<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-4759866844732089627</id><updated>2011-11-27T15:50:44.689-08:00</updated><category term='CyberAntropologia'/><category term='Antropologia Filosófica'/><category term='Filosofia da Blogosfera'/><category term='BlogScience'/><category term='Cinema'/><category term='Cyberphilosophy e Matemática'/><category term='MetaFilosofia'/><category term='Arquitectura'/><category term='CyberPhilosophy e CyberEstética'/><category term='Literatura'/><category term='CyberPhilosophy e Linguística'/><category term='Filosofia da Técnica'/><category term='Evolução'/><category term='Poesia'/><category term='Filosofia da Linguagem'/><category term='Crítica da Ideologia'/><category term='Filosofia Sexual'/><category term='CyberPhilosophy e CyberSociologia'/><category term='CyberMedicine e Filosofia Médica'/><category term='CyberPhilosophy'/><category term='CyberEstética'/><category term='Filosofia do Corpo'/><category term='História'/><category term='Luso-Atrofia Cognitiva'/><category term='CyberAntropologia e Filosofia'/><category term='CyberBiologia'/><category term='Urbanismo'/><category term='CyberPhilosophy e CyberBiologia'/><category term='Filosofia da Educação'/><category term='Escola do Porto'/><category term='NeuroFilosofia'/><category term='Fotografia'/><category term='CyberSociologia'/><category term='CyberPhilosophy e Comunicação'/><category term='Pintura'/><category term='Epistemologia'/><category term='Imaginação Política'/><category term='Filosofia da Mente'/><category term='Estética'/><category term='Filosofia da Religião'/><title type='text'>CyberPhilosophy</title><subtitle type='html'>Um novo campo da investigação filosófica.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>J Francisco Saraiva de Sousa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14064808742564506644</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>123</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4759866844732089627.post-8077771072608430213</id><published>2010-09-27T05:55:00.000-07:00</published><updated>2010-09-27T06:02:48.113-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Imaginação Política'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crítica da Ideologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Antropologia Filosófica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberAntropologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberSociologia'/><title type='text'>Alfred Schutz: Fenomenologia e Sociologia</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/TKCUmGJ-yjI/AAAAAAAAAFY/v7GRq0XGqxg/s1600/Alfred+Schutz.jpg"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5521576525364644402" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 200px; CURSOR: hand; HEIGHT: 142px" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/TKCUmGJ-yjI/AAAAAAAAAFY/v7GRq0XGqxg/s200/Alfred+Schutz.jpg" border="0" /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;«&lt;em&gt;A auto-evidência é o campo do saber inquestionavelmente certo. A perda da auto-evidência abala este campo: sei cada vez menos, por isso tenho opiniões diferentes. /No "caso normal" da modernização não preciso mais decidir-me se estou disposto a sacrificar a minha vida por razões de fé ou por meras opiniões. O conhecimento inquestionavelmente seguro dissolve-se num conjunto de opiniões unidas de modo livre, sem mais o carácter de agregado muito constrangedor. Interpretações firmes da realidade tornam-se hipóteses. Convicções tornam-se questões de gosto. Preceitos tornam-se sugestões. Estas mudanças na consciência criam a impressão de certa superficialidade&lt;/em&gt;». (&lt;strong&gt;Peter L. Berger&lt;/strong&gt; &amp;amp; &lt;strong&gt;Thomas Luckmann&lt;/strong&gt;) &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Não me lembro de ter aprendido fenomenologia durante o curso: tenho uma vaga memória de ter escutado umas noções não menos vagas sobre Husserl e Merleau-Ponty, mas, como já os conhecia, ocupava o meu tempo a ler os meus mestres da Escola de Frankfurt, interrompendo as aulas para colocar questões que embaraçavam a professora e a reduziam à sua mais triste mediocridade, com o olhar perdido algures no horizonte. No entanto, redescobri novos livros de Merleau-Ponty, sobretudo os que eram omitidos nas aulas: introduzi o marxismo, mais precisamente clarifiquei a passagem da fenomenologia transcendental para a fenomenologia existencial e a síntese operada por Sartre e Merleau-Ponty entre fenomenologia e &lt;/span&gt;&lt;a href="http://cyberdemocracia.blogspot.com/2010/04/marxismo-e-fenomenologia.html"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;marxismo&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;, mas a professora continuava a seguir as velhas e bolorentas folhas da sua pastinha de textos. Mudei de táctica e passei a discutir dois textos de Merleau-Ponty: "&lt;em&gt;O Filósofo e a Sociologia&lt;/em&gt;" e "&lt;em&gt;De Mauss a Claude Lévi-Strauss&lt;/em&gt;", que completava sem o nomear com as obras de Alfred Schutz (Ver foto). Devo acrescentar que, na altura, «picava» outra professora que queria ser mais revolucionária do que eu, trazendo para os debates da aula uma outra figura: Vilfredo Pareto. E foi numa dessas confluências caóticas de pensamentos que surgiu no meu espírito a ideia de levar até ao fim a redução fenomenológica, a qual mais tarde vai orientar a leitura que fiz de uma obra de Heidegger: "&lt;em&gt;Kant e o Problema da Metafísica&lt;/em&gt;". Entre estes dois momentos vitais, há as aulas de neuro-anatomia, onde o professor me forçava a fazer uso dos meus conhecimentos de fenomenologia e de filosofia da mente: o resultado final foi a redução da ontologia a uma &lt;/span&gt;&lt;a href="http://cyberself-neurofilosofia.blogspot.com/2009/07/cerebro-social.html"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;neuro-logia&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;, com recurso à teoria (matemática) dos grafos. Esta redução é provavelmente a realização mais fascinante da minha vida académica: agradava aos professores de Medicina, mas irritava os professores de Filosofia que nunca compreenderam a leitura que fazia da fenomenologia, já sob a influência do estruturalismo e de uma figura incontornável: Louis Althusser que aburguesou facilmente o meu marxismo. Eu era nesse tempo um materialista convicto e usava teorias neurobiológicas fortes para renovar o materialismo: movia-me no âmbito do programa da biologia molecular e das neurociências. Mas deixei marca na Faculdade de Filosofia: uma ou outra molécula pardacenta tentou estabelecer contactos com professores da Faculdade de Medicina, como se estes não me colocassem a par do teor dos contactos: o nosso tema preferido nas conversas de bar ou mesmo nas aulas de genética das populações eram as moléculas filosóficas, as nossas batatas deslumbradas. A minha fenomenologia da célula já era computacional - aprendi programação nas aulas de genética - e hoje procuramos resolver esse problema com programas informáticos sofisticados. Porém, não foi a célula e a sua complexidade que me fizeram moderar o ritmo, mas a memória e a fisiologia do descanso: passei a defender um neuro-reducionismo moderado, fortemente apoiado na biologia das adições. É muito difícil desmentir tanto a versão forte e dura da neuro-redução, como a sua versão moderada: o suporte empírico foi minuciosamente escolhido para evidenciar a força dos modelos propostos. Porém, como fui eu que os elaborei, usando-os de modo complementar em função da natureza dos fenómenos analisados, descobri um terceiro modelo que supera os anteriores conservando-os. E é este último modelo que uso sem o explicitar para repensar a Filosofia. Nos centros de pesquisa científica e tecnológica, da genética molecular até às neurociências moleculares, passando pela bioquímica e pelo genoma, as comunidades científicas anseiam pelo regresso da Grande Filosofia: precisamos de teorias unificadas e sintéticas, pensadas de modo a articular as diversas áreas do conhecimento. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Quando formulei o procedimento da neuro-redução, eu já conhecia a fenomenologia social da vida quotidiana de Alfred Schutz. A tradição fenomenológica é internamente diversificada: as abordagens filosóficas de Scheler, Heidegger, Schutz, Merleau-Ponty e Sartre não seguem necessariamente o mesmo caminho que Husserl percorreu. A maior parte dos fenomenólogos posteriores a Husserl renunciou ao desejo de produzir uma filosofia transcendental e voltou-se, num movimento da essência para a existência, para a experiência humana do mundo da vida. Husserl procurou estabelecer um esquema filosófico capaz de transcender o conhecimento empírico: a noção fundamental desse esquema é a de que toda a consciência é intencional no sentido que Franz Brentano lhe atribuiu. A intencionalidade da consciência significa que ela é sempre dirigida para objectos: não podemos apreender um suposto substrato de consciência enquanto tal, mas somente a consciência de algo. Para Brentano, todas as nossas experiências, tais como aparecem no fluxo do nosso pensamento, referem-se necessariamente a objectos experimentados: o pensamento, o temor, a fantasia ou a recordação só existem - respectivamente - como pensamento do objecto pensado, temor do objecto temido, fantasia do objecto desejado ou imaginado e recordação do objecto recordado. O carácter intencional de todas as nossas cogitações supõe uma distinção entre o acto de pensar e o objecto ao qual este acto se refere, entre o acto de perceber e o percebido, entre o &lt;em&gt;cogitare&lt;/em&gt; e o &lt;em&gt;cogitatum&lt;/em&gt;, enfim entre a &lt;em&gt;noesis&lt;/em&gt; e o noema: a intencionalidade é o tema fundamental da investigação fenomenológica, que Husserl utiliza para radicalizar o conceito cartesiano do fluxo das cogitações. Nesta perspectiva, a epistemologia - a teoria do conhecimento - implica a ontologia: o conhecimento implica o ser e o «objectivo» só tem o significado que a consciência lhe atribui quando se dirige a ele. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O carácter intencional das cogitações permite a Husserl radicalizar o conceito cartesiano de Ego. O método cartesiano exige uma mudança de atitude do homem perante o mundo, mediante a qual deixa de aceitar ingenuamente a existência do mundo tal como é: o carácter indubitável do &lt;em&gt;ego cogitans&lt;/em&gt; só pode ser restabelecido mediante a dúvida filosófica. Descartes descobriu o âmbito da subjectividade transcendental como domínio da certeza, mas abandona-o logo a seguir quando identifica o ego com &lt;em&gt;mens sive animus sive intellectus&lt;/em&gt;: o ego que só pode ser descoberto quando se separa do mundo e reflecte sobre ele é substituído pela alma ou mente humana dentro do mundo. A meditação cartesiana de Husserl inicia-se com a crítica fenomenológica desta identificação operada por Descartes. Para estabelecer o âmbito puro da consciência, Husserl elaborou o procedimento da redução fenomenológica: a fenomenologia não nega a existência do mundo externo, mas decide por razões meramente analíticas suspender a crença na sua existência. Por outras palavras, a fenomenologia abstém-se intencional e sistematicamente de todo o juízo a respeito da existência do mundo externo, colocando-o «entre parêntesis» ou efectuando a redução fenomenológica, de modo a ir mais além da atitude natural do homem que vive num mundo que aceita sem questionar: a passagem da atitude natural para a atitude filosófica visa alcançar um nível de certeza indubitável e revelar a esfera purificada da consciência, na qual se baseiam todas as nossas crenças, e a partir da qual podemos voltar à esfera mundana, na medida em que todas as nossas descobertas dentro da esfera aprioristicamente reduzida serão válidas na esfera mundana da nossa vida no mundo. Com o uso do método da epoché, Husserl demonstrou que era possível atingir uma esfera de consciência purificada: a subjectividade transcendental mais não é do que a esfera auto-suficiente de experiência fora do tempo e do espaço. A redução transcendental permite produzir verdades não-empíricas, apodícticas, a priori, que são universalmente válidas e livres de pressupostos. Além disso, constituem um baluarte seguro contra a dúvida céptica, o historicismo, o psicologismo, o relativismo e o irracionalismo político. Para evitar o idealismo subjectivo e a sua cilada solipsista, Husserl transformou a fenomenologia numa egologia transcendental: o mundo inteiro é conservado dentro da esfera reduzida - atingida pela redução - como correlato intencional da minha vida consciente. Os objectos intencionais não são as coisas do mundo externo tal como existem e tal como são realmente, mas os fenómenos tal como aparecem na esfera reduzida do ego purificado. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Alfred &lt;/span&gt;&lt;a href="http://neurofilosofianeurofilosofia.blogspot.com/2008/10/o-problema-da-realidade.html"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;Schutz&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt; procurou articular a fenomenologia husserliana e a sociologia compreensiva de Max Weber, com o objectivo de constituir a fenomenologia como alicerce seguro para a construção de uma ciência total do comportamento social. Apesar de prestar homenagem ao ego transcendental, Schutz incide todo o seu esforço teórico na elaboração de uma fenomenologia social da vida quotidiana: a intersubjectividade aparece - simultâneamente - como um problema filosófico e um problema sociológico, que só pode ser esclarecido à luz da atitude natural. A preocupação pela atitude natural leva Schutz a inverter a epoché de Husserl: «o homem da atitude natural também utiliza uma epoché específica, aliás muito distinta da que é usada pelo fenomenólogo. Não suspende a crença no mundo externo e nos seus objectos; pelo contrário, suspende a dúvida na sua existência. O que coloca entre parêntesis é a dúvida de que o mundo e os seus objectos possam ser diferentes daquilo que lhe parecem ser. Propomo-nos denominar esta epoché, a epoché da atitude natural» (Schutz). Com esta inversão da epoché husserliana, Schutz abandona definitivamente o projecto de uma filosofia sem pressupostos. Em vez de enfrentar o problema husserliano de como o ego transcendental se converte em ego empírico, Schutz pressupõe que os agentes humanos se defrontam uns com os outros num mundo já constituído, significativo e intersubjectivo. O mundo da vida quotidiana ou do senso comum é, para os homens, a realidade suprema: os homens assumem nesta esfera da realidade a postura do senso comum, ou seja, a atitude natural. O carácter intersubjectivo deste mundo da vida quotidiana desembaraça a fenomenologia do problema da existência do outro, porque nele a existência dos outros é dada como certa: a reciprocidade de perspectivas que assumimos na vida quotidiana garante-nos a certeza da existência dos outros. A nossa experiência do outro ocorre ao mesmo tempo em que o Outro faz a sua experiência de nós: os homens orientam-se utilizando tipificações - os tipos ideais de Max Weber ou as instituições de Arnold &lt;/span&gt;&lt;a href="http://cyberdemocracia.blogspot.com/2009/07/arnold-gehlen-revisitado.html"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;Gehlen&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;, através das quais se efectuam interacções significativas. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Tal como o Husserl da &lt;em&gt;Crise das Ciências Europeias&lt;/em&gt;, Schutz concede o primado ao mundo da vida (Lebenswelt) como ponto de referência e fundamento de sentido para toda a experiência humana e para as teorias científicas que a humanidade constrói. Para Schutz, as construções de segunda ordem elaboradas pelas ciências sociais baseiam-se nas construções de primeira ordem que são usadas no mundo da vida quotidiana: os conceitos de segunda ordem remetem para as noções de primeira ordem que os agentes usam para construírem um mundo social dotado de significação. As ciências sociais enquanto contextos de significado efectuam uma tradução de ida e de volta entre as suas próprias construções teóricas e o acervo de conhecimento prévio - à mão - disponível e em uso nos contextos de significado da vida quotidiana, de modo a obedecer ao princípio da adequabilidade: os cientistas sociais devem observar acções e acontecimentos significativos típicos e coordená-los com modelos construídos de agentes típicos, os homunculi de Schutz. Deste modo, as ciências sociais evitam a reificação, elaborando sistemas conceptuais analíticos de acção social dotados de anonimidade máxima e baseados em experiências reais. A fenomenologia social estuda os modos como os seres humanos vivenciam o mundo da vida quotidiana, dotando as suas actividades de significado. Thomas Luckmann definiu-a como uma proto-sociologia que «revela as estruturas universais e invariáveis da existência humana em todos os tempos e lugares». A pretensão da fenomenologia social à universalidade tem sido severamente criticada, em especial por Norbert Elias: Schutz esboçou as precondições para a investigação científica nas ciências sociais, sem ter fornecido descrições empíricas de sociedades concretas e ter abordado os problemas do poder e da dominação. O cunho individualista da fenomenologia de Husserl reaparece na noção schutziana de sociedade como sendo constituída em círculos concêntricos em torno de si próprio: «Somente com referência a mim adquire o seu sentido específico essa relação com Outros que designo mediante a palavra "Nós". Com referência a Nós, cujo centro sou eu, os Outros estão na posição de "Vós", e com referência a Vós, que por sua vez se referem a mim, terceiras partes estão na posição de "Eles". O meu mundo social, com os alter egos que contém, está ordenado, comigo como centro, em associados (Umwelt), contemporâneos (Mitwelt), predecessores (Vorwelt) e sucessores (Folgewelt), mediante o qual eu e as minhas diferentes atitudes para com os Outros instituímos estas múltiplas relações. Tudo isto é efectuado em diversos graus de intimidade e anonimidade» (Schutz). O fantasma do solipsismo que atormenta a fenomenologia e a sua solução - a auto-experiência universal do ego transcendental - foram severamente censurados pelas fenomenologias existenciais de Sartre e de Merleau-Ponty que se voltaram para a ontologia, usando o conceito heideggeriano de ser-no-mundo para descrever a união pré-teórica dos seres humanos em sociedade. No entanto, na obra póstuma As Estruturas do Mundo da Vida, publicada por Luckmann (1974), o próprio Schutz corrige a sua noção inicial de agente individual como o «adulto plenamente consciente», mediante a elaboração de uma fenomenologia genética: escutando os fundadores da sociologia, tais como Karl Marx e Émile Durkheim, Schutz reconhece que os adultos foram crianças que aprenderam a partir de uma cultura preexistente através da socialização, entendida como o processo mediante o qual o indivíduo aprende a ser membro da sociedade: «Desde o início a criança desenvolve uma interacção não apenas com o seu próprio corpo e o ambiente físico, mas também com outros seres humanos. A biografia do indivíduo é, desde o nascimento (até à morte), a história das suas relações com outras pessoas» (Peter L. Berger &amp;amp; Brigitte Berger). Esta nova abordagem - a construção social da realidade - foi posteriormente retomada por Peter L. Berger, Thomas Luckmann, Hansfried Kellner e Brigitte Berger, além de ter influenciado a etnometodologia de Harold Garfinkel. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;J Francisco Saraiva de Sousa&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4759866844732089627-8077771072608430213?l=cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/feeds/8077771072608430213/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4759866844732089627&amp;postID=8077771072608430213&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/8077771072608430213'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/8077771072608430213'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/2010/09/alfred-schutz-fenomenologia-e.html' title='Alfred Schutz: Fenomenologia e Sociologia'/><author><name>J Francisco Saraiva de Sousa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14064808742564506644</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/TKCUmGJ-yjI/AAAAAAAAAFY/v7GRq0XGqxg/s72-c/Alfred+Schutz.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4759866844732089627.post-6493131363624454243</id><published>2010-06-12T06:39:00.000-07:00</published><updated>2010-06-12T06:56:33.056-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberPhilosophy'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Imaginação Política'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberEstética'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Urbanismo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Arquitectura'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crítica da Ideologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='História'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberSociologia'/><title type='text'>Henri Lefebvre e a Revolução Urbana</title><content type='html'>&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5481883418581539522" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 400px; CURSOR: hand; HEIGHT: 271px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/TBOP7MioGsI/AAAAAAAAAFI/zl3fbqI21wo/s400/ponte+da+arr%C3%A1bida.bmp" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;«&lt;em&gt;A sociedade urbana nasce sobre as ruínas da cidade&lt;/em&gt;». (&lt;strong&gt;Henri Lefebvre&lt;/strong&gt;)&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;1.&lt;/strong&gt; A hipótese que guia os estudos de Henri Lefebvre sobre o fenómeno urbano e a nova racionalidade urbana é muito simples: a história da sociedade mais não é do que um movimento para a sua progressiva urbanização, de resto impulsionada pela industrialização. A urbanização completa da sociedade constitui um objecto digno de análise científica e, ao mesmo tempo, o objectivo primordial de uma nova praxis política. As dimensões temporal e espacial do fenómeno urbano são estudadas mediante a articulação diacrónica da sequência dialéctica de três épocas da história social - a agrícola, a industrial e a urbana - e dos tipos históricos de cidade. O primeiro tipo de cidade depende do poder que actua como uma entidade estranha e hostil ao mercado. A cidade política (1) é marcada pela heterotopia do mercado e dos grupos sociais que praticam a arte do comércio. Num determinado momento de ruptura, o mercado vence o fórum público e a cidade política é suplantada pela cidade comercial (2): o espaço de encontro de pessoas e de coisas, ou melhor, o lugar da troca que se tornou a função urbana por excelência. A cidade comercial deixa de estar isolada do território exterior, subordina a si todo o território que a circunda, incluindo o campo, e rompe a relação directa que unia o homem à natureza. Surge uma nova forma social que, com a transformação do capital comercial em capital industrial, cede o lugar à cidade industrial (3): a indústria situa-se perto das fontes de energia e, por isso, é parcialmente indiferente à cidade, usando-a como um instrumento que submete ao seu próprio desenvolvimento. O corporativismo da cidade comercial não resiste ao choque da industrialização: a indústria representa a anti-cidade que invade todo o espaço urbano até o fazer estalar. Depois da industrialização, o crescimento extensivo da cidade e a proliferação do espaço urbano - o tecido urbano - conduzem à dissolução da cidade: as periferias, os subúrbios e as cidades satélites representam o espaço material concreto de uma nova fase histórica - a era da sociedade urbana (4) preparada pela cidade industrial. Com a elaboração do conceito de sociedade urbana dotado de uma dimensão planetária, Lefebvre começa a afastar-se das análises de Marx, Engels e Weber: a industrialização produziu, após um certo crescimento, a urbanização integral que já não pode ser reduzida à questão do alojamento ou da habitação estudada por Engels. A crise da cidade é mundial e implica toda a sociedade numa crise de transformação crítica: a própria indústria é submetida à urbanização que provocou e a explosão/implosão da cidade levará à revolução urbana e esta desembocará na nova era do urbano e do fim da história.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O esboço de Lefebvre da evolução da cidade através do tempo histórico contrasta com a visão mais pessimista e quase kafkiana apresentada por Lewis Mumford que retoma a interpretação de Patrick Geddes do ciclo urbano de crescimento da aldeia (eópolis) à megalópolis e à necrópolis: "(O) mundo metropolitano é, portanto, um mundo onde a carne e o sangue são menos reais do que o papel, a tinta e o celulóide. É um mundo em que as grandes massas humanas, incapazes de ter contacto directo com meios de vida mais satisfatórios, passam a viver por procuração, ora como leitores, ora como espectadores, ora como observadores passivos. Assim vivendo, ano após ano, de segunda mão, desligados da natureza que está fora deles e não menos desligados da natureza íntima, não admira que se afastem cada vez mais das funções da vida, até mesmo do pensamento, para as máquinas que os seus inventores criaram. Neste ambiente desordenado, apenas as máquinas têm uma parte dos atributos da vida, ao passo que os seres humanos são progressivamente reduzidos a um feixe de reflexos, sem impulso próprio de saída nem meta autónoma: o homem behaviorista" (L. Mumford). A crítica da vida quotidiana de Lefebvre tinha mostrado que a exploração do homem pelo homem, a heterodirecção e a apatia política constituíam aspectos endémicos da vida quotidiana dos habitantes da metrópole: as condições da urbanização capitalista mutilam a personalidade, inibem a formação comunitária, minam a ocupação e o envolvimento sociais e conduzem à apatia, à alienação, à ilegalidade e à criminalidade. Como resultado da segregação social e de outros mecanismos de manipulação e de controle, os indivíduos das metrópoles afastam-se uns dos outros no espaço e, deste afastamento, resulta a dissolução das relações sociais. Num estudo empírico de uma pequena cidade denominada Middletown, Robert Lynd &amp;amp; Helen Lynd observaram uma apatia política idêntica à exibida pelos habitantes das grandes cidades: indiferença generalizada e fraca propensão para as responsabilidades públicas. Além disso, a corrupção política em si não afectava os cidadãos de Middletown. Para eles, a política local era um jogo da trapaça e, por isso, recusavam entrar no jogo das autoridades municipais e dos magistrados locais. Os teóricos do urbanismo estão de acordo quando afirmam que o destino do mundo ocidental tem sido o empobrecimento da vida pública, a falta de participação na vida política, a intelectualização e a racionalização impulsionadas pela economia monetária e o desencantamento do mundo. No entanto, os marxistas que recorreram ao conceito de hegemonia de Gramsci tendem a destacar o papel das cidades como "centros de dominação" da burguesia (Frank), esquecendo que o espaço urbano também promove experiências intensificadas de individualidade, a diferença e a liberdade, como mostraram Baudelaire, Edgar Poe, Benjamin e Simmel. A grande cidade é vista como o lar da burguesia nacional, regional ou internacional, cujos elos e alianças fortalecem a cadeia da expropriação do território satélite para a metrópole dominante, ao mesmo tempo que inibem a consciência de classe dos oprimidos e explorados, desviando-os da sua missão histórica: lutar por um mundo melhor. Por isso, Fromm, Marcuse, Mills, A.G. Frank e Fannon não vêem na urbanização uma condição indispensável para a transformação qualitativa da sociedade. Ciente das contradições profundas da vida urbana, Lefebvre vai noutra direcção: Marx e Engels possibilitam uma interpretação correcta da problemática urbana, até porque Marx valorizou de modo implícito a cidade como sujeito da história; a cidade não só permitiu o surgimento do capitalismo (Pirenne), como também facilitou a divisão do trabalho. A cidade é simultaneamente produto e produtora, no sentido de permitir e facilitar a acumulação e a circulação do capital. A cidade capitalista que cresceu extensivamente à escala planetária transporta no seu seio as sementes da sua negação: a cidade do capital anulou as diferenças entre cidade e campo e, da sua dissolução, resultará a afirmação do urbano. A sociedade urbana - ainda virtual - será, na perspectiva de Lefebvre, uma sociedade socialista democrática ou associativa.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O conceito de sociedade urbana e a sua realidade compreendem um conjunto de problemas - a problemática urbana, que exige uma nova teoria capaz de a dominar e de uma praxis urbana capaz de a orientar. A estratégia urbana que reconcilia conhecimento crítico e praxis permite desvelar a ordem que se esconde na desordem urbana, mas, para atingir essa inteligibilidade, deve proceder à crítica das diversas versões da ideologia urbanística e romper com as abordagens fragmentárias do fenómeno urbano. Henri Lefebvre procurou elaborar, ao longo de diversas obras dedicadas à questão urbana, uma filosofia do urbano e não uma mera sociologia urbana, trabalhando as diferenças que distinguem a sua teoria das teorias fragmentárias, tais como a funcionalista, a de Spengler, a de Tönnies, a de Simmel, a de Weber e a de Wirth, ou mesmo a de certos marxistas, tais como Fromm, Marcuse, Mills e Fannon. Cada um dos teóricos do urbanismo teve (e tem) o seu modelo de cidade ideal: a cidade medieval serviu de modelo à solidariedade orgânica (Durkheim), à fusão da vida pública e da vida privada (Weber) ou à organização comunitária (Tönnies). Ora, segundo Lefebvre, estes modelos que anseiam pelo retorno à antiga comunidade citadina grega ou medieval, bem como os modelos que pretendem optimizar a industrialização e as suas consequências ou que deploram a alienação da sociedade industrial, constituem meras variantes da ideologia urbanística. Para pensar o urbano na sua totalidade não-fragmentada em movimento e transformá-lo, Lefebvre ajusta o conhecimento e a praxis política numa única estratégia - a estratégia urbana, com o recurso à utopia e à imaginação. A estratégia do conhecimento visa a crítica radical do urbanismo, da sua ambiguidade e das suas contradições, tendo como objectivo primordial a elaboração de uma ciência do fenómeno urbano, enquanto a estratégia política procura colocar a problemática urbana na vida política ou, pelo menos, na agenda política, de modo a defender a auto-gestão generalizada e o direito à cidade: a sociedade urbana do futuro - a realidade urbana integral como receptáculo do valor de uso, gérmen de um predomínio virtual e de uma revalorização do uso - concretizará o domínio da liberdade e a afirmação de um novo humanismo, através da conversão da vida quotidiana na cidade em obra, apropriação e valor de uso. A cidade entendida como centralidade tem sido degradada e destruída pelo capitalismo, e esta degradação urbana deve-se fundamentalmente ao conflito entre o valor de uso e o valor de troca. A cidade e a realidade urbana sempre dependeram e dependem do valor de uso, mas o domínio do valor de troca e a generalização da mercadoria produzidos pela industrialização tendem a destruir, subordinando-as, a cidade e a realidade urbana: a degradação da estrutura social da cidade deve-se não só à busca privada de lucro e à especulação imobiliária, mas também ao entendimento analítico que uniformiza e reduz a cidade a uma mera adição de elementos unifuncionais, sem levar em conta nas suas projecções o carácter afuncional do urbano, isto é, a confrontação e o contraste entre o funcional e o gratuito. O urbano é, para Lefebvre, o resultado da combinação de três traços interligados: o transfuncional - representado pelos monumentos, expressão da criatividade colectiva e da tensão utopista da cidade, o multifuncional - expresso pelas ruas e outras artérias, os fundamentos da sociabilidade e do teatro espontâneo, e o lúdico - o momento omnipresente e difundido no espaço urbano para além do tempo e do comportamento recreativo pós-laborais. O entendimento analítico de tipo funcionalista ou racionalista mina o substrato da espontaneidade social, sem o qual as estruturas arquitectónicas e urbanísticas projectadas e construídas perdem o valor recreativo, gratuito e lúdico que caracteriza essencialmente o urbano. A linguagem da arquitectura pós-moderna (Charles Jencks) exemplifica facilmente não tanto a morte da arquitectura moderna que morreu em St. Louis, Missouri, no dia 15 de Julho de 1972, às 3.32 da tarde, quando os módulos do projecto Pruitt-Igoe foram dinamitados, mas a contracção do espaço lúdico-urbano - o palco da espontaneidade social, levada ao extremo com a terrível invenção dos condomínios fechados e dos grandes centros comerciais que roubam vida, animação, comércio ou mesmo segurança às ruas nocturnas das baixas das grandes cidades (Cf. Michel de Certeau, Luce Giard, Pierre Mayol).&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Na actual situação de desordem urbana, o espaço perdeu o seu carácter de indiferença, o qual derivava da sua função residual de mero contentor de objectos produzidos pelo sistema industrial: a cidade-exposição, a cidade das galerias de Baudelaire e de Benjamin, que, em Portugal, deixou marca nos projectos das galerias da cidade do Porto e no seu Palácio de Cristal. O desenvolvimento social das forças produtivas determina a produção social do espaço, aliás um facto histórico antigo: as classes dominantes - as actuais classes dirigentes - plasmaram sempre o seu espaço urbano, com o objectivo de exercer um controle político eficaz sobre as classes dominadas. Mas o desenvolvimento capitalista das forças produtivas usa actualmente o espaço para produzir mais-valias. O capitalismo apropriou-se das cidades históricas, manipulando-as em função das suas própria exigências económicas, políticas e culturais e transformando-as em centros de decisões e de benefícios privados: o espaço urbano - vias de comunicação e edifícios - é objecto não só da especulação imobiliária, como também do consumo produtivo que emprega uma grande quantidade de força de trabalho. A nova estratégia do capital revela-se no tipo de expansão irracional, desordenada e caótica do tecido urbano: os arredores e as periferias que se multiplicam em torno dos centros históricos possuem uma baixa composição orgânica de capital e, por isso, promovem a formação de mais-valias chorudas. Para Lefebvre, o urbanismo que preside a esta formação e divisão do espaço urbano é uma ideologia manipuladora que encobre essa nova estratégia do capital, dissimulando a sua finalidade real. A acção urbanística projectada e planeada oprime os utentes da cidade, esquece as suas necessidades sociais, e, dado ser vítima do fetichismo do espaço, ilude-se quando cria espaço, com o pretenso objectivo de controlar cada vez melhor a qualidade de vida e de produzir novas relações sociais entre os habitantes da cidade. A "mitologia do arquitecto" (Cf. Aldo Rossi, Leonardo Benevolo) usada para dissimular a sua função real acaba por revelar o carácter de classe do urbanismo ou os interesses que o movem: as obras arquitectónicas e urbanísticas limitam efectivamente a prática do valor de uso. O uso foi reduzido em todo o território pelo desenvolvimento do valor de troca e do mundo das mercadorias. O urbanismo mais não é do que a superstrutura ideológica da sociedade tecnoburocrática de consumo dirigido, que organiza o espaço habitado à luz de uma racionalidade que afirma a neutralidade de um espaço que é, em última análise, espaço político. O espaço adquire um valor de troca e converte-se em mercadoria que, tal como outras mercadorias, bens e serviços, pode ser trocada no mercado: os lugares adquirem um preço que se relaciona directamente com o seu custo-tempo de produção. A projecção de habitações, a construção de edifícios ou mesmo outras escalas da organização do território - infraestruturas, auto-estradas, serviços públicos, ambientes naturais -, obedecem à mesma economia política do espaço, cujo plano geral diz obedecer a exigências técnicas quando, na verdade, está ao serviço do capital. Prisioneiros deste plano geral, os arquitectos e os urbanistas são meros funcionários de um sistema burocrático, obrigados a reduzir a realidade que pretendem representar à imagem dominante - e superiormente imposta - do habitat. Os habitantes das cidades não escapam a este controle central e, como seres reduzidos a corpos segregados, deslocados e condensados, são forçados a viver em nome de uma quantificação racional que é, em última instância, económica e financeira.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;2.&lt;/strong&gt; &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;«"&lt;em&gt;Nós, os berlinenses, escreve Hessel, temos de habitar mais ainda a nossa cidade". A sua intenção é a de que a frase seja literalmente entendida, não tanto no que se refere às casas, mas mais no que às ruas diz respeito. Pois estas são a casa do ser eternamente inquieto e em movimento que vive, aprende, conhece e pensa tanto entre as paredes das casas como qualquer indivíduo no abrigo das suas quatro paredes. Para as massas - e é com elas que vive o flâneur -, as tabuletas brilhantes e esmaltadas das lojas são adornos tão bons como os quadros a óleo no salão burguês, e até melhores; as empenas cegas são as suas secretárias, os quiosques de jornais as suas bibliotecas, os marcos de correio os seus bronzes, os bancos o seu boudoir e a esplanada a varanda de onde essas massas observam a azáfama da sua casa. No gradeamento onde os trabalhadores do asfalto penduram os casacos fica o seu vestíbulo, e o portão que leva à rua através do enfiamento dos pátios é a entrada nos aposentos da cidade&lt;/em&gt;». (&lt;strong&gt;Walter Benjamin&lt;/strong&gt;)&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O urbanismo é a maneira de conceber e de realizar as cidades e, como tal, está ass&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;ociado ao aparecimento do Estado moderno que transformou as cidades em capitais de Estado ou, pelo menos, em suportes do poder central. Isto significa que o urbanismo faz parte integrante de uma concepção de poder. Ilustres figuras mundiais converteram a arquitectura em "ciência política" através das "ciências económicas" (especulação financeira e imobiliária). O projecto d&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;a construção de Washington, apresentado por Pierre-Charles L'Enfant em 1771, era, em muitos aspectos, um imponente plano barroco: a localização dos edifícios públicos, as avenidas imponentes, as abordagens axiais, a escala monumental e o verde envolvente reflectiam a ideologia barroca do poder político. Em 1853, o barão Haussmann assumiu oficialmente a ideia de reconstruir a cidade de Paris que lhe foi confiada pelo imperador Napoleão III: grande parte da malha urbana medieval e renascentista de Paris foi demolida para dar lugar a artérias rectas que ligavam o centro da cidade aos distritos. A "geometria urbana" de Haussmann e da sua equipa dividiu Paris em três redes: a primeira rede incidiu sobre o labirinto de vielas &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;que remonta à antiga cidade medieval, concentrando-se na região próxima do rio Sena, de modo a rectificar o seu traçado e a adaptá-lo às carruagens e à locomoção dirigida; a segunda rede, situada entre o centro e a periferia, foi subordinada à administração municipal; e a terceira rede criou as intercessões entre as principais artérias urbanas que davam acesso à cidade, bem como as ligações entre as duas outras redes. Na sua descrição da cultura parisiense do século XIX, W. Benjamin deu especial ênfase às arcadas (galerias) e aos telhados, onde pulsava a vida circulante da cidade: a multidão foi politicamente dividida e os indivíduos convidados a mergulhar numa excitação frenética nessas pequenas passagens cobertas, nas suas lojas e nos seus cafés. A construção de Washington e a transformação de Paris, às quais poderíamos acrescentar a reconstrução pombalina da Baixa de Lisboa destruída pelo Terramoto de 1755, a modernização de Berlim no tempo de Frederico I ou a construção de Regent's Park e de Regent Street em Londres, expressam na arquitectura das capitais a linguagem do poder da cidade barroca: a linguagem do despotismo ou da oligarquia centralizada, personificada num Estado nacional, bem como uma nova linguagem ideológica derivada da física mecanicista, cujos postulados fundamentais já tinham sido lançados pelos exércitos e pelos mosteiros. Lei, ordem e uniformidade constituem os traços essenciais da cidade barroca: a lei confirma a situação vigente e assegura a posição dominante das classes privilegiadas; a ordem é uma ordem mecânica que sujeita os súbditos ao príncipe reinante, contra a antiga ordem baseada no sangue, na vizinhança ou nas finalidades de parentesco; e a uniformidade impõe a dominação impessoal do burocrata que, com a sua papelada e os seus processos, regulariza e sistematiza a colecta de impostos.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Na cidade do Porto, devido às reacções negativas dos produtores de vinho às regras impostas pela Companhia Geral das Vinhas do Alto Douro, o Marquês de Pombal nomeou o seu primo, João d'Almada (1757-1786), como governador militar que, acumulando estas funções com as de governador civil, se empenhou na construção de uma cidade moderna, onde o comércio, a indústria e os negócios pudessem prosperar. Em 1758, João d'Almada criou a Junta de Trabalhos Públicos do Porto, com o objectivo de transformar radicalmente a antiga urbe medieval confinada dentro da muralha fernandina e de planear o crescimento e o embelezamento da nova cidade. Financiada por um imposto sobre a produção de vinho que lhe era dado mensalmente pela Companhia Geral, a Junta deparou-se com alguns obstáculos, entre os quais a Igreja Católica e os proprietários fundiários. Este obstáculo só foi superado quando, em 1769, foi aplicada ao Porto a "legislação de excepção" que, ao condicionar o direito de propriedade ao interesse colectivo definido pelo Estado, permitiu a substituição da antiga estrutura fundiária pelo novo loteamento "regular". O Porto que resulta da intervenção urbanística dos Almadas - o filho, Francisco d'Almada e Mendonça (1786-1804), sucedeu-lhe mais tarde - abrange a urbanização de vastas áreas situadas a norte - até à Rua da Boavista - da muralha fernandina e a alteração substancial do tecido urbano medieval, de modo a articular a cidade medieval com a cidade moderna. O seu desenvolvimento levou à destruição das muralhas que atrofiavam o burgo medieval: foram abertas duas ruas - a dos Clérigos e a de Santo António (actual 31 de Janeiro) - que se unem na Praça Nova (actual Praça da Liberdade) e a muralha que a limitava pelo sul foi demolida em 1788, sendo edificado no seu lugar o Palácio das Cardosas. Ora, todas as obras urbanísticas dos Almadas foram &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;realizadas por um gabinete que centraliza e orienta os trabalhos, dispondo de verbas próprias obtidas através de impostos extraordinários e de uma legislação de excepção. Em termos de arquitectura, a moderna cidade do Porto era, no século XVIII, marcadamente barroca. Em 1725, Nicolau Nasoni foi encarregado de embelezar a Sé, acabando por projectar inúmeras igrejas e palácios da cidade do Porto e arredores. Porém, as grandes extensões urbanizadas tiveram tempo suficiente para afinar um novo estilo tipicamente portuense: um estilo neoclássico especial que, devido à acção do cônsul J. Whitehead - amigo de João d'Almada -, reflecte influências inglesas. Os dois estilos portuenses do século XVIII podem ser exemplicados pela Torre da Igreja dos Clérigos (1754-1763), de Nasoni, e o Hospital de Santo António (1770), de John Carr. O crescimento da cidade do Porto continua num ritmo excelente até meados do século XIX, mas a partir de determinado momento a influência francesa começa a manifestar-se na construção de boulevards: a Avenida dos Aliados procura ser uma réplica dos Champs Elisées. Em 1891, C. Pezarat apresentou uma proposta para unir a Praça da Liberdade com a Praça da Trindade através de uma avenida-jardim. Porém, a Câmara Municipal dirigida por Elísio de Melo só aprova esse projecto em 1915: as obras iniciaram-se com a demolição do edifício da Câmara em 1916 e só ficaram concluídas em 1956, com a inauguração do novo edifício dos Paços do Concelho. Durante esse longo período mul&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;tiplicaram-se os Passeios Públicos, as avenidas, os jardins, as esplanadas abertas (Fontainhas, Virtudes e Massarelos), as alamedas e os espaços verdes. Os jardins da Cordoaria, do Palácio de Cristal e do Passeio Alegre (Foz) foram desenhados por E. David (alemão) em 1865. A alta burguesia portuense foi fixada numa área (1882) dotada de grande qualidade arquitectónica e monumental. Nos espaços abertos da Cidade Invicta que sonham arquitectónica e organizativamente para a frente, desabrochou a maior iniciativa cultural portuguesa: a "Renascença Portuguesa".