrónico) e IRCs (Internet relay chat room), produzindo um meio virtual. Este espaço é usado pelas pessoas como um lugar para congregação, comunicação e formação de comunidades virtuais (Reymers, 2002). Isto significa que o mundo virtual da Internet é um mundo social e, como tal, é um mundo histórico, perfeitamente inserido e integrado no mundo off-line.
Zygmunt Bauman identificou quatro tipos de «identidade pós-moderna» — o deambulador (flâneur), o vagabundo, o turista e o jogador, que se desenvolvem sobre o pano de fundo do tipo moderno de personalidade, o peregrino.
1. IDENTIDADES PÓS-MODERNAS. Bauman (2007) foi lacónico na elaboração da sua tese sobre o problema da identidade, por oposição à ambivalência da formulação de Kellner (1992):
«A minha posição é que, embora seja verdade que a identidade «continua a ser um problema», não é «o problema que foi ao longo da modernidade». Com efeito, se o «problema da identidade» moderno era o de como construir uma identidade, mantendo-a sólida e estável, o «problema da identidade» pós-moderno é em primeiro lugar o de como evitar a fixação e manter as opções em aberto. No caso da identidade, como noutros casos, a divisa da modernidade era a «criação», e a da pós-modernidade é a «reciclagem». Ou podemos também dizer que se «o media que era a mensagem» da modernidade foi o papel fotográfico, o supremo medium pós-moderno é a cassete de vídeo. A principal ansiedade ligada à identidade dos tempos modernos nascia da preocupação com a durabilidade, e é hoje a preocupação de evitar o compromisso. A modernidade construía em aço e betão; a pós-modernidade, em plástico biodegradável».
1.1. Peregrino. Bauman (2007) descreve o peregrino como «a alegoria mais adequada da estratégia de vida moderna, empenhado que estava na assustadora tarefa da construção da identidade». Contudo, «o mundo já não é hospitaleiro para os peregrinos», que «perderam a batalha ao vencê-la». «A pedra de toque da estratégia de vida pós-moderna não é a construção da identidade, mas a prevenção da fixação». Bauman sustenta que, «do mesmo modo que o peregrino foi a alegoria mais adequada da estratégia da vida moderna, empenhado como estava na assustadora tarefa da construção da identidade, o deambulador, o vagabundo, o turista e o jogador desenham um conjunto que é a metáfora da estratégia pós-moderna, animada pelo horror à ligação e à fixação».
1.2. Deambulador. A experiência do deambulante é a de quem vai «sair para deambular como se sai para o teatro, descobrir-se a si próprio entre estranhos e estranho a eles, focar os estranhos como «superfícies» — para que «aquilo que se vê» esgote «o que eles são», e sobretudo vê-los e conhecê-los não mais do episodicamente».
1.3. Vagabundo. «Onde quer que vá, o vagabundo é sempre um estranho; nunca será «o natural», o «estabelecido», alguém «com raízes na terra» — e não porque não o tente: faça o que fizer para ganhar as boas graças dos naturais, permanece demasiado recente a memória da sua chegada — quer dizer do facto de antes estar alhures; traz ainda consigo o cheiro de outros lugares, qualquer coisa contra a qual a casa dos naturais foi construída».
1.4. Turista. «O turista é um caçador consciente e sistemático de experiências, de uma experiência nova e diferente, da experiência da diferença e da novidade — uma vez que as alegrias do familiar murcham depressa e perdem o seu atractivo. Os turistas querem mergulhar-se num elemento estranho e bizarro — na condição, todavia, de esse elemento não perdurar para além dos dispositivos que o transformam numa prestação de prazer e de se poder pô-lo de lado quando bem se entenda».
1.5. Jogador. «O mundo do jogador é o mundo do risco, da intuição, das precauções a tomar. Cada jogo tem o seu começo e o seu fim. Quem não se satisfaça com o desfecho, deve «deixar para trás das costas» o que perdeu e começar tudo de novo, demonstrando que é capaz de o fazer. O jogo é como a guerra, embora a guerra que o jogo é não deixe cicatrizes mentais nem alimente rancores».
Reconhecendo a dificuldade em combinar estes quatro tipos «num mesmo estilo de vida consistente», Bauman (2007) afirma que há «uma componente considerável de esquizofrenia na personalidade pós-moderna — o que em certa medida poderá dar conta da inquietação, inconstância e indecisão manifestas das estratégias de vida adoptadas. (...) As quatro estratégias de vida pós-moderna, que se interpenetram e sobrepõem, têm em comum o facto de tenderem a tornar as relações humanas fragmentárias e descontínuas: combatem, todas elas, as relações que implicam consequências associadas e a longo prazo, e militam contra a construção de redes duradouras de obrigações e deveres mútuos. Todas elas promovem e favorecem uma distância entre o indivíduo e o Outro e apreendem o Outro fundamentalmente como objecto de uma apreciação estética, e não moral — uma questão de gosto e não de responsabilidade». A esta incapacidade moral está associada a invalidez política dos homens e mulheres pós-modernos, isto é, metabolicamente reduzidos. Tanto o deambulante como o vagabundo, o turista e o jogador são personalidades cuja participação no mundo comum é sobretudo constituída através da rejeição defensiva de empenhamentos sociais mais positivos e abertos e, nessa medida, todos estes tipos tendem para a direcção de âmbitos pessoais mais estritamente definidos e cépticos. Nesta perspectiva, a Internet parece favorecer qualquer um destes tipos de personalidades pós-modernas.
2. ESTRATÉGIAS DE VIDA E A INTERNET. Slevin (2002) adaptou esta tipologia das personalidades pós-modernas e transformou-a numa tipologia dos tipos de utentes da Internet ou net-utentes. Seremos mais criativos na terminologia do que foi Slevin e mais cuidadosos a transpor os tipos de Bauman para o mundo da Internet.
2.1. O Peregrino e a Internet. Os utentes peregrinos ou netperegrinos são aquelas pessoas que ficam desconcertadas com as possibilidades da Internet. Para eles, a Internet é um mundo sem lugares e cheio de obstáculos sem um objectivo claro, um mundo onde não tem cabimento caminhar e o caminhante é constantemente tentado a desviar-se do caminho escolhido, eternamente adiando ou mesmo esquecendo o seu destino. É um mundo desconcertante em que os websites surgem do nada e desaparecem de novo sem aviso prévio e raramente existem o tempo suficiente para que o peregrino dos tempos modernos encontre o seu caminho por entre eles. Do seu ponto de vista, a Internet dificilmente poderá facilitar e apoiar uma narrativa coerente do eu, porquanto, segundo crê, a Internet cria um mundo irreal habitado por pessoas falsificadas e em quem não se pode confiar, que podem adoptar qualquer identidade que queiram e até fazer experiências com elas.
A visão peregrina da Internet é a mesma defendida por todos aqueles investigadores que destacam o lado escuro da Internet: a sua cyberciência é ainda a dos peregrinos da modernidade. Contudo, nem todos os peregrinos têm esta visão negativa da Internet e suspeito mesmo que todos aqueles que contribuíram para a sua construção eram peregrinos. Este simples dado mostra que reduzir a identidade moderna à peregrinação não resiste à sua confrontação com a realidade empírica. Se existem tipos de personalidade, eles não surgiram de modo sucessivo, como se fossem meras construções sociais, caídas não se sabe donde e condenadas a sucederem-se umas às outras, em função das configurações sociais e históricas. Além disso, os estudos neurobiológicos mostraram claramente que determinados indivíduos portadores de alguma deficiência cerebral não conseguem auto-controlar-se e muito menos fazer opções. O conceito de liberdade originária não se coaduna bem com o conceito de determinações ou construções sociais. Um homicida não tem como escapar ao seu destino, a menos que seja preso antes de cometer o seu primeiro crime, e o mesmo poderia ser dito do pedófilo, do abusador ou do violador. Mesmo aceitando o conceito de peregrino como uma estratégia de vida, seríamos obrigados a diferenciá-lo para dar conta da realidade empírica.
Tal como elaborado por Bauman, o peregrino mais não é do que uma narrativa que, quanto mais séria for tida, mais distante da realidade se revela. Com efeito, a Internet é uma criação de peregrinos que tudo fizeram e continuam a fazer para a conservar como um espaço da liberdade. Com base na tipologia das orientações de carácter de Erich Fromm, podemos afirmar que o peregrino tem uma orientação produtiva de carácter, aquela que está por detrás da construção da nossa civilização ocidental e que representa a estrutura de carácter em que o crescimento e o florescimento de todas as potencialidades humanas constituem o fim a que se subordinam todas as outras actividades, incluindo o estilo de surfar. De certo modo, os cibernautas peregrinos constrõem aquilo que os restantes utentes se limitam a utilizar em função dos seus interesses e preferências. Isto implica que o deambulador, o vagabundo, o turista e o jogador sejam mais utilizadores dos serviços prestados pela Internet do que criadores de novas tecnologias, os quais tendem a ser peregrinos.
2.2. O Deambulador e a Internet. Os netdeambuladores são aquelas pessoas que navegam descomprometidamente de webpage para webpage, de canal de IRC para canal de IRC, de newsgroup para newsgroup, optando por aceitar ou declinar os pedidos de troca de mensagens que chegam pelo ICQ. Ao proceder deste modo, mergulham na liberdade final de estar presente mas fora de alcance. Para eles, a Internet é simultaneamente um retiro ideal e um meio para elevar o seu estilo de comunicação a um nível superior de perfeição.
2.3. O Vagabundo e a Internet. Os netvagabundos são aquelas pessoas que têm uma série de endereços de e-mail inactivos ou em desuso. Registam-se como utilizadores de websites para os quais há muito esqueceram as palavras de acesso. Começam a elaborar homepages e depois abandonam-nas. Erram pela Internet, agarrando ofertas de contas grátis, não tardando a ser excluídos ou expulsos por não as terem usado.
2.4. O Turista e a Internet. Os neturistas são aquelas pessoas que usam a Internet para participar em experiências estranhas e bizarras que acabam com um clique no rato. Podem escapar ao seu mundo familiar e entrar em diálogo com quem olhar para a vida de uma maneira muito diferente. Podem analisar webpages que assustam, chocam e põem em causa as suas expectativas. No entanto, esta estratégia aumenta a sua confusão quando se trata de decidir qual o local a que poderão chamar o seu lar e qual o local aonde apenas vão de visita. O seu pesadelo consiste em ser apanhado entre o medo das saudades do lar e o medo de ficar preso no lar. Para eles, a Internet oferece um espaço a explorar.
2.5. O Jogador e a Internet. Os netjogadores abordam a Internet como um jogo de computador alargado, ou seja, como uma experiência mediatizada inserida por opção e que pode ser concluída a qualquer momento, deixando os participantes intocados, a não ser pela perda de tempo decorrido durante o jogo. O objectivo do jogador é ganhar a todo o preço, ao mesmo tempo que se protege o melhor possível do perigo. Depois de atrair outros para uma conversa no IRC e conquistar a sua confiança, o jogador limita-se muitas vezes a sair do jogo. A única razão a apresentar seria que «todas as coisas boas têm de acabar a certa altura». Para consternação dos outros que não são jogadores, os jogadores só raramente estão dispostos a suspender a descrença e a jogar o mesmo jogo outra vez.
Esta tipologia dos utilizadores da Internet não foi elaborada com base num cyberestudo empírico, mas limita-se a aplicar as classificações das estratégias de vida moderna e pós-moderna de Bauman ao estudo das utilizações/concepções da Internet. Para todos os efeitos, pressupõe o conceito implícito de que o tipo de personalidade do utente off-line dita o tipo de uso que faz on-line da Internet. A cada tipo de personalidade corresponde um determinado estilo de surfar na WWW ou na enterprise-wide web e uma determinada concepção da Internet.
De certo modo, seria possível estabelecer uma ligação orgânica entre estes cinco tipos de identidades e as cinco orientações de carácter de Erich Fromm: Se o peregrino corresponde à orientação produtiva, o deambulador corresponderia à orientação receptiva (masoquista), o vagabundo, à orientação explorativa (sádico), o turista, à orientação acumulativa (destrutiva), e o jogador, à orientação mercantil (indiferente). A correspondência não é perfeita, porque, na actual sociedade metabolicamente reduzida, a abertura ao mundo é feita à custa da fragilização e liquidificação do self: o indivíduo metabolicamente reduzido é confinado à sua vida metabólica e à satisfacção das suas necessidades, não em termos humanos, porque carece de self sólido e autónomo, nem sequer em termos animais, porque os seus instintos regrediram e são manipulados pelas indústrias do consumo e do lazer programado. A liquidificação do self significa passividade, receptividade, resignação, numa palavra, efeminamento.
Esta tipologia não leva em conta as diferenças etárias, sexuais e de género que possam existir entre os utilizadores da Internet e o modo como essas diferenças se reflectem nos estilos de surfar. Pelos estudos disponíveis, podemos dizer da Internet aquilo que foi dito da indústria pornográfica: Apesar da vasta presença feminina, a Internet continua a ser uma "indústria" produzida por homens e para homens, conceito bem patente nos websites sexuais e pornográficos. Os próprios estudos incidem muito sobre os usos sexuais e aditivos que os homens fazem da Internet.
3. TIPOS DE UTENTES. Diversas tipologias de diferentes tipos de utentes da Internet em relação à actividade sexual e/ou de relação on-line foram propostas (Cooper, 1998; Griffiths, 1999; Young, 1999). Com base num inquérito de 9177 utentes da Internet, Cooper, Putnam, Planchon & Bóies (1999) descobriram que 8% gasta 11 ou mais horas por semana envolvidos em propósitos sexuais on-line e elaboraram um modelo contínuo das pessoas que usam a Internet para propósitos sexuais. Este modelo destaca três tipos de utentes:
3.1. Os utentes recreativos (recreational users) são aqueles que acedem a material sexual on-line mais para propósitos de curiosidade ou de entretenimento e que são tipicamente vistos como não tendo quaisquer problemas associados com os seus comportamentos sexuais on-line.
3.2. Os utentes em risco (at-risk users) são aqueles que, se não fosse a acessibilidade da Internet, nunca desenvolveriam qualquer problema associado com os seus comportamentos sexuais on-line.
3.3. Os utentes compulsivos sexuais (sexual compulsive users) são aqueles que usam a Internet como um fórum para as suas actividades sexuais, dada a sua inclinação para a expressão sexual patológica.
A tipologia dos utilizadores da Internet apresentada está completamente centrada nos seus usos sexuais e/ou amorosos. Convém dizer que, no
meu estudo, os indivíduos homossexuais examinados já eram tendencialmente viciados em sexo na vida real e, graças ao advento da Internet, viram nela uma oportunidade para alargar o seu oásis erótico gay, usando-a exclusivamente para conquistar novos parceiros sexuais e recolher material pornográfico diverso. Porém, apesar da maioria deles procurar concretizar um encontro ocasional off-line, alguns acabam por ficar iludidos com as personagens construídas on-line e apaixonam-se por elas, perdendo a capacidade de discriminar produtivamente entre realidade e fantasia amorosas. Quando arriscam um encontro real, tendem a sentir uma enorme frustração: o parceiro on-line idealizado não corresponde ao indivíduo real que têm diante dos olhos. A arena erótica virtual pode aprisioná-los e condená-los a uma vida solitária e ilusória. Pelo menos, o cibersexo, o sexphone e o sexo via web-cam protege-os das doenças sexualmente transmissíveis: são formas de sexo seguro e livres de envolvimentos ou de compromissos.
Os frequentadores da Internet são de diversos tipos e géneros: temos os que são gays, os que dizem ser bissexuais, muitos dos quais casados ou com namoradas, diversos tipos de parafilias, os prostitutos e os bandidos ou assaltantes. A existência destes dois últimos tipos, sobretudo os últimos, cria uma certa insegurança e perigosidade nos encontros sexuais reais: assaltos, violência e facadas são frequentes. Contudo, muitos dos frequentadores tornam-se amigos, após algum tipo de envolvimento sexual off-line, e usam a Internet para trocar informações entre si: formam-se assim comunidades gay virtuais que se actualizam diversas vezes em encontros reais e festas entre amigos que vivem em locais distantes ou mesmo próximos.
A natureza anónima da Internet atrai provavelmente um número significativo de pessoas cujas preferências sexuais se desviam da norma, bem como daquelas que desejam ocultar a sua actividade sexual, mesmo que seja mais normativa, como sucede com muitos homens heterossexuais casados que procuram relações extraconjugais on-line. Todas estas pessoas voltam-se para a Internet como meio de exploração dos seus auto-aspectos importantes e relevantes. Contudo, até mesmo na Internet, pode ser difícil para estas pessoas descobrir outras pessoas com interesses semelhantes e complementares, sobretudo quando estes são muito invulgares, como ainda é o caso do sadomasoquismo (versão dura) ou da pedopornografia.
A Internet atrai frequentemente aquelas pessoas que podem ser estigmatizadas, excluídas ou punidas (incluindo a aplicação de sanções criminais, como sucede com os pedófilos), se os seus interesses sexuais forem conhecidos (McKenna, Green & Smith, 2001). A habilidade da Internet para transferir ficheiros (files) electrónicos de material erótico ou imagens Web-cam pode simplesmente aumentar a sua atracção. Contudo, esta aparente protecção da legal oversight pode ser ilusória, dada a perícia electrónica da polícia ou de outras autoridades reguladoras. Mas, nos casos que não envolvam criminalidade, o Triple A Engine constitui um superfactor que leva as minorias eróticas a usar a Internet para expressar as suas sexualidades: a Internet possibilita-lhes revelar aspectos relevantes dos seus eus sem sofrerem punições e, muitas vezes, esses aspectos assumidos on-line tendem a ser incorporados nas suas vidas reais off-line e nas suas interacções sociais quotidianas. O anonimato relativo da Internet encoraja a auto-expressão e a ausência dos efeitos da interacção física e não-verbal facilita a formação de relações assentes na partilha de valores e de crenças.
4. RELAÇÕES ONLINE. Griffiths (1999) distinguiu três tipos básicos de relações on-line em função do comportamento on-line actual:
4.1. As relações online virtuais (virtual online relationships) envolvem pessoas que nunca se encontraram na vida real. Elas empenham-se geralmente em trocas de texto sexualmente explícito (sexually explicit text exchanges), mais propriamente em cybersexo, e podem trocar os papéis de género (swap gender roles). Embora possam ter parceiros na vida real, não se sentem como sendo infiéis. A relação é geralmente de curta duração. A troca de papéis de género é muito frequente, em especial entre os indivíduos homossexuais que podem assim conviver intimamente com indivíduos heterossexuais, com os quais desenvolvem relações íntimas muito intensas e duradouras, algumas podendo levar à prática regular de cibersexo ou mesmo de sexo real.
4.2. As relações online de desenvolvimento (developmental online relationships) envolvem pessoas que se conhecem on-line mas que desejam eventualmente deslocar a relação do nível on-line para o nível off-line, após se tornarem emocionalmente íntimas. A partilha de compromisso e de intimidade emocionais leva frequentemente ao cibersexo e/ou a um forte desejo de comunicar constantemente na Internet. A relação é geralmente duradoira e resistente.
4.3. As relações online de manutenção (maintaining online relationships) envolvem pessoas que se conheceram primeiramente na vida real (off-line), mas que prosseguem e conservam on-line a sua relação na maior parte do tempo, devido geralmente ao facto de estarem geograficamente distantes. A relação pode ou não ser de longa duração, dependendo do nível de compromisso e de intimidade emocional.
A Internet tornou-se nos últimos tempos o primeiro e o mais rápido meio natural da vida diária, sendo utilizada nos lugares de trabalho, na manutenção de relações pessoais fechadas, na formação de grupos, no fornecimento de apoio social e no envolvimento comunitário, para além dos seus usos sexuais. Ao contrário do que se pensa, a Internet não faz necessariamente dos seus utentes pessoas deprimidas ou solitárias; pelo contrário, a Internet facilita a comunicação e aproxima a família e os amigos, especialmente quando as pessoas envolvidas não podem fazer visitas regulares umas às outras. A Internet constitui um território fértil para a formação de novas relações, favorecendo mais as relações baseadas na partilha de valores e de interesses do que as relações baseadas na atractividade e na aparência física das pessoas, como se verifica no mundo off-line. Porém, a teoria social da Internet está consciente da fragilização ou liquidação do social.
J Francisco Saraiva de Sousa