&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Esta visão política da arquitectura da cidade é compatível com a abordagem marxista mais ortodoxa que destaca o papel do sistema urbano na geração de lucro para o capital industrial: o capitalismo industrial tendeu a desmantelar toda a estrutura social da vida urbana e a assentá-la sobre a base impessoal do dinheiro e do lucro. A urbanização capitalista gerou, além da pobreza, da miséria e das desigualdades sociais e regionais, uma imensa teia de alienação obscura: o capitalismo molda tanto a forma e a organização das cidades como a consciência dos seus habitantes. À dimensão económica do urbanismo, Lefebvre acrescenta a dimensão ideológica: as desigualdades sociais e regionais geradas pelo capitalismo e encapsuladas nas cidades tendem a ser amplamente aceites ou ignoradas pelos cidadãos. O pensamento urbanístico contemporâneo é um pensamento aridamente tecnológico ou tecnomórfico, destituído de imaginação e de perspectiva utópica: os chamados especialistas do território produziram uma ideologia de adaptação que transforma os habitantes da cidade em seres apáticos, não-participativos, preguiçosos, frustrados, indiferentes e profundamente alienados da casa, do bairro e da cidade. Os seus projectos não só estão afastados da vida quotidiana, como também negam o espaço urbano aos seus utentes citadinos. Lefebvre procura formular uma teoria alternativa do urbanismo capaz de rasgar esse véu ideológico que ofusca uma compreensão clara e transparente da vida urbana, explicando a estruturação do espaço económico e social urbano pelos processos associados com a acumulação de capital. Qual é a alternativa proposta por Lefebvre para derrubar a alienação produzida pela urbanização capitalista? A restituição ao indivíduo do poder de decisão sobre o seu ambiente quotidiano: eis a resposta ingénua dada por Lefebvre. A arquitectura da cidade comporta uma prática específica, parcial e especializada, ligada à vida quotidiana, que realiza os espaços sociais adequados à estrutura da sociedade estabelecida e à sua reprodução. Esta orientação social imposta à arquitectura faz com que a sua prática oscile entre o esplendor monumental - os monumentos são lugares do poder, onde o fálico se une ao político e a verticalidade simboliza o poder, como mostra a arquitectura da Cidade Invicta - e o cinismo do habitat, forçando-a a contribuir activa e abertamente para a reprodução das relações sociais capitalistas. A arquitectura tem isolado - ao longo da história do homem - o espaço por meio de paredes, subtraindo-o à natureza, para o preencher com símbolos religiosos e políticos e com dispositivos técnicos que correspondam à ordem estabelecida. Porém, a arquitectura deveria produzir, pelo menos no nosso tempo, um espaço subtraído enquanto tal aos poderes vigentes, um espaço apropriado a relações sociais libertas dos constrangimentos da ordem capitalista: a restituição do poder de decisão aos cidadãos é vista como uma recuperação ou revitalização da vida quotidiana, mais precisamente como a sua libertação do espaço programado do Poder, dos seus dispositivos de vigilância e da sua repartição espacial da dominação.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A proposta de política urbana alternativa preconizada por Lefebvre enuncia-se numa única expressão: o direito à cidade. Este direito diz respeito a todos os habitantes enquanto sujeitos que se envolvem em interacções sociais dentro do quadro urbano e afirmam a exigência de uma presença activa e da sua participação. A base do direito à cidade não é contractual nem natural: ela relaciona-se directamente com um traço essencial do espaço urbano, a sua centralidade. Toda a realidade urbana possui um centro. Pouco importa que esse centro seja comercial, económico, financeiro, administrativo, técnico, simbólico, lúdico, informacional, comunicacional ou político; o importante é que não pode existir realidade urbana sem um centro: a centralidade revela a essência da dimensão urbana. A cidade é, segundo Lefebvre, "a forma do encontro e da conexão de todos os elementos da vida social, desde os frutos da terra até aos símbolos e às obras denominadas culturais. A dimensão urbana manifesta-se no próprio seio do processo negativo da dispersão, da segregação, como exigência de encontro, de reunificação, de informação". Na dialéctica da centralidade, a saturação conduz a outra centralidade, ao mesmo tempo que expulsa os elementos excedentários ou segregados do antigo centro para a periferia. O direito à cidade é o direito à centralidade, isto é, o direito a não ser convertido em periferia. Excluir grupos ou indivíduos do urbano é, em última análise, excluí-los da civilização ou mesmo da sociedade. A exclusão urbana é, pois, exclusão social. O direito à cidade legitima a recusa da exclusão urbana: a recusa de ser afastado da realidade urbana e da sua centralidade pela organização burocrática discriminatória. O direito à cidade é um direito de todos os cidadãos e, como direito dos homens à centralidade, não só anuncia a crise inevitável dos centros dominantes de decisão que, estando fundados na segregação e na discriminação, excluem os indivíduos ou os grupos estigmatizados que não participam nos privilégios políticos, fixando-os e isolando-os nas periferias, como também garante o direito ao encontro e à reunião: os lugares e os objectos urbanos devem responder à "necessidade" de vida social e de um centro, bem como às necessidades lúdicas e ao desejo. O direito à cidade visa constituir ou reconstituir uma unidade espaço-temporal, reconduzindo à unidade dialéctica aquilo que foi fragmentado e pulverizado pela urbanização capitalista.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Ora, para ser cumprido e realizado, o direito à cidade precisa ser objecto de conhecimento crítico das condições da sua realização. Como já vimos, a lógica económica da sociedade capitalista obedece a uma ideologia consumista, tosca e sem horizonte ou perspectiva futura: os cidadãos vivem alheados da vida urbana e dos seus centros de decisão. Os cidadãos devem tomar consciência dessa alienação para poderem assumir a tarefa da transformação urbana qualitativa, a qual exige como condição um forte crescimento da riqueza social. Dado desconfiar da intervenção do Estado - um Estado de classe, como diz Manuel Castells - neste processo de emancipação urbana e de transformação profunda das relações sociais, Lefebvre permanece prisioneiro da lógica económica que critica, porque, se não for o Estado - mesmo sendo um Estado de classe - a garantir essa criação de riqueza social tão necessária para a transformação urbana qualitativa, então esse papel compete à própria sociedade civil e à iniciativa privada. A centralidade é intrinsecamente conflitual: a centralização total reúne poder, riqueza e conhecimento numa zona territorial restrita, e a sua superação decorre da própria saturação do centro operada pela cidade capitalista que possibilitou a sua extensão espacial e a sua afirmação. A oportunidade de mudança social qualitativa depende da própria condensação social da cidade e das suas contradições internas, das quais a mais importante é talvez a contracção do espaço. A tendência para concentrar todos os centros de decisão numa zona territorial restringida suscita a escassez de espaço nessa zona. Embora não seja estranha às relações sociais de produção e de reprodução capitalistas, a penúria de espaço constitui uma contradição do espaço - uma contradição entre a abundância do passado histórico e a escassez do presente - que abre caminho a novas possibilidades sociais e históricas, em especial ao processo de apropriação individual e colectiva do espaço urbano que visa realizar uma sociedade emancipada e liberta da alienação. É certo que a noção lefebvriana de sociedade urbana enquanto sociedade aliviada do peso da repressão dos desejos instintivos do homem é ainda uma utopia, mas trata-se de uma utopia possível, no sentido de poder vir a ser realizada, tal como sucede momentaneamente nos períodos de tensão revolucionária ou na Festa do S. João do Porto e nas Celebrações das Vitórias do FCPorto, quando os cidadãos saem para as ruas, onde se entregam a práticas lúdicas e de socialização intensa, rompendo com as hierarquias sociais e sobrepondo o valor de uso do espaço urbano ao seu valor de troca. Porém, o capitalismo tem mostrado ser um sistema capaz de absorver as crises e de as usar como fases de racionalização e de adaptação, fazendo as suas "leis" conformarem-se a outros tipos de formação social. Lefebvre acreditava que a violência e as contradições sociais que acompanham o crescimento arrogante do capitalismo preparavam o caminho para a irrupção da sociedade urbana: a sua obra mais não é do que a renovação do projecto marxista de uma revolução da organização industrial, complementado com um projecto de revolução urbana.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;3.&lt;/strong&gt; «&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;em&gt;A burguesia submeteu o campo à cidade. Ela fez surgir enormes cidades; ela aumentou prodigiosa-mente a população das cidades à custa das do campo, arrancando assim uma grande parte da população ao embrutecimento da vida rural. Da mesma maneira que submeteu o campo à cidade, ela sujeitou os países bárbaros aos países civilizados, as nações de camponeses às nações burguesas, o Oriente ao Ocidente. /A burguesia elimina, cada vez mais, a dispersão dos meios de produção, da propriedade e da população. Ela aglomerou a população, centralizou os meios de produção e concentrou a propriedade num pequeno número de mãos. A consequência fatal destas mudanças foi a centralização política. Províncias independentes ou apenas federadas entre si, tendo interesses, leis, governos, tarifas alfandegárias diferentes, foram agrupadas e fundidas numa única nação, sob um único governo, sob uma única lei, com um só interesse nacional de classe, por detrás de uma única barreira alfandegária&lt;/em&gt;». (&lt;strong&gt;Marx/Engels&lt;/strong&gt;)&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A última obra de Henri Lefebvre dedicada ao estudo do fenómeno urbano é, à primeira vista, desconcertante, porque parece deslocar, fazendo-a desaparecer, a cidade em proveito do espaço, com o surgimento de novas temáticas, tais como a ecologia, a exaltaçã&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;o da natureza ou a função do Estado. Porém, esta mudança de direcção é mais aparente do que real: a obra não só faz um balanço crítico das obras anteriores, como também avança com a formulação de uma teoria unitária que articula, unificando-os, três espaços diferentes, a saber, o espaço físico, o espaço mental e o espaço social. Para levar a cabo esta tarefa, Lefebvre começa por eliminar a distância entre o espaço ideal, dependente de categorias mentais e lógico-matemáticas, e o espaço real da prática social, recorrendo a conceitos universais oriundos da Filosofia e não das ciências particulares. O conceito de produção do espaço é o universal concreto escolhido por Lefebvre e, como tal, constitui o centro da sua nova teoria unificada que é, na sua essência, uma teoria da mudança social ou uma ciência prática do espaço urbano: "A problemática do espaço compreende a problemática do urbano (a cidade, a sua expansão) e do quotidiano (o consumo programado) e substitui assim a problemática da industrialização, mas sem a eliminar, visto que as relações sociais preexistentes subsistem e o novo problema é precisamente o da reprodução". À praxis industrial sucede a praxis urbana, cuja missão histórica é realizar plenamente a sociedade urbana, não já definida em termos de mera apropriação colectiva e individual da natureza, mas sim em termos de segunda natureza. Lefebvre atribui um papel importante aos intelectuais no movimento revolucionário urbano, destacando a tricotomia habitantes-artistas-autoridades em vez da classe operária. As elites intelectuais - filósofos, artistas, literatos e cientistas - devem indicar às massas a impossibilidade de viver num espaço gerido pelas leis da massificação e pelos critérios restritivos da quantidade, de modo a induzir um espírito de mudança enraizado na dimensão espacial e temporal da vida quotidiana - o mundo da vida de Husserl, Schutz e Habermas -, capaz de construir o urbano como obra (de arte) e de modelar a sociedade segundo os seus desejos ou segundo o seu Desejo.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A construção teórica de Lefebvre funda-se no princípio de que "o espaço é um produto social". Este pri&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;ncípio do espaço como produção social já está presente nas obras de Marx, Engels, Alfred Weber (irmão de Max Weber), Simmel e Lukács, onde a vida urbana não é explicada em função da forma espacial da cidade, mas sim em função dos efeitos dos padrões de mobilidade social: a fragmentação e a diversidade da vida urbana, bem como o movimento, a diversidade de estímulos e as apropriações visuais dos lugares, constituem aspectos centrais da experiência do espaço urbano. A análise de Marx da acumulação capitalista mostra que esta se baseia na aniquilação do espaço pelo tempo, o que produziu transformações profundas na agricultura, na indústria e na população ao longo do tempo e do espaço. No entanto, coube a Durkheim elaborar uma teoria social do espaço, mediante a impugnação da concepção kantiana do espaço como um meio vago e indeterminado. A sua teoria compreende basicamente dois elementos: Dado que numa determinada sociedade todos os seus membros têm representações semelhantes do espaço, a causa dessas representações espaciais é de natureza social (1), e essas representações espaciais espelham quase literalmente, pelo menos em alguns casos, o padrão dominante de organização social (2). As categorias do entendimento - escreve Durkheim - "não só vêm da sociedade, como as próprias coisas que exprimem são sociais. Não somente foi a sociedade que as instituiu, como são aspectos diferentes do ser social que lhes serve de conteúdo: a categoria de &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;género começou por ser indistinta do conceito de grupo humano; é o ritmo da vida social que está na base da categoria de tempo; o espaço ocupado pela sociedade é que forneceu a matéria da categoria de espaço; a força colectiva é que foi o protótipo do conceito de força motriz, elemento essencial da categoria de causalidade. No entanto, as categorias não são feitas para serem aplicadas unicamente ao reino social, elas estendem-se à realidade inteira". Da Escola Durkheimiana destacam-se os trabalhos teóricos de Marcel Mauss (sociedade esquimó), Lucien Lévy-Bruhl (povos primitivos), Jean Cazeneuve (locais sagrados), Maurice Halbwachs (memória colectiva), Robert Herz (predominância da mão direita), Marcel Granet (chineses) e J. Chelhod (árabes), entre tantos outros, que ajudaram a clarificar a noção colectiva de espaço nos tipos mais diversos de organização social.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Sem abdicar da sua marcação marxista, Lefebvre utiliza o conceito de produção de espaço no sentido hegeliano, para designar o processo pelo qual os homens, enquanto seres humanos, produzem e reproduzem a sua vida, a sua história e a sua consciência: não existe nada na história e na sociedade que não tenha sido produzido pelos homens. A próp&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;ria natureza, tal como se apresenta na vida social aos órgãos dos sentidos, foi transformada e produzida pela acção humana. Tomado neste sentido mais alargado, o princípio da produção do espaço tem implicações de grande alcance, uma das quais é o desaparecimento irreversível do espaço-natureza. A visão lefebvriana da natureza não é instrumental: a dominação total da natureza operada pelo capitalismo é claramente condenada. A tarefa não é dominar a natureza, mas transformá-la num símbolo que acompanha a sua destruição real, de modo a podermos salvá-la e, ao mesmo tempo, participar na conjura contra ela. Anthony Giddens considera que a nossa sociedade vive para lá do fim da natureza, não no sentido do mundo físico e dos processos físicos terem deixado de existir, mas no sentido de existirem poucos aspectos do ambiente natural que nos rodeia que não tenham sido afectados e modificados pela intervenção do homem, porque, como mostrou Lefebvre, a natureza foi reduzida ao longo da história humana a "matéria-prima" sobre a qual actuaram as sociedades e os respectivos modos de produção para produzir o seu espaço. Cada sociedade produz o seu espaço e este espaço inclui as relações sociais de reprodução e as relações de produção. O neocapitalismo moderno complexifica o espaço social, dotando-o de uma tripla-relação: a reprodução biológica, a reprodução da força de trabalho e a reprodução das relações sociais de produção. O espaço entendido como produto de um processo produtivo tem uma história: história da sua produção, das sua&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;s formas e das suas representações determinada pelo desenvolvimento das forças produtivas e das relações de produção. Numa primeira aproximação, Lefebvre elabora uma sequência de cinco tipos de espaço que, mais tarde, especifica em função da periodização histórica dos modos de produção: o espaço absoluto, o espaço histórico, o espaço abstracto, o espaço contraditório e o espaço diferencial. O espaço absoluto é o lugar natural pré-seleccionado pela sua consagração, mediante a qual é transformado em símbolo ou em parte de um rito: as forças políticas que ocupam esse espaço consagrado apropriam-se, administrando-a, da produção daqueles que criaram o espaço. Sacerdotes, escribas, guerreiros e príncipes usurpam o espaço e dominam os camponeses e os artesãos. As contradições inerentes às relações sociais de produção conduzem à passagem para outro modo de produção e o espaço-comunidade de sangue dá lugar ao espaço histórico, um espaço relativizado e animado por &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;um sujeito colectivo: a cidade histórica ocidental. A actividade produtiva separa-se da reprodução que perpetua a vida social e torna-se escrava da abstracção: trabalho social abstracto, espaço abstracto. O espaço abstracto - enquanto espaço produzido pelo capitalismo - não se define apenas pelo desaparecimento das árvores, pelo distanciamento da natureza, pelos vazios estatais ou militares, pelas praças-encruzilhadas ou pelos centros comerciais onde confluem as mercadorias, o dinheiro e os automóveis, mas sobretudo pela sua abstracção que esconde, no seu sistema reticular, a vigilância do poder político: "O capitalismo ressurgente do século XVII tratou terrenos, quarteirões, ruas e avenidas como unidades abstractas destinadas à compra e venda, desprezando os usos históricos, as condições topográficas ou as necessidades sociais" (Lewis Mumford). A uniformidade absoluta dos lotes resulta da equiparação do valor da terra ao do dinheiro. O espaço social moderno é usado pelas classes dirigentes como instrumento polivalente para desmembrar e dispersar as classes dominadas e para controlar e regular a sociedade através da organização tecnocrática dos fluxos económicos, financeiros e sociais que definem a cidade moderna. A &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;divisão social e técnica do trabalho é plasmada nesse espaço urbano, complexo e quotidiano, que assegura, em grande medida, a reprodução das relações de produção, dissociando o desejo e as necessidades e fornecendo à classe média representações tranquilizadoras que lhe garantem um lugar rotulado e assegurado. No entanto, no seio desse espaço urbano abstracto emergem novas contradições, das quais a mais importante é a contradição existente entre a possibilidade teórica de controlar globalmente o desenvolvimento do espaço e o seu parcelamento dependente das leis da economia de mercado. Deste modo, o espaço de contradição antecipa o espaço diferencial como antítese do espaço abstracto.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A história social do espaço urbano esboçada por Lefebvre faz corresponder aproximadamente, de modo imperfeito, cada tipo de espaço urbano a um determinado modo de produção, &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;seguindo a periodização histórica dos modos de produção de Marx: ao comunismo primitivo corresponde o espaço analógico, ao modo de produção antigo ou esclavagista o espaço cosmológico, ao modo de produção medieval ou feudal o espaço simbólico, ao modo de produção capitalista o espaço homogéneo e fragmentado, sendo a transição do feudalismo para o capitalismo realizada pelo espaço perspectiva do Renascimento, e, finalmente, ao socialismo o espaço diferencial. O espaço analógico é o espaço ocupado pelas comunidades primitivas que adoptam o organismo humano como modelo inspirador da construção do seu espaço quotidiano. No modo de produção antigo, a cidade ou um dos seus monumentos expressam e reproduzem a ordem cósmica. O espaço da cidade medieval apresenta-se como um espaço cheio de símbolos religiosos e o mesmo pode ser dito do espaço perspectiva do Renascimento. O capitalismo gera um espaço homogéneo e fragmentado: homogéneo, porque tudo nele é equivalente e objecto de troca, e fragmentado, porque está dividido em pedaços e parcelas que se vendem segundo os critérios estabelecidos pela renda do solo. O habitat moderno gera alienação e desigualdades sociais. As tensões relacionadas com a satisfação incompleta das necessidades e do Desejo crescem a um tal ritmo que a multitude visível de objectos e a multitude invisível das necessidades ocupam todo o espaço. A sociedade moderna perdeu a utopia da apropriação colectiva da natureza como condição indispensável da apropriação individual. A natureza, força produtiva e produto das sociedades anteriores, transforma-se continuamente graças ao trabalho do homem. A sociedade capitalista domina e devasta a natureza. O espaço dominado define-se por oposição ao espaço apropriado: o espaço dominado é um espaço natural transformado pela técnica e pela p&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;olítica em função da ideia de centralidade total imposta pelas autoridades estatais (técnicos, planificadores), enquanto o espaço apropriado é um espaço natural modificado para servir as necessidades e as possibilidades de um grupo social que se apropria dele. O resultado desta estratégia de dominação técnica e política é o bloqueamento do desenvolvimento histórico do espaço urbano. A cidade transforma-se em lugar de violência e a centralidade total expulsa os deserdados para as periferias, ao mesmo tempo que alimenta o movimento de fuga para a natureza. O espaço diferencial manifesta-se neste espaço capitalista como uma tendência ou uma possibilidade que ainda não está plenamente realizada, embora se insinue em todos os níveis da vida urbana: a casa, a escola, o bairro e a cidade revelam diferenças que o espaço abstracto procura encobrir e ocultar. O espaço diferencial reúne o que está dividido, nomeadamente o público e o privado, demolindo as separações que exprimem o domínio de um espaço sobre outro espaço, como sucede com a separação entre o centro e a periferia. (Publicado &lt;strong&gt;&lt;a href="http://cyberdemocracia.blogspot.com/2009/07/henri-lefebvre-producao-do-espaco.html"&gt;aqui&lt;/a&gt;&lt;/strong&gt;.)&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;J Francisco Saraiva de Sousa&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4759866844732089627-6493131363624454243?l=cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/feeds/6493131363624454243/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4759866844732089627&amp;postID=6493131363624454243&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/6493131363624454243'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/6493131363624454243'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/2010/06/henri-lefebvre-e-revolucao-urbana.html' title='Henri Lefebvre e a Revolução Urbana'/><author><name>J Francisco Saraiva de Sousa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14064808742564506644</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/TBOP7MioGsI/AAAAAAAAAFI/zl3fbqI21wo/s72-c/ponte+da+arr%C3%A1bida.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4759866844732089627.post-4190904596880695979</id><published>2010-04-02T12:32:00.000-07:00</published><updated>2010-04-02T12:51:40.567-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberPhilosophy'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Imaginação Política'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberEstética'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crítica da Ideologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Antropologia Filosófica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='História'/><title type='text'>Max Horkheimer: Crítica da Razão Instrumental</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5455626540612492194" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 166px; CURSOR: hand; HEIGHT: 200px" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/S7ZHbvxmm6I/AAAAAAAAAEw/XLAsofXcL4g/s200/horkheimer.jpg" border="0" /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;«&lt;em&gt;Hoje a ideia de maioria, privada dos seus fundamentos racionais, assumiu um aspecto completamente irracional. Toda a ideia filosófica, ética e política - tendo sido cortado o cordão umbilical que ligava essas ideias às suas origens históricas - tende a tornar-se o núcleo de uma nova mitologia, e esta é uma das razões pela qual o avanço do iluminismo tende a reverter, até certo ponto, para a superstição e a paranóia. O princípio da maioria, na forma de veredictos populares sobre todo e qualquer assunto, implementado por toda a espécie de escrutínios e modernas formas de comunicação, tornou-se a força soberana à qual o pensamento tem de prover. É um novo deus, não no sentido em que os arautos das grandes revoluções o conceberam, isto é, como um poder de resistência à injustiça existente, mas como um poder de resistência a qualquer coisa que não se acomode. Quanto mais o julgamento do povo é manipulado por todo o tipo de interesses, mais a maioria é apresentada como árbitro na vida cultural. Presume-se que justifique os representantes da cultura em todos os seus domínios, até os produtos da arte e da literatura popular que enganam as massas. Quanto mais a propaganda científica faz da opinião pública um simples instrumento de forças obscuras, mais a opinião pública surge como um substituto da razão. Esse ilusório triunfo do progresso democrático consome a substância intelectual da qual tem vivido a democracia&lt;/em&gt;». (&lt;strong&gt;Max Horkheimer&lt;/strong&gt;) &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Uma visão de conjunto da evolução da teoria crítica - a expressão forjada por Horkheimer nos anos 30 do século XX para designar o marxismo visto como uma filosofia da não-identidade - e do percurso histórico da Escola de Frankfurt é-nos dada por Martin Jay, Rolf Wiggershaus, David Held, Paul-Laurent Assoun, Zoltán Tar, Eugene Lunn, Terry Eagleton, Stephen Eric Bronner, Christoph Türcke e Fredric Jameson. A criação oficial do Institut für Socialforschung (Instituto de Pesquisa Social) teve lugar no dia 3 de Fevereiro de 1923, por um decreto do Ministério da Educação, na base de um acordo com a Gesellschaft für Socialforschung (Sociedade para a Investigação Social). O seu primeiro director indigitado foi Carl Grünberg e a sua revista chamava-se Archiv, sendo em 1932 substituída pela Zeitschrift für Socialforschung. Em 1931, Horkheimer reorganiza o Instituto de Pesquisa Social e imprime-lhe uma nova orientação teórica e um novo projecto político: a sociologia é substituída pela Filosofia Social. Surge assim a teoria crítica como uma tentativa teórica original, cujo manifesto é o artigo de Horkheimer - Teoria Tradicional e Teoria Crítica, publicado na Zeitschrift, em 1937. A teoria crítica é basicamente uma criação de Max Horkheimer (1895-1973). Os pensadores mais ilustres da Escola de Frankfurt são, além do seu fundador, Theodor W. Adorno (1903-1969), Herbert Marcuse (1898-1978), Walter Benjamin (1892-1940) e Erich Fromm (1900-1980), aos quais podemos acrescentar Ernst Bloch (1885-1977) e Jürgen Habermas. Outros nomes menos conhecidos são Franz Borkenau, Kurt Albert Gerlach, Henryk Grossmann, Otto Kirchheimer, Mira Komarovski, Siegfried Kracauer, Leo Lowenthal, Franz Neumann, Friedrich Pollock, Andries Sternheim, Félix Weil e Karl August Wittfogel. Nesta hora de despertar do pesadelo neoliberal, é preciso reconstruir a teoria crítica e esta reconstrução exige não só o repúdio da ética do discurso de Karl Otto Apel e Jürgen Habermas, mas sobretudo a construção de uma nova utopia, em diálogo produtivo com Marx e os textos seminais da Escola de Frankfurt. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Na Primavera de 1944 (Fevereiro e Março), Horkheimer realizou cinco palestras públicas na Universidade de Colúmbia, das quais resultou a publicação em 1947 do seu livro &lt;em&gt;Eclipse of Reason&lt;/em&gt;, onde apresenta as suas ideias sobre a dialéctica do esclarecimento. Em 1947, Horkheimer e Adorno publicaram &lt;em&gt;Dialektik der Aufklärung&lt;/em&gt;. A análise crítica da &lt;em&gt;Dialéctica do Esclarecimento&lt;/em&gt; fornece-nos todos os instrumentos teóricos necessários para compreender a crise profunda da Modernidade: Horkheimer e Adorno generalizam a crítica marxista da história das sociedades de classes na direcção de uma crítica fundamental e total da história do pensamento ocidental e da sua praxis, entendida como a lógica de uma dominação universal da natureza e do homem. A radicalização da crítica justifica-se pelo facto da dominação da natureza estar a assumir formas não económicas: a visão do mundo natural como um campo de controle e de manipulação humana implica a dominação do próprio homem e do mundo humano. O Iluminismo já não pode ser visto unicamente como o correlato cultural da burguesia em ascensão, mas deve ser alargado de modo a incluir o espectro completo do pensamento ocidental ou mesmo do pensamento em geral. A razão toma assim a sua dimensão histórico-filosófica, de modo a poder pensar como entrou num conflito tão radical consigo própria. Com esta crítica radical da razão que entra em conflito consigo mesma no seio da história, a teoria crítica converte-se numa nova Filosofia da História que desmonta a mitologia da Modernidade capitalista: «o próprio mito é já razão e a razão volta a ser mitologia». O ideal de dominar a natureza, cujos traços já se encontram na astúcia de Ulisses e até mesmo no Génesis, sela o destino da razão instrumental e da autoridade: a vocação emancipatória da razão cede à barbárie. A razão instrumentaliza-se ao transformar a natureza em instrumento, enquanto a natureza procura vingar-se periodicamente contra essa sujeição instrumental. Porém, a revolta da natureza acaba por ser integrada no sistema capitalista, como seu mecanismo de perpetuação, paralisando a crítica e a praxis radical de transformação do mundo. Horkheimer e Adorno usam o princípio marxista da troca como conceito-chave para compreender a sociedade ocidental na sua evolução histórica, o que lhes permite ligar a racionalização de Weber ao conceito de reificação de Lukács. À radicalização da crítica deveria corresponder uma praxis radical e era essa a intenção da Escola de Frankfurt: a razão (Vernunft) - o conceito nuclear da teoria crítica - significa a reconciliação das contradições, incluindo a contradição entre homem e natureza. Após criticar severamente as teorias da identidade absoluta, sem no entanto negar a separação do sujeito e do objecto, Horkheimer destaca a importância da razão objectiva como um antídoto a ser usado contra o império reificado da razão subjectiva instrumentalizada: «Os dois conceitos de razão não representam duas vias separadas e independentes da mente, embora a sua oposição represente uma verdadeira antinomia. A tarefa da filosofia não é lançar teimosamente um contra o outro, mas promover a crítica recíproca dos dois conceitos e, deste modo, se for possível, preparar na esfera intelectual a conciliação dos dois na realidade» (Horkheimer). &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O &lt;em&gt;Eclipse da Razão&lt;/em&gt; de Horkheimer compreende cinco capítulos - Meios e Fins (I), Panaceias em Conflito (II), A Revolta da Natureza (III), Ascensão e Declínio do Indivíduo (IV) e Sobre o Conceito de Filosofia (V). O objectivo da análise realizada por Horkheimer é explicitar, numa perspectiva imanente, o conceito de racionalidade subjacente à nossa cultura, a fim de «descobrir se esse conceito não contém falhas que o tornam vicioso». Horkheimer descobre uma falha fatal: o conhecimento técnico alarga o horizonte da acção e do pensamento humanos, enquanto a autonomia do indivíduo, a sua capacidade de resistir ao mecanismo de manipulação das massas, o seu poder de imaginação e o seu pensamento independente, sofrem uma regressão substancial. O avanço dos recursos técnicos de informação e a omnipresença do sistema todo-poderoso da indústria cultural implicam um processo de desumanização: «o progresso ameaça anular o que se supõe ser o seu próprio objectivo: a ideia de homem». A emergência vitoriosa do neobarbarismo é sintoma da crise da cultura superior do Ocidente: a racionalidade progressista está, na perspectiva de Horkheimer, «a obliterar a própria substância da razão, em nome da qual se apoia a causa do progresso». &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;1. Meios e Fins&lt;/strong&gt;. Neste primeiro capítulo, Horkheimer estabelece uma diferenciação entre razão subjectiva - a racionalidade formal de Weber - e razão objectiva - a racionalidade substantiva de Weber, de modo a clarificar o processo de formalização da razão e as suas implicações teóricas e práticas de longo alcance, tais como a perda da força racional dos conceitos, a dissolução da ideia de razão objectiva, a desumanização do pensamento, a dissociação entre as aspirações humanas e as potencialidades da ideia de verdade objectiva, a instrumentalização da actividade, o pluralismo gerador de um traço esquizofrénico na vida moderna, a perda da experiência, a neutralização da mensagem subversiva das obras de arte, a perseguição da filosofia e a estupidificação da razão. A distinção entre razão objectiva e razão subjectiva corresponde à diferenciação feita na Dialéctica do Esclarecimento (Horkheimer e Adorno) entre dois conceitos de esclarecimento: a razão objectiva destaca os fins e a harmonia como um princípio inerente à realidade, enquanto a razão subjectiva se relaciona com os meios e a adequação de procedimentos a propósitos considerados como certos e presumivelmente auto-justificativos, sem questionar a sua racionalidade. A passagem da razão objectiva para a razão subjectiva foi um processo histórico gradual de esvaziamento do conteúdo objectivo de todos os conceitos racionais, do qual resultou finalmente no nosso tempo indigente a impossibilidade de ver a realidade particular como racional per si: «todos os conceitos básicos, esvaziados do seu conteúdo, tornaram-se meros invólucros formais». A subjectivação da razão - reduzida à capacidade de calcular probabilidades e de coordenar os meios correctos para alcançar um determinado objectivo, implica, simultaneamente, a sua formalização e a sua instrumentalização: a razão transforma-se em mero instrumento usado pelo sistema para dominar a natureza e o homem. O eclipse da razão objectiva é, portanto, o triunfo da razão instrumental, cujo significado é retirado da sua ligação a outros fins alheios à racionalidade e cujo valor é determinado pela função operacional que desempenha na dominação da natureza e do homem. Uma actividade só é racional quando serve outro fim ou propósito - o negócio, a saúde, o relaxamento, o descanso, etc., que ajude a recuperar a energia produtiva, e, no que respeita às obras de arte, a formalização da razão manifesta-se como reificação. A reificação resulta da transformação operada pelo aparelho económico capitalista de todos os produtos da actividade humana em mercadorias. Horkheimer destaca o papel desempenhado pelo pragmatismo neste processo de subjectivação da razão: a tese central do pragmatismo - James, Dewey e Peirce - é «a opinião de que uma ideia, um conceito ou uma teoria, mais não são do que um esquema ou plano de acção». A definição da verdade como o sucesso da ideia significa que as nossas ideias são verdadeiras porque as nossas expectativas se cumprem e as nossas acções têm sucesso. O ataque pragmatista à contemplação e ao pensamento especulativo visa glorificar a perícia técnica: o pensamento passa a ser avaliado por algo que não é pensamento - o seu efeito na produção ou o seu impacto sobre o comportamento social. Ao liquidar-se a si mesma, abdicando da sua capacidade para determinar a racionalidade dos fins, a razão capitula perante o sistema social existente, levando ao conformismo: o indivíduo ajusta o seu comportamento à realidade tal como é. Ser racional é, segundo esta perspectiva instrumental, não ser refractário. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;2. Panaceias em Conflito&lt;/strong&gt;. A dialéctica elabora-se e exerce-se na e pela crítica da sociedade estabelecida e das suas ideologias. Sem esses conteúdos objectivos não há propriamente dialéctica: Horkheimer elaborou a teoria crítica através do diálogo e da crítica de outros pensadores - Kant, Hegel, Schopenhauer, Nietzsche, Bergson, Dilthey, Weber, Husserl, Heidegger, Scheler, Sartre - e de outras tradições filosóficas - o positivismo, o pragmatismo, a Lebensphilosophie, o existencialismo, o neotomismo, a metafísica, a fenomenologia -, isto é, a génese da teoria crítica foi tão dialéctica como o método que aplicou aos fenómenos sociais. As panaceias em conflito são, neste segundo capítulo, o positivismo, do qual o pragmatismo é uma versão, e o neotomismo: «Tendo perdido a sua autonomia, a razão tornou-se um instrumento. No aspecto formalista da razão subjectiva, sublinhado pelo positivismo, enfatiza-se a sua não-referência a um conteúdo objectivo; no seu aspecto instrumental, sublinhado pelo pragmatismo, enfatiza-se a sua submissão a conteúdos heterónomos. A razão tornou-se algo inteiramente aproveitado no processo social. O seu valor operacional, o seu papel na dominação dos homens e da natureza tornou-se o único critério para a avaliar». Horkheimer encara o pragmatismo como uma expressão do positivismo, porque ambas as correntes do pensamento identificam a filosofia com o cientismo: a apologia da ciência-instrumento vista como a campeã automática do progresso e como glorificação da tecnologia. A crítica do cientismo nestas duas versões complementares é articulada por Horkheimer com a crítica do neotomismo: as duas escolas antagónicas são censuradas pelo facto de bloquearem o pensamento crítico, através de afirmações autoritárias e despóticas. Segundo Horkheimer, cada uma destas filosofias expressa uma verdade, mas, logo a seguir, é levada a distorcê-la e a torná-la exclusiva: o positivismo critica o dogmatismo, anulando o princípio de verdade, em nome do qual a crítica alcança o seu sentido, enquanto o neotomismo defende o princípio de verdade com uma tal rigidez que o transforma no seu oposto. Positivismo e neotomismo têm um carácter heterónomo: o primeiro tende a substituir a razão autónoma pelo automatismo da metodologia científica moderna, o segundo pela autoridade de um dogma. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;3. A Revolta da Natureza&lt;/strong&gt;. A natureza dominada vinga-se periodicamente contra a sua sujeição repressiva, quer sob a forma de rebeliões sociais, quer sob a forma do crime organizado e da perturbação mental. Horkheimer retoma aqui o conceito freudiano de &lt;/span&gt;&lt;a href="http://cyberdemocracia.blogspot.com/2009/11/defesa-de-uma-psiquiatria-dialectica.html"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;civilização&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt; como repressão das exigências dos instintos humanos, ligando-o ao processo histórico da sociedade burguesa que visa a dominação da natureza, para minar a ideia de progresso e a tese iluminista do desencantamento do mundo: «Dado que a subjugação da natureza, dentro e fora do homem, prossegue sem um motivo significativo, a natureza não é efectivamente transcendida ou reconciliada, mas simplesmente reprimida». O processo de repressão provoca reacções violentas por parte da natureza que acossam a civilização desde os seus primórdios. Porém, a moderna civilização burguesa conseguiu integrar e domesticar essas revoltas da natureza, usando-as como mecanismo de perpetuação da sua matriz civilizacional: «Traços típicos da nossa era actual são a manipulação desta revolta pelas forças predominantes da própria civilização e o uso da mesma como um meio de perpetuação das próprias condições que a provocaram e contra as quais insurge. A civilização como irracionalidade racionalizada integra a revolta da natureza como outro meio ou instrumento». Horkheimer analisa o fascismo como o culminar da racionalidade técnica da sociedade capitalista. Com a emergência do fascismo, o iluminismo retrocede à barbárie: o fascismo, compreendido como síntese satânica da razão instrumental e da natureza, encoraja a revolta da natureza do indivíduo e, ao mesmo tempo, suprime-a: «No fascismo moderno, a racionalidade atingiu um ponto em que não se satisfaz simplesmente com a repressão da natureza; a racionalidade agora explora a natureza, incorporando no seu próprio sistema as potencialidades rebeldes da natureza. Os nazis manipularam os desejos reprimidos do povo alemão». &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A actual crise financeira e económica revela o momento de verdade da teoria do fascismo de Horkheimer e de Marcuse, segundo a qual o totalitarismo é o resultado natural da democracia liberal-burguesa. A teoria de Marx não precisa ser revista para identificar o fascismo: o que se modificou no capitalismo tardio (Werner Sombart) foi a forma de dominação. As posições de comando dispersas em organizações individuais foram substituídas pela dominação totalitária dos interesses particulares sobre toda a sociedade, alterando substancialmente a composição das classes dirigentes. A burocracia foi alargada até adquirir um grau elevado de autonomia. O capitalismo organizou-se e planificou-se com a revolução dos administradores (James &lt;/span&gt;&lt;a href="http://cyberbiologiaecybermedicina.blogspot.com/2009/04/corrupcao-como-doenca.html"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;Burnham&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;). Independentemente de se reclamarem da Direita ou da Esquerda, os economistas, os gestores, os administradores e os políticos neoliberais comportam-se como fascistas, que organizam e remodelam a população numa colectividade resignada e pronta a servir nas mãos das novas classes dirigentes qualquer objectivo civil e militar. O neoliberalismo que culmina o capitalismo tardio (Spätkapitalismus) à escala global e que produziu a actual crise financeira e económica é, na sua substância, neofascismo, que recorre ao darwinismo para legitimar a sua dominação global. Horkheimer discute diversos aspectos do mecanismo de perpetuação, tais como a interiorização da dominação pelo desenvolvimento do sujeito abstracto, a inversão dialéctica do princípio de dominação pela qual o homem se torna, ele próprio, um instrumento da mesma natureza daquele que domina, e a repressão do impulso mimético, mediante os quais a civilização procura integrar a revolta da natureza no seu próprio sistema, negando o antagonismo do espírito em relação à natureza. Porém, como a ideologia do neoliberalismo decorre do darwinismo incorporado no pragmatismo americano, vamos analisar apenas a situação do homem numa cultura de autopreservação, a partir do darwinismo perspectivado como uma filosofia que pertence à principal corrente derivada do iluminismo - o positivismo - e que reflecte a revolta da natureza contra a razão. Segundo o darwinismo popular - aquele que predomina actualmente na divulgação científica - a sobrevivência do mais apto - o êxito ou sucesso do indivíduo, em linguagem económica neoliberal -, depende da sua capacidade de adaptação às pressões que a sociedade e a economia de mercado exercem sobre ele: a sobrevivência do indivíduo requer a sua transformação num mecanismo que reage a cada momento às situações difíceis de um modo apropriado e, na nossa sociedade industrializada, deliberadamente ajustado. Como a vida social está cada vez mais submetida à racionalização e à planificação, a vida do indivíduo, incluindo os seus impulsos mais ocultos, que outrora constituíam o seu domínio privado, deve adaptar-se às exigências da racionalização e da planificação sociais: «a autopreservação do indivíduo pressupõe o seu ajustamento às exigências de preservação do sistema», do qual não consegue escapar. Ora, a racionalização não resulta da acção de forças anónimas do mercado, mas sim da acção consciente de uma minoria de burocratas e de tecnocratas, que decide em nome da massa de sujeitos, obrigando-os a ajustar as suas vidas e os seus comportamentos a uma realidade que os confronta como algo absoluto e esmagador: aqueles que recusam navegar a onda criada pelas classes dirigentes são automaticamente excluídos. O princípio de realidade estabelecido não permite ao indivíduo - outrora autónomo - confrontá-lo e conformar a realidade com a esfera do ideal: as ideologias foram sistemática e deliberadamente desacreditadas ou omitidas pelo pensamento único, com o objectivo de facilitar a elevação da realidade estabelecida ao status de ideal. O ajustamento é apresentado como o modelo de todos os tipos de comportamento subjectivo e objectivo, privado e público: o triunfo da razão subjectiva é, portanto, o triunfo da realidade unidimensional, para usar o conceito de Marcuse. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A minoria de gestores corruptos que levou a cabo a globalização substituiu a selecção natural pela acção racional, mas compreendeu que o conceito de sobrevivência do mais apto é simplesmente a tradução dos conceitos da razão formalizada - e da sua &lt;/span&gt;&lt;a href="http://cyberbiologiaecybermedicina.blogspot.com/2008/10/richard-dawkins-egosmo-do-gene-e.html"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;economia neoliberal&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt; - na linguagem da história natural. Darwin inverte a metafísica idealista, quando encara a razão como um órgão da natureza. Para a metafísica idealista, o mundo era, de certo modo, um produto da mente, enquanto, para o darwinismo, a mente é um processo da natureza, que abdica da filosofia para lhe dar voz: «a natureza, poderosa e venerável deidade, é governante e não governada». Embora tenha auxiliado a natureza rebelde, libertando-a da tirania do logos, a equiparação darwinista da razão e da natureza é uma falácia típica da era da racionalização instrumental: a equiparação darwinista da razão e da natureza degrada a razão e exalta a natureza bruta como pura vitalidade. Idealismo e materialismo mais não são do que meras versões da racionalidade instrumental: o primeiro deprecia a natureza como força bruta, o segundo louva-a como pura vitalidade, mas ambos bloqueiam a visão da natureza como «um texto a ser interpretado pela filosofia que, se for correctamente lido, revelará uma história de sofrimento infinito». Porém, o darwinismo exige a adaptação incondicional do indivíduo a uma realidade social esmagadora, cuja opacidade não permite questionar e problematizar: o seu conceito de razão como órgão natural, em vez de libertar a razão da sua tendência intrínseca para a dominação e de a investir com maiores possibilidades de conciliação, implica a rejeição de todos os elementos da mente que transcendam a função de adaptação, usando-os como meros instrumentos da autopreservação. A abdicação darwinista do espírito converte a razão em serva da selecção natural. A dialéctica procura uma terceira alternativa que possibilite conciliar a natureza e a razão, para além do materialismo e do idealismo, porque a negação teórica do antagonismo entre espírito e natureza significa, na prática, admitir o princípio da dominação universal da natureza pelo homem. Como escreve Horkheimer: «Somos herdeiros, para o melhor ou o pior, do Iluminismo e do progresso tecnológico. Opor-se a ambos por um regresso a estágios mais primitivos não alivia a crise permanente que deles resulta. Pelo contrário, tais expedientes conduzem-nos do que é historicamente racional às formas mais horrendamente bárbaras de dominação social. O único meio de auxiliar a natureza é libertar o seu pretenso opositor, o pensamento independente». &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;4. Ascensão e Declínio do Indivíduo&lt;/strong&gt;. A liquidação da razão acarreta necessariamente a liquidação do indivíduo: «Se a razão é declarada incapaz de determinar os objectivos supremos da vida e deve contentar-se em reduzir tudo o que encontra a um mero instrumento, o seu único objectivo remanescente é apenas a perpetuação da sua actividade de coordenação. Essa actividade era outrora atribuída ao sujeito autónomo. Contudo, o processo de subjectivação afectou todas as categorias filosóficas: em vez de as relativizar e de as preservar numa unidade de pensamento melhor estruturada, reduziu-as ao status de factos a ser catalogados. Isso também é verdadeiro para a categoria do sujeito. A filosofia dialéctica desde os tempos de Kant tentou preservar o transcendentalismo crítico, sobretudo o princípio de que os traços e as categorias fundamentais da nossa compreensão do mundo dependem de factores subjectivos. A consciência da tarefa de determinar as origens subjectivas dos conceitos deve estar presente em cada etapa de definição do objecto. Isso aplica-se tanto às ideias básicas como facto, acontecimento, coisa, objecto, natureza, quanto às relações psicológicas ou sociológicas. Desde o tempo de Kant, o idealismo jamais esqueceu essa exigência da filosofia crítica. Até os neo-hegelianos da corrente espiritualista vêem no ego "a mais alta forma de experiência que nós temos, mas... não uma forma verdadeira", porque a ideia de sujeito é em si mesma um conceito que deve ser relativizado pelo pensamento filosófico. Mas Dewey, que por vezes parece unir-se a Bradley na elevação da experiência à mais elevada posição na metafísica, declara que "o ego ou sujeito da experiência é parte e parcela do curso dos acontecimentos". Segundo Dewey, "o organismo - o ego, o sujeito da acção - é um factor dentro da experiência". E, no entanto, quanto mais a natureza é vista como "uma total mixórdia de substâncias heterogéneas", como meros objectos em relação aos sujeitos humanos, mais o outrora presumivelmente sujeito autónomo é esvaziado de qualquer conteúdo, até se tornar finalmente um mero nome sem nada a denominar. A transformação completa de todos os domínios do ser à condição de meios conduz à liquidação do sujeito que presumivelmente deveria usá-los. Isto dá à moderna sociedade industrializada o seu aspecto niilista. A subjectivação que exalta o sujeito também o condena. /No processo da sua emancipação, o ser humano partilha o destino do resto do seu mundo. A dominação da natureza envolve a dominação do homem. Cada sujeito deve não só participar na sujeição da natureza exterior, humana ou não-humana, como, para o fazer, deve subjugar a natureza em si mesmo. A dominação tornou-se interiorizada por si mesma». &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Com a entrada da psicanálise no Instituto de Pesquisa Social, termina a era de Grünberg e começa a era de Horkheimer: o recurso à teoria de Freud é fundamental para compreender o mecanismo de perpetuação que integra a revolta da natureza no próprio sistema da civilização ocidental. A interiorização da repressão e a inversão dialéctica do princípio de dominação ajudam a clarificar o destino do indivíduo na cultura da autopreservação. Horkheimer analisa exaustivamente as peripécias da individualidade ao longo da história do Ocidente, isto é, desde a ascensão do indíviduo na Grécia Antiga até ao seu declínio na sociedade moderna. O que interessa aqui destacar é a crise do indivíduo: o antagonismo entre a individualidade e as condições económicas e sociais da sua existência deixou de ser na sociedade de consumo um elemento essencial na construção da própria individualidade. O antagonismo em relação à sociedade, mediante o qual o indivíduo constrói o seu self como projecto, foi completamente suplantado na mente consciente dos indivíduos pelo desejo de adaptação milimétrica à realidade. A mediação do poder social pelo poder sobre as coisas implica o domínio do próprio indivíduo pelas coisas, a perda de traços individuais genuínos, a perda de liberdade e a transformação da sua mente num autómato da razão formalizada. O sistema da indústria cultural ajuda a integrar o indivíduo no sistema de instrumentos, mostrando-lhe o seu caminho na realidade como ela é e como deve ser e será. O liberalismo conduziu, pela via da colonização económica do mundo da vida e do mundo da personalidade, ao conformismo total: a mónada liberal - o símbolo do indivíduo económico atomístico da sociedade burguesa - converteu-se finalmente num tipo social, isto é, numa figura sem rosto e sem personalidade, incapaz de planear o futuro remoto para os seus herdeiros e para si. O indivíduo entregue exlusivamente à tarefa da autopreservação desiste da sua esperança de auto-realização: a sua mente está fechada para o sonho de um mundo basicamente diferente e para os conceitos que, em vez de serem meras classificações ou rótulos de factos e de estatísticas, sejam orientados para a realização verdadeira de um mundo melhor. De certo modo, estes indivíduos de mente fechada e cognitivamente atrofiada são meras projecções astrais da mente do engenheiro, isto é, da mente do industrial em forma tecnológica e economicamente orientada: o comando decidido da mente tecnológica visa transformar «os homens num conjunto de instrumentos sem objectivos próprios». O processo de reificação do homem está praticamente consumado nesta era tecnocrática e economicista: o homem é cada vez mais reduzido a um mero instrumento, avaliado em função de critérios estritamente económicos, tais como a sua produtividade, a sua eficiência e a sua competitividade. Perante este processo que converte o homem em instrumento, o empresário em funcionário, o trabalhador em sindicalista integrado, o político em corrupto deslumbrado, o economista em ladrão profissional, o universitário em burreco diplomado, o magistrado em agitador fascista, o jornalista em criador de intrigas, o professor em incompetente diplomado e o erudito em especialista da opinião pública, e que paralisa a evolução para o humano, a filosofia desespera, porque teme pelo futuro: «Os verdadeiros indivíduos do nosso tempo são os mártires que atravessaram os infernos do sofrimento e da degradação na sua resistência à conquista e à opressão, e não as personalidades bombásticas da cultura popular (da TV), os dignatários convencionais. Esses heróis não celebrados expuseram conscientemente a sua existência como indivíduos à aniquilação terrorista que outros arrostam inconscientemente através dos processos sociais. Os mártires anónimos dos campos de concentração são os símbolos da humanidade que luta para nascer. A tarefa da filosofia é traduzir o que eles fizeram numa linguagem que será ouvida, mesmo que as suas vozes finitas tenham sido silenciadas pela tirania». &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;5. Sobre o Conceito de Filosofia&lt;/strong&gt;. Todos os conceitos filosóficos tradicionais estavam enraizados no conceito do universalmente humano da espécie humana, mas a sua formalização levada a cabo pelo cientismo separou-os desse conteúdo humano. Neste sentido, a formalização da razão significa desumanização do pensamento: o ataque positivista à contemplação e o louvor da perícia técnica expressam o triunfo dos meios sobre os fins, ou seja, o triunfo pragmatista da fábrica como protótipo da existência humana, mediante o qual todos os sectores da cultura superior são modelados segundo a produção na linha de montagem ou segundo o escritório executivo racionalizado. A Filosofia torna-se assim alvo da perseguição totalitária movida pela mentalidade de engenheiro contra os intelectuais que recusam reduzir a razão a um mero instrumento: «Um homem inteligente não é aquele que pode simplesmente raciocinar com correcção, mas aquele cuja mente está aberta à percepção de conteúdos objectivos, que está apto a receber o impacto das suas estruturas essenciais e a transformá-las em linguagem humana; isto também se aplica à natureza do pensamento como tal e do seu conteúdo objectivo. A neutralização da razão, que a despoja de qualquer relação com o conteúdo objectivo e do seu poder de julgar este último, e que a reduz ao papel de uma agência executiva mais preocupada com o "como" do que com o "porquê", transforma-a cada vez mais num simples mecanismo enfadonho de registar factos. A razão subjectiva perde toda a espontaneidade, produtividade e poder para descobrir e afirmar novas espécies de conteúdo - perde a própria subjectividade. Como uma lâmina de barbear frequentemente afiada, esse "instrumento" torna-se demasiado ténue e, afinal, inadequado até mesmo para dominar as suas tarefas formais». A emancipação do intelecto da vida instintiva não o livra do seu conteúdo concreto. Ao reduzir as suas ligações com este conteúdo, a razão subjectiva atrofia o intelecto e contribui para a crescente estupidificação em curso. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Horkheimer opõe ao princípio da dominação da natureza a ideia marxista de reconciliação do homem com a natureza, mas rejeita toda a filosofia que procure afirmar a unidade da natureza e do espírito: o monismo filosófico é censurado pelo facto de servir para entrincheirar e fortificar a ideia de dominação da natureza pelo homem. A dialéctica rejeita tanto o monismo como o dualismo e, nesta dupla-rejeição, resiste à sua própria imobilização: hipostasiar um dos pólos ou dos momentos do processo ou ansiar desesperadamente pela sua resolução final é abdicar da própria dialéctica. Horkheimer reitera a dicotomia metodológica das ciências naturais e das ciências sociais reabsorvidas na e pela Filosofia: as ciências naturais trabalham com fórmulas, enquanto a filosofia reexamina significados. O filósofo, que recusa o temor de que a capacidade de pensar possa ser tolhida de alguma maneira pelo sistema dominante, «não pode falar sobre o homem, o animal, a sociedade, o mundo, a mente, o pensamento, tal como o cientista da natureza fala sobre uma substância química qualquer: o filósofo não possui uma fórmula. Não existe fórmula. A descrição adequada, revelando o significado de qualquer desses conceitos, com todas as suas sombras e interligações com outros conceitos, é ainda uma tarefa prioritária. Aqui, a palavra, com os seus estratos semi-esquecidos de significado e associações, é o princípio director». Estas conexões devem ser repensadas e preservadas nos conceitos, que, longe de sairem limpos e novos em folha das oficinas da produção teórica, são fragmentos de uma verdade total em que se encontra o seu significado: a preocupação fundamental da filosofia é construir a verdade a partir desses fragmentos. Assim, a definição de liberdade é, segundo Horkheimer, a teoria da História e vice-versa. Em polémica com o neopositivismo lógico, Horkheimer repudia a lógica formal, em nome da lógica hegeliana, que «é tanto a lógica do objecto quanto a do sujeito; (que) é uma teoria abrangente das categorias básicas e das relações entre a sociedade, a natureza e a história». Horkheimer atribui à linguagem um papel determinante na compreensão dos fenómenos sociais e na desocultação da verdade, definida como adequação entre o nome e a coisa: «A filosofia é o esforço consciente para unir todo o nosso conhecimento e compreensão numa estrutura linguística em que as coisas são chamadas pelos seus nomes exactos». Walter Benjamin tinha elaborado uma teoria da linguagem, na base da qual estava a crença de que o mundo tinha sido criado pela palavra de Deus: o acto de criação de Deus é aqui visto como uma concessão ou doação de nomes e o homem, criado à imagem de Deus, recebeu o dom de nomear. Porém, os nomes do homem e os nomes de Deus não são exactamente os mesmos, porque, com a separação entre o homem e a coisa, se perdeu a adequação absoluta do discurso divino: o discurso humano traz a marca da corrupção que é a lógica formal, mediante a qual o homem nomeia as coisas por meio de abstracções e de generalizações. A tarefa do crítico redentor é precisamente libertar e recuperar essa linguagem de Deus, aprisionada e perdida nos textos humanos, através da descodificação hermenêutica das diversas aproximações inferiores do homem. Embora evite a fundamentação teológica da teoria da linguagem de Benjamin, Horkheimer aceita a noção da corrupção da linguagem «pura» (Karl Krauss): o discurso humano, produzido e difundido pela cultura de massas, tornou-se unidimensional e afirmativo (Marcuse), instrumental e ideológico, e, por isso, na sua condição de instrumento das forças dominantes e obscuras na sociedade administrada, incapaz de expressar a negação, isto é, de escutar a voz de protesto dos oprimidos. Cabe à filosofia chamar as coisas pelos seus verdadeiros nomes, sondando os testemunhos mudos da linguagem e os estratos da experiência que neles se preservam: «A linguagem reflecte os anseios dos oprimidos e a condição da natureza». &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A Dialéctica é Filosofia-Mundo e filosofia-mundo negativa, no sentido em que todos os seus conceitos se referem à negação da totalidade antagónica da ordem existente: «O todo é, como escreve Adorno, o não-verdadeiro». Os grandes ideais da civilização ocidental - liberdade, justiça plena, igualdade, fraternidade - são os protestos da natureza contra a sua condição humilhada, perante os quais a filosofia assume duas atitudes: a renúncia à exigência de ser considerada como verdade definitiva e absoluta (1) e a admissão de que as ideias culturais fundamentais têm valores de verdade, que a filosofia pode avaliar, levando em conta o meio social antagónico onde se originam (2). Ao assumir estas duas atitudes, a filosofia opõe-se à ruptura entre as ideias e a realidade: «A filosofia confronta o existente, no seu contexto histórico, com a exigência dos seus princípios conceptuais, a fim de criticar a relação entre ambos e, assim, transcendê-los. A filosofia saca o seu carácter positivo precisamente da acção recíproca destes dois procedimentos negativos». A teoria crítica é geralmente caracterizada como crítica imanente, um procedimento dialéctico que Horkheimer, Benjamin, Adorno e Marcuse usaram de modo ligeiramente distinto. A negação, que exerce um papel fundamental na dialéctica, tem duas faces: (1) negação das pretensões absolutas da ideologia dominante - crítica da ideologia - e (2) negação das exigências imperiosas da realidade estabelecida. A dialéctica debruça-se sobre os valores existentes e insere-os num conjunto teórico que revela a sua relatividade. E, visto que sujeito e objecto, palavra e coisa, não podem ser conciliados nas actuais circunstâncias sociais e económicas, a dialéctica usa o princípio de negação para tentar salvar as verdades relativas do naufrágio dos falsos princípios fundamentais. A essência do pensamento dialéctico reside na compreensão da negatividade e da relatividade da ordem estabelecida e da sua cultura de autopreservação. Mas a posse desse conhecimento não constitui - por si só - a superação da totalidade antagónica existente. A dialéctica marxista é completamente distinta da dialéctica hegeliana, na medida em recusa o princípio de identidade, em nome da diferença entre o ideal e o real e entre a teoria e a praxis. O que está em jogo na situação presente é saber se no futuro irá predominar a tendência barbarizante ou a visão humanista: «A lógica da história é tão destruidora como os homens que produz: onde quer que penda a sua força de gravidade, reproduz o equivalente do infortúnio passado. O normal é a morte». Ou, como Adorno esclarece mais adiante, «a enfermidade actual consiste justamente na normalidade». A filosofia não pode determinar o rumo da história e muito menos garantir de antemão o triunfo da visão humanista, mas, ao «fazer justiça àquelas imagens e ideias que, em determinadas épocas, dominaram a realidade, exercendo o papel de absolutos, e que foram abandonadas no curso da História», pode funcionar como um correctivo da História. Como memória e consciência da espécie humana, a filosofia pode ajudar a evitar que a marcha da humanidade mergulhe na catástrofe: a sua função consiste em auxiliar as pessoas a reconhecer a desproporção entre o peso do mecanismo esmagador do poder social e o das massas atomizadas. A negação determinada, a denúncia da racionalidade instrumental que mutila a humanidade e impede o seu livre desenvolvimento, repousa, como diz Horkheimer, na confiança no homem. (Publicado &lt;a href="http://cyberdemocracia.blogspot.com/2010/01/max-horkheimer-eclipse-da-razao.html"&gt;aqui&lt;/a&gt;.) &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;J Francisco Saraiva de Sousa&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4759866844732089627-4190904596880695979?l=cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/feeds/4190904596880695979/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4759866844732089627&amp;postID=4190904596880695979&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/4190904596880695979'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/4190904596880695979'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/2010/04/max-horkheimer-critica-da-razao.html' title='Max Horkheimer: Crítica da Razão Instrumental'/><author><name>J Francisco Saraiva de Sousa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14064808742564506644</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/S7ZHbvxmm6I/AAAAAAAAAEw/XLAsofXcL4g/s72-c/horkheimer.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4759866844732089627.post-8293713558198555818</id><published>2009-11-22T07:06:00.000-08:00</published><updated>2009-11-22T07:06:00.207-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Escola do Porto'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberPhilosophy'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Literatura'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberBiologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Poesia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='NeuroFilosofia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crítica da Ideologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Evolução'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Estética'/><title type='text'>Teixeira de Pascoaes: Filosofia e Sentido da Vida</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/SvrTZlRz0QI/AAAAAAAAAEY/MaJbQPFAoXc/s1600-h/Teixeira+de+Pascoaes.jpg"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;em&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5402863139441332482" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 154px; CURSOR: hand; HEIGHT: 200px" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/SvrTZlRz0QI/AAAAAAAAAEY/MaJbQPFAoXc/s200/Teixeira+de+Pascoaes.jpg" border="0" /&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;em&gt;«O sonho do homem actual é ser um esqueleto antecipado, com asas de alumínio, sobre um planeta roído até ao caroço. Ao homem mitológico, escravo dos deuses, sucedeu o (homem) metafísico, escravo dum Deus; e a este, o (homem) industrial, escravo duma deusa de metal, aquela mulher eléctrica, numa barraca de feira, estendendo a vara mágica aos labregos espantados». «O homem é mais moisaico que darwínico, mais antropos que antropóide, o que a ciência não admite». «O orango arrependido de ser homem, eis o drama psicológico moderno». «A finalidade da vida é a definição da existência. E digo finalidade, porque todo o esforço da Natureza se dirigiu e dirige num sentido humano ou consciente». «O destino do homem é ser a consciência do Universo em ascensão perpétua para Deus». «O homem é ele e o seu habitat. É céu e terra contidos numa definição espiritual ou consciente». «O homem, sonhando, transborda de si mesmo, amplia o mundo, porque ilumina as suas dimensões desconhecidas. O sonho é alta temperatura, um estado térmico da alma, a sua incandescência». «Que seria do mundo sem o homem? Permaneceria como abismado numa absoluta inexistência». «O absoluto é dos poetas e o relativo é da ciência. O sábio observa, analisa, decompõe; o filósofo generaliza, dá o conjunto; o poeta dá o significado anímico das coisas, a sua própria natureza». «O inimigo da poesia não é o sábio verdadeiro, mas o pseudo-cientista, muito pedante do que imagina saber oficialmente. (...) Ser homem é já ser poeta ou possesso duma grandeza misteriosa». «A essência das coisas, essa verdade oculta na mentira, é de natureza poética e não científica. Aparece ao luar da inspiração e não à claridade fria da razão». «Em todo o poeta verdadeiro existe um filósofo adormecido, como existe um poeta adormecido em todo o verdadeiro filósofo. O poeta filosofa depois de cantar e o filósofo canta depois de filosofar».&lt;/em&gt; (&lt;strong&gt;Teixeira de Pascoaes&lt;/strong&gt;) &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Se Heidegger conhecesse a poesia portuguesa dita na própria língua portuguesa, o poeta que escolheria para meditar a sua poesia seria Teixeira de Pascoaes, e não Fernando Pessoa, até porque o seu pensamento essencial está na proximidade íntima do pensamento da obra poética do poeta português, tal como este o elucidou, em voz alta, consigo mesmo: "Entre a Humanidade e a Divindade existe aquela região em que habitam os Poetas. São eles que forçam as portas do Cárcere onde o demónio aprisiona as almas divinas. Enquanto os homens admiram as paredes e as férreas grades reforçadas, o poeta entra lá dentro, num gesto libertador... É o Orfeu de todas as Eurídices, o redentor de todas as sombras, o viageiro de todos os desertos que se vestem de flores e searas... (...) O poeta é o enviado. Vem ao mundo afirmar as superiores Potestades que misteriosamente presidem ao drama da vida e lhe dão um sobrenatural sentido. Vem sublimar o vulgar, revelar o grande que as pequenas coisas escondem, converter o ruído em harmonia e a harmonia em melodia. Só ele deu uma alma divina ao corpo bruto da Natura, completando a obra de Jeová... Claro que me refiro aos poetas verdadeiros, integrados no seu primitivo significado. Poeta quer dizer profeta. Não devemos confundir os artistas do verso com os criadores de Poesia. Os primeiros interessam apenas à Literatura, ao passo que os segundos têm um interesse vital e universal, como flores e estrelas. (...) A poesia espontânea surge nos períodos genésicos da Alma. A poesia culta predomina nos seus momentos desfalecidos" (Teixeira de Pascoaes). O abismo do inferno separa Fernando Pessoa de Teixeira de Pascoaes: o primeiro conspira contra a Renascença Portuguesa, a tentativa portuense de "criar um novo Portugal", usando as mentiras de todos os seus heterónimos para fazer esquecer e silenciar a verdadeira mensagem dos "poetas místicos", como lhes chama, em especial Guerra Junqueiro, Jaime Cortesão e Teixeira de Pascoaes, invejados por terem descoberto o parentesco oculto que impera entre o poetar e o pensar: a poesia e o pensamento estão ao serviço da linguagem, pela qual intervêm e se sacrificam. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Em 1907, Teixeira de Pascoaes, o poeta de Portugal, que cantou a uma só voz, mas em correspondência com as falas dos grandes poetas nacionais, a alma lusitana, publicou no semanário "&lt;em&gt;A Vida&lt;/em&gt;" um artigo dedicado ao sentido da vida. O objectivo de Pascoaes é responder à pergunta que todo o mortal faz a si próprio: "Para que existo?" No entanto, a resposta que encontramos neste texto de Pascoaes não é a resposta a esta pergunta "existencial", mas a resposta a outra pergunta: a do sentido da vida, não da vida individual de cada um dos mortais, mas da vida humana como manifestação biológica. O sentido da vida é interpretado como a finalidade da vida no âmbito da evolução cósmica. A ideia de finalidade foi varrida do domínio científico: a imagem científica do mundo rejeita a ideia de finalidade, como se o universo tivesse evoluído por acção do mero acaso, "a mais metafísica das entidades": "Atribuir ao acaso todos os fenómenos que se deram a favor do advento da Humanidade, é negar qualquer explicação desses fenómenos; é negar a nossa mais íntima tendência, o poder intelectual definidor. E é negar o próprio homem, não distinguir a ridícula macaca da bela circassiana, o guincho da palavra, a Caverna do Parténon". É certo que Pascoaes prefere "a concepção poética ao conceito científico", mas neste texto pretende reinserir uma noção científica de finalidade no seio da ciência, de modo a explicar o sentido ascendente da evolução sem negar a humanidade do homem e o seu poder intelectual definidor, isto é, a sua faculdade mitopoética. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Pascoaes defende a tese de que "o destino da vida humana resulta fatalmente duma outra vida espiritual superior, que aquela gerou, fazendo que o ser humano inferior, a partir desse momento genésico, tenha como fim aproximar-se dessa vida espiritual mais perfeita". Ao longo da evolução cósmica emergiram, numa ordem de sucessão dinâmica ascencional e, portanto, de complexidade e aperfeiçoamento constantes, quatro reinos ou formas cósmicas - o mineral, o vegetal, o animal e o espiritual, obedecendo a uma única lei, a lei de excedência. A natureza evoluiu no sentido de adquirir "o máximo poder de consciência". Graças ao seu princípio activo, o éter (Haeckel), a estrutura da matéria é intrinsecamente dinâmica: "O éter, princípo activo, nas suas condensações em massa ponderável, depositou nesta grandes reservas de energia latente que, em certos períodos de evolução cósmica, se expande, dando à matéria a faculdade de se exceder e traduzir em formas originais de vida, sempre superiores às antecedentes. Se a evolução universal se fizesse apenas à custa das energias ordinárias, aquelas que estão sempre despertas, (nos períodos intergenésicos) essa evolução não se faria sempre num sentido ascensional. Vê-se que o Universo tem grandes reservas de forças latentes que, de vez em quando (nos períodos genésicos correspondentes ao aparecimento das quatro grandes formas cósmicas) se expande e acorda, fazendo passar a matéria nebulosa a estrela, da estrela a planeta; de pedra e ferro e água, etc., a árvore e flor; de árvore a peixe, a réptil, a ave, a mamífero, a homem; e deste, enfim, ao ser espiritual que, em virtude da sua idêntica estrutura à do éter inicial, fecha o círculo das grandes metamorfoses do Universo". Ou, como sintetiza Pascoaes num outro artigo: "O éter condensou-se em massa ponderável, dando origem à matéria atómica; esta, excedendo-se em virtude da lei de excedência, gerou a fase vegetal, e esta, por sua vez, a fase animal; e esta ainda, graças à mesma lei, deu origem à fase psíquica, alcançando assim a matéria a estrutura e qualidades iniciais, e fechando-se o grande círculo evolutivo do Cosmos". Isto significa que "a matéria principia em dinamismo inconsciente e termina, após os seus aspectos transitórios e dolorosos, em dinamismo consciente ou espírito". &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O aspecto mais interessante da teoria do sentido da vida de Pascoaes reside no facto de considerar que os "fenómenos espirituais" formam um mundo distinto e autónomo, - a noosfera na terminologia de Chardin ou de Monod ou o mundo 3 na linguagem de Popper -, do reino animal, isto é, "um novo Reino, o último em que se divide o Universo e para o qual os três Reinos anteriores caminham, realizando os seus respectivos fins". A lei de excedência mediante a qual cada ser ou coisa de um reino procura ir além de si mesmo, excedendo-se, é uma lei finalista ou teleonómica: "a vida mais perfeita atraí a menos perfeita", ou seja, "o fim dum ser resulta da sua tendência para outro ser que lhe é distinto e superior". Embora o denomine Reino Psíquico, identificando-o com o mundo 2 de Popper e atribuindo o seu estudo à Psicologia, Pascoaes acaba por corrigir esse erro quando afirma que o fim da vida humana é aproximar-se constantemente desse reino objectivo dos seres espirituais, que o próprio homem criou, "sobrenaturalizando" e "cultivando" a natureza, transformada e apropriada como a Grande Casa do Espírito, a Pátria, a Terra-Natal, resguardada na quadratura do mundo, graças à sua faculdade apurada de se exceder e de se transcender, aperfeiçoando-se moralmente e objectivando na história a sua liberdade e a sua aspiração divina. Se nesta última metamorfose da matéria que é o "reino do espírito" (Hegel) "Deus ocupa o lugar correspondente ao do homem na escala zoológica", então a divindade é a "medida do homem" (Hölderlin): o homem caminha na direcção de Deus e, nesse sentido, a antropologia liberta-se da zoologia e tende a ser atraída pela teologia no âmbito aberto de um antropoteísmo. A confusão psicologista só surge quando não se leva em conta o interaccionismo: apesar de serem autónomos, os reinos interagem entre si, o que inviabiliza uma análise estritamente reducionista da vida, da mente e dos seres espirituais que vivem no nosso cérebro, porque considerar os fenómenos espirituais como parte integrante do reino animal equivale a considerar os fenómenos orgânicos como parte integrante dos fenómenos inorgânicos: uma ideia não é uma mera função cerebral. O neuroreducionismo constitui um erro: as ideias e o cérebro formam dois reinos distintos, pertencentes a duas fases distintas da evolução cósmica, mas ligam-se de tal modo que o cérebro apenas constitui o meio onde as ideias habitam, e "o nosso eu não é mais do que a harmonia consciente que resulta do conjunto de todas as formas e seres espirituais que vivem no nosso cérebro". Pascoaes cunhou a expressão "Biologia Psíquica" para designar a disciplina que estuda as ligações entre o cérebro e as ideias, bem como a reprodução das ideias e a sua difusão através dos contactos com os cérebros e as suas redes neurais. Pascoaes previu assim o surgimento das neurociências, em especial da psicologia biológica (biopsicologia) e da biologia do espírito (neurociência espiritual). O mundo das sensações de Alberto Caeiro não resiste à solidez da explicação das sensações elaborada por Pascoaes, o que mostra a sua superioridade intelectual em relação a Fernando Pessoa: o homem como "argonauta das sensações" abdica do pensamento e, nesta abdicação, despede-se da sua humanidade, retraindo-se no "animal" desalmado incapaz de dar "um passo para alterar /Aquilo a que chamam a injustiça do mundo" (Alberto Caeiro). &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A teoria do sentido da vida de Pascoaes suscita problemas filosóficos intrigantes que ainda não foram pensados. A resposta de Pascoaes à pergunta "Para que existo?" desvia-se da própria pergunta para a recolocar num novo horizonte, recuperando o sentido da existência: a era da técnica, ou melhor, da tecnociência, que construiu "o seu ponto de vista, entrincheirando-se nele, egoísta e intolerante, pretendendo, como os seus inimigos, governar o mundo" através do confinamento depressivo das criaturas dentro da sua existência animal, do materialismo grosseiro e do mercantilismo. Com o reino intolerante do "clericalismo científico" emergiu a "crise moral" que "queima as almas", tal como a Inquisição tinha "queimado os corpos". Este desvio justifica-se pelo facto do homem contemporâneo, o homem da técnica, o "homem industrial", comportar-se como um "antropóide" que se arrepende de ser homem. Não comportar-se como homem humano, isto é, como criador do reino dos seres espirituais, constitui o drama psicológico da humanidade na era da técnica, essa "deusa de metal" ou "mulher eléctrica". Pascoaes atribui a responsabilidade por este arrependimento de ser homem à própria ciência, neste caso particular ao darwinismo, que não admite que o homem seja mais antropos do que antropóide: a ciência teima em reduzir o homem à sua condição animal, negando-lhe a sua dimensão espiritual e a sua capacidade de se transcender e de se realizar como ser espiritual, isto é, como ser livre e criador de cultura. Isto não implica uma desvalorização dos animais ou mesmo da própria animalidade do homem, porque, como escreve Pascoaes, "os animais são pessoas, como nós somos animais". O destino do homem não é ser um mero antropóide, prisioneiro da "actividade vegetal" - "nascer para comer e comer para morrer" - num planeta convertido em "refeitório e cemitério", mas "ser a consciência do Universo em ascensão perpétua para Deus". A tarefa do homem é compreender a sua existência e superá-la mediante a transição do material para o imaterial: o homem é, para Pascoaes, "um valor absoluto na sua actividade espiritual" e esta actividade cultural é "síntese consciente do Universo", síntese simultaneamente consciente e emotiva, científica e poética. Como valor absoluto, o homem move-se no reino dos seres espirituais que giram na "órbita de Deus" (G. Junqueiro), sonhando a própria essência do mundo, de modo a libertar-se do nada que o aflige na sua condição mortal de suspenso do abismo e a ampliar o mundo através da sua actividade de transcendência, acrescentando-lhe o mundo da cultura. Esta "concepção existencial do homem", a do homem universal, simultaneamente físico e metafísico, sem o qual o mundo permaneceria como abismado numa absoluta inexistência, inconsciente de si mesmo, não se conforma com o "conceito puramente científico da Existência" produzido pela ciência na era da técnica: a noção da existência contida "numa balança ou entre os ponteiros dum compasso", como se pudesse ser objecto de cálculos matemáticos. Ao tratar o homem como um mero antropóide, o darwinismo aliena a existência humana da sua essência e da sua finalidade, impedindo-a de atingir o seu sentido pessoal e colectivo da vida. A concepção existencial do homem, exposta no "&lt;em&gt;Regresso ao Paraíso&lt;/em&gt;" (1912), corresponde à verdadeira filosofia, isto é, à filosofia poética, que permite assimilar o mundo a nós, sem no entanto o desnaturar. A recepção portuense de Nietzsche não é alheia a Pascoaes: Zaratustra anunciou à multidão que "o homem é uma corda amarrada entre o animal e o super-homem - uma corda por cima de um abismo. Um perigoso passar para a outra banda, um perigoso estremecer e ficar parado". A grandeza do homem reside no facto de ser uma ponte e não um fim: "aquilo de que se pode gostar no homem é que ele é uma travessia e um afundamento". Pascoaes retém a noção de ponte ou de travessia: o homem é uma ponte entre o antropóide e o Sagrado, uma ponte que se ergue no "abismo sem fundo" e que o homem deve atravessar para encontrar o sentido da sua vida. Ou, nas palavras do poeta Pascoaes: "&lt;em&gt;A alma, em virtude da sua força activa de esperança, visa o Futuro, - o Incriado; e em virtude da sua força passiva de lembrança, apenas encontra o Passado ou a Natureza criada, imenso espectro evidente nas suas formas endurecidas e mortas. O Universo é o cadáver de Deus, a estátua fria e inerte da Esperança. As estrelas gelaram-lhe na face, como antigas lágrimas que já não encerram dor alguma. O sol é um riso de metal caindo sobre um globo de ferro. A alma fulge na escuridão absoluta. Canta no silêncio absoluto. Por baixo dela jaz o fantasma do Passado; por cima a noite silenciosa do Futuro. E ela própria é passado e futuro, invocação e desejo. Ausente de si mesma no que há-de ser e no que foi, ou vê espectros da Morte materializados, ou sombras por encarnar da Vida. O Presente divino, a Realidade em si, a Esperança imaterializável, Deus, excepcionalmente vislumbrados, fogem à sua clara e constante percepção. No mundo sensível só há futuro e passado. O movimento abstracto da esperança (tempo futuro) mal se concretiza, é lembrança, movimento inerte, matéria (tempo passado). A cada acção criadora da esperança (espaço e tempo futuro) corresponde a sua paralisação para trás em formas criadas (tempo e espaço passado)&lt;/em&gt;". (Publicado &lt;span style="color:#000099;"&gt;&lt;a href="http://cyberdemocracia.blogspot.com/2009/05/teixeira-de-pascoaes-e-o-sentido-da.html"&gt;aqui&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;.) &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;J Francisco Saraiva de Sousa&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4759866844732089627-8293713558198555818?l=cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/feeds/8293713558198555818/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4759866844732089627&amp;postID=8293713558198555818&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/8293713558198555818'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/8293713558198555818'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/2009/11/teixeira-de-pascoaes-filosofia-e.html' title='Teixeira de Pascoaes: Filosofia e Sentido da Vida'/><author><name>J Francisco Saraiva de Sousa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14064808742564506644</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/SvrTZlRz0QI/AAAAAAAAAEY/MaJbQPFAoXc/s72-c/Teixeira+de+Pascoaes.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4759866844732089627.post-5768851787874673623</id><published>2009-11-16T06:50:00.000-08:00</published><updated>2009-11-16T06:50:00.328-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberPhilosophy'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberEstética'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Literatura'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Poesia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Filosofia Sexual'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crítica da Ideologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Estética'/><title type='text'>Fernando Pessoa: Poesia e Homossexualidade</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5402859873082058978" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 184px; CURSOR: hand; HEIGHT: 200px" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/SvrQbdJEqOI/AAAAAAAAAEQ/FGTQ5IAEzeg/s200/Fernando+Pessoa.jpg" border="0" /&gt;«Eu queria ser um bicho representativo de todos os vossos gestos&lt;br /&gt;Um bicho que cravasse dentes nas amuradas, nas quilhas&lt;br /&gt;Que comesse mastros, bebesse sangue e alcatrão nos conveses,&lt;br /&gt;Trincasse velas, remos, cordame e poleame&lt;br /&gt;Serpente do mar feminina e monstruosa cevando-se nos crimes! (...) &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Ser o meu corpo passivo a mulher-todas-as-mulheres&lt;br /&gt;Que foram violadas, mortas, feridas, rasgadas pelos piratas!&lt;br /&gt;Ser no meu ser subjugado a fêmea que tem de ser deles&lt;br /&gt;E sentir tudo isso - todas estas coisas duma só vez - pela espinha!&lt;br /&gt;Ó meus peludos e rudes heróis da aventura e do crime!&lt;br /&gt;Minhas marítimas feras, maridos da minha imaginação!&lt;br /&gt;Amantes casuais da obliquidade das minhas sensações!&lt;br /&gt;Queria ser aquela que vos esperasse nos portos,&lt;br /&gt;A vós, odiados amados do seu sangue de pirata nos sonhos!»&lt;br /&gt;(&lt;strong&gt;Álvaro de Campos&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Ode Marítima&lt;/em&gt;)&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;«A mulher que sou quando me conheço». (&lt;strong&gt;Bernardo Soares&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;Livro do Desassossego&lt;/em&gt;)&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;É muito difícil encontrar actualmente uma definição consensual da psiquiatria, porque são diversas as áreas disciplinares que contribuem para a constituição da psiquiatria como ramo da medicina, fazendo com que se desdobre em diversas problemáticas, e para o diagnóstico e a terapêutica das perturbações mentais. Uma definição vulgar define a psiquiatria como um ramo da medicina que estuda a patologia da "vida de relação" ao nível da integração que assegura a autonomia e a adaptação do homem nas condições da sua existência, mas a tendência é cada vez mais a de a encarar como uma ciência do comportamento e das perturbações de comportamento. A imagem popular da psiquiatria ainda associa-a às "doenças mentais", de resto uma designação que caiu em desuso, e é essa noção que descobrimos em Fernando Pessoa. Num dos seus escritos de crítica literária, Fernando Pessoa afirmou que "o único crítico de arte ou de letras deve ser o psiquiatra". A noção do psiquiatra como o único crítico literário é deveras estranha. Como fingidor nato, Fernando Pessoa simula conhecer a obra de Freud e dos Freudianos e chega mesmo a dizer que não precisava ler Freud para "conhecer, pelo simples estilo literário, o pederasta e o onanista, e, adentro do onanismo, o onanista praticante e o onanista psíquico". E, mais adiante, procura explicar a introversão (autista) de Mário de Sá-Carneiro - a sua falta de calor humano e de ternura humana - pelo facto de ter perdido a mãe quando tinha dois anos. Como nunca conheceu o carinho materno, devido à morte prematura da mãe, Sá-Carneiro vira sobre si-mesmo a ternura própria e, como verificou Joel Serrão, torna-se um onanista compulsivo. Numa carta a Adolfo Casais Monteiro, Fernando Pessoa utiliza a psiquiatria para explicar a génese dos heterónimos: "A origem dos meus heterónimos é o fundo traço de histeria que existe em mim". Porém, entre ser simplesmente histérico ou ser um histero-neurasténico, Pessoa opta pela segunda hipótese, "porque há em mim fenómenos de abulia que a histeria, propriamente dita, não enquadra no registo dos seus sintomas. Seja como for, a origem mental dos meus heterónimos está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação. Estes fenómenos - felizmente para mim e para os outros - mentalizaram-se em mim; quero dizer, não se manifestam na minha vida prática, exterior e de contacto com outros; fazem explosão para dentro e vivo-os eu a sós comigo. Se eu fosse mulher - na mulher os fenómenos histéricos rompem em ataques e coisas parecidas - cada poema de Álvaro de Campos (o mais histericamente histérico em mim) seria um alarme para a vizinhança. Mas sou homem - e nos homens a histeria assume principalmente aspectos mentais; assim tudo acaba em silêncio e poesia..."