domingo, 15 de junho de 2008

BlogScience: Teoria Crítica da Blogosfera

Este é aparentemente um trabalho teórico mais de recolha de informação do que de fina elaboração teórica, cuja finalidade é sensibilizar os cyberleitores para a tarefa de pensar a blogosfera no âmbito da cyberfilosofia. As fontes documentais deste texto são a Wikipédia, a enciclopédia livre online, e SapoBlogs, sem excluir uma leitura diagonal de alguns blogues nacionais e estrangeiros que tratam deste assunto.
Quando um filósofo faz uma afirmação como a que acabei de proferir, ele encobre um projecto: o de lançar os fundamentos de uma nova ciência — a ciência dos blogues ou blogscience. A razão deste encobrimento prende-se com o facto da filosofia ser um «campo de batalha», onde todas as posições estão tomadas e claramente definidas. Se quisermos conquistar território, temos de definir a nossa posição por oposição a outras posições e, de preferência, desalojá-las, redefinindo um novo espaço de intervenção, quer no plano da ciência, quer no plano da política. A nossa tarefa será reanalisar as concepções implícitas nesses documentos, de modo a criticá-las e a substituí-las por outros conceitos. Começaremos por formular algumas teses:
Tese 1. A ciência dos blogues não é uma recolha acrítica daquilo que os bloguistas dizem da sua própria actividade e da blogosfera. Chamaremos ao conjunto dessas afirmações filosofia espontânea dos bloguistas, a qual constitui matéria-prima teórica que deve ser transformada em conhecimento científico, mediante a elaboração de uma teoria dos blogues e o uso de métodos e instrumentos de trabalho adequados.Com esta tese, acabámos de tomar uma posição forte: a ciência dos blogues é distinta das concepções que os próprios bloguistas tecem sobre a sua actividade e a blogosfera. A segunda tese deve ser mais positiva, procurando delimitar o campo de estudo da blogscience e fixar novas metodologias de estudo desta nova área do conhecimento científico.
Tese 2. Trata-se de uma nova ciência que tem por objecto o estudo das determinações de um fenómeno recente da Internet: a blogosfera. Ao ramo da cyberfilosofia que estuda a blogosfera chamaremos blogscience ou ciência dos blogues e ao conjunto dos blogues, blogosfera. Esta nova ciência afirma-se simultaneamente no plano cognitivo e no plano político. Isto significa que a blogosfera pode ser vista como uma arena de intervenção política (ágora virtual), que alarga necessariamente o âmbito da esfera pública, e, ao mesmo tempo, como uma área de estudo.
1. Concepção Emic da Blogosfera. Costuma-se dizer que a filosofia coloca mais questões do que as resolve, mas, tal como Karl Popper, um adversário dessa concepção vulgar, prefiro colocar questões e resolvê-las ou, pelo menos, apontar para vias de resolução. A nossa posição será formulada por oposição a duas perspectivas: a do SapoBlogs e a da Wikipédia.
1.1. A Concepção do SAPOBLOGS. A concepção da blogosfera apresentada neste portal português é mais objectiva, ou melhor, mais informativa do que a da Wikipédia, muito mais especulativa. Das cinco questões colocadas, retemos apenas as respostas das três primeiras: O que é a Blogosfera?, O que é um Blog?, e Qual é a diferença entre um Blog e uma Página pessoal (Homepage)?
1.1.1. Blogosfera. Chama-se blogosfera a "toda a comunidade e conteúdos que constituem os Blogs. O conjunto de quem faz, de quem disponibiliza e de quem lê Blogs é a Blogosfera". A blogosfera é definida ora como comunidade ora como o conjunto dos conteúdos dos blogues, seguida de um modelo tripartido: autores de blogues (quem faz), os programas e/ou empresas que disponibilizam esse serviço, no nosso caso a Google (quem disponibiliza), e os leitores (quem lê) dos blogues, que podem ser outros bloguistas ou meros cybernautas. De forma simplicada, este modelo subjacente a esta concepção pode ser reduzido a um modelo de comunicação: emissor, meio e receptor ou leitor que, no caso dos blogues abertos, pode reagir à mensagem, com a edição de comentários. Esta concepção da blogosfera esquece que o modelo de comunicação que tende a predominar no seu seio é o diálogo: a comunicação mediada por computador é dialógica.
1.1.2. Blogue. "A definição de Blog não é consensual. Um Blog é um registo cronológico e, frequentemente, actualizado de opiniões, emoções, factos, imagens ou qualquer outro tipo de conteúdo que o autor ou autores queiram disponibilizar. Existem muitos tipos de Blogs, ouve-se muitas vezes a expressão "Diário virtual" para descrever o Blog, o SAPO pensa que um Blog pode ser muito mais do que isso. Depende apenas e só do que o autor ou autores queiram que o seu Blog seja". Assim, por exemplo,
Carlos Serra distingue seis tipos de blogues: 1) blogue tipo "gosto de comer amendoins", 2) blogue de "distracção descerebralizadora", 3) blogue de "exegese erótica", 4) blogue "científico", 5) blogue "político" e 6) blogue "comercial directo ou disfarçado", e, na sua perspectiva política, o bloguismo constitui «arma política de grande eficácia». (Leia a entrevista AQUI ou AQUI.) Apesar de partilharmos algumas afinidades em termos da visão política do bloguismo, traçamos claramente uma linha de demarcação entre a blogosfera e a mediasfera, cuja presença na blogosfera é vista como uma tentativa de abolir a comunicação livre entre cidadãos livres e autónomos, tentado refeudalizá-la (Habermas). De facto, os blogues estão a modificar a nossa relação com a informação (Bruce Sterling). Nos mass media tradicionais, um escreve, alguém lê e assim se publica: tudo aquilo que é publicado tem eco. Na blogosfera, primeiro publica-se, depois os leitores lêem, corrigem, ampliam, desenvolvem e, colectivamente, decidem o destino desse texto, oferecendo-lhe uma das infinitas opções possíveis entre eco e indiferença.
1.1.3. Página Pessoal. A diferença entre blogue e página pessoal assenta não só numa questão técnica mas também numa questão filosófica: "Tecnicamente, um Blog dispõe de uma ferramenta de edição que permite a qualquer leigo colocar de imediato os seus conteúdos on-line, e actualizá-los sempre sem precisar de saber absolutamente nada de html. Filosoficamente, o Blog difere de uma Página Pessoal na medida em que as actualizações são muitíssimo mais frequentes do que as que são habitualmente feitas a uma página pessoal, e porque tem um conceito cronológico associado". SapoBlogs lembra que existem outras questões de ética de Blogs que imprimem uma diferença, como por exemplo, a teoria de que não se pode apagar artigos (posts), mas esta última é apenas um detalhe. Em suma: "Uma página pessoal pode não ser actualizada com frequência, mantendo o seu espírito intacto, um Blog que não é actualizado com frequência, deixa de ser um Blog. Uma página pessoal pode ser estática (ou não), um Blog não pode ser estático, caso contrário deixa de ser um Blog".
Esta distinção entre blogue e homepage é bastante consensual, embora a noção de blogue como «diário virtual» se preste a usos menos interessantes em termos do universo e da tecnologia dos blogues. Sem uma tipologia empírica dos blogues e do perfil dos bloguistas, e dada a natureza filosófica deste empreendimento, consideramos que os blogues comerciais, biográficos, sexuais, íntimos ou muito pessoais e outros do género possuem menor qualidade e relevância política e científica do que os restantes tipos de blogues. Com excepção do bloguista-peregrino, os bloguistas deambulador, vagabundo, turista e jogador (Bauman, Slevin), tendem a não criar laços on-line, preferindo navegar sem rumo e sem compromissos com o mundo e, portanto, com a humanidade.
Nós, filósofos profissionais, somos terríveis quando traçamos estas linhas de demarcação. Mas esta prática filosófica justifica-se pelo laço estreito que a filosofia estabeleceu desde as origens com a esfera política (Platão/Aristóteles) e, como aqui defendemos uma concepção política da blogosfera, somos forçados a privilegiar todos os blogues que são usados como meios de participação na nova esfera pública virtual, a propósito das coisas públicas e não privadas ou mesmo íntimas, cujo alcance é de menor relevo, dado fomentarem o voyeurismo on-line, o exibicionismo on-line e a criação de comunidades emocionais e sexuais virtuais metabolicamente reduzidas, sem interesse para os destinos dos mortais, num mundo cada vez mais global e ameaçado. Isto não quer dizer que esses blogues de menor relevância não devam ser estudados e penso que a cybersociologia lhes deve dar atenção, porque eles podem ser lidos como sintoma de algo que aflige os seus autores, devido a problemas de sociedade. Aliás, o universo das páginas pessoais tem sido mais estudado do que o universo dos blogues.
1.2. A Concepção da Wikipédia. Optámos por iniciar pelo portal Sapoblogs, porque os conceitos e distinções conceptuais que fornece são relativamente objectivos e muito pouco especulativos. Segundo a Wikipédia, o termo blogosfera foi cunhado, em 10 de Setembro de 1999, por Brad L. Graham como uma «piada» e foi redescoberto, em 2002, por William Quick. Depois foi rapidamente adoptado e divulgado pela comunidade de blogs sobre guerras, os chamados warblogs ou blogues de guerra. Muitos continuaram a tratar o termo como uma «piada». Contudo, segundo a Wikipédia, os meios de comunicação social dos USA, nomeadamente através do programa Morning Edition da National Public Radio, Day To Day, All Things Considered e outros, começaram a usar frequentemente o termo, até que entrou no domínio do uso público e na esfera da opinião pública.
1.2.1. Blogosfera. A Wikipédia descobre, acidentalmente ou não, uma similaridade da palavra blogosfera com a palavra mais antiga «logosfera», que traduz como «o mundo das palavras» ou «o universo do discurso», e uma aproximação, na pronúncia e no significado, deste outro termo «noosfera» ou «o mundo do pensamento».
A Wikipédia observa que a blogosfera é designada ironicamente, pelo menos algumas vezes, como «blogóbulo», por aqueles que desconsideram, tal como os mass media da primeira geração, o seu impacto fora de si mesma ou que a consideram insular. Aqueles com blog e que, por isso, participam da blogosfera, já foram tratados como «bloguesia» na edição de 4 de Setembro de 2006 do jornal Libération, para os opor aos info-excluídos. Esta concepção forjada pelos mass media tradicionais visa neutralizar a blogosfera e colonizá-la, repondo o seu modelo unidireccional de comunicação. A Wikipédia fornece mais três entradas associadas à blogosfera, a saber: a noosfera, a ideosfera e a infosfera. Só mediante o recurso a estes outros termos é que começamos a entender o que a Wikipédia entende por blogosfera.
1.2.2. Noosfera. A noosfera refere a "esfera do pensamento humano", e o termo deriva da palavra grega νους (nous, "mente") num sentido semelhante à atmosfera e à biosfera. Na teoria original de Vernadsky, a noosfera seria a terceira etapa no desenvolvimento da Terra, depois da geosfera (matéria inanimada) e da biosfera (vida biológica). Assim como o surgimento da vida transformou significativamente a geosfera, o surgimento do conhecimento humano e os consequentes efeitos das ciências aplicadas sobre a natureza alterou igualmente a biosfera. O conceito da noosfera é atribuído ao Teilhard de Chardin. Segundo Chardin, assim como existem a atmosfera, a geosfera e a biosfera, há também o mundo ou esfera das ideias, formado por produtos culturais, pelo espírito, linguagens, teorias e conhecimentos. Segundo Chardin, alimentamos a noosfera quando pensamos e comunicamos uns com os outros. A partir de então, o conceito de noosfera foi revisto e atribuído ao próximo degrau evolutivo do nosso mundo, após a sua passagem pelas posteriores transformações de geosfera, biosfera, "tecnosfera" (temporária e em andamento) e, então, a noosfera.
1.2.3. Ideosfera. A ideosfera é um neologismo criado por Aaron Lynch e Douglas Hofstadter na década de 80. De forma semelhante à biosfera, onde se processa a evolução biológica, na ideosfera ocorreria a evolução mimética, com a criação, a evolução e a seleção natural de pensamentos, teorias e ideias. A ideosfera não é considerada como um espaço físico, porque se encontra “no interior das mentes” de todos os seres humanos: a Internet, os livros e outros mass media podem ser incluídos no seio da ideosfera.
Segundo Yasuhiko Kimura, no momento actual, a ideosfera forma uma "ideosfera concêntrica", com as ideias sendo geradas por algumas poucas pessoas e as demais unicamente recebendo e aceitando-as por serem provenientes daquelas “autoridades externas”. Talvez fosse melhor referir a dependência dos blogues das práticas de agenda-setting da mediasfera. Contra um tal colonialismo ideosférico, Kimura defende a criação de uma "ideosfera omnicêntrica" ("omnicentric ideosphere"), na qual todos os indivíduos participem como cidadãos de forma efectiva, criando novas ideias e interagindo entre si na condição de "auto-autoridades" ("self-authorities"), libertos das agendas externas da mediasfera.
1.2.4. Infosfera. A infosfera é um neologismo criado por Luciano Floridi e que faz referência a um complexo ambiente informacional constituído por todas as entidades informacionais, as suas propriedades, as suas interacções, os seus processos e demais relações.
Segundo Richard Dawkins (1976), um meme está para a memória como o gene está para a genética. Considerado como a sua unidade mínima, o meme é uma unidade de informação que se multiplica de cérebro em cérebro, ou entre locais onde a informação é armazenada (como livros) e outros locais de armazenamento (como cérebros). Funcionalmente, o meme é considerado uma unidade de evolução cultural que pode, de alguma forma, autopropagar-se. Os memes podem ser ideias ou partes de ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida enquanto unidade autónoma. O estudo dos modelos evolutivos da transferência de informação cultural é conhecido como memética.
Quando usado num contexto coloquial e não especializado, o termo meme pode significar apenas a transmissão de informação de uma mente para outra. Este uso aproxima o termo da analogia da "linguagem como vírus", afastando-o do propósito original de Dawkins, que procurava definir os memes como replicadores de comportamentos.
2. Concepçãp Etic de Blogosfera. A Wikipédia aborda a blogosfera numa perspectiva demasiado «evolucionista» e, neste âmbito, apesar de socorrer-se da biologia da evolução, usa um evolucionismo repleto de finalismo e perfeccionismo, como se a evolução biológica tivesse qualquer finalidade: a blogosfera é assim vista como a fase derradeira dessa evolução biológica substituída pela evolução cultural. Esta concepção esquece o fundamental: a blogosfera não é um mero "mundo (estático) de ideias", mas o lugar da conversa sobre o mundo. Nela existem pessoas que trocam opiniões sobre a realidade e contribuem para enriquecer a percepção que cada um tem do meio social, político e cultural em que todos vivemos nesta "aldeia global" (Marshall McLuhan). Assim, como diz Jay Rosen, na blogosfera os indivíduos participam livremente, sem tutelas, no grande jogo de influências chamado opinião pública. Na Grande Conversação (Giuseppe Granieri) que é a blogosfera a única lei é o respeito recíproco, e a punição é uma redução de atenção. A experiência histórica devia ter ensinado a estas mentes de inteligência reduzida que todo o pensamento que procura colonizar o futuro, como se este tivesse já pré-figurado, destrói mais do que liberta o futuro.
Tese 3. A teoria da informação é fundamentalmente uma teoria matemática que coloca problemas filosóficos interessantes, pelo menos ao nível epistemológico e lógico, mas insuficiente para dar conta da complexidade da comunicação mediada por computador e dos seus diversos usos. A blogosfera não deve ser vista como um mundo irreal ou como mera fuga ao mundo diário, onde os bloguistas procuram escapar às rotinas da vida quotidiana e viverem vidas artificiais e alienadas. A cyberfilosofia não é uma mera teoria da informação e da comunicação e, até mesmo quando se debruça sobre esses conceitos, visa a sua ultrapassagem teórica. Com efeito, o mundo da Internet é um mundo social e, como tal, é um mundo histórico, perfeitamente inserido e integrado no mundo off-line. Esta lição de Hegel/Marx deve ser integrada na cyberfilosofia, de modo a que esta possa pensar radicalmente a revolução tecnológica do nosso mundo moderno, cada vez mais global e mediado.
As mentes apáticas e conformistas tendem a reduzir a democracia electrónica ao voto electrónico e a outros procedimentos técnicos, como se a democracia electrónica fosse um conjunto de processos tecnológicos usados ao serviço da democracia representativa tal como a conhecemos. Uma tal concepção de democracia electrónica é extremamente redutora, muito pouco política e revela a satisfação dessas mentes com a sociedade estabelecida: as mentes que a defendem são, portanto, metabolicamente reduzidas, isto é, mentes mais interessadas em defender os seus interesses privados do que em melhorar a qualidade da democracia real.
A
democracia electrónica pode ser vista como uma longa e extensa conversa on-line sobre o mundo, na qual todos os cidadãos podem participar livre e racionalmente, sem coacções (Howard Rheingold). Usar as funcionalidades da Internet como esferas públicas ou fóruns de debates públicos é fazer um uso libertador e responsável das novas tecnologias da comunicação, em face do qual os outros usos denunciam a ideologia que os move: a apologia da ordem estabelecida. Nesta perspectiva, a democracia electrónica possibilita a participação política de todos aqueles cidadãos que, de outro modo, o predominante, não têm direito à palavra, a não ser em dias de eleições. A democracia electrónica reanima o espírito da democracia ateniense num novo espaço público virtual: a rede. Como forma de democracia participativa, a democracia electrónica pode potencialmente reanimar a política, a formação da consciência política, o exercício de uma cidadania mundial responsável e empenhada no debate crítico dos assuntos públicos e, deste modo, contribuir para melhorar a qualidade da democracia representativa.
Os teóricos da democracia electrónica nunca a apresentaram como uma forma de democracia directa e, portanto, como alternativa política credível à democracia representativa. Esta ideia absurda é uma mentira inventada por aqueles que temem, e com razão, que a participação na esfera pública dos cidadãos lhes roube visibilidade. De facto, esta pode ser uma tarefa da democracia electrónica: criticar severamente aqueles que usam e abusam do poder para benefício próprio e que, por isso, fazem tudo para reduzir os cidadãos à condição de «metecos», isto é, de excluídos políticos. Contudo, embora a tecnologia ofereça essa possibilidade de alargar virtualmente a esfera pública, devemos ajudar todos aqueles que desejam sinceramente participar e contribuir para a politização da sua consciência: dotá-los de espírito crítico, de resto um bem muito escasso na sociedade metabolicamente reduzida. De facto, apesar do lado negro da Internet, perfilho o optimismo militante de Ernst Bloch e, por isso, sou um adepto prudente da democracia electrónica: acredito que as comunidades virtuais podem ajudar os cidadãos a revitalizar a democracia, mediante a participação responsável na esfera pública alargada a todos e liberta da comunicação manipuladora e distorcida.
No entanto, sou herdeiro de uma constelação teórica que tem sido e ainda continua a ser muito crítica em relação aos efeitos da comunicação mediada por computador, mas sobretudo em relação aos media electrónicos da primeira e da segunda gerações: refiro-me evidentemente à teoria crítica e à Escola de Frankfurt. Por isso, e dado que não negligencio os seus receios legítimos, pretendo estudar melhor estes três grupos de cépticos e analisar os seus argumentos, de modo a clarificar o próprio conceito de democracia electrónica.
Acredito no potencial democratizador das telecomunicações e dos computadores e, escutando as vozes que se fazem ouvir num vasto conjunto de blogues, defendo a ideia básica de que a comunicação mediada por computador restitui aos cidadãos responsáveis alguns poderes dos mass media, detidos pelos mandarins da política e da economia, reabilitando democraticamente a esfera pública. A comunicação mediada por computador é potencialmente uma tecnologia democratizante/libertadora e, por isso, estou empenhado na luta contra todas as tentativas de refeudalizá-la ou colonizá-la abusivamente, contra os interesses reais dos cidadãos, que o jornalismo manipulador tenta converter em leitores-consumidores. O blogging não é uma forma de jornalismo, mas uma nova forma de circulação das informações, de preferência produzidas por cidadãos do mundo libertos da tutela jornalística manipuladora.
As criticas sociais às novas tecnologias podem ser agrupadas em três frentes teóricas, intimamente relacionadas umas com as outras ou, pelo menos, complementares:
1) a teoria da indústria cultural e a sua reformulação por Habermas, que teme que as redes interactivas de banda larga possam ser utilizadas em conjunto com outras tecnologias como meio de vigilância, controle e desinformação, para além de canal de transmissão de informação útil;
2) a teoria panóptica do poder de Michel Foucault, de resto inspirada em Jeremy Bentham e no seu projecto prisional, que considera que as tecnologias de informação permitem aos governos e aos interesses privados (empresas) saber coisas sobre cada um de nós, através de uma espécie de invasão electrónica da nossa vida privada;
3) e a teoria hiper-realista nas suas diversas versões, a de Guy Debord ou a de Jean Braudillard, que acredita que as tecnologias de informação já transformaram aquilo que passava por ser "a realidade" numa simulação electrónica.
Estas críticas são pertinentes e merecem ser escutadas e pensadas. Como já as meditei, ao longo de inúmeros seminários de «teorias da comunicação social», posso dizer que a comunicação mediada por computador pode ser o veículo privilegiado para a realização dos «ideais» que norteiam a crítica da sociedade. Mas, como num mundo global, nada está estabelecido definitivamente, é necessário reflectir nas ameaças sugeridas pelos cybercépticos e estar preparado para fazer face a elas sempre que surjam no horizonte. Apesar disso, o meu optimismo militante (Ernst Bloch) tem sido reforçado pelo conhecimento de bloguistas extremamente competentes e inteligentes, alguns dos quais estão desempregados, talvez devido à luso-mediocridade instalada no poder que bloqueia sistematicamente o desabrochar de novas capacidades e de novas possibilidades históricas.
J Francisco Saraiva de Sousa