&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Fernando Pessoa auto-rotula-se em termos médicos como um "histero-neurasténico" desde a infância, mas, nesta auto-interpretação, não é a sua personalidade, a sua sexualidade real ou a sua enfermidade de alma que interessam: o que deveras interessa é compreender a unidade da sua obra poética, onde o seu eu se despersonaliza. A noção de despersonalização de que fala Pessoa parece aproximá-lo da teoria impessoal da poesia de T.S. Eliot: a concepção de poesia como um "todo vivo de toda a poesia já escrita". Nesta perspectiva, o poeta procura conhecer o passado, a Tradição ou o Espírito Ocidental, do qual o presente é a compreensão, e aperfeiçoar constantemente esse conhecimento, rendendo-se e auto-sacrificando-se a si próprio, numa extinção contínua da sua personalidade. Porém, em Fernando Pessoa, a despersonalização não significa o sacrifício das personalidades e das opiniões dos poetas, dos homens e das mulheres a uma ordem impessoal, a Tradição, mas sim a fragmentação do próprio eu e a sua dispersão - orquestrada pelo "dramaturgo" - em múltiplas identidades poéticas, os seus heterónimos, fragmentação essa que Pessoa, na carta a Armando Cortes-Rodrigues, pensa, talvez de modo precipitado, em termos de "crise psíquica", portanto, em termos psiquiátricos, possibilitando uma leitura psicopatológica da sua obra e da sua "alma enferma" (William James). Mas, como onde há dramaturgo, há uma linha condutora consciente unificadora e controladora da dispersão interior, a despersonalização não significa, em Fernando Pessoa, dissociação e/ou desrealização: Fernando Pessoa não sente que perdeu o controle sobre os seus pensamentos, imaginação ou lembranças, como se o seu corpo - movimentos corporais e comportamentos - e a sua mente - pensamentos e identidades - lhe fossem completamente estranhos, observados por si à distância como algo morto (despersonalização), ou carentes de integração e, portanto, fora do controle consciente e selectivo (dissociação). A auto-interpretação de Pessoa em termos psiquiátricos mais não é do que um recurso retórico para dar conta da sua "tendência para criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram": Fernando Pessoa é desde a infância um "dramaturgo".&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Usando a obra de Freud e de Nietzsche, Harold Bloom reescreveu a história literária em termos de complexo de Édipo: os poetas vivem angustiados à sombra de um "poeta forte" anterior que, como "pai primordial", o "Pai Poético", os oprime. Todos os poemas podem ser lidos como tentativas de escapar dessa "angústia de influência" mediante a remodelação e a revisão sistemáticas de um poema anterior: "A Influência Poética - quando diz respeito a dois poetas fortes, autênticos -, processa-se sempre através de uma leitura má do poeta anterior, um acto de correcção criativa que é realmente e necessariamente uma interpretação errónea. A história da influência poética frutífera, que o mesmo é dizer a tradição principal da poesia ocidental a partir do Renascimento, é uma história de angústia e de caricatura defensivas, de distorções, de revisionismos perversos e deliberados sem os quais a poesia moderna enquanto tal não poderia existir". Presos nas teias da rivalidade edipiana, filhos e pais travam constantemente batalhas entre si e, quando essas lutas são entre iguais fortes, o poeta forte procura a todo o custo desarmar a força castradora do seu "perseguidor" - o pai -, penetrando-o a partir de dentro e reescrevendo o poema precursor de modo a revê-lo, deslocá-lo, encobri-lo e modificá-lo. É por isso que todos os poemas podem ser lidos como uma reescritura de outros poemas, mais precisamente como a sua "interpretação errónea". Só assim - lendo-se mal uns aos outros - os poetas fortes conseguem abrir espaço à sua própria originalidade imaginativa, isto é, desobstruir um "espaço de imaginação para si próprios". O poeta forte mais não é do que um "atrasado" que, reconhecendo corajosamente esse "atraso", procura enfraquecer a força do precursor. O poema é essa tentativa de enfraquecimento e de encobrimento que visa, através de diversos recursos retóricos, tais como as seis proporções de revisão - clinamen, tessera, kenosis, demonização, askesis e apófrades -, desfazer e superar outro poema-pai, donde resulta que o significado de um poema é outro poema gerado intra- e inter-poeticamente: "O poeta forte não consegue gerar-se a si próprio - deve esperar pelo seu Filho, que o definirá como ele definiu o seu Pai Poético. Gerar quer aqui dizer usurpar, e esse é o trabalho dialéctico do Querubim", isto é, da "angústia criativa".&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A utilização da psicanálise para elaborar uma teoria da poesia não é isenta de dificuldades ou mesmo de abusos hermenêuticos. Theodor W. Adorno denunciou todas as interpretações psicanalíticas da arte que erigem abusivamente em critério um psiquismo normal, mesmo quando a qualidade estética é, como nos casos de Baudelaire e de Fernando Pessoa, condicionada pela ausência da mens sana: "As obras de arte são, para a psicanálise, sonhos diurnos; ela confunde-os com documentos, transfere-os para os que sonham enquanto que, por outro lado, os reduz, em compensação da esfera extramental salvaguardada, a elementos materiais brutos, de um modo aliás curiosamente regressivo em relação à teoria freudiana do «trabalho do sonho». (...) As obras de arte são incomparavelmente muito menos reflexo e propriedade do artista do que pensa um médico, que apenas conhece o artista no seu divã. Só os diletantes referem tudo o que se encontra na arte ao inconsciente. A pureza da sua sensibilidade repete clichés decadentes. No processo de produção artístico, as moções inconscientes são impulso e material entre muitos outros. Inserem-se na obra de arte através da mediação da lei formal; o sujeito literal, que compõe a obra, não passaria de um cavalo pintado. As obras de arte não constituem &lt;em&gt;thematic apperception&lt;/em&gt; tests do seu autor. Em tal amusia é responsável também o culto que a psicanálise rende ao princípio de realidade: o que não lhe obedece é sempre «fuga» apenas, a adaptação à realidade surge como o summum bonum". Na carta a João Gaspar Simões, Fernando Pessoa denuncia precisamente a "franca paranóia (freudiana) de tipo interpretativo", cujo "critério psicológico original e atraente" de avaliação das obras de arte assenta numa "interpretação sexual". O freudismo conduz à produção de livros de ciência "obscenos" que interpretam os "artistas e escritores passados e presentes num sentido degradante", "ministrando masturbações psíquicas à vasta rede de onanismos de que parece formar-se a mentalidade civilizada contemporânea". Ora, para Fernando Pessoa, "o Freudismo é um sistema imperfeito, estreito e utilíssimo". É imperfeito, porque nenhum sistema teórico nos pode dar a chave única da "complexidade indefinida da alma humana". É estreito, porque reduz tudo à sexualidade, esquecendo que "nada se reduz a uma coisa só, nem sequer na vida intra-atómica". E é utilíssimo, porque destacou três elementos importantes da vida da alma e fundamentais para a sua interpretação: o inconsciente e a qualidade irracional dos humanos (1), a importância da sexualidade como força motivacional (2) e aquilo a que Pessoa chama a "translação", isto é, "a conversão de certos elementos psíquicos (não só sexuais) em outros, por estorvo ou desvio dos originais, e a possibilidade de se determinar a existência de certas qualidades ou defeitos por meio de efeitos aparentemente interrelacionados com elas ou eles" (3). Fernando Pessoa não nega o uso dos conceitos psicanalíticos como "estímulo da argúcia crítica", desde que esta saiba "afiar a faca psicológica (imagem fálica) e limpar ou substituir as lentes do microscópio crítico (imagem iónica)". Contra os abusos interpretativos de alguns críticos, Pessoa esclarece que a função do crítico é estudar o artista exclusivamente como artista (1), clarificar a explicação central do artista (2), e cercar os seus estudos de uma "leve aura poética de desentendimento" (3). E apresenta o seu exemplo para clarificar o segundo ponto metodológico: "O ponto central da minha personalidade como artista é que sou um poeta dramático; tenho continuamente, em tudo quanto escrevo, a exaltação íntima do poeta e a despersonalização do dramaturgo. Voo outro - eis tudo. Do ponto de vista humano - em que ao crítico não compete tocar, pois de nada lhe serve que toque - sou um histero-neurasténico com a predominância do elemento histérico na emoção e do elemento neurasténico na inteligência e na vontade (minuciosidade de uma, tibieza de outra). Desde que o crítico fixe, porém, que sou essencialmente poeta dramático, tem a chave da minha personalidade, no que pode interessá-lo a ele, ou a qualquer pessoa que não seja um psiquiatra, que por hipótese, o crítico não tem que ser. Munido desta chave, ele pode abrir lentamente todas as fechaduras da minha expressão. Sabe que, como poeta, sinto; que, como poeta dramático, sinto despegando-me de mim; que, como dramático (sem poeta), transmudo automaticamente o que sinto para uma expressão alheia ao que senti, construindo na emoção uma pessoa inexistente que a sentisse verdadeiramente, e por isso sentisse, em derivação, outras emoções que eu, puramente eu, me esqueci de sentir". A chave hermenêutica apresentada por Pessoa para abrir todas as fechaduras da sua expressão poética reconduz-nos ao célebre poema "&lt;em&gt;Autopsicografia&lt;/em&gt;":&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;"O poeta é um fingidor.&lt;br /&gt;Finge tão completamente&lt;br /&gt;Que chega a fingir que é dor&lt;br /&gt;A dor que deveras sente. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;"E os que lêem o que escreve,&lt;br /&gt;Na dor lida sentem bem,&lt;br /&gt;Não as duas que ele teve,&lt;br /&gt;Mas só a que eles não têm. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;"E assim nas calhas de roda&lt;br /&gt;Gira, a entreter a razão,&lt;br /&gt;Esse comboio de corda&lt;br /&gt;Que se chama coração".&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Teixeira de Pascoaes, o pai eterno visado no trabalho intra-poético de Fernando Pessoa, deixou-nos estas palavras de cautela hermenêutica: "Ser sincero é ser, é possuir uma presença integral, como as árvores e os penedos. A mentira representa pontos obscuros, falhas da nossa pessoa que pretendemos ocultar. Mas a sinceridade é a própria luz das almas. Por isso, ela seduz e deslumbra os olhos que amam a claridade". Quando analisa a poesia alheia, em especial a dos pais poéticos que urge assassinar, Fernando Pessoa recorre, dito em linguagem hegeliana, à mediação psicológica e à mediação sociológica para compreender as obras de arte e, no caso referido, para interpretar mal os poemas precursores. O recurso abundante à mediação psicológica visa denegrir os chamados "poetas místicos" - Teixeira de Pascoaes, Guerra Junqueiro e Jaime Cortesão, entre outros - e, como recurso extra-poético, viola o ponto dois da metodologia da crítica literária proposta pelo próprio Fernando Pessoa: explicitar a "explicação central do artista". Os heterónimos ou as máscaras de Pessoa - Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, além do seu semi-heterónimo Bernardo Soares -, cada um dos quais apetrechado com um profundo conceito de vida e marcado pelas suas próprias influências e preferências poéticas, nacionais e estrangeiras, embora todos eles "discípulos de Caeiro", incluindo o próprio Fernando Pessoa, constituem personagens que Pessoa utiliza para interpretar mal esses poetas nacionais, de modo a desbravar um espaço onde pudesse afirmar sem mácula a sua originalidade imaginativa. A dramatização e a criação dessas máscaras acontecem dentro da própria poesia de Pessoa ou, como prefere dizer, dentro de si próprio, o que mostra a intensidade da angústia da influência sofrida continuamente por Pessoa, que precisa usurpar os outros e vivê-los como suas criações internas e privadas dentro de si próprio. A elaboração das biografias de cada um dos heterónimos mostra que, durante a sua viagem, Pessoa acaba por assassinar cada um deles, com o objectivo de descobrir a sua unidade original. Numa atitude de desprezo pelos seus contemporâneos e antecessores, Pessoa afirma que a sua crise psíquica é a crise "de se encontrar só" por se ter adiantado de mais dos "companheiros de viagem". Ora, afirmar que se encontra adiantado em relação aos poetas-pais equivale a reconhecer o sucesso da sua tarefa de os superar ou de os melhorar. Porém, essa superação bem-sucedida não é evidente, até porque Pessoa se limita a substituir o saudosismo de Pascoaes por um futurismo absolutamente místico: a mitologia do Quinto Império, fortemente devedora dos ensinamentos herméticos de Sampaio Bruno, mas privado da sua leitura antropológica do Encoberto. Bernardo Soares acaba por reconhecer esse fracasso poético: "A minha alma é fraca de mais para ter sequer a força do seu próprio entusiasmo. Sou feito de ruínas do inacabado e é uma paisagem de desistência a que definiria o meu ser. /Divago, se me concentro; tudo em mim é decorativo e incerto, como um espectáculo na bruma. /Escrevo com uma grande intensidade de expressão; o que sinto nem sei o que é. Sou metade sonâmbulo e a outra parte nada. /A mulher que sou quando me conheço". Conhecer a mulher que é ou, como diz Prado Coelho, a sua pederastia passiva, é reconhecer que a sua ambição, mesmo a de vir a ser galardoado com o Prémio Nobel da Literatura, não foi suficiente para fazer dele um poeta forte, tal como Shakespeare, Goethe ou Whitman: o seu super-Camões que parodia o super-homem de Nietzsche foi apenas um sonho diurno que não conseguiu concretizar e completar. (Publicado &lt;span style="color:#009900;"&gt;&lt;a href="http://cyberdemocracia.blogspot.com/2009/05/fernando-pessoa-e-psiquiatria.html"&gt;aqui&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;.)&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;J Francisco Saraiva de Sousa&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4759866844732089627-5768851787874673623?l=cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/feeds/5768851787874673623/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4759866844732089627&amp;postID=5768851787874673623&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/5768851787874673623'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/5768851787874673623'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/2009/11/fernando-pessoa-poesia-e.html' title='Fernando Pessoa: Poesia e Homossexualidade'/><author><name>J Francisco Saraiva de Sousa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14064808742564506644</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/SvrQbdJEqOI/AAAAAAAAAEQ/FGTQ5IAEzeg/s72-c/Fernando+Pessoa.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4759866844732089627.post-3918085921363808335</id><published>2009-11-11T05:30:00.001-08:00</published><updated>2009-11-11T05:56:04.662-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberPhilosophy'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Filosofia da Mente'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberEstética'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Literatura'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Poesia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Filosofia Sexual'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crítica da Ideologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Estética'/><title type='text'>Mário de Sá-Carneiro: Poesia e Jogo de Identidades</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/Svq-twboMtI/AAAAAAAAAEI/17mz_qQbrU4/s1600-h/M%C3%A1rio+de+S%C3%A1-Carneiro.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5402840396288504530" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 140px; CURSOR: hand; HEIGHT: 200px" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/Svq-twboMtI/AAAAAAAAAEI/17mz_qQbrU4/s200/M%C3%A1rio+de+S%C3%A1-Carneiro.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;«&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;strong&gt;Eu queria ser mulher&lt;/strong&gt; pra me poder estender&lt;br /&gt;Ao lado dos meus amigos, nas banquettes dos cafés.&lt;br /&gt;Eu queria ser mulher para poder estender&lt;br /&gt;Pó de arroz pelo meu rosto, diante de todos, nos cafés. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;«Eu queria ser mulher pra não ter que pensar na vida&lt;br /&gt;E conhecer muitos velhos a quem pedisse dinheiro -&lt;br /&gt;Eu queria ser mulher para passar o dia inteiro&lt;br /&gt;A falar de modas e a fazer "potins" - muito entretida.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;«Eu queria ser mulher para mexer nos meus seios&lt;br /&gt;E aguçá-los ao espelho, antes de me deitar -&lt;br /&gt;Eu queria ser mulher pra que me fossem bem estes enleios,&lt;br /&gt;Que num homem, francamente, não se podem desculpar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;«Eu queria ser mulher para ter muitos amantes&lt;br /&gt;E enganá-los a todos - mesmo ao predilecto -&lt;br /&gt;Como eu gostava de enganar o meu amante loiro, o mais esbelto.&lt;br /&gt;Com um rapaz gordo e feio, de modos extravagantes...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;«Eu queria ser mulher para excitar quem me olhasse,&lt;br /&gt;Eu queria ser mulher pra me poder recusar...» (&lt;strong&gt;Mário de Sá-Carneiro&lt;/strong&gt;)&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A Filosofia que habita a linguagem, juntamente com a poesia, tem sido avessa à meditação da chamada "poesia confessional", talvez por temer dispersar-se nas linguagens plurais dos mais diversos eus singulares e dos seus mundos próprios. No entanto, este receio e pudor filosóficos não se justificam, primeiro, porque, como mostrou Hegel, o indivíduo é mediado pelo universal e vice-versa, e, segundo, porque a lingua(gem) usada pelo poeta é uma objectividade que, a-propriada pelo poeta e pelos seus leitores, serve de mediador entre o indivíduo e a sociedade, configurando as emoções subjectivas e, como meio de expressão dos conceitos, produzindo "a relação indispensável com o colectivo e a realidade social" (Adorno). A essência da poesia não se esgota na mera expressão da subjectividade ou na mera expressão da sociedade: a poesia é a "experiência" do processo dialéctico através do qual o indivíduo e a sociedade se constituem um ao outro e se determinam reciprocamente. Nessa experiência, a lingua(gem) a-propriada cria mundos que falam uma voz própria, a voz do poeta, cujo eu se esquece de si no interior da língua, tornando-se plenamente presente. Toda a poesia abre e instaura uma expansão de sentido no mundo já significado e, como epifania de mundo, consagra um mundo que nos arranca do nosso próprio mundo, oferecendo-nos um novo espaço, bem como a oportunidade de habitar o mundo que fundou. O pensamento filosófico procura elucidar os mundos poéticos, deixando-os falar no seu dizer originário. Mário de Sá-Carneiro quis ser escutado e compreendido: "Daqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda" ("&lt;em&gt;Caranguejola&lt;/em&gt;"). Ou, nas palavras de Paul Celan: "O poema, sendo como é uma forma de manifestação da linguagem e, por conseguinte, na sua essência dialógico, pode ser uma mensagem na garrafa, lançada ao mar na convicção - decerto nem sempre muito esperançada - de um dia dar a alguma praia, talvez a uma praia do coração. Também neste sentido os poemas estão a caminho - têm um rumo".&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O poema de Mário de Sá-Carneiro, citado em epigrafe, intitula-se "&lt;em&gt;Feminina&lt;/em&gt;" e, nele, o poeta "confessa" um desejo secreto: Mário de Sá-Carneiro "queria ser uma mulher", não uma mulher qualquer, mas um determinado tipo de mulher, a mulher fatal que excitasse todos os homens que a olhassem e que tivesse muitos amantes, enganando-os a todos, até mesmo o amante predilecto. Porém, o poeta, sendo homem e vivendo numa determinada sociedade, sabe bem que estes seus "enleios" e "fantasmas" não podem ser desculpados num homem: as noções sociais de homem e de masculinidade incorporadas pelo poeta vedam-lhe o acesso público e real a esse desejo secreto, do qual toda a sua poesia é uma bela poetização. Embora não seja nomeada, a sociedade está presente nessa "dispersão" interior do eu poético que revela o conflito interior, o antagonismo entre o desejo de ser mulher e a sociedade incorporada e interiorizada que proíbe a sua manifestação e a sua realização: a grande ausente, a sociedade amputadora, fala do interior do eu, como a sua consciência moral, segredando-lhe: "O teu desejo não pode ser desculpado no homem que és". O conflito do eu consigo mesmo reflecte, no labirinto interior, azul anímico, o antagonismo do indivíduo e da sociedade, em cuja dialéctica se joga a identidade. Se a socialização fosse completamente triunfante e bem sucedida, o problema da identidade, o surgimento na consciência da pergunta "Quem sou eu?", não existiria: a identidade seria dissolvida na simetria completa entre a realidade objectiva e a realidade subjectiva, o eu seria a sociedade e a sociedade, o eu, o que constitui uma impossibilidade antropológica. A socialização nunca é totalmente bem sucedida e, em todas as sociedades, emergem assimetrias e rupturas entre a realidade objectiva e a realidade subjectiva, que permitem às pessoas conceberem-se a si mesmas em termos de "profundidades ocultas" ou de um jogo de identidades, sem o qual o individualismo e a inovação não seriam possíveis. Qualquer humano é potencialmente um traidor de si mesmo, no sentido de poder trair, num determinado momento da vida, um dos seus múltiplos eus, públicos ou privados. Sá-Carneiro pensou esta traição de si mesmo como crime: o crime não é somente o acto de trair o "eu" que lhe é socialmente atribuído pela socialização primária - "Tu és um homem e deves comportar-te como homem em todas as circunstâncias da tua vida" - e confirmado pelos outros significativos e generalizados (G.H. Mead) no decorrer da conversação quotidiana, mas também e fundamentalmente trair o seu "eu mais íntimo", aquele que não se deixa colonizar pelo mundo estabelecido, com o qual discorda. Aceitar o eu socialmente atribuído e agir em conformidade com os papéis adequados é trair o eu secreto, e escutar este último e abrir-lhe as portas da vida é trair o "eu público": em qualquer uma destas circunstâncias e opções de escolha, o homem é sempre um traidor de si mesmo, e, por isso, Mário de Sá-Carneiro é levado, desde os poemas de juventude, a definir o homem como um "criminoso": "Eu quero ser um criminoso, /Se ter amor é um crime". Aos olhos da sociedade heterosexista, ter amor não é um crime, desde que o indivíduo se conforme aos papéis sexuais e de género que lhe são atribuídos, identificando-se com eles, mas, quando não há essa identificação, devido a um acidente biográfico, social ou biológico, o amor que deseja e procura desvia-o da "tirania da normalidade" (Espinosa), tornando-se um crime numa dupla-circunstância: por um lado, no caso desse amor revelar-se, um crime contra os padrões sociais que regularizam as relações sexuais, e, por outro lado, no caso de não se revelar, um crime que o indivíduo comete contra "um Outro que eu não posso acorrentar" ("&lt;em&gt;Ângulo&lt;/em&gt;"), a sua identidade subjectivamente real. Os crimes diferenciam-se pela "distância" ("&lt;em&gt;Distante Melodia&lt;/em&gt;") em relação a esse "Outro", o mais próximo de si mesmo e o mais escondido dos outros, que, no poema "&lt;em&gt;Abrigo&lt;/em&gt;", deseja ser mulher de Paris: "Paris - meu lobo e amigo... /- Quisera dormir contigo, /Ser todo a tua mulher".&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Como homem, com uma identidade socialmente atribuída, logo à nascença, e marcada por um acidente anatómico, a visibilidade do falo, que colide com a sua mais secreta identidade subjectivamente real, Mário de Sá-Carneiro é um "fantasma", isto é, um "emigrado" de si mesmo, mais precisamente desse "Outro que não posso acorrentar" por ser demasiado íntimo, próximo e real: a identidade subjectivamente real torna-se uma identidade de fantasia, objectivada não só dentro da sua consciência, mas também, numa forma transfigurada, como desejo de ser mulher, na sua poesia. O poema "&lt;em&gt;Como Eu Não Possuo&lt;/em&gt;" revela o confronto interior desses dois mundos discordantes:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;«Olho em volta de mim. Todos possuem -&lt;br /&gt;Um afecto, um sorriso ou um abraço.&lt;br /&gt;Só para mim as ânsias se diluem&lt;br /&gt;E não possuo mesmo quando enlaço.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;«Roça por mim, em longe, a teoria&lt;br /&gt;Dos espasmos golfados ruivamente;&lt;br /&gt;São êxtases da cor que eu fremiria,&lt;br /&gt;Mas a minh'alma pára e não os sente! &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;«Quero sentir. Não sei... perco-me todo...&lt;br /&gt;Não posso afeiçoar-me nem ser eu:&lt;br /&gt;Falta-me egoísmo pra ascender ao céu.&lt;br /&gt;Falta-me unção pra me afundar no lodo. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;«Não sou amigo de ninguém. Pra o ser&lt;br /&gt;Forçoso me era antes possuir&lt;br /&gt;Quem me estimasse - ou homem ou mulher,&lt;br /&gt;E eu não logro nunca possuir!... &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;«Castrado d'alma e sem saber fixar-me,&lt;br /&gt;Tarde a tarde na minha dor me afundo...&lt;br /&gt;- Serei um emigrado doutro mundo&lt;br /&gt;Que nem na minha dor posso encontrar-me?... &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;«Como eu desejo a que ali vai na rua,&lt;br /&gt;Tão ágil, tão agreste, tão de amor...&lt;br /&gt;Como eu quisera emaranhá-la nua.&lt;br /&gt;Bebê-la em espasmos d'harmonia e cor!... &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;«Desejo errado... Se a tivera um dia,&lt;br /&gt;Toda sem véus, a carne estilizada&lt;br /&gt;Sob o meu corpo arfando transbordada,&lt;br /&gt;Nem mesmo assim - ó ânsia! - eu a teria... &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;«Eu vibraria só agonizante&lt;br /&gt;Sobre o seu corpo d'êxtases dourados,&lt;br /&gt;Se fosse aqueles seios transtornados,&lt;br /&gt;Se fosse aquele sexo aglutinante... &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;«De embate ao meu amor todo me ruo,&lt;br /&gt;E vejo-me em destroço até vencendo:&lt;br /&gt;É que eu teria só, sentindo e sendo&lt;br /&gt;Aquilo que estrebucho e não possuo». &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Todos os humanos que o rodeiam possuem alguma coisa, mas ele, Mário de Sá-Carneiro, parece ser o único que nada possui, até "mesmo quando enlaço". "Castrado de alma" e sem saber fixar-se e vincular-se a outro humano, homem ou mulher, afunda-se na sua dor: não é como os outros e, no mundo destes outros que possuem, ele é um emigrado, um estranho ou um clandestino num mundo heterosexista, no seio do qual não pode esperar por alguém por causa da sua "delicadeza" ("&lt;em&gt;Caranguejola&lt;/em&gt;"). O desejo da mulher que vai na rua é "desejo errado", porque o que o poeta deseja possuir não é a mulher como ser-outro, complemento de si mesmo, mas a sua "carne estilizada" no seu próprio corpo: Mário de Sá-Carneiro só vibraria "se fosse aqueles seios transtornados" e "se fosse aquele sexo aglutinante". Na posse imaginária da mulher, o poeta quer ser e sentir "aquilo que estrebucho e não possuo", isto é, "quer (simplesmente) ser mulher": possuir seios transbordantes e aguçados e possuir, em vez do pénis, uma vagina. A dor em que se afunda, sem conseguir ascender ao céu - ser mulher - ou descer ao lodo - ser homossexual -, é o rasgo da dilaceração ou, como diz o poeta, castração de alma, a alma amputada, no sentido que é dito neste poema: «Eu não sou eu nem sou o outro, /Sou qualquer coisa de intermédio: /Pilar da ponte de tédio /Que vai de mim para o Outro». A dor dilacera e dispersa a alma, diferenciando-a e cortando-a em pedaços, as diversas identidades de Mário de Sá-Carneiro. Mas, ao rasgar a sua unidade anímica e ao diferenciá-la, a dor reúne e articula o que foi separado pelo rasgo e pelo corte. A alma do poeta habita a dor, onde encontra o seu suporte - o "pilar" - no "intermédio": a "ponte", o "labirinto" ou a "escada" entre duas identidades, uma socialmente atribuída, o "desejo errado" - ser homem heterossexual -, e outra - ser mulher heterossexual - poetizada para enfrentar a identidade não-assumida aberta e publicamente: a homossexualidade passiva. Mário de Sá-Carneiro poetiza o entre, o intermédio: o desejo de ser mulher, a identidade transexual como recurso poético e ficcional para resolver a sua dispersão interior. Porém, a identidade ficcionada elaborada para reunir a dispersão interior produz um outro corte mais profundo que não cicatriza: rasga a sua unidade com o corpo que, ao "espelho", a nega como "fantasiada guerra" ou "fantasia alada". Alguns versos de dois poemas revelam o desconforto com o próprio corpo. Nos poemas "&lt;em&gt;Crise Lamentável&lt;/em&gt;" e "&lt;em&gt;O Fantasma&lt;/em&gt;", o poeta, além de revelar desconforto de género, confessa um desejo de mudança corporal: "Gostava tanto de mexer na vida, /De ser quem sou - mas de poder tocar-lhe... /E não há forma: cada vez perdida /Mais a destreza de saber pegar-lhe. /(...) /"Que tudo em mim é fantasia alada, /Um crime ou bem que nunca se comete: /E sempre o Oiro em chumbo se derrete /Por meu Azar ou minha Zoina suada..." (&lt;em&gt;Crise Lamentável&lt;/em&gt;). "O que farei na vida - o Emigrado /Astral após que fantasiada guerra -/Quando este Oiro por fim cair por Terra, /Que ainda é oiro, embora esverdinhado?" (&lt;em&gt;O Fantasma&lt;/em&gt;).&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O verdadeiro eu do poeta está fechado hermeticamente no armário e, como não conseguiu "estender pó de arroz pelo meu rosto, diante de todos, nos cafés", entregou-se desesperadamente a uma "fantasiada guerra" que é "resgatada" na poesia: Mário de Sá-Carneiro procurou habitar poeticamente a sua verdadeira identidade, embora numa forma transfigurada, mas não encontrou quietude e serenidade e a sua alma peregrina e "vagabunda", mergulhada e atormentada no "cismar" ("&lt;em&gt;Escala&lt;/em&gt;") consigo mesma e na "divagação" ("&lt;em&gt;Manucure&lt;/em&gt;"), não se transfigurou em alma azul, capaz de operar a transformação desejada: "E eu que sou o rei de toda esta incoerência, /Eu próprio turbilhão, anseio por fixá-la /E giro até partir... /Mas tudo me resvala /Em bruma e sonolência" ("&lt;em&gt;A Queda&lt;/em&gt;"). No poema "&lt;em&gt;Dispersão&lt;/em&gt;", fala da perda: "Perdi-me dentro de mim / Porque eu era labirinto, /E hoje, quando me sinto, /É com saudade de mim. /Passei pela minha vida /Um astro doido a sonhar. /Na ânsia de ultrapassar, /Nem dei pela minha vida... /Para mim é sempre ontem, /Não tenho amanhã nem hoje: /O tempo que aos outros foge /Cai sobre mim feito ontem". As "catedrais de Ser-Eu" ruíram todas, quais ilusões lunares e copulares do Mário, e, como nenhuma das suas vidas, a real e a idealizada numa figura de papel, lhe agradavam, Mário de Sá-Carneiro entrou numa profunda crise de angústia, uma "crise lamentável", que o conduziu ao suicídio prematuro, perpetrado no Hotel de Nice, no bairro de Montmartre em Paris, com o recurso a cinco frascos de arseniato de estricnina. Este acto de antecipação voluntária da morte certa, no qual Mário de Sá-Carneiro afirma plenamente a sua liberdade poética, constitui a acusação derradeira da sociedade heterosexista e fechada que nega aos seus membros a possibilidade de viverem de acordo com o seu mais íntimo eu e as suas aspirações a ser mundo na abertura do mundo comum. A ânsia do poeta é a ânsia por uma sociedade (eroticamente) plural, onde cada um possa habitar sem angústia o seu verdadeiro mundo subjectivo e nele encontrar a serenidade e a quietude da alma azul: o início originário de um novo mundo. (Publicado &lt;span style="color:#ffcc00;"&gt;&lt;a href="http://cyberdemocracia.blogspot.com/2009/05/mario-de-sa-carneiro-ou-poesia-do-jogo.html"&gt;aqui&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;.)&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;J Francisco Saraiva de Sousa&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4759866844732089627-3918085921363808335?l=cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/feeds/3918085921363808335/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4759866844732089627&amp;postID=3918085921363808335&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/3918085921363808335'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/3918085921363808335'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/2009/11/mario-de-sa-carneiro-poesia-e-jogo-de.html' title='Mário de Sá-Carneiro: Poesia e Jogo de Identidades'/><author><name>J Francisco Saraiva de Sousa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14064808742564506644</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/Svq-twboMtI/AAAAAAAAAEI/17mz_qQbrU4/s72-c/M%C3%A1rio+de+S%C3%A1-Carneiro.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4759866844732089627.post-8513950550214211194</id><published>2009-11-10T13:39:00.001-08:00</published><updated>2009-11-10T14:09:48.032-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Escola do Porto'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberPhilosophy'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberEstética'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Literatura'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Pintura'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crítica da Ideologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Estética'/><title type='text'>Antero de Quental: Poesia e Filosofia</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5402592977585913554" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 197px; CURSOR: hand; HEIGHT: 200px" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/SvndsF8HPtI/AAAAAAAAAD4/Ck-tfEd2-ik/s200/Antero+de+Quental.jpg" border="0" /&gt;«Fui rocha, em tempos, e fui, no mundo antigo,&lt;br /&gt;Tronco ou ramo na incógnita floresta...&lt;br /&gt;Onda, espumei, quebrando-me na aresta&lt;br /&gt;Do granito, antiquíssimo inimigo... &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;«Rugi, fera talvez, buscando abrigo&lt;br /&gt;Na caverna que ensombra urze e giesta;&lt;br /&gt;Ou, monstro primitivo, ergui a testa&lt;br /&gt;No limoso paul glauco pacigo... &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;«Hoje sou homem - e na sombra enorme&lt;br /&gt;Vejo, a meus pés, a escada multiforme,&lt;br /&gt;Que desce, em espirais, na imensidade... &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;«Interrogo o infinito e às vezes choro...&lt;br /&gt;Mas, estendendo as mãos no vácuo, adoro&lt;br /&gt;E aspiro unicamente à liberdade.» (&lt;strong&gt;Antero de Quental&lt;/strong&gt;) &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Este soneto de Antero de Quental intitula-se "&lt;em&gt;Evolução&lt;/em&gt;". Nos dois tercetos, Antero diz o que entende por evolução: um processo ascendente que aspira à liberdade. Mas quem aspira à liberdade? O primeiro verso do primeiro terceto responde: o homem que se localiza no topo dessa escada em espiral da evolução. A rocha, o tronco ou ramo, a onda, o granito, a fera ou o monstro primitivo, não aspiram conscientemente à liberdade, e, mesmo que aspirassem de modo consciente, seriam incapazes de a realizar, porque são seres privados da capacidade de interrogar e de agir livremente: o homem é o único ser capaz de interrogar o universo e, por isso, de realizar a aspiração à liberdade no reino da História. Isto significa que o universo «precisa» do homem para realizar a sua aspiração à liberdade e alcançar a sua plenitude de ser, porque o universo sofre, mas não pensa: o homem é o único ser que, lançado na balança constituída pelos três eixos do tempo (passado, presente e futuro), pensa, trazendo para o presente a sinceridade do passado e voltando-se para o futuro como quem aguarda a realização do possível. O universo exprime-se nas categorias da consciência humana: o homem não só conta os factos do universo e do seu tempo histórico, como também se interroga no seu foro íntimo. Lançado na Terra pelo "destino", isto é, pelo ser em evolução, onde o espírito se agita em todas as suas formas inorgânicas e orgânicas, o homem incarna a ideia no seu peito, e, como ser que interroga, procura respostas. O homem enquanto ser que pensa é todo o universo consciente de si mesmo e dotado de inteligibilidade e de sentido. Mas o homem que pensa nem sempre encontra respostas: o choro é o resultado final de uma tentativa de interrogar fracassada, isto é, a existência humana que sofre a falta de respostas a todas as suas perguntas. O homem sem respostas é um ser-dividido e dilacerado, um ser-em-sofrimento, um ser que se perde para a existência plenamente realizada. A dualidade de uma existência trágica: eis o destino de um povo - o povo português - que não consegue encontrar-se consigo mesmo e que Antero procurou pensar sem sucesso. &lt;strong&gt;A tragédia portuguesa é claramente antidialéctica e, como tal, autocondena-se ao suicídio: dorme na fatal obscuridade da massa inerte sem conseguir ascender à luz da liberdade. A história de Portugal é anti-história: algo que não emerge da natureza obscura e confusa das forças cegas do caos e da decadência.&lt;/strong&gt; &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O soneto não clarifica completamente a essência da capacidade humana de interrogar, cujo sentido explicitámos com o concurso da tensão essencial que habita entre as "&lt;em&gt;Odes Modernas&lt;/em&gt;" e os "&lt;em&gt;Sonetos&lt;/em&gt;" de Antero de Quental. No entanto, a sua clarificação é-nos dada na sua obra filosófica: "O universo aspira com efeito à liberdade, mas só no espírito humano a realiza". O espírito humano não é mera sensibilidade, como supõem a ciência mecanicista e a sua filosofia materialista, mas essencialmente espontaneidade e, acima de tudo, força espontânea consciente. E, dado as impressões exteriores o modificarem segundo as suas próprias leis da liberdade, "o espírito percebe o universo, não adaptando-se a ele, mas adaptando-o a si. O universo, tal como ele se nos apresenta, é, no fundo, uma criação do espírito: se existe para nós, é porque o concebemos: aparece-nos, não reflectido na inteligência, mas verdadeiramente visto nela. Todos os factos do universo acumulados não produzem uma ideia. Os factos são o ponto de partida das ideias, cuja virtualidade está no espírito: em si são inertes e inexpressivos. O que lhes dá expressão e verdadeiro ser é a inteligência, em cujas categorias entram, fundidos pela elaboração mental, como em outros tantos moldes, ordenando-se nelas e por elas. O conhecimento é, pois, um facto íntimo e próprio do espírito e o universo conhecido o produto da sua espontânea actividade" (Antero) e, até mesmo, da sua vontade livre. Ou, numa formulação mais hegeliana do que kantiana, "pensar sobre o mundo é já supor nele alguma coisa de fundamentalmente análogo aos princípios da razão, é supô-lo racional. Ora, essa suposição implica a da identidade fundamental do objecto e do sujeito" (Antero). O recurso à linguagem de Kant, o Sócrates da filosofia moderna, e de Hegel, revela a filiação do pensamento filosófico de Antero de Quental e o seu compromisso com o socialismo: "Schelling e Hegel fundaram definitivamente a doutrina da evolução, e fundaram-na na mais alta região das ideias, donde ela domina todo o pensamento do nosso século. A evolução, vista desta altura, (a altura adequada,) não é somente o processo mecânico e obscuro da realidade: é o próprio processo dialéctico do ser, tem as suas raízes, comuns com as raízes da razão, na inconsciente mas fundíssima aspiração da natureza a um fim soberano, a consciência de si mesma, a plenitude do ser e a ideal perfeição. A lei suprema das coisas confunde-se com a finalidade e essa finalidade é espiritual. Com Schelling e Hegel, a filosofia da natureza compenetra-se dos seus verdadeiros princípios metafísicos: o mecanismo dissolve-se no dinamismo, cujo tipo último é o espírito". Schelling e Hegel transfiguraram a imagem do universo: "o seu movimento aparece como uma sucessão e encadeamento de ideias e a sua imagem define-se como a da alma infinita das coisas". Ao atingir a sua finalidade com o surgimento do homem sobre a Terra, o peregrino, o universo em evolução torna-se consciente de si mesmo: a razão ilumina-o e adapta-o às leis do espírito, dando-lhe expressão, inteligibilidade e sentido. A natureza passa a ser o palco do "teatro da história" e o homem, o seu agente racional. Encarada como "teatro da liberdade", a história caminha na direcção da realização do "domínio da justiça", mesmo que tropece pelo caminho e o seu agente regresse à animalidade. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Esta visão antropocêntrica da evolução contrasta fortemente com a visão naturalista da evolução, nomeadamente a de Darwin, dominada pelo jogo cego e fatal das forças elementares e destituída de inteligência. A filosofia de Antero de Quental procurou operar e realizar uma "síntese do pensamento moderno", isto é, uma síntese entre ciência e metafísica, a partir de um território comum: o dinamismo da força e a evolução. Cada uma destas formas de conhecimento tem a sua própria visão da evolução: a ciência mecanicista encara a evolução como uma mera "complicação crescente de forças elementares", enquanto a metafísica, oriunda do idealismo alemão, especialmente dos dois grandes sucessores de Kant, Schelling e Hegel, a vê como um processo progressivo que caminha do simples para o complexo, "ajuntando, em cada momento da evolução, ao tipo inferior, para o fazer passar a superior, um elemento novo, um aumento de ser" (Antero). As duas visões compreensivas da evolução não são rivais e, como "colaboradoras na obra do conhecimento" humano, devem ser integradas num "saber total, ao mesmo tempo positivo e metafísico, experimental e especulativo, tomando o ser na sua unidade, da qual o espírito só arbitrária e violentamente pode ser amputado, e na ordem de desenvolvimento dos seus momentos, dos quais o espírito é o superior e típico" (Antero). &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;À distinção epistemológica entre metafísica e ciência corresponde uma distinção ontológica entre a esfera superior do ser e a esfera inferior do ser: o universo descrito pela ciência é um universo inferior e elementar, construído sobre dados sensoriais primitivos e elementares e, portanto, incapaz de explicar o "mistério do que na consciência está para além da sensibilidade": a "região obscura onde assentam essas explicações" científicas. Tanto a inteligência científica como o universo factual que elabora a partir de impressões sensoriais, revelam aquilo a que Antero chama uma "falta": faltam-lhes os "órgãos mais nobres" da evolução cósmica. "Assim como o movimento, a que tudo reduz, é um movimento sem causa e sem fim, e a necessidade, a que tudo submete, é destituída de razão e incompreensível, assim também a evolução, em cuja espiral faz mover-se esse mundo cego e fatal, privada de verdadeira substância, explicando o concreto pelo simples e reduzindo o superior ao inferior, não tem realidade própria e é, no fundo, uma aparência vã e uma pura ilusão subjectiva" (Antero). O universo da ciência é "um universo que se move nas trevas, sem saber porquê nem para onde. Não o alumia a luz das ideias, não lhe dá vida a circulação do espírito. Paira sobre ele um mudo fatalismo". É, pois, um universo tenebroso, desolado, glacial, morto e amputado: falta-lhe a vida do espírito. A síntese do pensamento moderno consiste em insuflar o espírito na matéria, de modo a explicar a forma inferior do ser pela forma superior do ser, e as forças cegas e passivas pelas forças racionais e espontâneas. Para Antero, o dinamismo psíquico é a chave do dinamismo mecânico: "O espiritualismo dará ao materialismo o que lhe falta, completando-se, por esta insuflação do espírito na matéria, a compreensão ao mesmo tempo positiva e especulativa do universo". O espiritualismo absoluto de Antero de Quental redefine a evolução nos seus próprios termos: "A evolução não é apenas uma complicação crescente de forças elementares: é um alargamento de ideias, isto é, de existência verdadeira. E se o ideal supremo, que a tudo atraí, para que tudo gravita, é razão, vontade pura, plena liberdade, a evolução só será perfeitamente compreendida definindo-se como a espiritualização gradual e sistemática do universo". (Publicado &lt;strong&gt;&lt;span style="color:#000099;"&gt;&lt;a href="http://cyberdemocracia.blogspot.com/2009/05/antero-de-quental-evolucao.html"&gt;aqui&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;.) &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;J Francisco Saraiva de Sousa&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4759866844732089627-8513950550214211194?l=cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/feeds/8513950550214211194/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4759866844732089627&amp;postID=8513950550214211194&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/8513950550214211194'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/8513950550214211194'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/2009/11/antero-de-quental-poesia-e-filosofia.html' title='Antero de Quental: Poesia e Filosofia'/><author><name>J Francisco Saraiva de Sousa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14064808742564506644</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/SvndsF8HPtI/AAAAAAAAAD4/Ck-tfEd2-ik/s72-c/Antero+de+Quental.