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Modernidade, Mass Media e Tradição (Um)

«O mito já é esclarecimento e o esclarecimento acaba por reverter à mitologia» (Horkheimer & Adorno)
1. A filosofia social clássica legou-nos a ideia de que o desenvolvimento das sociedades modernas implicou necessariamente a perda de importância da tradição na vida quotidiana. Se a tradição é «coisa do passado», então as sociedades modernas contrastam com as «sociedades tradicionais». Esta ideia foi incorporada pelas teorias da modernização vista como um processo de desenraizamento das tradições, e assenta em dois pressupostos fundamentais:
1. A teoria social clássica foi herdeira do Iluminismo, que encarava a tradição uma fonte de mistificação e, como tal, uma inimiga da Razão e um obstáculo ao Progresso Humano.
2. A teoria social clássica via, portanto, a emergência e o desenvolvimento das sociedades modernas como um processo dinâmico intrinsecamente destruidor da tradição. Como herança do passado, a tradição devia ser criticada e dissipada em nome da Razão e, mesmo que isso não fosse possível, a própria dinâmica interna da modernização encarregar-se-ia da sua destruição.
Karl Marx. A convergência destas duas considerações é evidente tanto na obra de Marx como na obra de Max Weber. Sob a influência do Iluminismo, Karl Marx via a tradição como a principal fonte de mistificação que encobria e ocultava a verdadeira natureza das relações sociais. A dinâmica interna da modernização encarregar-se-ia, ela própria, de quebrar e dissolver as relações sociais e as tradições das sociedades pré-modernas. Pelo menos, é assim que a modernização é apresentada no "Manifesto do Partido Comunista". Isto significa que a desmistificação das relações sociais é um processo latente ao desenvolvimento e à expansão do modo de produção capitalista: «O que distingue a época burguesa de todas as precedentes é a alteração incessante da produção, o derrubamento contínuo de todas as instituições sociais, em suma, a permanência da instabilidade e do movimento. Todas as relações sociais imobilizadas na tradição, com o seu cortejo de concepções e de ideias, fixas e veneráveis, se dissolvem; aquelas que as substituem caducam antes mesmo de cristalizarem. Tudo o que tinha solidez e perdurbalidade esvai-se em fumo, tudo o que era sagrado é profanado e os homens são forçados, finalmente, a encarar com olhos desiludidos as suas condições de existência e as suas relações mútuas» (Marx & Engels). Quando as forças de produção atingirem um determinado nível de desenvolvimento, entrarão em contradição com a manutenção das relações de produção estabelecidas, levando o proletariado a vê-las como relações de exploração do homem pelo homem e a lutar pela sua transformação revolucionária, em direcção a uma sociedade mais livre e justa, portanto, mais transparente: «Antes de tudo, a burguesia produz os seus próprios coveiros. A sua queda e a vitória do proletariado são igualmente inevitáveis» (Marx & Engels).
Max Weber. Embora não fosse optimista como Marx, Max Weber acreditava que o desenvolvimento do capitalismo industrial seria acompanhado pelo desaparecimento das cosmovisões tradicionais. É certo que a ética protestante desempenhou um papel fundamental na emergência do capitalismo ocidental, mas, uma vez estabelecido como forma predominante de actividade económica, o capitalismo adquiriu uma tal força que acabou por dispensar as ideias e as práticas religiosas que tinham sido necessárias ao seu surgimento. Além de ter promovido o aparecimento do Estado burocrático nacional, o desenvolvimento do capitalismo racionalizou progressivamente a acção social e adaptou-a aos critérios da eficiência técnica. O puramente pessoal e individual, o elemento espontâneo e emotivo da acção tradicional, foi esmagado pelas exigências de objectivos racionalmente calculados. Este processo de racionalização e, portanto, de desencantamento do mundo, foi o preço pago pela racionalização ocidental, de resto vista como «a fatalidade dos tempos modernos» (Weber).
As teorias da modernização elaboradas posteriormente aceitaram a existência da oposição entre sociedades tradicionais e sociedades modernas e encararam a passagem das primeiras para as segundas como um processo irreversível e de sentido único. Estas teorias podem ser enquadradas sob uma mesma designação: a grande narrativa da transformação cultural, para retomar um conceito de Lyotard, que Horkheimer & Adorno apresentaram numa perspectiva filosófica na sua obra "Dialéctica do Esclarecimento", onde, associando as ideias de Marx e de Weber, com recurso a Nietzsche e a Freud, conceberam a dialéctica do progresso como regressão. Esta grande narrativa da modernização pode ser reconduzida a três elementos-chave:
1. O surgimento do capitalismo industrial na Europa e noutros lugares do mundo foi acompanhado pelo declínio das crenças e das práticas religiosas e mágicas que prevaleciam nas sociedade pré-industriais. Isto significa que o desenvolvimento económico capitalista foi seguido, na esfera da cultura, pela secularização das crenças e das práticas religiosas e pela racionalização progressiva da vida social. Peter Berger definiu a secularização como um processo de «progressiva "perda de realidade" por parte das interpretações religiosas tradicionais do mundo». Ao racionalizar sectores cada vez mais amplos da vida social, a modernização privou o indivíduo da segurança que lhe proporcionavam as instituições tradicionais. Esta insegurança implicou «a ameaça constante de isolamento e de falta de sentido».
2. O declínio da religião e da magia prepararam o campo para a emergência de sistemas de crenças seculares ou ideologias, que servem para mobilizar a acção política, sem referência a valores ou a seres de outro mundo (seres sobrenaturais). A consciência religiosa e mística da sociedade pré-industrial foi substituída pela consciência prática enraizada nas colectividades sociais e animadas pelos sistemas seculares de crenças.
3. Estes desenvolvimentos deram lugar à "Era da Ideologia" que culminou em movimentos revolucionários radicais no final do século XIX e inícios do século XX. Estes movimentos foram as últimas manifestações da era da ideologia. Actualmente, a política é cada vez mais um problema de reforma gradual e de acomodação pragmática de interesses em conflito. A acção social e política é cada vez menos animada por sistemas seculares de crenças que exigem a mudança social radical. Por isso, estamos a assistir não só ao fim da era das ideologias, mas também ao fim da ideologia como tal, como defenderam Daniel Bell, Raymond Aron, Jean-François Lyotard e Vattimo.
Lyotard vai mais longe quando afirma que o projecto moderno da realização da universalidade não foi abandonado ou esquecido, mas destruído e liquidado, e, em seu lugar, surge aquilo a que chamou pós-modernidade. Porém, A. Giddens, Ulrich Beck e Scott Lash reagiram contra a esta teoria do fim da modernidade, opondo-lhe uma nova teoria da modernidade, a modernização reflexiva, já previamente desenvolvida por Giddens. Esta nova teoria defende que, nas primeiras fases da modernização, muitas instituições dependiam das tradições das sociedades pré-industriais. Contudo, à medida que a modernização entra na sua fase mais avançada (a modernização reflexiva de Beck), as tradições começaram a perder a sua força, de modo que as sociedades modernas se tornaram "destradicionalizadas". Embora não tenham ainda desaparecido completamente, as tradições gozam de um estatuto que mudou significativamente. As práticas tradicionais perderam o monopólio da verdade e tornaram-se menos seguras quando são expostas ao escrutínio e à discussão públicos. Ao serem chamadas a defender-se, estas práticas perdem o status de verdades inquestionáveis. Um modo de sobrevivência é a sua transformação num tipo de fundamentalismo, como o islâmico, que rejeita o apelo da justificação discursiva e procura, num clima de dúvida generalizada, reafirmar o seu carácter inviolável.
Podemos alegar dois argumentos contra a tese do declínio da tradição que teria acompanhado o desenvolvimento das sociedades modernas:
1. Determinadas tradições e sistemas de crenças tradicionais continuam a estar presentes nas sociedades dos séculos XX e XXI, tais como as igrejas católicas ou protestantes, às quais vieram associar-se os novos movimentos religiosos ou mágicos, tomados geralmente como o regresso do sagrado.
2. A tese do declínio da tradição não leva em conta o papel dos mass media.
J. Thompson foi dos poucos teóricos sociais que compreendeu a verdadeiro impacto dos mass media na transformação das sociedades modernas. A sua teoria da modernização assenta na ideia crucial de que a mediatização da tradição a dotou de nova vida, liberando-a das limitações da interacção face a face e revestindo-a de novas características. A tradição desritualizou-se e perdeu parcialmente a sua fundação nos contextos práticos da vida quotidiana. Os mass media electrónicos tanto os da primeira geração como os da segunda geração são actualmente a nova fundação da tradição.
«Existe um quadro de Klee que se intitula Angelus Novus. Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar do local em que se mantém imóvel. Os seus olhos estão escancarados, a boca está aberta, as asas desfraldadas. Tal é o aspecto que necessariamente deve ter o anjo da história. O seu rosto está voltado para o passado. Ali onde para nós parece haver uma cadeia de acontecimentos, ele vê apenas uma única e só catástrofe, que não pára de amontoar ruínas sobre ruínas e as lança a seus pés. Ele quereria ficar, despertar os mortos e reunir os vencidos. Mas do Paraíso sopra uma tempestade que se apodera das suas asas, e é tão forte que o anjo não é capaz de voltar a fechá-las. Esta tempestade impele-o incessantemente para o futuro ao qual volta as costas, enquanto diante dele e até ao céu se acumulam ruínas. Esta tempestade é aquilo a que nós chamamos progresso». (Walter Benjamin)
2. Mas afinal o que é a tradição? No seu sentido mais geral, a tradição é, como diz Thompsom, «um traditum, isto é, qualquer coisa que é transmitida e trazida do passado». Thompson distingue quatro aspectos diferentes da tradição, frequentemente confundidos, mas interligados entre si: o hermenêutico, o normativo, o legitimador e o identificador.
1º. Aspecto hermenêutico. A hermenêutica de Heidegger a Gadamer encara a tradição como um conjunto de pré-compreensões ou de preconceitos de fundo que são aceites pelos indivíduos quando se orientam na vida quotidiana e que são transmitidos de geração em geração. Para a hermenêutica, a tradição não constitui um guia normativo usado para orientar a acção, mas um esquema interpretativo, uma estrutura mental prévia, usada para ajudar os indivíduos a entender e a compreender o mundo em que foram e estão lançados. Toda a compreensão funda-se em pré-compreensões ou, como prefere dizer Gadamer, em preconceitos, portanto, num conjunto de conceitos que tomamos como certos e evidentes e que fazem parte integrante da tradição a que pertencemos. Nenhuma compreensão pode ser completa e inteiramente isenta destes preconceitos fácticos ou contrafácticos.
Como já vimos noutro post, Gadamer leva a cabo a requalificação da crítica iluminista da tradição. Ao opor as noções de razão, de conhecimento científico e de emancipação às noções de tradição, de autoridade e de mito, o Iluminismo não descartou a tradição como tal, mas articulou um conjunto de novos preconceitos e de novos métodos que formavam o núcleo duro de outra tradição: a tradição do próprio Iluminismo. Por conseguinte, o Iluminismo não constitui a antítese da tradição, mas é, ele próprio, uma tradição entre outras tradições: um conjunto de suposições ou preconceitos aceites como verdadeiros, sem exame prévio, que articulam uma estrutura cognitiva que ilumina o conhecimento do mundo. Quando Habermas lhe lembra que a tradição pode ser criticada, Gadamer responde que esta é sempre uma tradição aberta e em constante mudança.
2º. Aspecto normativo. As tradições também são conjuntos de suposições, crenças e padrões de comportamento, trazidos do passado, que servem como princípios orientadores para as acções e as crenças do presente. Este aspecto normativo da tradição manifesta-se de duas maneiras: a) as tradições do passado podem funcionar como princípio normativo no sentido de rotinizarem determinadas práticas (práticas rotineiras), desse modo realizadas com pouca reflexão, dado que sempre foram realizadas da mesma maneira ao longo dos tempos. A vida quotidiana desenrola-se normalmente sob o signo da rotina. b) As tradições do passado também podem funcionar como princípio normativo no sentido de fundamentarem tradicionalmente determinadas práticas (práticas tradicionalmente fundamentadas), isto é, de justificá-las pela referência à tradição.
3º. Aspecto Legitimador. A tradição pode, em determinadas circunstâncias, servir como fonte de apoio para o exercício do poder e da autoridade. Max Weber distinguiu três modos de estabelecer a legitimidade de um sistema de dominação: a) a autoridade legal, cujas reivindicações de legitimidade se fundam em fundamentos racionais que envolvem a crença na legalidade das normas promulgadas; b) a autoridade carismática, cuja legitimidade se baseia em fundamentos carismáticos que implicam a devoção à santidade ou ao carácter excepcional de um indivíduo; e c) a autoridade tradicional, cuja legitimidade fundada na tradição envolve a crença no carácter sagrado de tradições imemoriais.
No caso da autoridade legal, os indivíduos obedecem a um sistema impessoal de normas, porque a burocracia é o regime de ninguém e onde ninguém pode ser responsabilizado, excepto os chamados "criminosos" criados pelas próprias leis. No caso da autoridade tradicional, as pessoas obedecem à pessoa que ocupa a posição de autoridade tradicionalmente sancionada: as suas acções tornam-se obrigatórias por tradição. Nalgumas circunstâncias, a tradição pode ter um carácter político, funcionando não só como princípio normativo de acção, mas também como base para o exercício do poder exercido sobre outros, de modo a garantir a sua obediência. Neste sentido, as tradições tornam-se ideológicas, sendo usadas para sustentar relações desiguais e assimétricas de poder.
4º. Aspecto Identificador. Este aspecto da tradição diz respeito ao papel desempenhado pela tradição na formação da identidade: identidade pessoal e identidade colectiva. A auto-identidade refere-se ao sentido que cada um tem de si mesmo, como sendo um indivíduo dotado de determinadas características ou traços pessoais e situado numa determinada trajectória de vida. A identidade colectiva refere-se ao sentido que cada um tem de si mesmo como sendo membro de um grupo social ou colectividade mais vasta. Trata-se, portanto, do sentido de pertença: a noção de fazer parte integrante de um grupo social que tem uma história própria e um destino colectivo comum.
O processo de formação de identidade não começa do nada; pelo contrário, como já vimos noutro post, constrói-se sempre a partir de um conjunto de material simbólico pré-existente que constitui a fonte da identidade. Ora, as tradições são precisamente reservatórios de suposições, preconceitos, crenças e padrões de comportamento que, trazidos do passado, fornecem os materiais simbólicos necessários para a auto-formação da identidade individual e colectiva. Assim, o sentido que cada um tem de si mesmo e de pertencer a um grupo social é moldado e condicionado pela tradição a que pertence. (CONTINUA)
J Francisco Saraiva de Sousa