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4759866844732089627.post-1800329367233508948</id><published>2009-10-26T10:14:00.000-07:00</published><updated>2009-10-26T10:30:06.276-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Filosofia da Técnica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberPhilosophy'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crítica da Ideologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Antropologia Filosófica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberPhilosophy e Comunicação'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Estética'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cinema'/><title type='text'>Ficção Científica: Filosofia do Cinema</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/SuXaGL6AYqI/AAAAAAAAADw/JtpjifMSP5A/s1600-h/aliens.jpg"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5396959528283562658" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 152px; CURSOR: hand; HEIGHT: 200px" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/SuXaGL6AYqI/AAAAAAAAADw/JtpjifMSP5A/s200/aliens.jpg" border="0" /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;«&lt;em&gt;O cinema de ficção científica trata da estética da destruição com a beleza peculiar que pode ser encontrada ao desencadear a destruição e ao provocar a desordem. E é nas imagens de destruição que se encontra a essência de um bom filme de ficção científica&lt;/em&gt;». (&lt;strong&gt;Susan Sontag&lt;/strong&gt;) &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O cinema surgiu no seio de uma civilização que diferencia claramente dois mundos, o mundo real e o mundo irreal, relegando o fantástico para o domínio da superstição e da infância. A emergência do cinema universal e do seu produto típico - o &lt;strong&gt;filme de ficção&lt;/strong&gt; - contraria internamente, negando-o, o &lt;strong&gt;processo de racionalização&lt;/strong&gt; e de &lt;strong&gt;desencantamento do mundo&lt;/strong&gt;: o cinema não só abrange o campo do mundo real, como também abarca e integra o campo do mundo imaginário, o que significa que participa simultaneamente da percepção do estado de vigília e da visão do sonho. Como grande matriz arquetípica que compreende, em termos embriológicos, todas as visões do mundo, incluindo a visão primitiva do mundo, o cinema apela e inscreve o fantástico no real e, enquanto &lt;strong&gt;abertura ao mágico&lt;/strong&gt; do qual deriva em última instância toda a arte, define-se como a &lt;strong&gt;unidade dialéctica do real e do imaginário&lt;/strong&gt;. Esta dialéctica é especialmente evidente nos filmes de ficção científica, cuja estética da destruição vamos explicitar como se estivéssemos a realizar o &lt;strong&gt;Filme dos filmes de ficção científica&lt;/strong&gt;. O &lt;strong&gt;roteiro típico&lt;/strong&gt; de um filme de ficção científica compreende basicamente cinco partes, embora possa revelar diversas variações resultantes da supressão de uma ou outra parte ou da sua fusão: &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;1. A chegada da Coisa.&lt;/strong&gt; Os monstros, os invasores, máquinas assassinas e exterminadoras, predadores extraterrestres em busca de refeição ou de um hospedeiro que facilite a sua reprodução, algo radioactivo, uma mutação súbita produzida num laboratório, uma doença misteriosa ou uma nave espacial alienígena irrompem e surgem no mundo dos humanos. Alguém - um jovem cientista numa pesquisa de campo - presencia essa chegada ou suspeita de alguma coisa estranha, mas ninguém - incluindo a sua namorada incrédula e/ou as autoridades locais - acredita inicialmente no seu relato. O mundo parece girar na sua própria normalidade, como se nada de estranho estivesse a acontecer. Noutras versões, o herói e a sua namorada ou mulher e filhos repousam nalgum lugar de férias da classe média ou na sua casa situada numa pequena cidade, quando são repentinamente surpreendidos por alguém que se comporta de modo estranho ou por alguma forma de vegetação que começa subitamente a crescer e a mover-se. No caso de estar a dirigir um carro, o herói pode ser surpreendido por alguma coisa hedionda que surge no meio da estrada ou por luzes estranhas que sulcam o céu nocturno. Uma versão muito frequente é a do herói-cientista, que, no seu laboratório, faz experiências: nuns casos, provoca inadvertidamente uma metamorfose nalguma espécie vegetal ou animal que se torna carnívora e frenética; outras vezes, fere-se e é "invadido" e "contaminado", ou então realiza experiências com radiação ou constrói uma máquina para comunicar com seres de outros planetas ou para viajar no tempo. Outra variante mostra uma viagem ao espaço: os astronautas da nave terrestre descobrem que o planeta visitado ou já colonizado por colonos humanos ou por prisioneiros (colónia penal) se encontra ameaçado por invasores alienígenas e, depois de terem lutado contra eles, procuram desesperadamente regressar à Terra, mesmo correndo o risco de trazer na nave ou mesmo no próprio corpo o invasor extraterrestre - incubado ou não - para o berço da humanidade. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;2. Cena de destruição visível.&lt;/strong&gt; Inicialmente, o herói é o único humano que sabe da existência de alguma coisa estranha que pode levar à extinção da vida humana em pouco tempo e, mesmo quando tenta avisar os outros e as autoridades, ninguém acredita que algo anormal está a acontecer. A sua luta contra a Coisa consiste em barricar a casa, caso a Coisa seja material, ou em chamar um amigo, caso a coisa seja um parasita invisível, mas a luta é inglória: todos acabam por ser mortos ou "tomados" pela Coisa. A ameaça só se torna visível quando um número elevado de testemunhas presencia uma grande cena de destruição que confirma o relato do herói. As forças policiais ou militares são chamadas para resolver a situação, mas são massacradas e destruídas pela Coisa. Todos os esforços realizados para repelir a Coisa revelam-se inúteis: a Coisa continua a fazer novas vítimas e a ameaça começa a ultrapassar os limites da cidade, até que se torna potencialmente planetária e global: a vida humana está em perigo. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;3. O estado de emergência.&lt;/strong&gt; Na capital da nação invadida pela Coisa, os cientistas e as forças armadas realizam conferências secretas, durante as quais o herói faz a sua exposição, com recurso a mapas e outros meios tecnológicos sofisticados. O governo decreta o estado de emergência nacional. Os mass media noticiam novos casos de destruição. As notícias percorrem todo o mundo e as autoridades de outros países começam a ficar preocupadas. As tensões internacionais são suspensas e é decretada a emergência planetária: o planeta e a vida humana correm perigo e, por isso, todas as nações aliam-se para elaborar planos que visam destruir o inimigo comum. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;4. Novas atrocidades.&lt;/strong&gt; Mas todas essas tentativas de destruição da Coisa fracassam, enquanto novas atrocidades são difundidas pelos mass media: cidades inteiras são destruídas pelos invasores e/ou evacuadas, as forças policiais ou armadas são dizimadas, geralmente pelo fogo, e todos os ataques dos homens contra a Coisa, usando os armamentos e as tecnologias mais avançados, fracassam. As multidões fogem, atropelam-se, são perseguidas e, nas pontes, empurradas pelas forças de segurança. A Coisa vence, fazendo inúmeras vítimas, e anexa cada vez mais território: o desespero total instala-se entre os humanos confrontados com a sua extrema fragilidade diante dos poderes da Coisa. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;5. A vitória final.&lt;/strong&gt; Os humanos realizam novas conferências: a Coisa tem de ser vulnerável a algo. Geralmente, a estratégia final da qual dependem todas as esperanças da humanidade é traçada pelo herói que trabalhou sozinho, no seu laboratório, nesse sentido: constrói-se uma arma todo-poderosa e o cronómetro inicia a contagem regressiva. Os monstros ou os invasores são finalmente repelidos ou vencidos. Os humanos congratulam-se pela vitória, mas nada garante que algures no espaço cósmico frio e escuro, nas profundezas da Terra ou nas suas regiões geladas ou desconhecidas hajam outros monstros capazes de retomar a invasão e a destruição. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Os filmes de ficção científica não tratam de ciência, mas falam unicamente de &lt;strong&gt;catástrofe&lt;/strong&gt;. Na representação imediata do extraordinário, como o desabamento de arranha-céus ou a guerra nuclear, os filmes de ficção científica proporcionam não um exercício cognitivo, mas sim a elaboração sensorial, permitindo ao público participar da fantasia de sobreviver à nossa própria morte, à destruição das cidades e de planetas e à &lt;strong&gt;aniquilação da própria humanidade&lt;/strong&gt;. A catástrofe é a visão da catástrofe e a catástrofe é vista mais de modo extensivo do que de modo intensivo: a beleza revela-se precisamente na estética da destruição, isto é, nas imagens de destruição. A catástrofe constitui um dos maiores temas da arte, talvez porque na catástrofe está em jogo a própria sobrevivência da humanidade e da sua aventura cósmica e a sua capacidade de saber - ou não - fazer frente à possibilidade da sua própria aniquilação. Os lançamentos das bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki, bem como a guerra fria, marcaram fortemente a imaginação da catástrofe: as vítimas da radiação ocuparam um lugar de relevo nos filmes de ficção científica, que ajudaram a difundir a ideia de que todo o mundo pode ser destruído por testes e guerras nucleares, e a canalizar a belicosidade humana para o desejo de paz. Quando a Terra é invadida por forças alienígenas, as potências beligerantes da Terra suspendem os seus conflitos e unem-se para combater o inimigo alienígena. A &lt;strong&gt;fantasia da união na guerra&lt;/strong&gt; foi, durante esse período de guerra fria, a fantasia das Nações Unidas, a qual aparece associada à fantasia utópica: o sonho de um mundo melhor ou, simplesmente, a utopia de uma comunidade mundial totalmente pacificada e regida pelo consenso científico. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O elemento utópico que opera velada ou desveladamente no cinema de ficção científica liga-se intimamente às &lt;strong&gt;narrativas milenares do apocalipse&lt;/strong&gt;. A imaginação da catástrofe é essencialmente a expectativa do apocalipse. Antes de 1500 a.C., diversos povos antigos acreditavam que o mundo tinha sido, no começo dos tempos, organizado e colocado em ordem por um ou mais deuses. A segurança observada no mundo era sinal não só da sua imutabilidade, como também da existência de uma ordem estabelecida nos céus. Apesar dessa imutabilidade atribuída ao mundo, a ordem nunca foi completamente tranquila: forças malignas e destrutivas ameaçavam constantemente o mundo. O mito do combate relata precisamente esse conflito entre a ordem universal e as forças que a ameaçam invadir e destruir. Neste mito do &lt;strong&gt;conflito entre o cosmos e o caos&lt;/strong&gt;, um jovem herói ou guerreiro divino recebeu dos deuses a missão de manter e conservar sob controle as forças do caos. O cumprimento dessa missão era recompensado com a soberania sobre o mundo. Porém, entre 1500 e 1200 a.C., Zoroastro rompeu com a visão estática do mundo, mediante a reinterpretação da versão iraniana do mito do combate: O mundo caminha e aproxima-se gradualmente, através de incessantes conflitos, de um &lt;strong&gt;estado final sem conflitos&lt;/strong&gt; e antagonismos. Este estado será alcançado quando o deus supremo e os seus aliados derrotarem, numa &lt;strong&gt;fantástica batalha final&lt;/strong&gt;, as forças do caos e os seus aliados humanos, aniquilando-os para sempre. Só depois desta batalha final a ordem divinamente estabelecida será absolutamente real e presente. Dado os sofrimentos, as necessidades, as misérias físicas e os inimigos serem definitivamente abolidos, reinará a unanimidade absoluta na comunidade dos redimidos e a ordem do mundo não voltará a ser perturbada ou ameaçada. A doutrina de Zoroastro influenciou não só o judaísmo e o cristianismo, como também muitas ideologias políticas seculares e o próprio cinema de ficção científica. Mas, como vivemos num mundo abandonado pelos deuses, a imaginação da catástrofe transfigurou-se numa &lt;strong&gt;tragédia&lt;/strong&gt;, na textura da qual se joga o destino da humanidade abandonada a si mesma e o &lt;strong&gt;fim do mundo&lt;/strong&gt; tal como o conhecemos. As forças do caos são produzidas pela própria acção humana:&lt;strong&gt; o caos que ameaça destruir o homem e a natureza é, em grande medida, antropogénico. &lt;/strong&gt;Abandonado pelos deuses, o homem torna-se problemático e sente-se completamente só num universo aparentemente despovoado. Esta angústia da solidão leva-o a sondar o universo em busca de seres extraterrestres e de vida fora da Terra, e é precisamente esta busca ansiosa que o cinema de ficção científica retoma para reformular o tema da batalha final como colisão de mundos ou como conflito entre a humanidade e as forças alienígenas que a ameaçam invadir e destruir. Porém, como veremos mais adiante, este confronto final reflecte a problematicidade das relações entre o homem e o mundo tecnoburocrático que criou: as forças alienígenas mais não são do que as projecções imaginárias dos artefactos antropogénicos, tais como a &lt;strong&gt;burocracia impessoal&lt;/strong&gt;, a bomba atómica e as armas nucleares e biológicas, que ameaçam destruir e aniquilar a própria humanidade e a Terra. Os produtos produzidos pelo homem viram-se contra o produtor: o homem perdeu o controle sobre o mundo que criou. Além de estar só, o homem moderno produziu um mundo que lhe aparece como absolutamente estranho e no qual se sente frágil, estranho, alienado e ameaçado. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A &lt;strong&gt;concepção da ambivalência da ciência&lt;/strong&gt; atravessa quase todos os filmes de ficção científica: a ideia predominante é a de que um cientista pode libertar forças que, se não forem controladas ou mesmo destruídas, ameaçam destruir o próprio homem e o seu mundo. O cientista tende a ser visto simultaneamente como um demónio e um salvador e a ciência como uma actividade social dotada de duas faces, tal como o deus Janus: a ciência é sempre uma aventura arriscada, porque tanto pode fornecer uma resposta tecnológica eficaz ao perigo que ameaça a natureza e o próprio homem, como também pode ser usada para os destruir. Um filme de ficção científica não é necessariamente uma apologia cega da ciência e da tecnologia, porque nele se revela quase sempre a possibilidade deste duplo-uso da ciência: o uso humano e a obsessão científica, geralmente atribuída à vontade perversa de um cientista isolado ou aos interesses mesquinhos de grandes corporações económicas e militares. O uso perverso da ciência evidencia-se no caso em que o cientista deserta da sua equipa para se juntar aos invasores extraterrestres, pelo facto da sua ciência ser mais avançada do que a nossa, ou no caso em que o cientista realiza descobertas e experiências arriscadas ou cria monstros sem levar em conta a sua perigosidade para o futuro da humanidade. A ciência feita por cientistas obcecados cultiva forças extremamente perigosas que os cientistas não conseguem controlar, pondo em perigo a vida humana. Porém, a obsessão científica e os monstros que produz podem e devem ser destruídos pela ciência não ambivalente, isto é, pela ciência colocada ao serviço da humanidade e da vida tal como a conhecemos. A figura do cientista louco tende a ser morta não só pelas suas próprias criações monstruosas, como também por si mesma ou pelos heróis que lutam pela preservação da humanidade. O bom cinema de ficção científica critica os abusos da ciência sem no entanto a abandonar ou trocar por qualquer outra forma de conhecimento. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O cinema de ficção científica oculta uma &lt;strong&gt;profunda ansiedade&lt;/strong&gt; no que concerne à vida contemporânea e esta ansiedade não se refere somente à catástrofe física, à perspectiva da mutilação e da aniquilação universal - o trauma da bomba, mas fundamentalmente ao psiquismo individual. A &lt;strong&gt;imaginação negativa do impessoal&lt;/strong&gt; impregna os filmes de ficção científica: os seres do outro mundo que nos tentam dominar são "a Coisa" e não "eles" e, como coisas, são criaturas semelhantes a mortos-vivos, dotadas de movimentos frios, mecânicos e viscosos. Quando não têm forma humana, movem-se com um impulso absolutamente regular e inalterável. Quando têm forma humana, obedecem a uma rígida disciplina militar e não exibem qualquer característica pessoal. A sua presença ameaça a própria humanidade do homem, porque, se eles nos vencessem, seríamos destituídos da nossa humanidade, triunfando o regime da ausência de emoções, da impessoalidade e da arregimentação. Nas cenas de destruição, as criaturas não matam simplesmente os indivíduos humanos; elas aniquilam as pessoas e, mesmo quando preservam os corpos, transformam completamente as pessoas livres em autómatos escravos ou agentes de potências alienígenas e estranhas. Antes de ser colonizada, invadida ou "tomada" pelas forças alienígenas, a pessoa luta para preservar a sua humanidade, mas, quando o facto é consumado, morre como pessoa sem o saber e mostra-se satisfeita com a sua nova condição. A fantasia da "tomada" ou da &lt;strong&gt;possessão&lt;/strong&gt; quase demoníaca retoma alguns elementos da fantasia do vampiro dos filmes de terror, mas a transformação operada pelo contacto é diferente: em vez de se transformar numa criatura "animalesca" sedenta de sangue, onde se manifesta o desejo sexual, o indivíduo "tomado" ou possuído entra num novo estágio de desenvolvimento, tornando-se mais eficiente, isto é, um ser expurgado de emoções, sem volição, tranquilo e obediente a todas as ordens. A angústia em relação à &lt;strong&gt;desumanização&lt;/strong&gt; e à &lt;strong&gt;despersonalização&lt;/strong&gt; reflecte o medo real que o homem tem de ser transformado pela sociedade estabelecida e pela sua tecnologia numa máquina entre outras máquinas, isto é, numa mera peça de uma imensa engrenagem maquínica - a sociedade tecnoburocrática, cujo controle lhe escapa. &lt;strong&gt;O cinema de ficção científica retoma este elemento kafkiano: a metamorfose do humano em insecto como a alegoria derradeira da angústia do ser humano entregue a um mundo sem piedade e a uma civilização técnica que lhe escapa ao controle. O homem que obedece à autoridade impessoal, a da Máquina, sem resistir, acaba por tornar-se um insecto - ou um "cão pavloviano", e, sendo sempre tratado como tal, acaba por pensar, sentir e agir como se fosse efectivamente um insecto, refém da sua "rainha", numa sociedade de insectos.&lt;/strong&gt; (Publicado &lt;span style="color:#000099;"&gt;&lt;a href="http://cyberdemocracia.blogspot.com/2009/06/imaginacao-da-catastrofe.html"&gt;aqui&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;.) &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;J Francisco Saraiva de Sousa&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4759866844732089627-1800329367233508948?l=cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/feeds/1800329367233508948/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4759866844732089627&amp;postID=1800329367233508948&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/1800329367233508948'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/1800329367233508948'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/2009/10/ficcao-cientifica-filosofia-do-cinema.html' title='Ficção Científica: Filosofia do Cinema'/><author><name>J Francisco Saraiva de Sousa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14064808742564506644</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/SuXaGL6AYqI/AAAAAAAAADw/JtpjifMSP5A/s72-c/aliens.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4759866844732089627.post-7868383013875001889</id><published>2009-10-26T09:09:00.000-07:00</published><updated>2009-10-26T09:38:46.358-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberPhilosophy'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Imaginação Política'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberEstética'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Literatura'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crítica da Ideologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='História'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Filosofia da Religião'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Estética'/><title type='text'>O Caim de José Saramago: Filosofia e Literatura</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/SuXKQSGeFYI/AAAAAAAAADo/vqtjLRG-oDM/s1600-h/Jos%C3%A9+Saramago.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5396942109559100802" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 200px; CURSOR: hand; HEIGHT: 195px" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/SuXKQSGeFYI/AAAAAAAAADo/vqtjLRG-oDM/s200/Jos%C3%A9+Saramago.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;«&lt;em&gt;A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele&lt;/em&gt;». (&lt;strong&gt;José Saramago&lt;/strong&gt;, Caim)&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;«&lt;em&gt;A história de toda a sociedade até aos nossos dias mais não é do que a história da luta de classes&lt;/em&gt;». (&lt;strong&gt;Marx/Engels&lt;/strong&gt;, Manifesto do Partido Comunista)&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;«&lt;em&gt;A miséria religiosa constitui ao mesmo tempo uma expressão da miséria real e um protesto contra a miséria real. A religião é o suspiro da criatura oprimida, o sentimento de um mundo sem coração e a alma de situações sem alma. É o ópio do povo. /A abolição da religião enquanto felicidade ilusória dos homens é uma condição para a sua felicidade real. O apelo para que abandonem as ilusões a respeito da sua condição é o apelo para abandonarem uma condição que precisa de ilusões. A crítica da religião é, pois, a crítica embrionária do vale de lágrimas de que a religião é a auréola. /A crítica colheu das cadeias as flores imaginárias, não para que o homem suporte as cadeias sem capricho ou consolação, mas para que lance fora as cadeias e colha a flor viva. A crítica da religião liberta o homem da ilusão, de modo que pense, actue e configure a sua realidade como homem que perdeu as ilusões e reconquistou a razão, a fim de que ele gire em torno de si como seu verdadeiro sol. A religião é apenas o sol ilusório à volta do qual gira o homem enquanto não circula em torno de si próprio&lt;/em&gt;». (&lt;strong&gt;Karl Marx&lt;/strong&gt;)&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Este post é constituído pelos comentários que fiz &lt;strong&gt;&lt;a href="http://cyberdemocracia.blogspot.com/2009/10/jose-saramago-e-o-marxismo.html"&gt;&lt;span style="color:#000099;"&gt;aqui &lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;/strong&gt;sobre o último romance publicado por José Saramago - &lt;em&gt;&lt;strong&gt;Caim&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt; - à medida que o lia: vou apresentá-los sem tentar fazer uma análise mais coerente do texto de Saramago. A leitura é um processo activo e em andamento: as perplexidades do leitor também merecem atenção. Os comentários foram agrupados em doze parágrafos numerados, dos quais o sétimo pode ser dispensado por incidir sobre um assunto relativamente marginal à análise da obra de Saramago.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;1. O momento de decepção&lt;/strong&gt;. Estou a ler José Saramago. Tomei a decisão de o ler ontem (21 de Outubro) à noite, vesti-me e fui comprar alguns livros de Saramago. Estou concentrado no Caim e, de momento, estou decepcionado com a obra, como se estivesse a ler uma "historinha" escrita por uma "velha ama" que tem por hábito contar histórias às suas crianças antes de adormecerem. À primeira vista, falta-lhe aparentemente espessura, densidade filosófica; é muito literal, pouco profundo, muito imediatista, muito pobre em termos de pensamento filosófico. Como crítica da religião, a obra parece ser uma regressão total: Saramago escreve como se estivesse do lado de fora da crítica da religião e do seu rigor metodológico. Até agora só encontrei uma frase com valor crítico - aquela que aparece em epígrafe, mas não vejo como a posso fundamentar e explicitar recorrendo ao resto da obra povoada de masturbações, de sexo ardente e de projecções de sémen. Porém, mantenho uma abertura total de espírito, porque acho graça ao modo como o espírito burguês é recuado no tempo ou como o Caim é ainda nosso contemporâneo. Este expediente de fazer Caim viajar no tempo é frutífero como recurso narrativo, mas penso que Saramago não soube tirar proveito integral dele, talvez porque tenha levado Deus muito a sério, como se ele tivesse sido - ou ainda fosse - uma "pessoa" que intervém de modo imoral e cruel na história do homem, sem se preocupar com o seu futuro: Saramago não compreende como funciona a ideologia religiosa ou, pelo menos, parece não estar interessado nesse funcionamento ideológico: Deus não é mau; os homens é que são maus, embora Caim seja o mais honesto e o mais humano dos homens. Como escreve Saramago: «&lt;em&gt;Apesar de assassino, caim é um homem intrinsecamente honesto, os dissolutos dias vividos em contubérnio com lilith, ainda que censuráveis do ponto de vista dos preconceitos burgueses, não foram bastantes para perverter o seu inato sentido moral da existência, haja vista o corajoso enfrentamento que tem mantido com deus, embora, forçoso é dizê-lo, o senhor nem de tal se tenha apercebido até hoje, salvo se se recorda a discussão que ambos travaram diante do cadáver ainda quente de abel&lt;/em&gt;».&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;2. Onde está o marxismo?&lt;/strong&gt; Não detecto aparentemente nenhuma afinidade estrutural entre Saramago e o marxismo: a sua posição é a de um homem crente que se zangou com Deus, não a de um crítico materialista e ateu da ideologia religiosa. A tal frase que referi colide com a ideia fundamental do marxismo, que, como já mostrei noutros posts, não é um ateísmo, pelo menos do ponto de vista estritamente teórico, mas uma teoria que, na medida em que a religião existe como obstáculo, se vê forçada a lutar contra ela, não para matar as pessoas que têm crenças religiosas ou para as forçar a renunciar a essas crenças, mas para descobrir o que essas crenças encerram de positivo, de modo a procurar novas formas de entendimento e de esclarecimento. Para o marxismo, o ateísmo é uma ideologia religiosa que se articula com uma determinada perspectiva do humanismo. É por isso que Marx não criticou a ideia de Deus, nem negou ou afirmou a sua existência: a redução da história dos homens a um diálogo-confronto dos homens com Deus é uma concepção absolutamente estranha ao marxismo. A ausência ou a fragilidade simulada de conhecimentos filosóficos faz de Saramago um narrador dotado de grande sensibilidade metafísica: a sua aparente ingenuidade, a sua aparente infantilidade, são intelectualmente desconcertantes.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;3. "A maligna natureza do sujeito".&lt;/strong&gt; Eis outra noção desconcertante de Saramago, mas de grande profundidade filosófica. De que sujeito? Do sujeito humano-criatura ou do Sujeito-Deus-criador do mundo e do homem? Trata-se no texto sobre a adoração do bezerro de ouro do sujeito humano, mas também e primordialmente do Sujeito divino. Insinua-se aqui uma ambiguidade que é, à primeira vista, desconcertante, como se Saramago aceitasse a noção de que a história do homem é uma história da maldade depois da queda ou da expulsão do paraíso, mas esta noção não rompe cabalmente com o cristianismo e, a partir dela, Deus pode ser ilibado da crueldade que lhe atribui Saramago. No entanto, no romance de Saramago, surge a crítica da ideia de obediência: Deus testa as suas criaturas para ter a prova da sua obediência, isto é, da sua fé. Mas as criaturas bíblicas revelam alguma resistência, o que significa que Deus - talvez ciente dessa resistência devida à liberdade humana - é forçado a testá-las constantemente. A interpretação literal e irónica dos textos bíblicos justifica-se pelo facto de Saramago pretender indiciar essa resistência dos sujeitos humanos ao domínio de Deus. Seguindo esta via de leitura atenta é possível talvez confiar, isto é, fiar em Saramago.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;4. O poder do homem e o "sentido moral da existência".&lt;/strong&gt; A noção de poder de Saramago aparece representada pelos palácios e pelas exibições de Deus diante dos auditórios dos homens, e revela-se sempre que utiliza uma linguagem mais adequada aos tempos de miséria, usando termos muito modernos, tais como desemprego, crise, operário, ocioso, etc. O poder está muito localizado, como se Saramago desconhecesse a hegemonia. No entanto, nas relações Deus-homens revela-se uma hegemonia. Por enquanto, ainda não descobri todas essas conexões, mas estou com o espírito aberto e medito. Há uma tese interessante que Saramago formula logo no início da sua narrativa: Caim matou Abel por não poder matar Deus. Caim é um herói humano condenado por Deus a errar pelo mundo: a sua luta contra a arbitrariedade e a imoralidade do poder de Deus é permanente. É preciso matar Deus e, deste modo, conquistar definitivamente a emancipação do homem. Começo a entrar no espírito da obra, mas é provável que o resultado final desta análise não coincida com a própria leitura que Saramago faz da sua obra. Mas eu sou filósofo e não escrevo romances. A morte de Abel, em vez da morte do Senhor, permite a Saramago fazer uma incursão metafísica quando se interroga sobre o "objectivo final" ou "razão última" da aventura humana. A Igreja Católica já deu a sua resposta: a reprodução da espécie, isto é, fazer filhos, sem no entanto responder claramente porquê e para quê. A outra resposta - diametralmente oposta - foi dada por Caim e não é nada optimista. Mas não vou revelar já a minha leitura: a surpresa encontra-se revelada nos últimos parágrafos.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;5. O segredo de Caim-Deus.&lt;/strong&gt; Já ganhei avanço crítico na leitura atenta do Caim de José Saramago e estou a gostar do modo como o estou a ler: a história humana de Caim e do pacto secreto estabelecido entre Caim e Deus. A crítica que os padres e os teólogos dirigem a Saramago é simplesmente o resultado de má-fé e de ignorância activa, bem como aquela que lhe é feita pelos pseudo-intelectuais invejosos - os tugas burrecos. O sentido literal não é relevante; o que interessa é o sentido humano da história do homem - a "instrutiva e definitiva história de caim" (Saramago), aliás uma história dialéctica, no sentido de resultar de uma discussão entre Deus e os homens. Adão, Eva, Caim, Abel, Set, Abraão, Isaac e por aí fora são seres humanos que conquistaram "voz própria", isto é, autonomia em relação a Deus. Um país hipócrita como Portugal nunca está preparado para ser confrontado com leituras críticas da Bíblia: o tuga típico é invejoso, ignorante, oportunista, malicioso e mais medroso do que Eva que teve coragem para seduzir o Querubim, provocando-lhe o desejo carnal. Antes de terem comido do fruto da árvore do conhecimento e de conhecerem o bem e o mal, Adão costumava dizer a Eva: "Vamos para a cama". E "os solitários ocupantes do paraíso terrestre", quais "pobres órfãos abandonados na floresta do universo" (Saramago), fornicavam com prazer e gostavam de repetir esse comércio sexual, não para fazer filhos, como desejava o Senhor, mas para desfrutar dos prazeres carnais - a grande marca da humanidade ancestral.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;6. A Inflexão hermenêutica.&lt;/strong&gt; A tensão habita a minha leitura, mas vislumbro na estrutura da narrativa e na temporalidade que a suporta uma via de reconciliação possível entre Saramago e o marxismo. É claro que deveria recorrer a outras obras do Prémio Nobel da Literatura (1998), mas vou resistir a tal tarefa, fazendo a filosofia funcionar na escassez de palavras edificantes do narrador chamado Saramago: a peça, o mecanismo central do funcionamento da ideologia religiosa encontra-se no tirar a prova - a obediência cega a Deus, isto é, à ideologia eterna que, inscrita num aparelho e nas suas práticas, interpela os homens concretos como criaturas sempre-já sujeitas, sujeitadas, subjugadas e submissas ao outro Sujeito, único e central, que é Deus - Aquele que diz ser o senhor, isto é, "eu sou aquele que é". Por enquanto, torna-se evidente que o primado do eterno presente - as mudanças súbitas de presentes por parte de Caim conduzidas a maior parte das vezes pelo jumento - permite a Saramago trazer a história bíblica de Caim até aos nossos tempos modernos, mas suspeito que, em termos filosóficos, não se trata aqui de mera magia do narrador, porque há nesse modo de temporalização uma filosofia da história subjacente e implícita, de cunho marcadamente pessimista. Para Saramago, a história do homem entendida como discussão entre os homens e Deus é uma única e mesma "catástrofe": &lt;strong&gt;quer olhe para trás (passado) ou para a frente (futuro), Caim testemunha a mesma catástrofe, a mesma tempestade, da qual Deus é o principal e, em última análise, o único responsável&lt;/strong&gt;.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;7. Contra os críticos de Saramago.&lt;/strong&gt; Falar de Saramago é quase tabu em Portugal e estou com os ouvidos entupidos, quer pelas falas dos amigos, quer pelos palpites de Lobo Xavier e de Pacheco Pereira na &lt;em&gt;Quadratura do Círculo&lt;/em&gt;. Vou fazer algumas observações sumárias:&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;7.1.&lt;/strong&gt; A crítica que Saramago faz dos textos bíblicos não é original, pelo menos à luz de uma leitura precipitada, nem sequer é a mais radical. Em Portugal, Guerra Junqueiro foi mais radical, pelo menos em A Velhice do Padre Eterno, mas também ele acabou por regressar ao seio do cristianismo com a sua doutrina do cristianismo eterno ou integral. Porém, uma leitura atenta da obra de Saramago - Caim - revela uma mensagem original.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;7.2.&lt;/strong&gt; Como criador Saramago tem todo o espaço de manobra para criar e recriar as suas figuras bíblicas: um romance não é uma obra de exegese, embora possa utilizar esses conhecimentos, mas uma criação literária autónoma, que deve ser avaliada como tal pela crítica filosófica e literária, até porque Saramago fornece indicações a esse respeito.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;7.3.&lt;/strong&gt; Estranho é o facto dos seus críticos fazerem crítica sem ter lido a obra: as críticas são dirigidas a um nada ideológico - o vazio noológico dos falsos-críticos - que simplesmente não está presente na obra de José Saramago. A própria interpretação de Saramago pode ser descartada, se for a que ele tem difundido através dos &lt;em&gt;mass media&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;7.4.&lt;/strong&gt; Em Portugal, todos pensam que percebem de tudo, mas na hora da verdade são uns burrecos: o país está como está - na miséria e na pobreza - devido à burrice malévola dos tuga-burrecos. As pseudo-elites nacionais são abortos culturais, como se sabe ou devia ser sabido, e muito, muito, muito invejosas. Daí que não haja progresso e crescimento em Portugal, mas regressão pantanosa.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;7.5.&lt;/strong&gt; A leitura que faço de &lt;em&gt;Caim&lt;/em&gt; aceita as regras de jogo estipuladas por Saramago como narrador. Vou jogar com essas regras e, se necessário, contra o seu principal jogador - o próprio Saramago, tentando uma reconciliação com o marxismo que, como se sabe, não permite deitar fora o livro que guarda os suspiros dos oprimidos. Este princípio colide com o que Saramago disse ou tem dito sobre &lt;em&gt;Caim&lt;/em&gt;. Além da Bíblia imoral dos vencedores, há, como mostraram Ernst Bloch, Jürgen Moltmann, Leonardo Boff e Gustavo Gutierrez - a Bíblia dos pobres. Herdeira do pensamento utópico de E. Bloch, a teologia da libertação postula a união da escatologia e da política, da fé e da acção política, de modo a construir aqui e agora a sociedade da fraternidade humana através da praxis histórica transformadora. O marxismo é teoria crítica, mas não rompe com a tradição; pelo contrário, exige a sua realização plena através da luta contra a realidade social e política existente: a realização das promessas ainda não cumpridas a favor da emancipação do homem como possibilidade de uma acção antecipadora do reino de Deus, ligada estreitamente à esperança escatológica da Bíblia.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;7.6.&lt;/strong&gt; No mundo ocidental, talvez devido ao triunfo do neoliberalismo e do pensamento único, as pessoas estão a ficar muito pouco receptivas à crítica: querem abolir a crítica, querem silenciar as vozes dissonantes, em nome da trivialidade, da frivolidade e da mediocridade metabólica. A crítica incide basicamente sobre conteúdos objectivos de conhecimento e situações injustas, mas nas actuais circunstâncias de eclipse da crítica os anti-críticos devem ser alvo privilegiado da crítica: os burrecos devem ser silenciados, porque a sua existência é inútil, gratuita e desperdiça energia. Eles não distinguem entre a sua pessoa e as suas opiniões e, quando as últimas são criticadas, reagem brutalmente como se estivessem a ser alvo de um ataque mortal. Ora, isto é sintoma de regressão cognitiva e talvez de perturbações mentais difusas: o animal metabolicamente reduzido não foi talhado para pensar.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;8. A noção de tempo, a viagem no tempo.&lt;/strong&gt; Já fiz referência à noção de temporalidade que estrutura a narrativa de Saramago: as súbitas mudanças de presente permitem a Caim viajar no tempo, ora para a frente - presente por vir - ora para trás - presente passado. A unidade da narrativa é garantida pelo facto de Caim mudar de presente, o que faz dele a figura central do romance - e da história do desentendimento entre Deus e os homens - como testemunha ocular e, em casos importantes, como quando impede que Abraão matasse o seu filho Isaac, participativa, da intervenção de Deus nos assuntos humanos. Ora, os críticos não compreenderam esta estrutura temporal da narrativa e, por isso, dizem disparates, alegando que Saramago fica prisioneiro do sentido literal dos textos bíblicos, descontextualizando a acção das figuras bíblicas e descurando as interpretações simbólicas. Em termos teológicos, Saramago distancia-se claramente da exigência de desmitologização dos textos bíblicos: a hermenêutica existencial de Rudolf Bultmann é-lhe completamente estranha, até porque o seu programa de desmitologização lhe soa talvez a desteocratização da Bíblia. Para Bultmann, a verdade e a novidade do cristianismo reside nesse paradoxo mediante o qual a transcendência de Deus se faz presente, como chamamento de salvação, no homem Jesus Cristo. As religiões místicas introduzem Deus nos acontecimentos ou nos signos objectivos deste mundo, liquidando assim a sua transcendência, enquanto o humanismo religioso liberal o identifica com o âmbito da abertura do homem. Ora, para Bultmann, só o cristianismo, centrado no paradoxo de Cristo, permite que Deus seja transcendente e o homem, puramente humano, postulando a unidade de ambos em Cristo. Assim entendida a novidade do cristianismo, torna-se possível proclamar e realizar a palavra salvadora - como transcendência interior e como libertação do mundo e abertura à esperança - no âmbito da própria vida humana. Saramago não só não acredita na salvação, mesmo na sua forma secularizada como realização de uma sociedade fraterna, como também desconfia do sentido político desta viragem teológica. &lt;strong&gt;Na sua perspectiva, desmitologizar a Bíblia significa desteocratizá-la e desteocratizar a Bíblia significa humanizá-la, com o objectivo de apagar todos os vestígios literais da responsabilidade de Deus pela história cruel da humanidade e do seu descuido pelo futuro do homem.&lt;/strong&gt; Daí que Saramago procure recuperar e reanimar o sentido literal historicizado da Bíblia para acusar e condenar Deus. Isaac detectou a essência da lógica da intervenção divina na história dos homens quando disse a Abraão: «&lt;em&gt;Pai, a questão, embora a mim me importe muito, não é tanto ter eu morrido ou não, a questão é sermos governados por um senhor como este, tão cruel como baal, que devora os seus filhos&lt;/em&gt;» (Saramago).&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;9. O final do romance.&lt;/strong&gt; O final do romance de José Saramago é desconcertante, mas dotado da grandeza de todo o pensamento original: já sabia que era desconcertante, mas estava com esperança de encontrar no texto uma outra orientação hermenêutica mais positiva. Caim mata um a um - com excepção de Noé - os escolhidos de Deus, contrariando o projecto divino de iniciar uma segunda humanidade. Depois do dilúvio, da humanidade resta apenas Caim que discute com Deus, uma discussão que continua, sem sabermos se terá um fim. No entanto, Deus não mata Caim, condenando-o à morte natural. Matar Deus foi, para Caim, matar os seus escolhidos: engravidou as noras de Noé, como se estivesse a ajudar a aumentar a nova humanidade, mas acabou por matá-las, incluíndo a mulher de Noé. A propagação da espécie, quer seja por imposição do cio, quer seja por simples apetite, é vista como uma compensação dos mortos perdidos na guerra. Quando disse «Crescei e multiplicai-vos», Deus impôs ao homem a necessidade de fazer filhos para alimentar as guerras com novos combatentes e para «suprir as perdas em mortos e feridos que sofriam os exércitos próprios e alheios» (Saramago), mas este pensamento perde-se aparentemente com o final desconcertante. Caim encontrou o sentido da sua vida matando Deus, isto é, contrariando o seu projecto: Matar Deus como sentido último da história? &lt;strong&gt;Mas se matar Deus é dizer não à reprodução, então a consumação do ateísmo seria um suicídio colectivo - a morte voluntária da humanidade, tal como fez Noé quando se lançou às águas negras e profundas do dilúvio, mas com esta diferença: Noé suicida-se para não ter de enfrentar a ira de Deus e responder pelo fracasso da missão que lhe fora atribuída, enquanto o homem finalmente liberto se suicida para se livrar de vez do domínio cruel de Deus.&lt;/strong&gt; Com efeito, homem e Deus pertencem-se um ao outro: a morte de um é a morte do outro. Onde há homens há Deus e onde há Deus há homens: &lt;strong&gt;a emancipação humana do domínio de Deus só pode ser consumada na morte voluntária. Esta é a mensagem pessimista de Caim!