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Internet e CyberFilosofia

A comunicação mediada por computador (CMC), usando instrumentos tais como correio elecrónico ("e-mail"), "open virtual discussion groups" (ou "newsgroups"), fóruns, "real-time text correspondence" (ou "chat rooms"), "voice exchange" (ou "telephony"), e "face-to-face vídeo communications" (ou "videoconferencing"), tornou-se uma rotina integrada na vida quotidiana da maior parte da população. A Internet é precisamente a espinha dorsal da comunicação global mediada por computador: é, portanto, a rede que liga mais redes de computadores, a qual possibilita a criação de novas comunidades virtuais (H. Rheingold), levando as pessoas a unir-se on-line em torno de valores e interesses partilhados, a elaboração de identidades on-line consistentes com as suas identidades off-line, sobretudo entre os utilizadores sexualmente estigmatizados, e a emergência de uma «cultura da virtualidade real» (Castells), da qual a filosofia não é estranha. (Leia o restante texto neste post Computadores, Internet e CyberFilosofia.)
J Francisco Saraiva de Sousa

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Documentos Blogosféricos

O autor do blogue «Navegador Solitário» esta a fazer uma série de blog-reportagens muito interessantes, com a participação de bloguistas de toda a comunidade de língua portuguesa. Como nessas entrevistas, os bloguistas expõem a sua perspectiva emic sobre a blogosfera, achei necessário fazer uma ligação e possibilitar a sua leitura aqui neste blogue dedicado à «CyberFilosofia». Assim, estas entrevistas podem ser vistas como documentos blogosféricos, susceptíveis de serem trabalhados teoricamente.
1º Documento: EM CONVERSA COM O AUTOR DO DIÁRIO DE UM SOCIÓLOGO.
2º Documento: EM CONVERSA COM O AUTOR DO BLOG ALTO HAMA.
3º Documento: EM CONVERSA COM O AUTOR DO BLOG MASCHAMBA.
4º Documento: EM CONVERSA COM O AUTOR DO BLOGUE JUVENTUDE REBELDE.

O primeiro documento foi objecto de alguns comentários, dos quais destaco uma breve observação minha, Bloguismo Cerebral, e outra da Helena, «Tipos de Blogs!» (Veja o blogue «Socióloga Avense»).
Agradeço ao Agry, o autor do blogue «Navegador Solitário», ter tido esta brilhante ideia que nos permite recolher dados, de modo a podermos elaborar uma teoria empírica da blogosfera cyberportuguesa. (Logo que saiam novas entrevistas, refiro-as aqui nesta lista.)
J Francisco Saraiva de Sousa

domingo, 18 de novembro de 2007

Blogosfera e Democracia Electrónica

As mentes apáticas e conformistas tendem a reduzir a democracia electrónica ao voto electrónico e a outros procedimentos técnicos, como se a democracia electrónica fosse um conjunto de processos tecnológicos usados ao serviço da democracia representativa tal como a conhecemos. Uma tal concepção de democracia electrónica é extremamente redutora, muito pouco política e revela a satisfação dessas mentes com a sociedade estabelecida: as mentes que a defendem são, portanto, metabolicamente reduzidas, isto é, mentes mais interessadas em defender os seus interesses privados do que em melhorar a democracia representativa.
A democracia electrónica pode ser vista como uma longa e extensa conversa online sobre o mundo, na qual todos os cidadãos podem participar livre e racionalmente, sem coacções. Usar as funcionalidades da Internet como esferas públicas ou fóruns de debates públicos é fazer um uso libertador e responsável das novas tecnologias, em face do qual os outros usos denunciam a ideologia que os move: a apologia da ordem estabelecida. Nesta perspectiva, a democracia electrónica possibilita a participação política de todos aqueles cidadãos que, de outro modo, o predominante, não têm direito à palavra, a não ser em dias de eleições. A democracia electrónica reanima o espírito da democracia ateniense num novo espaço público virtual: a rede. Como forma de democracia participativa, a democracia electrónica pode potencialmente reanimar a política, a formação da consciência política, o exercício de uma cidadania responsável e empenhada no debate crítico dos assuntos públicos e, deste modo, contribuir para melhorar a qualidade da democracia representativa.
Os teóricos da democracia electrónica nunca a apresentaram como uma forma de democracia directa e, portanto, como alternativa política credível à democracia representativa. Esta ideia absurda é uma mentira inventada por aqueles que temem, e com razão, que a participação dos cidadãos lhes roube visibilidade. De facto, esta pode ser uma tarefa da democracia electrónica: criticar severamente aqueles que usam e abusam do poder para benefício próprio e que, por isso, fazem tudo para reduzir os cidadãos à condição de «metecos», isto é, de excluídos políticos. Contudo, embora a tecnologia ofereça essa possibilidade de alargar virtualmente a esfera pública, devemos ajudar todos aqueles que desejam sinceramente participar e contribuir para a politização da sua consciência: dotá-los de espírito crítico, de resto um bem muito escasso.
Todos os meus textos publicados no blogue «CyberCultura e Democracia Online» revelam claramente que sou um adepto prudente da democracia electrónica: acredito que as comunidades virtuais podem ajudar os cidadãos a revitalizar a democracia, mediante a participação responsável na esfera pública alargada a todos e liberta da comunicação manipuladora.
No entanto, sou herdeiro de uma constelação teórica que tem sido e ainda continua a ser muito crítica em relação aos efeitos da comunicação mediada por computador, mas sobretudo em relação aos media electrónicos: refiro-me evidentemente à teoria crítica e à Escola de Frankfurt. Por isso, e dado que não negligencio os seus receios legítimos, pretendo estudar melhor estes três grupos de cépticos e analisar os seus argumentos, de modo a clarificar o próprio conceito de democracia electrónica.
Acredito no potencial democratizador das telecomunicações e dos computadores e, escutando as vozes que se fazem ouvir num vasto conjunto de blogues, defendo a ideia básica de que a comunicação mediada por computador leva aos cidadãos responsáveis alguns poderes dos mass media, detidos pelos mandarins da política e da economia, reabilitando democraticamente a esfera pública. A comunicação mediada por computador é potencialmente uma tecnologia democratizante e, por isso, estou empenhado na luta contra todas as tentativas de feudalizá-la ou colonizá-la abusivamente, contra os interesses reais dos cidadãos, que o jornalismo manipulatório tenta converter em leitores-consumidores.
As criticas sociais às novas tecnologias podem ser agrupadas em três frentes teóricas, intimamente relacionadas umas com as outras ou, pelo menos, complementares:
(1) a teoria da indústria cultural e a sua reformulação por Habermas,
(2) a teoria panóptica do poder de Michel Foucault, de resto inspirada em Jeremy Bentham e seu projecto prisional,
(3) e a teoria hiper-realista nas suas diversas versões, a de Guy Debord ou a de Jean Braudillard.
Estas críticas são pertinentes e merecem ser escutadas e pensadas. Como já as meditei, ao longo de inúmeras aulas e seminários de «teorias da comunicação social», posso dizer que a comunicação mediada por computador pode ser o veículo privilegiado para a realização dos «ideais» que norteiam a crítica da sociedade. Mas, como num mundo global, nada está estabelecido definitivamente, é necessário reflectir nas ameaças sugeridas pelos restantes cépticos e estar preparado para fazer face a elas sempre que surjam no horizonte. Apesar disso, o meu optimismo tem sido reforçado pelo conhecimento de bloguistas extremamente competentes e inteligentes, alguns dos quais estão desempregados, talvez devido à mediocridade instalada no poder que bloqueia sistematicamente o desabrochar de novas capacidades.

J Francisco Saraiva de Sousa

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Filosofia da Blogosfera (Um)

Estudos Preparatórios.
Num post publicado neste blogue tinha anunciado que iria publicar um texto sobre a blogosfera, cujo estudo se situa no âmbito da CyberFilosofia. Antes desse anúncio, já tinha editado outros textos que tratam de assuntos da competência deste novo ramo da investigação filosófica, dos quais destaco apenas estes:
Cultura das Interfaces, Vidas Electrónicas, GaySex on the Internet, CyberFilosofia e Teoria da Informação I, CyberFilosofia e Teoria da Informação II e O EU E A EXPERIÊNCIA MEDIADA num mundo global.
Nos dois textos sobre «CyberFilosofia e Teoria da Informação», digo claramente que «a cyberfilosofia não é uma mera teoria da informação e da comunicação e, até mesmo quando se debruça sobre esses conceitos, visa a sua ultrapassagem. Com efeito, o mundo da Internet é um mundo social e, como tal, é um mundo histórico. Esta lição de Hegel deve ser integrada na cyberfilosofia, de modo a que esta possa pensar radicalmente a revolução tecnológica do mundo moderno, cada vez mais global e mediado». E, já no final do primeiro texto, acrescento: «Qualquer um dos modelos processuais da comunicação apresentados é incapaz de explicar a comunicação mediada por computador. Esta exige um novo paradigma da comunicação, dada a sua natureza intrinsecamente interactiva, democrática e global».
Esse modelo mais apropriado ao estudo da comunicação mediada por computador é, no fundo, o modelo do diálogo, o qual mereceu a nossa atenção noutros textos editados no nosso blogue «CyberCultura e Democracia Online». (Veja n'«Os Meus Elos».) A aplicação deste modelo do diálogo ou da «conversa alargada sobre o mundo» permite distinguir a blogosfera da mediasfera, em particular do jornalismo profissional. Esta tese foi também desenvolvida por Guiseppe Granieri, Bruce Sterling, Rebecca Blood e Ross Mayfield.
Os textos em questão são dedicados ao estudo da blogosfera entendida como um novo espaço público virtual, aberto a todos e livre de constrangimentos institucionais, muito diferente da mediasfera, dos quais destaco os seguintes: Bloguismo e Jornalismo, Blogosfera Portuguesa Ameaçada?, Colonização da Blogosfera Portuguesa?, BlogoFranciscanos, Blogosfera Portuguesa, Luso-Bloggers Metabólicos, e Abrupto: Um blogue totalitário, entre outros que fazem referências breves à blogosfera portuguesa. A maior parte destes textos são polémicos, dado terem surgido de uma polémica que travei com outros bloguistas a propósito da situação actual da blogosfera portuguesa. Apesar disso, transparece neles os princípios fundamentais que orientam a nossa concepção científica da blogosfera, em geral, e da blogosfera portuguesa, em particular.
Por agora, limito-me a referir esses textos que avançam com um conjunto de hipóteses de trabalho e de princípios teóricos fundamentais para a constituição da cyberfilosofia da blogosfera. A seguir, num próximo texto (Dois), iremos apresentar um resumo desses textos, fora do contexto polémico em que surgiram, e, finalmente, apresentarei a blogscience ou, simplesmente, a filosofia política da blogosfera (Três).
J Francisco Saraiva de Sousa

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Filosofia da Blogosfera: Uma BlogScience

Dentro de algumas horas, talvez já de madrugada, vou editar aqui, neste blogue, um texto sobre blogscience que será apresentada como um sector importante da cyberfilosofia.
Portanto, todos aqueles que lêem regularmente os meus blogues poderão encontrar nesse texto respostas ou, pelo menos, novas vias de pesquisa, que satisfaçam a sua curiosidade e indiferença em relação ao uso criativo e honesto da Internet.