&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;10. A morte voluntária do homem é a morte de Deus.&lt;/strong&gt; O romance de José Saramago termina com este derradeiro diálogo entre Caim e Deus: «&lt;em&gt;Onde estão Noé e os seus, perguntou o senhor, Por aí, mortos, respondeu caim, Mortos, como, mortos, porquê, Menos Noé, que se afogou por sua livre vontade, aos outros matei-os eu, Como te atreveste, assassino, a contrariar o meu projecto, é assim que me agradeces ter-te poupado a vida quando mataste abel, perguntou o senhor, Teria de chegar o dia em que alguém te colocaria perante a tua verdadeira face, então a nova humanidade que eu tinha anunciado, houve uma, não haverá outra e ninguém dará pela falta, Caim és, e malvado, infame matador do teu próprio irmão, Não tão malvado e infame como tu, lembra-te das crianças de sodoma, Houve um grande silêncio, Depois caim disse, Agora já podes matar-me, Não posso, palavra de deus não volta atrás, morrerás da tua natural morte na terra abandonada e as aves de rapina virão devorar-te a carne, Sim, depois de tu primeiro me haveres devorado o espírito, A resposta de deus não chegou a ser ouvida, também a fala seguinte de caim se perdeu, o mais natural é que tenham argumentado um contra o outro uma vez e muitas, a única coisa que se sabe de ciência certa é que continuam a discutir e que a discutir estão ainda, A história acabou, não haverá nada mais que contar&lt;/em&gt;». No suicídio colectivo da humanidade reside o núcleo essencial da mensagem do Caim de José Saramago. Não haverá nova humanidade: Saramago não acredita na possibilidade de realização plena de uma sociedade fraterna. O fim da história só pode ser consumado com a morte voluntária do homem. A história como desentendimento entre o homem e Deus chegará ao fim com a morte do último homem e o suicídio de Deus. Enquanto essa morte essencial e livre - absolutamente aniquiladora - não ocorrer, a história continuará a ser crime, conflito, guerra, exploração, injustiça, crueldade, enfim violência gratuita. Só podemos matar Deus cometendo o suicídio, porque, sem criaturas subjugadas ao seu domínio, Deus deixa de reinar e também ele será forçado a suicidar-se. Ora, esta não é a ideia marxista do cumprimento da modernidade: a emancipação como morte consciente e voluntariamente enfrentada é de facto uma ideia que colide com o optimismo de Marx e a sua fé num para além da história. Caim é um assassino, Deus é um assassino, e, sendo assim, Caim devia ter saído da barca de Noé e ter-se suicidado perante Deus. Como não o fez, a discussão - a dialéctica teo-antropológica da guerra e da crueldade - continua até aos tempos modernos.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;11. Destruição de Sodoma.&lt;/strong&gt; Até parece ser uma ideia estranha esta que atribuo ao Caim de Saramago, mas não é nada estranha. O jumento leva Caim a viajar no tempo, ora indo para atrás, ora indo para a frente: o homem que matou o irmão com a intenção de matar o pai - Deus - é omnipresente, participando em todos os acontecimentos como testemunha ocular da inveja que Deus sente pelos homens. Mas há um acontecimento marcante: a destruição de Sodoma. Os homens que fazem sexo com outros homens não fazem filhos: os seus prazeres carnais não agradam a Deus, porque este precisa que os homens façam filhos, de modo a garantir a «continuidade biológica» da humanidade e assim a governação divina da «vida íntima dos seus crentes» (Saramago). As gerações que morrem natural ou violentamente para prazer do senhor devem ser substituídas por novas gerações: a diversão do senhor precisa de novas vítimas. Atribuo importância a este episódio, porque ele permite nas suas diversas recapitulações chegar à conclusão exposta nos dois parágrafos anteriores. Para Saramago, não fiar em Deus é, em última análise, não fiar no homem: &lt;strong&gt;à liquidação da esperança na chegada de um futuro inteiramente novo que não seja "uma sucessão de cópulas bem sucedidas" (Saramago) corresponde um pessimismo total&lt;/strong&gt;. A história está condenada a ser um desentendimento entre pai e filho e o comércio sexual entre eles - como sucedeu entre Noé e o seu filho mais novo - conduz a nova maldição, a nova destruição. A humanidade nasceu do comércio sexual entre pai e filho: é incesto, é pacto maligno entre eles, é discussão.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;12. Job.&lt;/strong&gt; Todos os "presentes" visitados por Caim revelam o sentido infame desse pacto entre Deus e os homens, entre Deus e Caim e entre Deus e o diabo: o sentido da aliança que o episódio de Job - que, apesar do sofrimento, continua a ser fiel ao senhor - ajuda a clarificar. Convém relembrar o episódio mais originário: Deus criou o homem e deu-lhe liberdade. Ao matar Abel por ciúme, Caim exerceu plenamente o poder que lhe foi conferido pelo senhor: a liberdade para matar. No último capítulo do romance, Caim mata um a um os membros da família de Noé, escolhida por Deus para repovoar a terra com uma segunda humanidade. Caim que começou por matar o seu irmão por culpa de Deus, mata por fim, mesmo depois de ter impedido que Abraão matasse o seu filho numa das suas viagens no tempo, a família de Noé para impedir a realização do projecto divino. Tal como a força bruta dos seus "anjos-operários", o poder humano de matar e de enfrentar consciente e voluntariamente a sua própria morte assusta Deus, porque escapa ao seu controle. &lt;strong&gt;Se o homem e Deus se pertencem um ao outro, não há outra saída - e isto se quisermos eliminar Deus e consumar definitivamente o ateísmo - a não ser matar os homens, fomentando o terror ou, de preferência, enfrentando consciente e voluntariamente a nossa própria morte: a morte de um é a morte do outro. &lt;/strong&gt;Foi por isso que Deus não matou Caim, pondo-lhe na testa o sinal, não só da sua condenação por ter assassinado Abel, mas também e fundamentalmente da sua protecção: «&lt;em&gt;Então não serei castigado pelo meu crime, perguntou caim, A minha porção de culpa não absolve a tua, terás o teu castigo, Qual, Andarás errante e perdido pelo mundo, Sendo assim, qualquer pessoa me poderá matar, Não, porque porei um sinal na tua testa, ninguém te fará mal, mas, em pago da minha benevolência, procura tu não fazer mal a ninguém, disse o senhor, tocando com o dedo indicador a testa de caim, onde apareceu uma pequena mancha negra, Este é o sinal da tua condenação, acrescentou o senhor, mas é também o sinal de que estarás toda a vida sob a minha protecção e sob a minha censura, vigiar-te-ei onde quer que estejas, Aceito, disse caim, Não terias outro remédio&lt;/em&gt;» (Saramago). Aqui reside a parte substantiva do pensamento de Saramago, que, nesta lógica teológica e teocrática da história, é ele próprio, tal como Caim, prisioneiro do ciclo infernal e cruel da história do homem, que é também a história de Deus. &lt;strong&gt;Só há uma saída para escapar definitivamente ao domínio infame e malvado de Deus: o suicídio.&lt;/strong&gt; Assumir a incumbência da morte voluntária é dizer não à continuidade do jogo divino-diabólico que move a história. &lt;strong&gt;Hegel tinha-nos ensinado que o suicídio era a realização e a manifestação mais autênticas da liberdade individual absoluta, mas Saramago prega uma finta a Hegel quando, recusando que a história tenha chegado ao seu fim com a Revolução Francesa e a realização da liberdade, insinua que a libertação final e derradeira do homem implica a morte conjunta de Deus e do seu duplo - o homem.&lt;/strong&gt; A leitura está concluída, mas será necessário confrontá-la com outros livros de Saramago para afinar os seus conceitos nucleares.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;J Francisco Saraiva de Sousa&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4759866844732089627-7868383013875001889?l=cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/feeds/7868383013875001889/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4759866844732089627&amp;postID=7868383013875001889&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/7868383013875001889'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/7868383013875001889'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/2009/10/o-caim-de-jose-saramago-filosofia-e.html' title='O Caim de José Saramago: Filosofia e Literatura'/><author><name>J Francisco Saraiva de Sousa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14064808742564506644</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/SuXKQSGeFYI/AAAAAAAAADo/vqtjLRG-oDM/s72-c/Jos%C3%A9+Saramago.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4759866844732089627.post-7761105152046746039</id><published>2009-09-07T06:02:00.000-07:00</published><updated>2009-09-07T06:12:50.408-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberPhilosophy'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Imaginação Política'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberEstética'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Pintura'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crítica da Ideologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Filosofia da Religião'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Estética'/><title type='text'>Hieronymus Bosch: Filosofia da Pintura</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/SqUFLduP4CI/AAAAAAAAADg/DjX9RUcWMLo/s1600-h/Temptation+of+Saint+Anthony+Bosch.jpg"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5378711024479232034" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 366px; CURSOR: hand; HEIGHT: 400px; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/SqUFLduP4CI/AAAAAAAAADg/DjX9RUcWMLo/s400/Temptation+of+Saint+Anthony+Bosch.jpg" border="0" /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;Painel central do tríptico "&lt;em&gt;As Tentações de Santo Antão&lt;/em&gt;" de Hieronymus Bosch, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Bosch morreu em 1516, deixando-nos um legado de figuras que nunca foram vistas pelos olhos humanos. A originalidade artística de Bosch não consiste em combinar partes de animais e de humanos, mas na sua fusão para gerar novas criaturas. Nos "&lt;em&gt;Jardins das Delícias&lt;/em&gt;", Bosch exibe a sua criatura mais fantástica: uma cabeça de homem enxertada numa casca de ovo quebrada, que, por sua vez, se liga a duas pernas que são troncos de árvores com raízes lançadas em dois barcos. Apesar do mal e, em especial, da luxúria assumirem diversas formas nas suas pinturas, Bosch não mostrou interesse no Diabo, como mostra o seu tratamento do tema dos anjos rebeldes ("&lt;em&gt;A Queda dos Anjos Rebeldes&lt;/em&gt;"): os anjos em queda são semelhantes a peixes e ratos voadores e o Inferno onde caiem não é feito de chamas, mas habitado por duas cabeças sem corpos que rastejam com os seus pés. No "&lt;em&gt;Juízo Final&lt;/em&gt;" de Bosch, a expulsão dos anjos rebeldes assemelha-se a uma tempestade de areia pelo movimento, cor e textura, e, no "&lt;em&gt;Cristo Coroado de Espinhos&lt;/em&gt;", o conflito entre diabos e anjos é eclipsado pela composição central do Cristo torturado. Para Bosch, não existe conflito entre o bem e o mal: o seu Cristo e os seus santos habitam outro mundo completamente distinto do mundo da luxúria, resguardado e protegido das tentações, perversidades e torturas e, no "&lt;em&gt;Juízo Final&lt;/em&gt;" de Viena, a corte celestial é constituída pela Virgem, João Baptista e doze figuras que parecem ser os apóstolos. Na visão quase onírica de Bosch, os humanos são quase todos pecadores e tolos que habitam um mundo carnal. A bondade não tem existência nesse mundo real habitado por pecadores: os sete pecados espreitam em todos os lugares do mundo carnal e, como são vistos por Deus, serão punidos de modo severo. A preocupação com a maldade humana real domina completamente a pintura de Bosch. O tríptico comprado por Filipe II, rei de Espanha, mostra as legiões do mal que invadem o mundo, dando forma concreta e tangível aos medos que capturaram o espírito do homem no fim da Idade Média: o painel da esquerda mostra a criação de Eva, a tentação de Adão e a sua expulsão do Paraíso. No topo, os anjos rebeldes são expulsos violentamente do Céu como um enxame repugnante de insectos. O painel da direita exibe uma visão do Inferno que mais parece o mundo carnal, onde todos os tipos de demónios pavorosos, meio animais, meio humanos ou mesmo máquinas, flagelam, fustigam e castigam as almas pecadoras ou, mais exactamente, os corpos humanos corruptos. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O &lt;strong&gt;imaginário de Bosch&lt;/strong&gt; é quase onírico e, numa antecipação genial, surrealista: a sua &lt;strong&gt;fábrica de monstros&lt;/strong&gt; gera continuamente criaturas fantásticas que povoam densamente as suas pinturas. O que significam esses monstros? Em termos genéricos, um monstro é definido em relação à norma ou, simplesmente, ao tipo ideal, que, segundo Aristóteles, é a reprodução idêntica, mediante a qual o filho é semelhante ao pai. Quanto maior for a distância do modelo, maior será a imperfeição da "criatura", que, no ponto mais afastado, deixa de ter a aparência humana e passa a ser um monstro. O monstro é um "ser diferente", ou melhor, um desvio à norma: a monstruosidade constitui um fenómeno que se opõe à "generalidade dos casos", sem no entanto questionar a ordem universal da natureza (Aristóteles) ou pôr em dúvida o bom fundamento e a perfeição da criação (Santo Agostinho). Embora tenha excluído o ponto de vista finalista e tipológico, a genética evolutiva e molecular não se afasta muito de Aristóteles quando define o monstro como uma excepção ao destino comum da combinatória genética. Ambas as teratologias - a aristotélica e a médico-genética - estão preocupadas com as causas das anomalias e das malformações observadas em todos os níveis da natureza viva. Porém, a Idade Média viu preferencialmente os monstros como reproduções defeituosas dos modelos. A concepção de monstro - &lt;em&gt;monstrum&lt;/em&gt; - varia muito de sentido no decorrer da Idade Média, mas no seu outono as noções de monstruoso e de demoníaco estão de tal modo ligadas que é praticamente impossível distingui-las: o contingente diabólico substitui o monstro cosmológico e implanta-se no mundo, modelando-o em tons sombrios e pessimistas. O monstro-diabólico coloca questões para as quais a Idade Média não tinha respostas, vacilando intermitentemente entre a necessidade de explicar a desordem representada pelo monstro e a necessidade de crer no postulado de que a natureza, como obra de Deus, só pode ser perfeita e organizada segundo uma disposição imperturbável. O segredo é propriedade de Deus, o único Senhor de todas as criaturas, incluindo os monstros. Quando confrontado com os monstros, o homem está diante do sentido misterioso, oculto e admirável, da manifestação do poder divino (Mandeville): como sinal divino, o monstro é prodígio, no sentido de constituir um aviso prévio de acontecimentos futuros, cujo sentido oculto desafia a interpretação ou mesmo a adivinhação. Deus criou o mundo segundo uma determinada ordem ou norma que nunca abandona, a não ser que queira anunciar algo oculto e deveras importante. A ruptura do curso normal da natureza desencadeia no homem o sentimento de horror, que se intensifica à medida que a Idade Média se torna cada vez mais sombria. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A eclosão de monstros funciona no imaginário de Bosch como indicador figurativo da irrupção real de elementos de uma nova ordem social dentro da ordem moribunda: as &lt;strong&gt;figuras fantásticas&lt;/strong&gt; de Bosch são seres mutagénicos que subvertem internamente a iconografia cristã dominante. Enquanto o inventário completo e exaustivo das figuras não estiver feito, com a ajuda de programas de computador, não podemos decifrar todo esse imaginário fantástico. No entanto, a reunião de dois corpos num só corpo revela que a sua individualidade se encontra na própria fusão: um dos corpos dá vida - o corpo mãe, enquanto o outro ameaça parar. Isto significa que a pintura de Bosch configura uma nova concepção do corpo: o corpo é aberto e incompleto e, como não está claramente delimitado do mundo, mistura-se com o mundo, onde se confunde com os outros, os animais, as plantas, as coisas, os elementos, a terra, a arquitectura e as máquinas. É um corpo cósmico que representa e encarna o conjunto de todo o universo material e corporal, concebido como o inferior absoluto, como um princípio que absorve e dá luz, como um sepulcro e um seio corporais, como um campo lavrado e semeado que começa a germinar. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Ora, a &lt;strong&gt;concepção do corpo&lt;/strong&gt; explicitada nas pinturas de Bosch deriva da filosofia humanista do Renascimento, nomeadamente da filosofia italiana que concebeu a ideia fundamental de microcosmos: o corpo humano era visto como um princípio susceptível de efectuar a destruição do quadro hierárquico do mundo medieval e de criar um novo quadro. A filosofia renascentista operou a desagregação do cosmos hierárquico medieval, em especial a sua gradação dos valores no espaço, mediante a qual aos graus espaciais no sentido de baixo para cima correspondiam os graus de valor, colocando todos os seus elementos no mesmo plano: o alto e o baixo foram relativizados e a ênfase deslocou-se para as noções de frente e atrás. Esta substituição do vertical pelo horizontal, acompanhada pela intensificação do factor tempo, realizou-se em torno do corpo humano: o corpo tornou-se assim o centro de um cosmos que, em vez de se mover de baixo para cima, se move para a frente sobre a horizontal do tempo, do passado para o futuro, o que possibilita ao homem carnal afirmar o seu valor fora da hierarquia do cosmos. Pico della Mirandola defendeu - na sua &lt;em&gt;Oratio de Hominis Dignitate&lt;/em&gt; - a tese de que o homem é superior a todas as outras criaturas, incluindo os espíritos celestes, porque não é somente existência mas também e essencialmente futuro. A noção de hierarquia refere-se única e exclusivamente à existência estável, firme, imóvel e imutável: as criaturas não se alteram desde o nascimento, porque a sua natureza foi criada completa, acabada e imutável. Ora, o livre devir que caracteriza o homem escapa à noção de hierarquia: o homem não recebeu uma única semente - como sucede com as criaturas -, mas as sementes de todas a vidas possíveis. De modo qualitativamente diferente da natureza das outras criaturas condenadas a desenvolver-se na única semente que receberam, o homem pode escolher a semente que desenvolverá, cuidando dos seus frutos e fazendo-os desabrochar dentro de si. Isto significa que o homem pode tornar-se simultaneamente vegetal e animal ou mesmo anjo e filho de Deus. O seu corpo reúne em si todos os elementos e todos os reinos da natureza: a existência de múltiplas sementes e possibilidades e a liberdade de escolha colocam o homem fora da hierarquia, ou seja, sobre a horizontal do tempo e do devir histórico. Para Pico della Mirandola, o homem não é algo fechado e acabado; pelo contrário, o homem é um ser inacabado e aberto. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A filosofia humanista do &lt;strong&gt;Renascimento&lt;/strong&gt; é atravessada por duas tendências teóricas: uma tendência deseja descobrir no homem todo o universo, com os seus elementos naturais e as suas forças, o seu alto e o seu baixo, enquanto a outra linha de pesquisa procura esse universo no corpo humano que aproxima e une no seu seio os fenómenos e as forças mais distantes do cosmos. O imaginário de Bosch filia-se nesta segunda tendência subterrânea do Renascimento, a qual exprime a nova sensação do cosmos como a habitação familiar do homem. Pintado e visto como habitação do homem, o novo cosmos tal como emerge nas pinturas de Bosch, em tensão dialéctica com o mundo medieval, retoma as ideias - aliás muito difundidas no Renascimento - da magia natural, da simpatia e da astrologia, as quais ajudaram Giordano Bruno e Campanella a destruir o quadro do mundo medieval. Pico della Mirandola deu particular ênfase ao motivo do microcosmos sob a forma da simpatia mundial, de resto levada a cabo pelos Descobrimentos Portugueses que possibilitaram que todos os membros da humanidade entrassem em contacto real e efectivo uns com os outros, de modo a tornar a humanidade una e única: o homem pode finalmente reunir em si o superior e o inferior, o longínquo e o próximo, e sondar os mistérios escondidos nas profundezas da terra. O imaginário mágico de Bosch reúne o que o universo medieval tinha dissociado, apagando as fronteiras maltraçadas entre os fenómenos e transpondo a diversidade infinita do mundo para a superfície horizontal única do cosmos em devir. Marcilio Ficino introduziu a animação universal para mostrar que o cosmos não era um mero agregado de elementos mortos, mas um ser animado: cada uma das suas partes constitui um órgão do todo. A biologização do mundo é consumada pela teoria da natureza de Cardano: todos os fenómenos são vistos como análogos das formas orgânicas, incluindo os metais que são as sepulturas das plantas e que percorrem uma evolução semelhante à evolução orgânica, com uma juventude, uma adolescência e uma idade madura. Esta visão animada do mundo - recentemente retomada pela Hipótese Gaia de James Lovelock e Lynn Margulis - impregna as pinturas de Bosch, onde todos os fenómenos se dirigem para a superfície horizontal única do mundo em estado de mudança, de modo a descobrir novos lugares, a atar novos laços, e a criar novas vizinhanças. Mas no centro deste reagrupamento fenoménico está o corpo humano que alberga no seu interior a diversidade do universo. O corpo humano é matéria criadora destinada a organizar toda a matéria cósmica, cujo movimento no tempo biológico e histórico é garantido pelo nascimento de gerações incessantemente renovadas. Neste novo cosmos, cada ser humano pode fazer parte do povo imortal: aquele que inova e cria história, resistindo às tentações contrárias às forças da mudança social qualitativa. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;As pinturas de Bosch são representações assustadoras das forças do mal ou, mais precisamente, de &lt;strong&gt;monstros&lt;/strong&gt;, e foram interpretadas pelos críticos imbuídos de espírito científico como expressões de uma mente patológica ou, pelo menos, de uma mente sujeita ao uso de alucinógenos. Além de não apreenderem a riqueza imaginativa de uma época - o fim da Idade Média ou as dores de parto do mundo moderno, estas leituras deixam escapar a própria riqueza criadora do psiquismo humano, sobretudo da dialéctica entre a angústia e o desejo. O monstro é produto de funções mentais partilhadas pelos humanos de todas as épocas, culturas e idades e, por isso, desempenha uma função natural no seu psiquismo. Ao desvalorizar a imaginação como faculdade cognitiva, a tecnociência revela o seu elemento ideológico: a apologia do &lt;em&gt;status quo&lt;/em&gt; e a promoção da dimensão adaptativa do homem em detrimento do princípio da possibilidade histórica. Bosch pintou a colisão de dois mundos durante o período da sua coexistência quase sincrónica: os seus monstros são figuras utópicas que emergem num mundo prenhe de vida ainda-não-nascida contra as figuras ideológicas do imaginário medieval. É certo que os demónios da mudança que se mostram e se de-monstram nas pinturas de Bosch assustam, mas não assustam todos os indivíduos: assustam e aterrorizam apenas os indivíduos instalados e satisfeitos com as ordens do mundo hierárquico medieval. Os monstros boschianos são demónios da mudança que visam desinstalar o poder eclesial que justificava e legitimava a opressão feudal. Se a mudança atemoriza os membros das ordens instaladas, o mesmo não acontece com aqueles que desejam e anseiam por um mundo melhor. Para os que sonham acordados, os monstros são figuras cómicas que assombram e incendeiam o mundo fechado medieval, desencadeando neles o riso orgiástico que funda um mundo melhor. (Publicado &lt;strong&gt;&lt;a href="http://cyberdemocracia.blogspot.com/2009/06/hieronymus-bosch-fabrica-dos-monstros.html"&gt;aqui&lt;/a&gt;&lt;/strong&gt;.) &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;J Francisco Saraiva de Sousa&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4759866844732089627-7761105152046746039?l=cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/feeds/7761105152046746039/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4759866844732089627&amp;postID=7761105152046746039&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/7761105152046746039'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/7761105152046746039'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/2009/09/hieronymus-bosch-filosofia-da-pintura.html' title='Hieronymus Bosch: Filosofia da Pintura'/><author><name>J Francisco Saraiva de Sousa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14064808742564506644</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/SqUFLduP4CI/AAAAAAAAADg/DjX9RUcWMLo/s72-c/Temptation+of+Saint+Anthony+Bosch.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4759866844732089627.post-104596140093552797</id><published>2009-08-11T16:59:00.000-07:00</published><updated>2009-09-07T06:16:05.730-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Filosofia da Técnica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberPhilosophy'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberEstética'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Filosofia Sexual'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Filosofia do Corpo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Fotografia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crítica da Ideologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberPhilosophy e Comunicação'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Estética'/><title type='text'>Mapplethorpe: Filosofia da Fotografia</title><content type='html'>&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5368861136206416082" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 320px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/SoIGwgf7yNI/AAAAAAAAADI/gjPFF1C38nU/s320/mapplethorpe+self-portrait.jpg" border="0" /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;«&lt;em&gt;Se eu fosse mulher, seria uma puta&lt;/em&gt;». (&lt;strong&gt;Robert Mapplethorpe&lt;/strong&gt;)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div align="justify"&gt;Robert Mapplethorpe adoeceu com Sida em 1986 e morreu em 1989: a brevidade da sua passagem pela vida confirma a figura romântica do artista que vive depressa e morre jovem. A sua demora na Terra coincide com a Idade de Ouro da comida rápida, do diálogo breve e superficial, do consumo de drogas excitantes, dos amigos efémeros e do sexo de urgência ou casual. A &lt;strong&gt;Idade de Ouro&lt;/strong&gt; foi a idade da libertação das mulheres e das minorias eróticas e étnicas e da realização, mas foi também a &lt;strong&gt;Era da Negatividade &lt;/strong&gt;e do Engano. Com o seu cinismo, Mapplethorpe conseguiu atravessar três décadas americanas de negatividade e de engano: a década dos filhos das flores e da contracultura nova-iorquina clandestina liderada por Andy Warhol (anos 60), a década da Mentira - as mentiras sobre a Guerra do Vietnam e Watergate (anos 70), durante a qual se tornou fotógrafo, e, finalmente, a década da desilusão (anos 80), com a Sida a devolver a homossexualidade ao ghetto e o colapso do comunismo a ser aproveitado para promover a globalização financeira e o neoliberalismo selvagem. Os anos 90 e esta primeira década do século XXI podem ser classificados como as &lt;strong&gt;décadas da Corrupção&lt;/strong&gt;, que mergulharam o mundo na actual crise financeira e económica. As forças reaccionárias da direita conservadora, aliadas à Igreja Católica - Mapplethorpe era de formação católica! - e às seitas protestantes, tentam novamente impedir o reconhecimento legal dos direitos dos homossexuais, como se estivéssemos a entrar numa nova Idade Média. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O &lt;strong&gt;imaginário fotográfico&lt;/strong&gt; de Mapplethorpe inscreve-se e insiste na &lt;strong&gt;ambiguidade da condição humana&lt;/strong&gt;. A sua fotografia é a captura do instante sugestivo em que algo se torna ambíguo e se transforma em outra coisa: &lt;strong&gt;as flores são órgãos sexuais, a sexualidade é teologia, o rosto é máscara, o espelho é janela, a vida é morte, a cruz é coroa e a luz é treva&lt;/strong&gt;. Mapplethorpe é o &lt;strong&gt;fotógrafo da metáfora&lt;/strong&gt;: aquilo que fotografava era sempre a sombra ambígua de outra coisa. Porém, esta transformação metafórica de uma coisa em outra coisa deve ser operada pelo olhar do espectador, porque é neste olhar que reside o poder configurador da imaginação e a ambiguidade: o olhar dirigido pela fantasia conhece a imagem da coisa no espelho da sua alma e esta actividade originária da imaginação mostra que a coisa fotografada pode ser transformada noutra coisa. A ambiguidade sugere que o observador que lê apenas a superfície das coisas não apreende a sua verdadeira essência: a transformação ou a sua possibilidade. Aqueles que censuraram as fotografias de Mapplethorpe reconduziram o tema da ambiguidade à sua &lt;strong&gt;ambiguidade sexual&lt;/strong&gt;, sem no entanto referir a &lt;strong&gt;androginia&lt;/strong&gt; na sua essência quase junguiana, como acto ritual - típico da cultura pop (Mick Jagger, David Bowie) - mediante o qual se declara que um indivíduo não é macho nem fêmea, mas carne, não é homem nem mulher, mas humano. Antes de serem machos ou fêmeas (sexo), homens ou mulheres (género), os indivíduos são carne humana, isto é, &lt;strong&gt;corpos mortais&lt;/strong&gt;. Esta concepção da androg&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/SoIG56keCRI/AAAAAAAAADQ/eK925M2q0QA/s1600-h/mapplethorpe.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5368861297823582482" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; WIDTH: 121px; CURSOR: hand; HEIGHT: 121px" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/SoIG56keCRI/AAAAAAAAADQ/eK925M2q0QA/s320/mapplethorpe.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;inia demarca Mapplethorpe da &lt;strong&gt;cultura dominante gay&lt;/strong&gt;, tanto a efeminada como a culturista, que tende a vê-lo como um travesti ou um transformista de espectáculo: Mapplethorpe condena a &lt;strong&gt;vaidade inútil&lt;/strong&gt; dos culturistas gay e não suporta o peso da massa muscular que esmaga as suas personalidades, comparando-os a "pavões reais extraterrestres": as únicas excepções parecem ser Arnold Schwarzenegger que enche os seus músculos com personalidade e Lisa Lyon que sabe vender de modo provocante os estereótipos andróginos. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Baudelaire reagiu energicamente contra a fotografia, não só porque esta punha em causa o emprego dos &lt;strong&gt;pintores-retratistas&lt;/strong&gt;, mas sobretudo porque tinha uma aversão em relação à corrente realista e naturalista e à ideologia cientista em ascensão que impregnavam as produções fotográficas da sua época. Para Baudelaire, uma obra de arte não pode ser ao mesmo tempo artística e documental. A fotografia não é arte, porque o seu papel não é escapar ao real, mas sim conservar o vestígio do passado ou ajudar as ciências no seu esforço de apreensão aprofundada da realidade do mundo. Baudelaire denunciou as confusões entre &lt;strong&gt;fotografia&lt;/strong&gt; e &lt;strong&gt;pintura&lt;/strong&gt;, de modo a distinguir e a clarificar os seus respectivos domínios: a pintura é pura criação imaginária (arte), enquanto a fotografia é mero instrumento de uma memória documental do real (indústria). Embora fosse justificado pelo realismo predominante nas produções fotográficas do seu tempo, o temor de Baudelaire desvanece-se na &lt;strong&gt;fotografia artística contemporânea&lt;/strong&gt;, em especial nas fotografias de Nadar, Stieglitz, Atget, Paul Strand, Edward Weston, August Sander, Walker Evans, Cartier-Bresson, Robert Frank, Richard Avedon, Diane Arbus e Robert Mapplethorpe, que expressam claramente uma revolta contra a realidade estabelecida, em prol de um outro princípio de realidade. Mapplethorpe abraçou intelectualmente a fotografia como arte no seu estado puro, isto é, como &lt;em&gt;ars gratia artis&lt;/em&gt;: a fotografia como arte autónoma transcende a moralidade e a imoralidade, ao mesmo tempo que oferece às pessoas verdades subliminares sobre a condição humana que apontam para além das condições de vida e das experiências mutiladas que negam essas verdades originárias. A observação atenta das suas fotografias inquieta e choca os espectadores, porque os confronta com os seus medos, as suas crenças aceites como evidentes e as suas negações, em especial a negação da morte. A formação artística de metáforas não dá tréguas ao &lt;strong&gt;mundo das crenças oficiais&lt;/strong&gt;: o confronto de duas percepções do mundo mina a confiança e a coerência do mundo de mentiras em que vivem os homens, e a transformação operada pelo olhar exige não só a &lt;strong&gt;mudança de percepções&lt;/strong&gt;, como também a &lt;strong&gt;mudança de mundos&lt;/strong&gt;. Mapplethorpe perseguiu o &lt;strong&gt;esteticismo puro&lt;/strong&gt;: a sua arte e a sua vida foram praticamente a mesma coisa. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Os retratos, os nus e os &lt;strong&gt;auto-retratos&lt;/strong&gt; de Mapplethorpe (1996) estabelecem uma &lt;strong&gt;gramática estrutural das representações do corpo&lt;/strong&gt;. O segredo das fotografias de Mapplethorpe não reside nas suas flores, nas suas figuras, nos seus rostos ou mesmo no fetichismo do couro, na escatologia sexual e no sexo-couro (S &amp;amp; M), embora estas últimas fotografias tenham um carácter cortante que intranquiliza o espectador, mas na transcendência do corpo mortal. O segredo de Mapplethorpe revela-se nas suas &lt;strong&gt;fotografias de sexo-couro&lt;/strong&gt;, com as quais mostra uma combinação da beleza com o terror. Desta combinação resulta a revelação de alternativas humanas, o desnudamento das negações da existência humana e a exposição daquilo que os seres humanos são capazes de fazer quando se libertam das hipocrisias institucionalizadas e alcançam níveis intensos de misticismo e de divindade. Tal como um fotógrafo de incidências que procura captar o aspecto do rosto daqueles que são assassinados ou supliciados, Mapplethorpe soube capturar os momentos gráficos perfeitos em que a carne se transcende a si mesma nas ginásticas e nos rituais sexuais muitas vezes terríveis do &lt;strong&gt;sexo sadomasoquista&lt;/strong&gt;, utilizando as excrescências corporais como meios para atingir um estado místico. Para Mapplethorpe, o corpo constitui a via privilegiada do êxtase físico, emocional, filosófico e teológico. Nos auto-retratos de Mapplethorpe, os modos de representação do corpo podem ser agrupados em quatro categorias: a erotização (1), os emblemas ou insígnias (2), o travestismo de disfarce (3) e as vanitas (vaidades) do corpo (4). Na &lt;strong&gt;erotização&lt;/strong&gt;, o corpo é celebrado na sua integridade compacta, de modo a ser desejado, cobiçado, admirado, louvado, sedutor e triunfal: a totalidade do corpo é a imagem corporal do prazer e do "narcisismo" e a sua exaltação expressa a sexualidade. Nas &lt;strong&gt;insígnias corporais&lt;/strong&gt;, o corpo é cortado aos bocadinhos, desfeito, desmembrado ou simplesmente exposto com minúcia, sendo percebido como um objecto de estudo, de escrutínio e de desejo. O corpo é fragmentado e separado em partes para que o desejo sexual possa determinar a atractividade de determinadas zonas corporais. No &lt;strong&gt;travestismo carnavalesco&lt;/strong&gt;, o corpo é pintado, maquilhado, adornado e afectado, para que possa aspirar a ser identificado com um papel sexual ou social: o corpo disfarçado produz um efeito de dissimulação que, multiplicando os signos sexuais e as insígnias corporais, invalida os estereótipos sexuais normalizados pelo mundo das mentiras, ao mesmo tempo que denuncia a farsa da sua própria imagética sexual. A multiplicação das insígnias (ou atributos) de virilidade - em especial do tipo "leather" - produz uma invencível feminização do macho, enquanto a multiplicação das insígnias (ou atributos) femininas produz a impressão de uma "drag queen", tanto nos homens como nas mulheres. Finalmente, na &lt;strong&gt;vanidade corporal&lt;/strong&gt;, o corpo enfraquece à beira da sepultura, anula-se a si próprio, desvanece-se, dissipa-se e desaparece na desintegração da imagem, a qual expressa dramaticamente a confusão, a turbulência e a precariedade que sustêm a existência humana. Na estética, as vanitas (vaidades) são as formas ou expressões artísticas que traduzem a relação conflituosa dos humanos com a morte e a angústia que resulta da consciência aguda da mortalidade. Os últimos auto-retratos de Mapplethorpe (1988) exprimem a vanidade do corpo e a Via Dolorosa da condição humana. No "Self-Portrait, 1975" (a segunda fotografia), o jovem Mapplethorpe estende o braço cruzando todo o campo da fotografia, como se o oferecesse à &lt;strong&gt;crucificação&lt;/strong&gt; (crucifixão), cujo ícone atravessa toda a sua obra fotográfica, encontrando a sua apoteose mais religiosa e mística nas fotografias de couros. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Mapplethorpe resgatou diversos &lt;strong&gt;tabus da clandestinidade&lt;/strong&gt;, o último dos quais foi o do &lt;strong&gt;sexo-couro&lt;/strong&gt;. A cultura gay dominante, representada pelos homossexuais efeminados de &lt;em&gt;Advocate&lt;/em&gt;, não tinha estima pelos fetichistas do couro e do sexo sadomasoquista, glorificados por "&lt;em&gt;Drummer&lt;/em&gt;" - a revista internacional do couro S &amp;amp; M com sede em San Francisco, porque confundia os chicotes, os açoites, as correntes e as cordas do psicodrama ritual com a violência real. Mapplethorpe luta corajosamente contra a &lt;strong&gt;cultura dominante&lt;/strong&gt;, tanto a heterossexual como a gay: a percepção de perigosidade - atribuída pela cultura dominante ao sadomasoquismo - ajuda-o a conferir prestígio aos &lt;strong&gt;fetichismos do couro&lt;/strong&gt;. A sua obra fotográfica sensibilizou e sexualizou a afeição masculina pelas coisas masculinas. Graças à sua visão do universo masculino, os homens heterossexuais aprenderam a olhar de outra maneira para os homens, e os homens homossexuais aprenderam a estimar e a evidenciar mais a sua própria masculinidade. As fotografias de Mapplethorpe foram severamente censuradas, inclusivamente pela confraria gay efeminada, mas todas estas criaturas viscosas deviam ajoelhar-se e dar graças &lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/SoIHCcRVsfI/AAAAAAAAADY/W9gsF0vHAq8/s1600-h/mapplethorpe+self.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5368861444309103090" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 258px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/SoIHCcRVsfI/AAAAAAAAADY/W9gsF0vHAq8/s320/mapplethorpe+self.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;aos homossexuais e às lésbicas por não procriarem, por terem inventado uma &lt;strong&gt;sexualidade recreativa&lt;/strong&gt; e por embelezarem o mundo com todas as coisas poéticas pelas quais "nos diferenciamos dos animais" (Tennessee Williams). Os homossexuais sempre foram os proscritos da sociedade heterosexista e, ao mesmo tempo, a vanguarda artística e intelectual do mundo. Mapplethorpe morto produziu uma sensação mais mediática e universal do que Mapplethorpe vivo: a pessoa que foi converteu-se em &lt;strong&gt;símbolo da libertação&lt;/strong&gt; e do combate contra a &lt;strong&gt;homofobia &lt;/strong&gt;e a heterofobia. Os heterosexistas homofóbicos acabaram por render-se à grandeza da sua obra, alegando que, se tivesse vivido mais tempo, Mapplethorpe teria abandonado esse "equívoco" que foi a sua homossexualidade e casado com Patti Smith, aliás o seu alterego. No túmulo, Mapplethorpe estremece de horror e recita estes versos de um heterónimo de Fernando Pessoa: &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;«Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?&lt;br /&gt;Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?&lt;br /&gt;Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.&lt;br /&gt;Assim, como sou, tenham paciência!&lt;br /&gt;Vão para o diabo sem mim,&lt;br /&gt;Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!&lt;br /&gt;Para que havemos de ir juntos?&lt;br /&gt;«Não me peguem no braço!&lt;br /&gt;Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.&lt;br /&gt;Já disse que sou sozinho!&lt;br /&gt;Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!» (&lt;strong&gt;Álvaro de Campos&lt;/strong&gt;) &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;J Francisco Saraiva de Sousa&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4759866844732089627-104596140093552797?l=cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/feeds/104596140093552797/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4759866844732089627&amp;postID=104596140093552797&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/104596140093552797'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/104596140093552797'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/2009/08/mapplethorpe-filosofia-da-fotografia.html' title='Mapplethorpe: Filosofia da Fotografia'/><author><name>J Francisco Saraiva de Sousa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14064808742564506644</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/SoIGwgf7yNI/AAAAAAAAADI/gjPFF1C38nU/s72-c/mapplethorpe+self-portrait.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4759866844732089627.post-5709764303742340347</id><published>2009-07-25T15:42:00.000-07:00</published><updated>2009-07-25T16:17:00.091-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberPhilosophy'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Imaginação Política'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Arquitectura'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crítica da Ideologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Antropologia Filosófica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='História'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberPhilosophy e Comunicação'/><title type='text'>Michel Foucault: Filosofia, Panóptico e Comunicação</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5362538694094698274" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 238px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/SmuQh8PNNyI/AAAAAAAAACw/7MssOVs0pCw/s320/michel+foucault.bmp" border="0" /&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;«&lt;em&gt;Cada um dos meus livros é uma parte da minha própria história. Por uma ou outra razão, tive ocasião de viver e sentir essas coisas&lt;/em&gt;». (&lt;strong&gt;Michel Foucault&lt;/strong&gt;, 1982)&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;«&lt;em&gt;Sempre quis que cada um dos meus livros fosse, em certo sentido, fragmentos de autobiografia. Os meus livros sempre foram os meus problemas pessoais com a loucura, a prisão, a sexualidade&lt;/em&gt;». (&lt;strong&gt;Michel Foucault&lt;/strong&gt;, 1961)&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;«&lt;em&gt;Não é absolutamente uma transposição para o saber de experiências pessoais. /A relação com a experiência deve, no livro, permitir uma transformação que não seja simplesmente a minha como sujeito que escreve, mas que possa efectivamente ter um certo valor para os outros&lt;/em&gt;». (&lt;strong&gt;Michel Foucault&lt;/strong&gt;, 1972)&lt;/div&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;No seu livro &lt;em&gt;O Rapto de Ganímedes&lt;/em&gt;, Dominique Fernandez descreveu a época - Paris em 1950 - em que os homossexuais tinham de viver na vergonha e na clandestinidade: "O retrato que podia traçar de mim - escreve Fernandez - era o de um ser destinado ao sofrimento". Os homossexuais, tais como Foucault e Fernandez, eram vítimas dessa &lt;strong&gt;violência repressiva&lt;/strong&gt; e as suas perturbações psiquiátricas derivavam, em grande medida, das dificuldades para viver abertamente as suas homossexualidades. Os homossexuais eram forçados a realizar um trabalho sobre si para resistir à omnipresença da opressão quotidiana e à capilaridade das tecnologias do poder disciplinar. Michel Foucault realizou esta &lt;strong&gt;prática de s&lt;/strong&gt;i recorrendo à mediação do trabalho histórico: sondou o passado da civilização ocidental para questionar a evidência dos critérios mediante os quais o poder disciplinar produziu formas de exclusão sobre as quais repousa a nossa sociedade. A &lt;strong&gt;repressão&lt;/strong&gt; da homossexualidade é interiorizada e aceite pela maior parte das suas vítimas: os homossexuais que interiorizam o opressor são impedidos de viver saudavelmente a sua homossexualidade. Porém, nem todos os homossexuais consentem ser colonizados pelo poder disciplinar e pelos seus critérios de normalidade: revoltam-se, lutam e operam um desvio que lhes permite escapar a essa repressão heterosexista. A ligação entre a &lt;strong&gt;experiência pessoal&lt;/strong&gt; de Foucault e a sua &lt;strong&gt;experiência teórica&lt;/strong&gt; inscreve-se nessa recusa dos poderes da normalização: Foucault superou a repressão que o impedia de viver a sua homossexualidade fazendo "o diagnóstico daquilo que nós somos hoje". O &lt;strong&gt;poder da normalização&lt;/strong&gt; cria internamente o seu próprio &lt;strong&gt;contra-poder&lt;/strong&gt;: as suas vítimas desenvolvem uma atitude crítica e rebelde diante das instituições estabelecidas que provocam mal-estar. A &lt;strong&gt;experiência de mal-estar&lt;/strong&gt; leva as vítimas a estudar as instituições e o que as fundamenta. Ora, se têm uma história, as instituições são produtos da acção histórica que podem ser transformadas por meio de novas acções políticas. A acção política exige um trabalho teórico que pressupõe uma crítica radical das formas de pensamento que suportam subterraneamente as instituições. A &lt;strong&gt;exclusão social&lt;/strong&gt; gera &lt;strong&gt;inteligência crítica&lt;/strong&gt;: os homossexuais impedidos de viver as suas homossexualidades pelas &lt;strong&gt;instituições disciplinares&lt;/strong&gt; anseiam pela sua transformação radical. Dotados de uma inteligência desenvolvida e fortalecida na resistência contra os &lt;strong&gt;opressores institucionais&lt;/strong&gt;, os homossexuais sabem que para mover as coisas é preciso mover o pensamento, o seu próprio pensamento e o pensamento sedimentado nas instituições opressoras. A transformação de uma instituição requer a decifração do sistema de pensamento que presidiu ao seu nascimento. Foucault reservou a expressão análise arqueológica e genealógica para designar o trabalho teórico de decifrar os &lt;strong&gt;sistemas de pensamento&lt;/strong&gt; que fundamentam as instituições. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A partir do momento em que inicia essa tarefa de decifração do saber investido nas instituições, Michel Foucault começa a produzir resultados teóricos nos quais todos os homens se podem reconhecer: &lt;strong&gt;o trabalho sobre si assume a forma de filosofia&lt;/strong&gt;, cuja tarefa é "fazer o diagnóstico daquilo que nós somos hoje". Os seus livros são &lt;strong&gt;fragmentos de autobiografia&lt;/strong&gt; no sentido de serem esforços para pensar a actualidade e a história presente. A filosofia de Foucault fornece o método de investigação que nos permite reconstruir o passado de cada uma das instituições em particular, mas não fornece padrões gerais que possam ser aplicados de modo universal. Definido como "ontologia histórica de nós mesmos", o trabalho crítico deve afastar-se de todos os projectos que pretendam ser globais e radicais: o "&lt;strong&gt;intelectual específico&lt;/strong&gt;", tal como é encarnado por Foucault, opõe-se ao "&lt;strong&gt;intelectual universal&lt;/strong&gt;" protagonizado por Sartre. Ao contrário de Sartre ou mesmo de Althusser, Foucault não propõe uma &lt;strong&gt;filosofia política&lt;/strong&gt;, isto é, uma &lt;strong&gt;teoria do Estado&lt;/strong&gt;. Em vez de pensar a política como um sistema geral e de elaborar o programa de uma outra sociedade, Foucault intervém teórica e politicamente em casos pontuais e particulares, fazendo primeiramente o seu estudo. O princípio gerador dos seus estudos não reside no próprio conteúdo dos trabalhos teóricos, mas sim na sua relação de mal-estar e de rebeldia diante das instituições. A &lt;strong&gt;atitude crítica&lt;/strong&gt; resulta desse mal-estar: "a crítica é o movimento pelo qual o sujeito concede a si próprio o direito de interrogar a verdade sobre os seus efeitos de poder, e o poder sobre os seus discursos acerca da verdade". Se a &lt;strong&gt;governamentalização&lt;/strong&gt; é o movimento pelo qual se procura, na própria realidade de uma prática social, submeter os indivíduos através de mecanismos de poder supostamente fundados na verdade, então a &lt;strong&gt;crítica&lt;/strong&gt; é "a arte da não-servidão voluntária, da indocilidade reflectida". O enraizamento biográfico desta ideia de &lt;strong&gt;não-servidão voluntária &lt;/strong&gt;deve-se ao facto de Foucault recusar submeter-se e sujeitar-se aos poderes da normalidade e da &lt;strong&gt;normalização sexual&lt;/strong&gt;. &lt;strong&gt;O pensamento como actividade crítica resulta desta não-submissão ao mundo tal como é. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;O pensamento de Foucault (1926-1984) sofreu uma alteração significativa no seu percurso: a passagem de uma &lt;strong&gt;arqueologia do saber&lt;/strong&gt; para uma &lt;strong&gt;genealogia do poder&lt;/strong&gt;. Analisaremos uma das obras mais significativa de cada um desses períodos: &lt;em&gt;As Palavras e as Coisas&lt;/em&gt; (1966) e &lt;em&gt;Vigiar e Punir &lt;/em&gt;(1975). &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;A ARQUEOLOGIA DO SABER&lt;/strong&gt;. Na primeira obra - &lt;em&gt;As Palavras e as Coisas&lt;/em&gt;, Foucault propõe uma arqueologia das ciências humanas: uma história que não é a de uma perfeição crescente dos conhecimentos, do seu progresso em direcção da objectividade, mas antes a das suas condições de possibilidade, a das configurações que deram lugar ao seu aparecimento. Foucault explicita os sucessivos e vincados &lt;em&gt;epistemes&lt;/em&gt; que definem os &lt;strong&gt;sistemas de pensamento&lt;/strong&gt; na formação da cultura ocidental, desde o fim do século XVI até o início do século XIX, o mesmo período que já tinha estudado na &lt;em&gt;História da Loucura na Idade Clássica&lt;/em&gt; (1961). O período estudado não ilustra um progresso contínuo da razão; pelo contrário, é marcado por duas rupturas subterrâneas que configuraram historicamente as nossas maneiras de pensar. A primeira ruptura ocorreu no fim do Renascimento e marca a emergência da &lt;strong&gt;Idade Clássica&lt;/strong&gt; (século XVII): a actividade intelectual e artística é concebida no interior de uma problemática da representação, que Foucault ilustra com a linguística de Port-Royal e as &lt;em&gt;Meninas&lt;/em&gt; de Velásquez. A segunda ruptura, localizada na articulação do século XVIII com o século XIX, rompe com problemática da representação, fazendo emergir um modo de pensamento centrado na noção de sujeito, aquilo a que chamamos a &lt;strong&gt;problemática da filosofia da consciência&lt;/strong&gt;: a nova ideia que surge é a de que o homem é, ao mesmo tempo, o autor e o actor da sua própria história, o que implica a promoção da ciência histórica à posição de "mãe de todas as ciências humanas". Esta segunda ruptura inicia uma nova idade: a &lt;strong&gt;Modernidade&lt;/strong&gt; que ainda é, de certo modo, a nossa. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Foucault destaca basicamente duas conclusões da sua pesquisa. A primeira conclusão é teórica: a evolução do pensamento efectua-se de modo &lt;strong&gt;descontínuo&lt;/strong&gt;, como já sabiam Bachelard e Koyré. Cada época tem o seu próprio tipo de pensamento que está prisioneiro dos limites que lhe são atribuídos pela estrutura empiricamente determinada subjacente à cultura desse período: a &lt;em&gt;episteme&lt;/em&gt; constitui essa estrutura, o &lt;strong&gt;alicerce discursivo&lt;/strong&gt; comum a todas as formas do saber e dos seus discursos. A mudança de estruturas só pode ser operada por uma ruptura subterrânea, anónima e brutal na nossa maneira de pensar e de encarar o mundo: a ruptura transforma a &lt;em&gt;episteme&lt;/em&gt;, deslocando os limites do pensável e abrindo o horizonte para uma outra forma de pensar. Na sua obra &lt;em&gt;A Arqueologia do Saber&lt;/em&gt; (1969), Foucault demarca-se do estruturalismo, afirmando que o que lhe interessa não é o estudo das estruturas em si mesmas, mas sim a compreensão de como os nossos discursos são produzidos e limitados por um &lt;strong&gt;a priori histórico&lt;/strong&gt;. Com este último conceito articulado com o de &lt;strong&gt;arquivo&lt;/strong&gt;, Foucault rejeita completamente a noção romântica de &lt;strong&gt;autor&lt;/strong&gt;. A segunda conclusão é prática e decorre dessa rejeição do humanismo teórico: «Uma coisa em todo o caso é certa: é que o homem não é o mais velho problema nem o mais constante que se tem posto ao saber humano. Escolhendo um cronologia relativamente curta e um espaço geográfico restrito - a cultura europeia desde o século XVI -, pode-se estar certo de que o homem é uma invenção recente. /O homem é um invenção, e uma invenção recente, tal como a &lt;strong&gt;arqueologia&lt;/strong&gt; do nosso pensamento o mostra facilmente. E talvez ela nos indique também o seu próximo fim». Foucault condena o &lt;strong&gt;humanismo teórico&lt;/strong&gt; que surgiu no fim da Idade Clássica, bem como todas as filosofias dialécticas da história, incluindo o marxismo que, nas versões de Lukács, Bloch ou Sartre, advogava a crença no progresso gerado pela negatividade da acção humana. Toda essa &lt;strong&gt;estrutura antropologizante&lt;/strong&gt; está condenada a desabar, abrindo caminho a novas figuras do saber e a novas formas de intervenção política: «Hoje em dia já não se pode pensar senão no vazio do homem desaparecido. Porque esse vazio não institui uma carência, não prescreve uma lacuna a preencher. Ele é, nem mais nem menos, o desdobramento de um espaço onde, enfim, se torna possível pensar de novo. /A todos os que pretendem ainda falar do homem, do seu reino ou da sua libertação, a todos os que formulam ainda questões sobre o que é o homem na sua essência, a todos os que querem partir dele para ter acesso à verdade, a todos aqueles, em contrapartida, que reconduzem todo o conhecimento às verdades do próprio homem, a todos os que não se propõem formalizar sem antropologizar, que não pretendem mitologizar sem desmistificar, que não querem pensar sem pensar logo que é o homem que pensa, a todas essas formas de reflexão canhestras e torcidas, não se pode senão opor um riso filosófico - quer dizer, em certa medida, silencioso». &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;A GENEALOGIA DO PODER&lt;/strong&gt;. Em &lt;em&gt;Vigiar e Punir&lt;/em&gt;, Foucault renova radicalmente a análise dos modos de exercício do poder. Foucault opõe aí duas formas de controle social: (1) a &lt;strong&gt;disciplina-bloqueio&lt;/strong&gt;, feita de interditos, proibições, barreiras, hierarquias e compartimentações, quebras de comunicação; e (2) a&lt;strong&gt; disciplina-mecanismo&lt;/strong&gt;, feita de técnicas de vigilância múltiplas e entrecruzadas, processos de controle flexíveis e funcionais, de dispositivos que exercem a sua vigilância através da interiorização pelo indivíduo da sua constante exposição ao olhar do controlo. A noção de &lt;strong&gt;governamentalidade&lt;/strong&gt; opõe-se a uma ideia do &lt;strong&gt;Estado&lt;/strong&gt;, enquanto «universal político», e a uma teoria construída sobre a «essência estatal», referida como modelo de Estado gravado na pedra. Refutando esta concepção de um aparelho de unidade e funcionalidade rigorosas, que dominou durante muito tempo o pensamento político da esquerda, Foucault propõe a identificação rigorosa da ordinariedade do Estado, levando a pensar as suas práticas de adaptação, de ofensiva, de recuo, as suas irregularidades e improvisações, para descobrir outras coerências, outras regularidades, enfim, as tácticas gerais da governamentalidade. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A concepção do poder como feudo dos &lt;strong&gt;macro-sujeitos&lt;/strong&gt; — o Estado, as classes sociais, os partidos políticos, a ideologia dominante — é deslocada em favor de uma &lt;strong&gt;concepção relacional do poder&lt;/strong&gt;. O poder não se detém nem se transfere como uma coisa. Como escreve Foucault: «Ele não se aplica, pura e simplesmente, como uma obrigação ou uma proibição aos que “o não têm”; investe-os, passa por eles e através deles, neles se apoia, tal como eles próprios, na sua luta contra ele, se apoiam por sua vez no domínio que ele exerce sobre eles». Marcuse deu um destaque exagerado à noção de repressão, como se o poder só tivesse essa função de reprimir e de agir por meio da censura, da exclusão, do impedimento e do recalcamento. Foucault rejeita essa noção de um grande super-ego, ou seja, deixa de descrever os &lt;strong&gt;efeitos do poder&lt;/strong&gt; em termos negativos — tais como excluir, censurar, reprimir, disfarçar, recalcar ou ocultar: «Na realidade, o poder — afirma Foucault — produz real; produz domínios de objectos e rituais de verdade». Um poder que agisse de um modo negativo seria muito frágil, mas o poder que conhecemos é forte, porque produz efeitos positivos ao nível do desejo e ao nível do saber: o poder produz o saber, como mostra a constituição do saber sobre o corpo que se organizou através de um conjunto de disciplinas militares e escolares. O poder sobre o corpo fundou um saber fisiológico do corpo. Enquanto Althusser falava de aparelhos repressivos e ideológicos de Estado e de um Estado abstracto, Foucault refere-se ao dipositivo e à governamentalidade. O termo &lt;strong&gt;dispositivo&lt;/strong&gt; que remete para as ideias de organização e de rede designa um conjunto heterogéneo que engloba discursos, instituições, arquitecturas, decisões regulamentares, leis e medidas administrativas. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A &lt;strong&gt;teoria da esfera pública &lt;/strong&gt;de Habermas não levou em conta a especificidade das novas formas de &lt;strong&gt;publicidade&lt;/strong&gt; criadas pelos &lt;em&gt;mass media&lt;/em&gt;, encarando-as à luz do modelo tradicional da publicidade. Ora, nas sociedades modernas, a publicidade separou-se da ideia de conversação dialógica em espaços partilhados, tais como salões, clubes e cafés, ligando-se cada vez mais ao tipo de visibilidade produzido e alcançado pelos &lt;em&gt;mass media&lt;/em&gt;, especialmente pela televisão e pela Internet. Embora não tenha analisado a natureza dos &lt;em&gt;mass media&lt;/em&gt; e o seu impacto nas &lt;strong&gt;sociedades modernas&lt;/strong&gt;, Foucault elaborou uma tese diferente da de Habermas sobre a organização do poder nessas sociedades e a mudança verificada nas relações entre o poder e a visibilidade. As sociedades do mundo antigo e do &lt;em&gt;ancien régime&lt;/em&gt; eram, segundo Foucault, sociedades do espectáculo: o exercício do poder estava ligado à manifestação pública da força e da superioridade do soberano. Neste regime de poder, poucos eram os indivíduos que se tornavam visíveis a uma multidão de indivíduos. Esta visibilidade de poucos indivíduos era usada como meio de exercer o poder da minoria sobre muitos indivíduos. Assim, por exemplo, a execução pública numa praça de mercado era um espectáculo no qual o poder do corpo do soberano se vingava, reafirmando a glória do rei através da destruição de um súbdito rebelde. Contudo, a partir do século XVI, esta &lt;strong&gt;manifestação espectacular&lt;/strong&gt; de poder foi substituída por novas formas de disciplina e de controle que se infiltraram nas diversas esferas da vida social. O exército, a escola, a prisão, o hospital e outras instituições começaram a usar mecanismos mais subtis de poder, baseados no treinamento, na disciplina, na observação e no registo. A difusão destes novos &lt;strong&gt;mecanismos de poder&lt;/strong&gt; fez surgir gradualmente um novo tipo de sociedade disciplinar, na qual a visibilidade de poucos diante de muitos foi substituída pela visibilidade de muitos diante de poucos e a manifestação espectacular do poder soberano cedeu lugar ao &lt;strong&gt;poder do olhar&lt;/strong&gt;. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Para caracterizar esta nova relação entre o poder e a visibilidade, Foucault utiliza a imagem do &lt;strong&gt;panóptico&lt;/strong&gt;. Em 1791, Jeremy Bentham publicou um &lt;strong&gt;modelo de penitenciária ideal&lt;/strong&gt;, ao qual deu o nome de &lt;strong&gt;Panopticon&lt;/strong&gt; (Ver fotografia). Bentham concebeu uma construção circular com uma torre de observação situada no centro. As paredes do edifício eram alinhadas em celas, cada uma das quais s&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/SmuPbDxBwoI/AAAAAAAAACo/ICVreN5bjIA/s1600-h/Panopticon.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5362537476344889986" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 311px; CURSOR: hand; HEIGHT: 320px" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/SmuPbDxBwoI/AAAAAAAAACo/ICVreN5bjIA/s320/Panopticon.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;eparada das outras por meio de outras paredes. As celas deviam ter duas janelas: uma para dentro e de frente para a torre de controle, e a outra para fora, de modo a permitir a entrada de luz exterior. Com esta estrutura arquitectónica singular, um único supervisor situado na torre central pode controlar e vigiar uma multiplicidade de reclusos. Cada recluso, confinado na sua cela, está permanentemente visível e todos os seus movimentos podem ser observados e monitorizados pelo supervisor invisível. Além disso, como sabem que os seus movimentos são sempre visíveis, mesmo que não estejam a ser observados em todos os momentos, os reclusos comportam-se sempre como se estivessem a ser observados permanentemente. Deste modo, os reclusos são submetidos e sujeitados a um estado de visibilidade permanente que garante o funcionamento automático do poder. Para Foucault, o panóptico não é somente uma peça da &lt;strong&gt;arquitectura&lt;/strong&gt; do século XVIII, mas fundamentalmente o modelo geral da organização das relações assimétricas de poder nas sociedades modernas. O &lt;strong&gt;panoptismo&lt;/strong&gt; fornece uma alternativa efectiva às formas antigas de exercício de poder: os indivíduos foram gradualmente submetidos aos tipos de disciplina e de controle que eram utilizados nas &lt;strong&gt;prisões&lt;/strong&gt;, ficando presos nos nós de um novo sistema e de uma nova tecnologia do poder, no qual a visibilidade constitui um meio de controle ou uma tecnologia disciplinar. Isto significa que os indivíduos já não são testemunhas oculares de um grandioso espectáculo que o poder exibe diante deles, mas são meros objectos de múltiplos e interligados &lt;strong&gt;olhares&lt;/strong&gt; que, através do exercício diário de controle, dispensam a necessidade de espectáculo. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;As teses de Foucault permitem identificar os &lt;strong&gt;dispositivos da comunicação-poder&lt;/strong&gt; na sua própria forma organizacional. O modelo de organização em panóptico, utopia de uma sociedade disciplinar, serve nesta perspectiva para caracterizar o modo de controlo exercido pelo dispositivo televisivo: uma maneira de organizar o espaço, de controlar o tempo, de vigiar em permanência o indivíduo e de assegurar a produção positiva de comportamentos. Figura arquitectónica de um tipo de poder que Foucault foi buscar ao filósofo utilitarista Jeremy Bentham (1748-1832), o panóptico é essa &lt;strong&gt;máquina de vigilância&lt;/strong&gt; em que, com visibilidade plena, se pode controlar de uma torre central todo o círculo do edifício dividido em alvéolos e onde os vigiados, alojados em células individuais e separadas umas das outras, são vistos sem verem os vigilantes. Adaptado às características da televisão, que inverte o sentido da visão permitindo aos vigiados verem sem serem vistos, e que deixa de funcionar exclusivamente por controlo disciplinar, mas funciona também por fascínio e selecção, o panóptico torna-se, para explicar a televisão enquanto «máquina de organização», no &lt;strong&gt;panóptico inverso&lt;/strong&gt;, segundo a expressão de Étienne Allemand, utilizada na sua obra Poder e Televisão (1980). Allemand adaptou o panóptico às características da &lt;strong&gt;televisão&lt;/strong&gt;, a qual inverte o sentido da visão, permitindo aos vigiados verem sem ser vistos. No entanto, a televisão deixa de funcionar exclusivamente por &lt;strong&gt;controle disciplinar&lt;/strong&gt;, passando a funcionar também e sobretudo por fascínio e sedução. O panóptico inverso implica um novo tipo de &lt;strong&gt;organização social do poder&lt;/strong&gt;: os &lt;em&gt;mass media&lt;/em&gt; estabelecem uma relação entre o poder e a &lt;strong&gt;visibilidade&lt;/strong&gt; diferente daquela que está implícita no panoptismo. Enquanto o modelo do panóptico possibilita que muitos indivíduos sejam observados por poucos, submetendo-os a um estado de visibilidade plena, o desenvolvimento da &lt;strong&gt;comunicação mediada&lt;/strong&gt; fornece os meios pelos quais muitas pessoas podem recolher informações sobre os indivíduos que exercem o poder, submetendo-os a um certo tipo de visibilidade mediada. Esta nova forma de visibilidade mediada é muito diferente do espectáculo do &lt;em&gt;ancien régime&lt;/em&gt;: a visibilidade de indivíduos e de acções está doravante separada da partilha de um lugar comum e, por conseguinte, dissociada das condições e das limitações da &lt;strong&gt;interacção face-a-face&lt;/strong&gt;. (Ler este post - &lt;strong&gt;&lt;a href="http://cyberdemocracia.blogspot.com/2009/07/michel-foucault-filosofia-e.html"&gt;Michel Foucault: Filosofia e Homossexualidade&lt;/a&gt;&lt;/strong&gt;.) &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;J Francisco Saraiva de Sousa&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4759866844732089627-5709764303742340347?l=cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/feeds/5709764303742340347/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4759866844732089627&amp;postID=5709764303742340347&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/5709764303742340347'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/5709764303742340347'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/2009/07/michel-foucault-filosofia-panoptico-e.html' title='Michel Foucault: Filosofia, Panóptico e Comunicação'/><author><name>J Francisco Saraiva de Sousa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14064808742564506644</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_ILAP37QbWVY/SmuQh8PNNyI/AAAAAAAAACw/7MssOVs0pCw/s72-c/michel+foucault.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4759866844732089627.post-7749490820432636368</id><published>2009-07-12T05:07:00.000-07:00</published><updated>2009-07-12T05:07:00.823-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberPhilosophy'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Imaginação Política'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberMedicine e Filosofia Médica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crítica da Ideologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Antropologia Filosófica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='História'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Filosofia da Religião'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Estética'/><title type='text'>Morte e Sentido da Vida (3)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;«&lt;em&gt;A imortalidade da alma é uma coisa de tal modo importante para nós, toca-nos tão profundamente, que é preciso ter perdido todo o sentimento para ficarmos na indiferença de saber o que ela é. Todas as nossas acções e todos os nossos pensamentos devem seguir rumos tão diferentes, consoante haja ou não a esperar bens eternos, que é impossível dar um passo com sentido e juízo a não ser regulando-nos e tendo os olhos neste ponto, que deve ser o nosso último objectivo. Assim, o nosso primeiro interesse e o nosso primeiro dever consistem em nos esclarecermos a respeito deste assunto, do qual depende toda a nossa conduta&lt;/em&gt;». (&lt;strong&gt;Blaise Pascal&lt;/strong&gt;) &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;5. A pergunta sobre a morte é a pergunta sobre o sujeito da esperança.&lt;/strong&gt; As pessoas deformadas pela visão anémica do mundo imposta pela ciência instrumental e pela tecnologia que servem os interesses da dominação, e pelo estilo de vida consumista que as reduz à sua mera condição de animal laboral, são actualmente pouco inclinadas a aceitar o pensamento da imortalidade da alma ou da ressurreição dos mortos. Para compreender o predomínio da ciência na mentalidade contemporânea, é necessário recuar até René Descartes e à ruptura radical que operou no pensamento. No início da era da técnica e da manufactura, Descartes separou e dividiu: de um lado, temos o pensamento, o que é próprio do homem, e, do outro lado, a realidade extensa, tudo aquilo que se manifesta no espaço. A suposição básica da ciência instrumental foi assente: a natureza existe por si e é o que pode ser medido e pesado, o jogo das forças, o acontecer material. O seu estudo exige método e não pode admitir que se projecte nela qualquer coisa que seja humana ou divina: a natureza está-aí para ser explorada, dominada, maltratada e devastada. Esta visão mecanicista alargou-se gradualmente a todas as regiões da natureza e do ser e conduziu ao triunfo do materialismo redutor e cadavérico: a ciência tenta explicar e dominar o mundo vivo através das leis da matéria morta e acaba por colonizar finalmente o espírito humano, entregando o ser humano ao jogo das forças cegas do acaso. O monismo vitalista foi substituído pelo monismo mecanicista e materialista: a vida não pode subtrair-se à lei básica e, por isso, é integrada com violência na lei geral do triste fisicalismo. Com a vitória da ontologia da morte universal, a explicação da vida significa negá-la, fazendo dela uma variante das possibilidades do sem-vida. A ciência foi sempre um projecto necrófilo: a redução da vida ao que não tem vida implica a dissolução do particular no geral, do composto no simples e da excepção aparente na regra confirmada. O pensamento científico e secularizado encontra-se, portanto, sob o predomínio ontológico da morte. Se no passado, a fronteira da compreensão era a morte, no nosso tempo, é a vida, porque só na morte deixa o corpo de ser um enigma: o organismo que vive, sente e procura é desmistificado como um ludibrium materiae. A suposta neutralidade da ciência e da técnica é pura ideologia: a razão política estabelecida e a razão técnica são uma só razão histórica que pode ser superada. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A morte coloca ao pensamento a pergunta sobre a possibilidade de realizar definitivamente o sentido da vida, a qual resulta do contraste existencial entre a grandeza e a santidade da vida e a ameaça da morte. A. Camus, para quem a vida era um absurdo, apercebeu-se deste dilema existencial quando se interrogou: Que liberdade pode haver no sentido pleno sem a garantia da eternidade? G. Marcel detectou a incompatibilidade entre a morte radical e o valor da vida pessoal: a morte radical anula o valor da vida e este escândalo faz com que a realidade humana se sinta ferida no seu próprio coração. A antropologia metafísica de J. Marías coloca duas questões radicais: Quem sou eu?, Que será de mim? Se respondermos à segunda questão com um rotundo "Nada", então anulamos a primeira questão: a morte total como aniquilação de mim e do meu mundo anula o sentido da vida e, nesse caso, não vale a pena viver. As antropologias materialistas encaram a morte como a última palavra da existência humana, alegando que a condição corpórea do homem conduz inevitavelmente ao aniquilamento da vida no momento da morte: a ruína do corpo fisiológico é o aniquilamento radical da vida pessoal. Esta negação da imortalidade da alma ou da pessoa humana é dogmática e o recurso à ciência não abona a seu favor, porque, como mostrou L. Tolstoi, "a ciência carece de sentido": a ciência instrumental "não tem resposta para as únicas questões que nos interessam, ou seja, o que devemos fazer e como devemos viver". A insuficiência do materialismo foi reconhecida pela própria filosofia marxista: "a imagem de felicidade é inseparável da de redenção" (Walter Benjamin). Isto significa que, à luz messiânica da redenção, a própria tarefa política da emancipação exige algum tipo de esperança numa vida eterna, isto é, numa vida não sujeita à caducidade do tempo. A fragilidade ontológica do ser finito que é o homem, o ser-para-a-morte (Heidegger), parece privá-lo da esperança, limitando-o à espera de um futuro melhor sobre a Terra. Condenado a ser esperança para os outros, o homem seria, ele próprio, nesta perspectiva, um ser sem esperança própria: as gerações passadas e intermediárias estariam irremediavelmente perdidas e sacrificadas no altar de um futuro que tarda a chegar. Objecto de esperança alheia, o homem singular não teria esperança própria. A perspectiva da redenção é mais exigente e, quando reclamada no seio de uma filosofia materialista, retoma a ideia cristã da ressurreição dos mortos (Adorno) e da natureza (Marx): o eu singular que conjuga o verbo esperar fá-lo, porque, apesar da sua mortalidade e da caducidade do mundo, espera o cumprimento da promessa veraz de vida eterna. Quando luta contra a dominação, a alienação, a reificação e as moradas da escravidão e do sofrimento gratuito, o materialismo consequente anula-se antes mesmo de se superar: a verdade do materialismo reside apenas na sua negação. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A &lt;strong&gt;imortalidade&lt;/strong&gt; não é certamente um objecto de conhecimento, dado situar-se além de toda a refutação e de toda a prova, tal como a epistemologia do conhecimento científico as define, mas é seguramente uma ideia de conhecimento (Kant) tão antiga quanto a própria humanidade. Desde que o homem começou a sepultar os seus mortos, inicialmente numa posição fetal que nos reconduz à noção de sobrevivência e de um novo renascimento, a importância interior do sentido da imortalidade e a ressonância que provoca em nós constituem a única base que nos permite retomar a problema da imortalidade num tempo indigente como o nosso. As criaturas metabolicamente reduzidas procuram apenas uma das duas modalidades da imortalidade empírica: a imortalidade da fama, tal como foi clarificada por David Hume na filosofia moderna, em detrimento da imortalidade da acção. A noção de &lt;strong&gt;imortalidade da fama&lt;/strong&gt; ou do nome é grega e foi muito admirada na Antiguidade Clássica ou mesmo na Idade Média. A imortalidade da fama era vista como uma justa recompensa pelos nobres feitos visíveis, isto é, públicos, realizados por homens corajosos, que, tal como Hume, eram motivados e movidos pela busca da fama. A visibilidade e a publicidade destes feitos imortais facilitavam a sua percepção e a sua lembrança por parte dos membros da comunidade. A sobrevivência na imortalidade da fama era alcançada unicamente na esfera da comunidade política: a fama imortal era a permanência das honras públicas. Como desejo de prolongamento na fama póstuma, o desejo de fama assenta na confiança depositada na opinião pública, nomeadamente na sua perspicácia no presente, na sua fidelidade no futuro e na sua própria continuidade e sobrevivência sem limites. Esta confiança grega na imortalidade da fama foi minada pela destruição benjaminiana da "história dos vencedores": a história narra os feitos dos vencedores, esquecendo e excluindo os feitos da maioria das pessoas, isto é, dos vencidos, cuja voz foi sempre-já silenciada. Não podemos acreditar na "selecção" realizada por uma tal historiografia das classes dominantes, sobretudo no contexto ofuscante da nossa própria sociedade, onde as reputações são fabricadas, a fama é inventada, a opinião pública é manipulada e a narração dos acontecimentos é falsificada sob pressão dos interesses instalados no poder. Nesta nossa era da corrupção universal da palavra, dominada pela disciplina partidária e pelas técnicas publicitárias, o discurso público é mais o discurso da mentira (a palavra aparente) do que da verdade, o que confirma a suspeita generalizada de que a fábula que relata à posteridade como as coisas aconteceram é uma mera invenção de um grupo minoritário corrupto constituído pelos grandes malfeitores da humanidade. A imortalidade da acção procura fazer justiça ao ser humano bom que, sem ansiar pela imortalidade do nome, própria do vaidoso, fica satisfeito com a continuação anónima da sua obra, traduzindo assim a esperança viva dos esforços sérios realizados ao serviço de um fim mais elevado. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Ora, estes dois conceitos de &lt;strong&gt;imortalidade empírica&lt;/strong&gt; não resistem à extinção do tempo: o mortal não pode funcionar como meio de preservação da imortalidade. As sociedades e as culturas humanas são efémeras e passageiras e a própria sobrevivência da humanidade está em risco. A &lt;strong&gt;caducidade do mundo&lt;/strong&gt; e das coisas humanas trabalham contra a imortalidade empírica e, quando a continuidade biológica da espécie humana está ameaçada de morte, torna-se problemático ligar o sentido da vida a um futuro que não é garantido: o êxito da aventura humana não está garantido e o fracasso é possível. Tanto o marxismo, pelo menos na sua versão mais ortodoxa e brutalmente materialista e economicista, como o existencialismo, lançaram-nos nas águas da mortalidade sem a segurança de um salva-vidas escondido, obrigando-nos a ocupar a nossa posição solitária no tempo entre dois nadas: o passado que já-não-é e o futuro que ainda-não-é. A questão da imortalidade foi varrida e banida do horizonte espiritual da nossa época: a descoberta da historicidade do homem (Hegel, Marx) e a elaboração ontológica da temporalidade do seu ser (Heidegger) levaram-nos a tomar consciência de que o tempo, longe de ser uma mera forma dos fenómenos, pertence à nossa essência mais íntima e que a nossa finitude é condição fundamental para que a nossa existência possa possuir autenticidade. O homem já não nega a sua mortalidade essencial; pelo contrário, parece reivindicar a sua condição efémera, breve e passageira, confrontando-se com o nada e convivendo com o nada. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O &lt;strong&gt;cepticismo moderno&lt;/strong&gt; em relação à existência de Deus e à imortalidade da alma mina a própria realidade da superação pessoal da morte. A existência humana move-se unicamente na esfera histórica: nasce da história, desenvolve-se na história e descobre o seu sentido completo no âmbito da história. Para Hegel, a liberdade humana só se realiza como história: o homem é um ser livre na medida em que é um ser histórico e, como só há história onde há liberdade, a liberdade revolucionária negadora pressupõe a morte. Isto significa que somente um ser mortal pode ser verdadeiramente histórico. A morte constitui o fundamento último e o primeiro móbil da história: «A história é o movimento dialéctico da força que mantém no Ser o nada que é o homem. Esta força realiza-se e manifesta-se como acção negadora ou criadora: acção negadora do dado que é o próprio homem, ou acção da luta que cria o homem histórico; e acção negadora do dado que é o mundo natural onde vive o animal, ou acção do trabalho que cria o mundo cultural, fora do qual o homem é puro nada, e onde ele não difere do nada a não ser por certo tempo». Isto significa que o sentido da vida se encontra no futuro histórico, mesmo que esse futuro seja pensado como um fim da história. G. Mury defendeu, no seio do marxismo, esta tese de que o sentido da nossa existência se encontra no interior da história: "Posso dar um sentido à minha vida se a identifico com o projecto universal da espécie que, desde a sua origem, se empenhou em construir, graças ao trabalho social, um mundo fraternal em que o domínio do homem sobre o seu meio material possa ser radicalmente assegurado. Salvo-me ou condeno-me neste mundo, na medida em que cumpro ou deixo de cumprir a vocação da humanidade global encarnada nos combates presentes, levados a cabo pelo proletariado na sua luta pela libertação geral de todos os homens". A perspectiva de Mury assenta em três pressupostos questionáveis: a humanidade, como espécie biológica, continuará a existir indeterminadamente sobre a Terra (1); o advento de uma sociedade sem exploração do homem pelo homem e sem alienações parece estar assegurado (2); e esse advento constitui uma resposta total e exaustiva ao sentido da existência pessoal (3). Porém, nenhum destes pressupostos está garantido. A imortalidade da espécie não é certa, conforme o demonstra a problemática biológica da extinção das espécies. Por isso, torna-se problemático ligar o sentido da actividade presente a um futuro não garantido, e, mesmo que realizássemos esse sonho diurno de uma sociedade justa, a morte não deixaria de ser problemática, como mostrou Bloch ou mesmo Marcuse. A história como resposta à necessidade de sentido na vida humana pressupõe a mortalidade radical do homem, excluindo a priori a imortalidade da pessoa e negando a dimensão meta-histórica das aspirações humanas, como se o sentido imanente fosse suficiente para garantir a grandeza da aventura humana. Mury rejeita cabalmente a hipótese de que o desaparecimento do homem possa privar retrospectivamente a aventura humana de sentido, mas, como vimos, Benjamin, Adorno, Horkheimer e Bloch acabaram por abrir o marxismo à transcendência. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Com esta abertura à &lt;strong&gt;transcendência&lt;/strong&gt; e ao &lt;strong&gt;inteiramente Outro&lt;/strong&gt;, podemos dar expressão conceptual ao sentimento de que a &lt;strong&gt;temporalidade&lt;/strong&gt; não pode ser a última palavra. No ser humano, manifesta-se a qualidade íntima de auto-superação, cujo sinal criptográfico reside na nossa ideia de eternidade. A prova tradicional da imortalidade afirma que a espiritualidade do homem não desaparece com a decomposição do organismo biológico, porque a alma espiritual do homem, não sendo composta como a matéria, não pode ser aniquilada por causa de um processo biológico. A morte separa o homem da comunicação sensível e tira-o do nosso mundo comum, mas esta invisibilidade da pessoa humana não implica, como mostrou Max Scheler, que o homem tenha deixado de existir pessoalmente: "O facto de não a vermos depois da morte significa muito pouco, dado que nunca a podemos ver de um ponto de vista sensível. O facto de não existirem fenómenos expressivos depois da morte é somente um motivo para aceitarmos que eu já não posso compreender a pessoa; mas não é motivo para aceitar a sua não existência. Por isso, a pessoa pode factualmente deixar de existir quando faltam elementos expressivos para a compreender. Não está escrito em parte alguma que as pessoas devam durar sempre; mas, na ausência destes fenómenos expressivos, não há nenhum motivo para afirmar que elas não sobrevivem" (Scheler). Retomando o argumento de Platão e de S. Tomás de Aquino, C. Tresmontant evita pensar a morte como aniquilação: a alma não é uma composição e, por isso, não pode decompor-se, tal como sucede com o corpo. O ónus da prova, o onus probandi, cabe àquele que nega a eternidade do espírito (Tresmontant) ou a sobrevivência da pessoa (Scheler). &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;«&lt;em&gt;O facto fundamental da existência humana não é o indivíduo enquanto tal, nem a colectividade enquanto tal. Consideradas em si mesmas, ambas as coisas são abstracções formidáveis. O facto fundamental da existência humana é o homem com o homem. O encontro do homem consigo próprio só pode verificar-se e, ao mesmo tempo, realizar-se como encontro do indivíduo com os seus companheiros&lt;/em&gt;». (&lt;strong&gt;Martin Buber&lt;/strong&gt;) &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;6. A pergunda sobre a morte é a pergunta sobre a pessoa humana.&lt;/strong&gt; Martin Buber e Emmanuel Lévinas protagonizaram uma viragem na &lt;strong&gt;interpretação da existência humana&lt;/strong&gt;, que, apesar de ser devedora da ontologia fundamental de Heidegger, rompe com a sua noção de "&lt;strong&gt;existência monológica&lt;/strong&gt;": "o homem não pode fazer-se inteiramente homem mediante a sua relação consigo próprio, mas somente graças à sua relação com outro homem" (Buber). A existência monológica é substituída pela &lt;strong&gt;existência dialógica&lt;/strong&gt;: o "estar-dois-em-recíproca-presença" realiza-se e reconhece-se unicamente no encontro do homem com o homem, do eu com outrem (tu) e o Outro (Deus). Inicialmente denominado personalismo (E. Mounier), o pensamento dialogal (M. Scheler, F. Ebner, M. Buber, A. Brunner) confere a primazia à relação com o outro e, no caso de Lévinas, confere superioridade ao tu em relação ao eu, revelada na epifania do rosto. Para Buber, o problema antropológico emerge nas épocas históricas de crise de confiança, quando o homem perde o seu clima familiar e a segurança que tinha desfrutado até esse momento de crise, e quando o mundo e a sua posição no mundo se tornam problemáticos. A crise de confiança leva-o, nesses momentos de perda e de insegurança, a colocar a pergunta sobre si mesmo, sobre o seu ser pessoal e sobre o sentido da vida. Buber destaca dois factores que contribuíram para a maturação do problema antropológico: a dissolução progressiva das velhas formas orgânicas da convivência humana directa (1) e a relação do homem com as novas coisas e circunstâncias que surgiram como resultado, directo ou indirecto, da sua própria acção (2). O primeiro factor contribuiu para o aumento da solidão humana: o homem perdeu o sentimento de estar hospedado no mundo e o sentimento da segurança cosmológica que lhe eram garantidos pelas anteriores formas orgânicas de sociabilidade. A perda de segurança sociológica, isto é, de um lar na vida e no mundo, desencadeou o sentimento de abandono total e de solidão. O segundo factor fez do homem um "resíduo" atrás das suas obras técnicas, económicas e políticas: o homem deixou de dominar o mundo que criou e, por isso, experiencia torpeza e fracasso de alma. Edmund Husserl enunciou três proposições que clarificam o problema antropológico, sem o ter tratado de modo directo e exaustivo: o maior fenómeno histórico é a humanidade que luta pela sua própria compreensão (1); o homem converte-se em problema filosófico quando se encontra em questão como ser racional (2); e o homem somente é homem nas entidades humanas vinculadas generativa e socialmente (3). Com excepção de Alfred Schutz, o trabalho antropológico da escola fenomenológica (Scheler, Heidegger) encarou estas conexões sociais como um obstáculo contra o qual as pessoas tropeçam para chegar ao seu próprio eu verdadeiro ou autêntico. Buber retoma a terceira proposição de Husserl para mostrar que a essência do homem não se encontra nos indivíduos isolados: a união da pessoa humana com a sua genealogia e com a sua sociedade é fundamental para compreender a essência do homem. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;Martin Buber&lt;/strong&gt;. A antropologia filosófica de M. Buber destaca fundamentalmente a estrutura dialogal ou interpessoal do homem e, contra a redução radical do homem a uma única dimensão, a relação com as coisas (Ich-Es), afirma a outra dimensão, a relação do homem com o outro homem (Ich-Du). Estas duas relações são caracterizadas, respectivamente, como experiência (Erfahrung) ou saber e encontro (Begegnung) ou &lt;strong&gt;diálogo&lt;/strong&gt;. A relação do eu com o tu constitui a relação por excelência, o primum cognitum de toda a antropologia filosófica. A filosofia de Buber mais não faz do que clarificar estas duas dimensões relacionais do homem. A relação com o mundo material desenvolve-se como uma relação senhor/escravo e é dominada pela prática e pela vontade de dominar o mundo que a orienta. Dado ser passiva, a matéria não é conhecida em si mesma e, por isso, não entra directamente na experiência: a experiência não é a realidade que medeia entre o homem e a coisa, mas a realidade que se encontra no homem, do qual provém todo o sentido. O ser do mundo tem de se submeter aos significados que lhe são atribuídos pelo homem. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A relação com o tu é anterior à relação com o mundo e desenrola-se de modo completamente independente. Cada eu tem uma relação com o outro (o tu) e esta relação caracteriza-se pela imediatez: o outro está imediatamente presente, sem qualquer mediação conceptual ou outra. O tu é completamente diferente da coisa: está subtraído ao modelo senhor/escravo, ou seja, não está submetido ou dependente do eu. Buber exclui o domínio do eu sobre o tu e do tu sobre o eu: o encontro do eu e do tu não é, como sucede em Sartre, conflitual, na medida em que os dois pólos equivalentes da relação se constituem reciprocamente um ao outro. No encontro com o outro, o homem torna-se autenticamente eu e o outro, autenticamente tu. O espaço ou o horizonte da relação entre pessoas não é o mundo, mas o espaço interpessoal (o zwischen). Contra o idealismo, Buber elege, em vez da subjectividade, o encontro das pessoas, o intersubjectivo que se constitui na relação eu e tu, como o verdadeiro ser, e esta relação interpessoal está ligada a Deus criador que doa ao homem o ser. Isto significa que o encontro com o tu é também o caminho para Deus e que a relação interpessoal abre-se, integrando-a, a relação com o Tu absoluto. O tu é um mistério inefável que não pode ser submetido à experiência científica. Não sendo objecto, não está disponível e não pode ser conhecido plenamente: impõe-se como mistério inefável e reflecte no seu ser o parentesco com Deus. Na distinção entre os dois tipos de relação, Buber coloca o humano inteiramente na relação do eu com o tu, sendo impedido de ver que a relação com as coisas pertence à dimensão interpessoal. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;Emmanuel Lévinas&lt;/strong&gt;. A antropologia filosófica de Lévinas pode ser lida como uma crítica radical da egologia baseada no cogito de Descartes, contra a qual afirma a primazia do outro como verdade fundamental do homem e como o lugar das suas dimensões metafísicas e religiosas: "a metafísica é ética". A interpretação do homem fundada no cogito e na orientação para o mundo material está marcada pela "vontade de poder" e viciada pelo mito da totalidade. A antropologia egológica pode ser caracterizada a partir de quatro níveis. Ao nível do conhecimento, procura reduzir toda a realidade à razão explicativa: a realidade é constituída pela razão e conhecê-la significa reduzir todas as coisas à unidade do sistema racional pensado pelo ego, de modo a eliminar toda a alteridade e a expandir o domínio do eu sobre a totalidade da realidade. Ao nível ético, predomina a ideia de afirmação de si mesmo: o eu realiza-se a si mesmo, afirma-se à custa dos outros, utiliza os outros como meios e, deste modo, converte-se em legislador de si mesmo, submetendo tudo ao tribunal da sua razão soberana. Ao nível social e político, a ideia de soberania do ego e a sua orientação para o mundo implica a ideia de imperialismo: a razão soberana do ego engendra a guerra que visa alargar e globalizar o seu próprio poder económico, político e militar sobre os outros, eliminando-os e sujeitando-os aos seus próprios objectivos. Ao nível metafísico e religioso, ignora o verdadeiro encontro com o outro e fecha-se na história, não deixando espaço para a transcendência e atrofiando a dimensão metafísica: a concepção imanentista conduz ao ateísmo. Em todos estes níveis, a &lt;strong&gt;egologia&lt;/strong&gt; coloca no centro a totalidade e, deste modo, sacrifica os indivíduos, submetendo-os ao sistema do ego auto-suficiente que privilegia a sua relação com o mundo na realização de si mesmo. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A antropologia interpessoal de Lévinas é uma &lt;strong&gt;antropologia da alteridade&lt;/strong&gt;: a primazia que concede ao outro implica a certeza do outro como outro que se impõe com a sua própria força, introduzindo o homem numa experiência metafísica e religiosa (1), e o reconhecimento do outro, não somente ao nível da intimidade e da privacidade, mas fundamentalmente ao nível ético e objectivo (2): o outro deve ser reconhecido no mundo pelo facto de ser constitutivamente um ser indigente e necessitado. O outro revela-se na epifania do rosto e a sua presença é totalmente distinta da existência das coisas objectivas, no sentido de irromper por si mesmo na minha existência, sem que tenha sido constituído previamente pela minha razão e, portanto, inserido na totalidade racional. A epifania do rosto é a presença imediata do outro como absolutamente outro, que, impondo-se por si mesmo, rompe a tentativa de o reduzir a uma forma de totalidade. O reconhecimento do outro implica o reconhecimento concreto do outro no mundo, na medida em que a nudez do seu rosto é a presença do ser indigente e necessitado neste mundo. A nudez do rosto é toda a humanidade e simboliza a condição humana: todos os seres humanos desejam "ser alguém" frente aos outros e ser tratados como tais. A sua presença afecta a existência e eleva as relações interpessoais acima da esfera íntima e privada. O reconhecimento do outro no mundo é reconhecimento objectivo, não só no sentido da justiça, mas também no sentido do amor e da bondade. Porém, o outro é aquele que me olha de cima e que exige e tem direito a exigir. A relação do eu com o outro revela uma assimetria fundamental: a superioridade do tu em relação ao eu. Além disso, a relação interpessoal é o lugar onde se manifesta o absolutamente outro, ou seja, Deus, porque a exigência do outro, a sua presença soberana, é algo transcendente e absoluto, que supera a sua vontade arbitrária. Encontrar-se cara a cara com o próximo é encontrar-se perante Deus, que exige ser reconhecido na exigência de reconhecimento objectivo do outro: "A dimensão divina abre-se a partir do rosto do outro" (Lévinas). &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O &lt;strong&gt;rosto&lt;/strong&gt; na sua expressão convoca, rompendo-o, no ser-aí humano preocupado com o seu ser-no-mundo, o eu responsável pelo outro: "A morte do outro homem diz-me respeito e questiona-me como se eu me tornasse, pela minha eventual indiferença, o cúmplice desta morte invisível ao outro que aí se expõe; e como se, antes de ser eu mesmo votado a ele, tivesse de responder por esta morte do outro e não deixar outrem só, na sua solidão mortal. É precisamente neste chamamento da minha responsabilidade pelo outro que me convoca, me suplica e me reclama, é neste questionamento que outrem é próximo" (Lévinas). Lévinas procura entender o sentido da morte, não a partir da morte própria ou da angústia da morte própria, mas a partir do "inter-humano" ou da socialidade, isto é, na proximidade do outro homem, cujo rosto apela à "minha responsabilidade pela morte de outrem". "O eu é, como dizia Pascal, detestável", no sentido de ser "a própria crise do ser do ente no humano" (Lévinas). Quando o eu é ser na primeira pessoa, afirmando o seu ser e tendo de responder unicamente pelo seu direito de ser, o seu ser-no-mundo ou o seu "lugar ao sol" mais não são do que usurpações dos lugares que pertencem aos outros. Estas usurpações reduzem os outros à condição de oprimidos, repelidos, excluídos, exilados, despojados, mortos, ou de reduzidos à fome, e expulsam-os para um "terceiro mundo": o eu usurpa toda a Terra e realiza-se como violência ou assassinato, ocupando o lugar dos outros. A actual crise financeira e económica revela a natureza dessa usurpação da Terra, mediante a qual os eus corruptos de colarinho-branco condenam a maioria dos seres humanos à miséria e à pobreza. O poder começa onde o conhecimento apreende o indivíduo que existe sozinho, não na sua singularidade, mas na sua generalidade: a rendição das coisas exteriores à liberdade humana significa, além da sua compreensão, a sua apropriação, porque "só na posse o eu conclui a identificação do diverso. Possuir é manter a realidade desse outro que se possui, mas suspendendo precisamente a sua independência. Numa civilização reflectida pela filosofia do Mesmo, a liberdade cumpre-se como riqueza. A razão que reduz o outro é uma apropriação e um poder" (Lévinas). A concepção do "morrer por um outro" de Lévinas rompe com a ontologia heideggeriana do Dasein, na medida em que este ainda conserva a "estrutura do Eu". Para Heidegger, a morte é "poder ser o mais próprio", o "mais autêntico", e dissolução de todas as relações com outrem: "A possibilidade de se aniquilar é precisamente constitutiva do Dasein, e mantém assim a sua ipseidade. Esse nada é uma morte, isto é, a minha morte, a minha possibilidade (da impossibilidade), o meu poder. Ninguém me pode substituir para morrer. O instante supremo da resolução é solitário e pessoal" (Lévinas). Nesta perspectiva da autenticidade (Adorno), o morrer por um outro surge como um mero sacrifício. Ora, a relação com outrem, na qual a morte do outro preocupa o ser-aí humano, sem reconduzir à sua morte própria, indica "um além" (ou "um antes") da ontologia, e revela, ao mesmo tempo, "uma responsabilidade pelo outro": "A prioridade do outro sobre o eu, pela qual o ser-aí humano é eleito e único, é precisamente a sua resposta à nudez do rosto e à sua mortalidade" (Lévinas). A morte é, para cada um de nós, "o impossível abandono de outrem à sua solidão" e a "proibição desse abandono dirigido a mim". O temor pela morte do outro é o meu temor, mas um temor que não retorna à angústia pela minha morte: morrer por outrem e a morte do outro têm prioridade sobre a morte autêntica. (&lt;strong&gt;Fim&lt;/strong&gt; da série`"Morte e Sentido da Vida". Publicdo em &lt;strong&gt;&lt;em&gt;CyberCultura e Democracia Online&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;: &lt;a href="http://cyberdemocracia.blogspot.com/2009/04/meditatio-mortis-e-sentido-da-vida-5.html"&gt;&lt;strong&gt;aqui&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt; e &lt;a href="http://cyberdemocracia.blogspot.com/2009/04/meditatio-mortis-e-sentido-da-vida-6.html"&gt;&lt;strong&gt;aqui&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;. ) &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;J Francisco Saraiva de Sousa&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4759866844732089627-7749490820432636368?l=cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/feeds/7749490820432636368/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4759866844732089627&amp;postID=7749490820432636368&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/7749490820432636368'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/7749490820432636368'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/2009/07/morte-e-sentido-da-vida-3.html' title='Morte e Sentido da Vida (3)'/><author><name>J Francisco Saraiva de Sousa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14064808742564506644</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4759866844732089627.post-8776083912172603669</id><published>2009-07-10T04:44:00.000-07:00</published><updated>2009-07-10T05:23:03.719-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberPhilosophy'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Imaginação Política'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberMedicine e Filosofia Médica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crítica da Ideologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Antropologia Filosófica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='História'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Filosofia da Religião'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Estética'/><title type='text'>Morte e Sentido da Vida (2)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;«&lt;em&gt;Os assassinados são defraudados até mesmo da única coisa que a nossa impotência pode garantir-lhes: a recordação&lt;/em&gt;». (&lt;strong&gt;Theodor W. Adorno&lt;/strong&gt;)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;«&lt;em&gt;O dom de atiçar através do passado a chama da esperança pertence apenas ao historiógrafo perfeitamente convencido que diante do inimigo, e no caso deste vencer, nem sequer os mortos estarão em segurança. E este inimigo não tem cessado de vencer&lt;/em&gt;». (&lt;strong&gt;Walter Benjamin&lt;/strong&gt;)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;«&lt;em&gt;Os verdadeiros indivíduos do nosso tempo são os mártires que atravessaram os infernos do sofrimento e da degradação na sua resistência à conquista e à opressão, e não as personalidades bombásticas da cultura popular, os dignatários convencionais. Esses heróis não celebrados expuseram conscientemente a sua existência como indivíduos à aniquilação terrorista que outros arrostam inconscientemente através dos processos sociais. Os mártires anónimos dos campos de concentração são os símbolos da humanidade que luta para nascer. A tarefa da filosofia é traduzir o que eles fizeram numa linguagem que será ouvida, mesmo que as suas vozes finitas tenham sido silenciadas pela tirania&lt;/em&gt;». (&lt;strong&gt;Max Horkheimer&lt;/strong&gt;) &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;3. A pergunta sobre a morte é a pergunta sobre os imperativos éticos da justiça, da liberdade e da dignidade&lt;/strong&gt;. A experiência do Holocausto e das mortes nos campos de concentração nazis marcou fortemente o marxismo ocidental e a filosofia: a questão do sentido da vida foi desacreditada pelo horror brutal da morte planeada. Bruno Bettelheim descreveu a experiência dos prisioneiros nos campos de concentração de Dachau e de Buchenwald não só em termos de confinamento, mas também e sobretudo em termos de extrema ruptura das formas habituais da vida quotidiana, causada pelas condições brutalizadas de existência, pela ameaça sempre presente ou pela realidade da violência dos guardas prisionais, e pela escassez de alimentos e de outras provisões alimentares para a manutenção da vida. A experiência totalitária dos campos de concentração mostrou como "a psique humana pode ser destruída mesmo sem a destruição física do homem" (Arendt): arrancados brutalmente aos contextos práticos da sua vida quotidiana e à vida familiar, quando ingressavam nos campos de aniquilação, os prisioneiros procuravam de início distanciar-se psicologicamente das pavorosas pressões de uma vida em espaço confinado, tentando conservar os modos de comportamento normais, mas, sob pressão da Gestapo e da violência dos guardas prisionais, acabavam por perder a sua autonomia, adoptando comportamentos infantis, deixando de cuidar da sua própria higiene pessoal e perdendo o sentido de futuro, o senso do tempo e a capacidade de antever. Vivendo numa situação de insegurança ontológica radical, muitos prisioneiros tornaram-se cadáveres ambulantes (Muselmänner), rendendo-se fatalmente a tudo o que o futuro pudesse reservar-lhes. Porém, como mostrou H. Arendt, esta fabricação em série de cadáveres foi precedida pela preparação, histórica e politicamente inteligível, de cadáveres vivos: antes de roubar a própria morte aos prisioneiros, o domínio total começou por matar a sua pessoa jurídica (morte jurídica), depois a sua pessoa moral (morte moral) e, finalmente, a sua identidade única de pessoa humana (morte psicológica). Este planeamento gradual da morte mostra que o totalitarismo dispensa os homens, tornando-os seres supérfluos e transformando-os em animais. De facto, a natureza humana só pode ser verdadeiramente humana se for dada ao homem a possibilidade de tornar-se algo não-natural, o homem humanizado, de resto uma possibilidade que lhe é negada pela actual sociedade administrada e hipercapitalista de consumo. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Na sua meditação sobre o sentido da vida, Adorno considera que, depois de Auschwitz, o materialismo só pode ser verdadeiramente materialista na sua ânsia pela &lt;strong&gt;ressurreição da carne&lt;/strong&gt;, sem a qual não podemos continuar a viver e a escrever poesia depois da terrível experiência dos campos de concentração nazis: a presunção da cultura foi completamente liquidada pelo "fedor do cadáver". A teoria crítica (= marxismo) deve deixar a porta aberta à "esperança que se refere à ressurreição corporal" e, deste modo, à própria teologia, porque "o único modo que ainda resta à filosofia de se responsabilizar perante o desespero (é) tentar ver as coisas como aparecem (à luz messiânica) do ponto de vista da redenção". A ideia de ressurreição foi ligada ao projecto revolucionário por Garaudy: ser revolucionário significa crer que a vida tem sentido e um sentido para todos. Isto significa que a moralidade do projecto de mudança social qualitativa ou de mudança de paradigmas depende da sua universalidade: justiça, liberdade e dignidade para todos os seres humanos. Ora, esta universalidade pode ser questionada pelo facto evidente de que milhares de seres humanos morreram no passado sem terem tido uma vida e uma morte dignas e dotadas de sentido. O marxismo é forçado a crer numa realidade inteiramente nova que contenha todos os seres humanos e que os prolongue: abriga, portanto, a esperança de que todos vivam e ressuscitem nessa nova realidade e a sua acção está fundada na fé da ressurreição dos mortos. As éticas dialógicas de Karl-Otto Apel e de Jürgen Habermas não se conformam com esta abertura ao "inteiramente Outro" (Horkheimer), mas a ideia de uma sociedade comunicativa que as alimenta permanece incompleta se não incluir a solidariedade para com os mortos. Não podemos projectar o futuro de uma humanidade emancipada sem redimir o passado de uma humanidade escravizada. Segundo Adorno, além da revogação do sofrimento presente, é preciso aguardar que o sofrimento não reparado do passado seja salvo. E, para que isso aconteça, é necessário que o pensamento crítico não capitule perante os poderes estabelecidos e se abra à transcendência; caso contrário, a memória do sofrimento, da injustiça e da alienação sofridas no passado impossibilita desfrutar uma vida justa e sem angústia. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Sem a luz da redenção plena, o homem entregue a si próprio perde-se, desespera e não sabe quem é. No nosso tempo indigente, o homem tornou-se para si próprio radical e universalmente um ser problemático (Scheler, Heidegger), o que justifica a clarificação filosófica dos aspectos fundamentais da sua essência ou natureza. A antropologia filosófica tem como tarefa dar uma resposta profunda e global à questão "O que significa ser Homem?" Para evitar o niilismo antropológico predominante, Walter Benjamin efectuou uma crítica da modernidade do ponto de vista da teoria da experiência: "Onde nos apercebemos de uma cadeia de acontecimentos, (o Anjo da História) vê uma única catástrofe que continua a amontoar destroços sobre destroços e os arremessa para diante dos seus pés". A tempestade responsável por esta catástrofe é o "progresso". Se for abandonado a si mesmo, o curso imanente da História nunca produzirá a redenção. O filósofo marxista deve "destruir o contínuo da História", de modo a activar e actualizar os seus potenciais redentores ocultos, que Benjamin associa ao "tempo de agora" (Jetztzeit). Segundo Engels, "a História é talvez a mais cruel de todas as deusas; ela conduz o seu carro triunfal sobre montes de cadáveres, não só na guerra mas também nos períodos de desenvolvimento económico pacífico". Para Benjamin, a consciência instalada no movimento das coisas, dos indivíduos e das ideias dominantes, contribui para que esse movimento prossiga a sua marcha triunfal nesse contínuo homogéneo que é a História dos vencedores. Escapar à tirania deste movimento que promove a "eterna repetição do mesmo" (Auguste Blanqui) e que consagra o "sempre igual" constitui a tarefa fundamental da concepção dialéctica da História, que deve operar uma "actualização" do passado e arrancar a tradição ao conformismo que procura dominá-la. Declínio (Verfall) e Salvação (Erlösung) constituem conceitos nucleares da filosofia messiânica da História de Benjamin, mas é preciso olhar a sua dialéctica intrínseca nestes termos: a modernidade destruiu a experiência e, portanto, a tradição, e compete à filosofia marxista operar a recuperação dialéctica da história cultural até alcançar o ponto em que "todo o passado tenha sido trazido para o presente numa apocatástase" (Orígines), isto é, numa recuperação messiânica de tudo e de todos, a &lt;strong&gt;restituição integral da História&lt;/strong&gt; (Ernst Bloch). &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Benjamin exerceu uma profunda influência sobre o pensamento de Adorno e, por intermédio deste último, sobre o pensamento tardio de Max Horkheimer. Todos aqueles que morreram injustamente reclamam justiça plena. As apologias póstumas e as ofertas de flores ou mesmo a mera recordação dos defuntos não são suficientes para fazer justiça aos mortos: a justiça plena exige a reabilitação dos mortos e a sua recuperação para a vida. A vitória sobre a morte é a vitória sobre a injustiça total: o carrasco não pode prevalecer sobre a vítima. Horkheimer rejeita o "marxismo soviético" que degenerou em ideologia e o iluminismo que se converteu num novo mito. Esta dupla-recusa constitui um regresso ao individualismo, no sentido de que somente os indivíduos livres podem formar uma sociedade livre. A filosofia tardia de Horkheimer encerra uma ideia teológica, podendo ser definida como uma &lt;strong&gt;teodiceia&lt;/strong&gt; (M. Weber): um esforço teórico para explicar o sofrimento neste mundo relativo e contingente. A teologia não é, para Horkheimer, a "ciência de Deus" ou o "conhecimento de Deus", mas simplesmente a expressão da nostalgia própria do homem da justiça plena: "A teologia significa aqui a consciência de que o mundo é um fenómeno, de que não é a verdade absoluta nem a última. A teologia é a esperança de que a injustiça que caracteriza o mundo não pode permanecer assim, que o injusto não pode ser visto como a última palavra". Ou, de forma mais enfática, a teologia é a "expressão de uma ânsia, de uma nostalgia de que o assassino não pode triunfar sobre a vítima inocente". Esta concepção de teologia como expressão de uma nostalgia de justiça plena e a sua articulação com a teoria crítica exigem alguns esclarecimentos teóricos. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;3.1. &lt;/strong&gt;A existência de Deus não pode ser comprovada ou desmentida. O conhecimento do desamparo e da &lt;strong&gt;finitude humana&lt;/strong&gt; não constitui prova da existência de Deus: a sua função é produzir a esperança de que exista um absoluto positivo capaz de dar sentido à existência humana. Embora só seja possível mediante o pensamento de Deus, o conhecimento do desamparo não pode ser alcançado mediante o conhecimento do absoluto de Deus. O facto de não podermos afirmar ou negar a existência de Deus implica que a dialéctica do ateísmo/teísmo deve ser avaliada criticamente em função dos compromissos mundanos dos poderes religiosos com as estruturas sociais e as conjunturas políticas de cada época histórica: o marxismo não é, teoricamente falando, um ateísmo (Althusser). Além disso, não faz sentido falar de uma epistemologia da teologia, porque, como observou Althusser, a teologia é uma "ciência sem objecto", isto é, não é uma positividade: Deus não é objecto positivo de um discurso científico, mas a expressão sublime e o "objecto" da nostalgia humana de justiça plena, que não pode ser realizada na "história secular", em virtude da miséria passada e das deficiências da natureza não poderem ser evitadas. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;3.2.&lt;/strong&gt; Seguindo S. Tomás de Aquino ou mesmo as teologias dialécticas de Karl Barth e de Rudolf Bultmann, Horkheimer advoga uma &lt;strong&gt;teologia negativa&lt;/strong&gt;: não podemos afirmar nada sobre Deus. O absoluto, o inteiramente Outro, não pode ser representado e, quando falamos dele, limitamo-nos a dizer que vivemos num mundo que é algo relativo e contingente. Deus é, para os judeus, o inominável, e, para os cristãos, o segredo incompreensível, isto é, não pode ser representado por imagens ou por palavras. Donde resulta que, para o judaísmo, não se trata de compreender como Deus é, mas sim de compreender como é o homem. A questão de Deus é fundamentalmente a questão do Homem (J. Alfaro, Bruno Forte, W. Pannenberg, J. Moltmann, G. Gutiérrez, D.A. Pallin): a teologia ajuda os homens a tomar consciência de que são seres limitados e finitos, condenados a sofrer e a morrer, mostrando-lhes que, para além do sofrimento e da morte, existe a ânsia de que a existência terrena não seja absoluta ou a única realidade. Esta é a função social da religião, o arquivo histórico onde estão depositados os desejos, os sonhos de um mundo melhor, os suspiros das criaturas oprimidas e as queixas das gerações passadas: o reconhecimento de um ser transcendente atiça o descontentamento com o destino terreno. O teísmo de Horkheimer é um teísmo do protesto contra a ordem existente, cuja lógica imanente conduz ao mundo burocratizado, administrado e organizado que, eliminando a individualidade e a vontade livre, o amor ao próximo e a solidariedade, o amor e a família, a religião e a filosofia, caminha na direcção de uma catástrofe. Sob a sua influência, Johannes B. Metz (teólogo) advogou a eliminação de uma sociedade injusta por meio da revolução, isto é, do salto qualitativo. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;3.3.&lt;/strong&gt; A teologia está por detrás de todo o actuar ou agir realmente humano: tudo o que tem relação com a &lt;strong&gt;moral &lt;/strong&gt;funda-se, em definitivo, na teologia. Isto significa que toda a moral se funda na teologia, não no sentido de agirmos determinados pelo conhecimento de Deus, mas sim no sentido de agirmos baseados no "sentimento interior de que Deus existe". Esta é uma das fontes da moral; a outra é agirmos em relação aos outros de modo a fazê-los felizes e alegres, tornando assim a nossa própria vida mais bela. Num mundo burocratizado como o nosso, dominado por uma grande comercialização hipercapitalista e mergulhado numa crise profunda, mas carente de sentido e extremamente aborrecido, "é impossível salvar um sentido absoluto sem Deus". Esta frase de Horkheimer que foi alvo das críticas de J. Habermas aponta os limites do existencialismo ateu de Sartre: a vida em si mesma carece de sentido e, por isso, compete ao homem dar-lhe sentido. A rejeição de Deus significa que cabe ao homem a tarefa de "inventar valores". Cabe a cada um de nós escolher o seu ideal e a sua moral: a liberdade é o único fundamento dos valores e absolutamente nada justifica a adopção deste ou daquele valor, desta ou daquela escala de valores. A liberdade é o fundamento sem fundamento dos valores. Condenado a agir livremente, o homem é responsável pelas suas escolhas sinceras. As opções de cada homem não são puramente individuais, porque escolher para nós é escolher para todos os outros. Ao fazer uma escolha, o homem proclama o valor universal do alvo que visa. G. Lukács criticou severamente o existencialismo de Sartre, sublinhando o paradoxo que o domina: rejeita a existência de valores e de normas absolutas, ao mesmo tempo que reivindica o alcance universal da escolha individual. Não admira que Sartre tenha visto o homem como uma paixão inútil e que, em reacção a este ateísmo radical, V. Gardavsky tenha colocado a questão: O que pode oferecer um homem sem Deus?. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;3.4.&lt;/strong&gt; A teologia negativa de Horkheimer é uma &lt;strong&gt;teologia da proximidade&lt;/strong&gt;, elaborada a partir da concepção desenvolvida por Paul Tillich (teólogo) de que na ideia de sociedade justa está recolhida e superada a ideia cristã de amor ao próximo, o respeito pelos direitos de cada ser humano. Dado a situação do proletariado ter melhorado sem a revolução e o seu interesse comum já não se encontrar na mudança radical da sociedade hipercapitalista, mas apenas numa melhor configuração material do nível de vida, a noção de solidariedade deve ser usada para designar não a solidariedade de uma determinada classe social, mas sim a solidariedade humana resultante do facto dos homens sofrerem e serem seres finitos. Como membros da humanidade em que nos perpetuamos, estamos interessados pelo destino dos demais seres humanos e, quando pensamos em nós, fazemo-lo como membros dessa humanidade. Vivemos e lutamos para que os outros possam existir. Acompanhando Schopenhauer, Horkheimer considera que a doutrina do pecado original constitui a doutrina mais grandiosa elaborada pelo judaísmo e pelo cristianismo: a afirmação de si mesmo, a negação dos demais indivíduos, constitui o pecado original propriamente dito. O indivíduo que age mal, negando com a sua vontade de viver a vontade dos outros e procurando a sua felicidade à custa da felicidade dos outros, volta a encarnar, segundo Schopenhauer, nalguma forma da sua vida anterior, suportando todos os sofrimentos até que, como mártir autêntico e real, se encontre próximo do sofrimento dos outros e sinta com eles compaixão e alegria. Ora, esta doutrina só é possível sob a condição de Deus ter criado o homem à sua imagem e semelhança, isto é, como um ser livre e o único responsável pelo seu destino histórico, para o bem e para o mal. A solidariedade no sofrimento e na morte é alimentada pela ânsia de que a injustiça não terá a última palavra. A ideia da morte define não só a certeza da dissolução do eu, mas também a preocupação pela sobrevivência num tempo imprevisível, como ser vivo, sobre a Terra. A referência à identidade do ser vivo enquanto tal possibilita, segundo Horkheimer, fundamentar a solidariedade com todas as criaturas vivas, sem recorrer ao conceito bizarro e infantil de libertação animal avançado por Peter Singer. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;3.5.&lt;/strong&gt; Ora, o nosso mundo burocratizado e administrado é uma das configurações sociais do &lt;strong&gt;pecado original&lt;/strong&gt;: a actual crise financeira e económica indica uma das raízes do mal radical, a corrupção dos executivos de colarinho-branco que, nas últimas décadas, usaram o poder político para proveito pessoal, em detrimento dos bens e dos interesses universais da humanidade. A relação entre a teoria crítica e a teologia pode ser clarificada na sua conexão conjunta na recusa enfática do mundo administrado que ameaça destruir a humanidade e a natureza. A função social da Filosofia consiste "na crítica da ordem existente". A crítica filosófica não significa "uma mania superficial de criticar determinadas ideias" ou determinadas situações sociais, na suposição da filosofia deter um ponto de vista privilegiado sobre o mundo, ou na mera lamentação de uma circunstância isolada, para a qual o filósofo recomenda uma solução. Como crítica radical do mal existente, a Filosofia visa "impedir que os homens se percam naquelas ideias e formas de comportamento que a sociedade lhes inspira na sua organização racional actual", as quais os convertem em meros autómatos obedientes e submissos aos regulamentos racionais da organização burocrática: os homens precisam aprender a descobrir que o progresso e o seu aliado positivista põem em perigo não só a fé e o conhecimento crítico, incluindo a filosofia, mas também o desejo de um mundo melhor. A teoria crítica não abdica do seu esforço político para "transformar o mundo" (Marx), isto é, para ajudar na tarefa prática da construção de um mundo cada vez melhor e cada vez mais razoável, livre e justo, mas, permanecendo fiel ao espírito da filosofia moderna que, desde Descartes até Kant e Hegel, procurou reconciliar a filosofia, a ciência e a teologia, encerra "um pensamento que tende para o teológico", isto é, para o inteiramente Outro: a abolição ancestralmente desejada da crueldade sem sentido. A supressão da teologia e da religião levada a cabo pela organização burocrática do mundo implica o desaparecimento do mundo daquilo a que chamamos sentido. Diante desta ameaça de despojar o mundo do sentido, entregando-o à actividade sem sentido, a teoria crítica é obrigada a assumir uma dupla-tarefa: "designar o que deve ser mudado e conservar determinados momentos culturais", incentivando a renovação da teologia e da sua integração no ensino universitário, a defesa do amor, da família e do indivíduo, e a reforma radical do ensino. Ao descrever o processo de mudança social e tecnológica a que está submetido o mundo moderno, a teoria crítica exprime o Mal existente e, ao mesmo tempo, procura transformá-lo através de uma praxis iluminada. Marx evitou expor em termos positivos o reino da liberdade: a sua crítica da sociedade capitalista identificou-a com o Mal existente, mas não descreveu positivamente o Bem desejado pela humanidade solidária. Embora não possa descrever o Absoluto e representá-lo, a teoria crítica pode caracterizar aquilo que nos faz sofrer e que precisa ser transformado através de um esforço comunitário de solidariedade. Os homens que partilham a precariedade do mundo no sofrimento e na morte devem unir-se na luta política por um mundo melhor. A teologia recorda que na vontade de verdade habita o desejo ou a ânsia do inteiramente Outro e, com este testemunho da justiça plena, ajuda a transformar o mundo na direcção do socialismo democrático: "O individualismo kantiano contém em si a verdade do socialismo./ A unidade da liberdade e da justiça pertence ao miolo da filosofia kantiana" (Horkheimer). &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;«&lt;em&gt;Um velho sábio lamentava-se dizendo ser mais fácil salvar o homem do que o alimentar. O socialismo futuro, quando todos os convidados estiverem sentados à mesa, quanto todos puderem sentar-se aí, deverá confrontar-se mais do que nunca, num combate particularmente difícil e paradoxal, com a inversão desta antiga sentença: é mais fácil alimentar o homem do que o salvar, isto é, reconciliá-lo consigo mesmo, com os outros, com a morte e com esse mistério absolutamente vermelho que é a existência do mundo. Com efeito, a alienação mais pertinaz não é unicamente a gerada por uma sociedade imperfeita, que desaparecerá com ela; há outra origem mais profunda da alienação. Marx dizia: "Ser radical é perceber as coisas pela raiz. Ora, para o homem, a raiz de todas as coisas é o próprio homem". A primeira epistola de João (3, 2) afirma, por sua vez, tomando esta raiz que é o homem não como a causa de qualquer coisa, mas como um destino: "Mas o que nós seremos ainda não se manifestou. Sabemos que, quando se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é. Todo aquele que nele tem esta esperança purifica-se a si mesmo, como também ele é puro (Jesus)&lt;/em&gt;». (&lt;strong&gt;Ernst Bloch&lt;/strong&gt;). &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;4. A pergunta sobre a morte é a pergunta sobre a dialéctica presente/futuro.&lt;/strong&gt; O mundo em que vivemos é um mundo pouco acolhedor, inóspito e dominado pela alienação. Por isso, sonhamos com um futuro que seja a "&lt;strong&gt;pátria da identidade&lt;/strong&gt;" (E. Bloch). Entre o presente sofrido e corrupto e o futuro sonhado e liberto, intercala-se o hiato, a fenda do tempo, o abismo da morte. No tempo da vida quotidiana, o passado, o presente e o futuro sucedem-se com regularidade uns aos outros, permitindo a sua fixação pelo calendário: o presente é hoje, o passado começa ontem, e o futuro inicia-se amanhã. Rodeado pelo passado e pelo futuro, o presente funciona como o ponto fixo, a partir do qual nos orientamos, olhando para trás ou para diante. A atribuição de um continuum numérico ao fluxo da mudança perene deve-se à continuidade das nossas ocupações e das nossas actividades no mundo, isto é, à continuidade da nossa vida quotidiana. A espacialidade da nossa vida diária leva-nos a espacializar os tempos verbais: o passado está "atrás" e o futuro, "adiante". Porém, a inserção do homem com o seu tempo de vida limitado pelo nascimento (origem) e pela morte (fim) transforma o fluxo contínuo da corrente da mudança, repartindo-o nos três tempos verbais: a passado e o presente estão presentes na sensação interior do tempo e colidem um com o outro como o já-não e o ainda-não. Na parábola de Kafka, o "Ele", isto é, o homem, está situado entre o passado e o futuro em qualquer momento dado; o tempo intermediário é o presente, mais precisamente o Agora presente, onde as forças antagónicas colidem uma com a outra: a colisão do passado, que já não é, e do futuro, que está a aproximar-se e ainda não é. O homem vive sempre no intervalo entre o passado e o futuro: um Agora alargado no qual passa a sua vida, lutando contra o peso morto do passado que o empurra para a frente com a esperança, e o medo de um futuro (a morte inevitável) que o puxa para trás na direcção da "tranquilidade do passado" (Arendt) com a nostalgia e a recordação da única realidade de que pode estar certo. Tanto a situação cristã como a situação revolucionária podem ser compreendidas como o "autêntico entre" (R. Bultmann): o homem vive entre dois nadas, o do passado que já não é e o do futuro que ainda-não-é. O entre não é uma determinação puramente cronológica, mas o tempo de uma nova oportunidade para que o homem se comprometa e se esforce, em comunidade solidária, pela sua salvação futura. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A intenção de E. Bloch é elaborar uma &lt;strong&gt;filosofia em chave salvífica&lt;/strong&gt;, de modo a fazer do marxismo uma "&lt;strong&gt;meta-religião&lt;/strong&gt;", isto é, uma teoria e praxis da plenitude de ser e de sentido, na qual o homem é visto como um Deus em potência. A sua antropologia toma a forma de uma cristologia e o seu humanismo radical supera todos os outros humanismos na direcção de um antropoteísmo. Convencido de que "o melhor lado da religião é o futuro", Bloch realiza uma hermenêutica crítica da Bíblia, de modo a mostrar a existência de uma "Bíblia subterrânea": a verdadeira Bíblia pauperorum, a Bíblia dos pobres, cujo órgão principal reside no seu "eixo não-teocrático". A mensagem subterrânea da Bíblia dos pobres reside no homo absconditus e implica a abolição de todas as relações sociais onde o homem é um ser explorado, oprimido, deserdado, ofendido, humilhado, estranho a si próprio, desesperado e abandonado. A Bíblia é a religião da utopia humana e, para apreender esta visão herética, o ateísmo no cristianismo, é preciso desteocratizá-la: Deus mais não é do que a idealização hipostasiada do ser humano ainda-não-realizado na sua realidade essencial (Marx) ou, como diz Bloch, a "enteléquia utópica". O resultado da operação de desteocratização da Bíblia é o "transcender sem transcendência": a rebelião radical dos homens solidários contra a opressão e a corrupção conduzida pela esperança de um verdadeiro "ser-outro". Porém, a desteocratização da Bíblia aparece articulada com uma desdogmatização do marxismo. As distinções entre a "corrente fria" e a "corrente quente" do marxismo, entre utopia abstracta e utopia concreta, entre sistema acabado e sistema aberto, permitem a Bloch ultrapassar as fronteiras do pensamento racionalista tradicional que deprecia as formas de pensamento utópico e as rejeita como produtos imaginários de um irracionalismo avesso à triste visão científica do mundo, e, ao mesmo tempo, integrar a tradição positiva das utopias numa visão renovada da filosofia marxista. O conceito de "ortopedia do andar erecto" resume a tarefa de renovar o marxismo: a análise económica e política (corrente fria) deve estar ligada a uma filosofia escatológica da história (corrente quente), a única capaz de realizar uma síntese produtiva entre a teoria e a praxis de emancipação e de exprimir as aspirações profundas da humanidade oprimida. O marxismo enquanto "ciência dialéctica das tendências" deve permanecer aberto às suas heranças culturais e à percepção das potencialidades objectivas da realidade que apontam para o futuro. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A &lt;strong&gt;soteriologia&lt;/strong&gt; de Bloch assenta numa ontologia da possibilidade objectiva, que pode ser esquematicamente reduzida a três enunciados básicos: a realidade é matéria (1), a matéria é possibilidade (2), e a possibilidade está em devir, isto é, em processo (3). A história do homem não é compreendida em termos de evolução, de aperfeiçoamento progressivo e homogéneo da actual situação social, através de mudanças graduais e quantitativas, mas é lida em termos de revolução, de ruptura da ordem estabelecida, que deve ceder o seu lugar a uma ordem inteiramente nova. A realidade é possibilidade processual capaz de se autotranscender para a novidade. A noção de possibilidade de autotranscendência permite a Bloch criticar a perspectiva positivista, segundo a qual a realidade é um facto bruto dado uma vez por todas: a realidade é processo em devir aberto a um futuro novo pela acção de uma potencialidade latente na sua própria urdidura e, portanto, imanente ao próprio processo. A totalidade do real orienta-se na direcção de uma consumação plenificadora: o Novum Ultimum. O processo termina quando alcança esse Novum e começa a existir o Ser numa forma inédita de duração abrigada e protegida de toda a caducidade e de qualquer acidente letal. A história do mundo mais não é do que o laboratorium possibilis salutis. O princípio de identidade (A = A) é substituído por um novo princípio que leva em conta o papel do factor tempo na realidade: "A = ainda não é A", "S = ainda não é P". Isto significa que o sujeito ainda não realizou todas as determinações do predicado: os oprimidos ainda não foram libertos, "os bárbaros calculadores de tudo" (Hölderlin) ainda não foram assassinados, o homem ainda é um estranho para si próprio, a ciência como ideologia ainda continua a "devastar tudo" (Hölderlin), as desigualdades sociais ainda não foram suprimidas, a corrupção ainda não foi eliminada, a democracia ainda não foi realizada, a natureza ainda não se converteu em pátria (casa do Homem), enfim, o verdadeiro ainda não é predicado da realidade efectiva. A génese autêntica do real não está no começo, mas sim no fim, quando formos "nós mesmos o sétimo dia da criação" (dies septimus nos ipsi erimus). Com base nestes pressupostos, Bloch ergue a esperança como princípio do real: a esperança não é aqui um "afecto de expectação", mas sim a determinação fundamental da totalidade da realidade objectiva: a esperança como docta spes é o conhecimento criticamente antecipador que se encontra mediado e combinado com o processo objectivo, no seu movimento dialéctico em direcção à realização plena do seu conteúdo-meta. A esperança não está garantida e, por isso, o desenlace do processo histórico permanece em suspenso até ao final, podendo ser ameaçado por factores anti-utópicos capazes de o conduzir ao Pessimum do Nihil, à negação do ser e do sentido. A esperança garantida é característica da hipótese de um providencialismo religioso que apela ao aval mítico da divindade ou do materialismo mecanicista e determinista, incompatível com a liberdade do homem, o único ser responsável pelo futuro do processo-em-devir. Bloch aposta no Optimum do Totum e não no Pessimum do Nihil: o processo histórico acederá ao Summum Bonum, à pátria da identidade, na qual, após a derrogação de todas as caducidades que segrega para se auto-alimentar e abolidas todas as contradições próprias da actual situação de alienação, o homem será Deus e a realidade produzirá fielmente o arquétipo bíblico da Nova Jerusalém. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A &lt;strong&gt;ontologia do ainda-não-ser&lt;/strong&gt; é acompanhada por uma &lt;strong&gt;antropologia do homo absconditus&lt;/strong&gt; que assume a forma de uma cristologia. Dado não ser um processo determinista ou mecanicista, o processo de génese da realidade precisa de um agente e esse agente é o próprio homem que, graças à sua criatividade livre, conduz a realidade para a meta. A dialéctica sujeito/objecto opera no mundo feito pelo homem: a matéria em processo precisa de um agente do processo, "uma subjectividade que trabalha" e que "se esforça por romper a objectivação e a objectividade", de modo a animar as contradições que surgem na história e a colocar a negatividade ao serviço do possível triunfo do fim último, e este agente está, ele próprio, em processo, porque é um ser que nasce de um parto prematuro: o homem não nasce como ser definitivamente terminado e concluído, tanto ontogeneticamente como filogeneticamente, e, por isso, precisa desenvolver-se e fazer-se a si próprio durante quase toda a sua vida. O destino do homo absconditus revela-se em Jesus do Novo Testamento. Quando se auto-intitula "Filho do Homem", Jesus remete ao Adam Kadman da cabala judaica, isto é, ao Filho do Homem Celestial em contraposição ao Adão-argila do relato javista da Criação. Na expressão "Filho do Homem", está depositado o sonho humano de alcançar no futuro a homoousia, a consubstancialidade homem-Deus. Deus fez-se Homem significa que o Homem se fará Deus: os tesouros que foram atribuídos ao Pai Celeste hipostasiado serão devolvidos ao humanum. Ao recusar a Jesus a homoiousia (a semelhança) com Deus, atribuindo-lhe a homoousia (a consubstancialidade), o cristianismo reclamou para o homem uma prerrogativa revolucionária ainda não sonhada, o cumprimento da promessa da serpente do Paraíso: "Sereis como deuses". O Deus absconditus só é válido enquanto indicação do homo absconditus. L. Feuerbach enganou-se quando disse que o homem é Deus, porque, nas actuais circunstâncias de alienação, o homem ainda não é Deus: o homem será no futuro Deus. A ressurreição, a ascensão e o retorno parúsico de Jesus indicam essa revelação do humano que terá lugar no final do processo histórico, quando o Filho do Homem, vencida definitivamente a anti-utopia por excelência que é a morte, se entronizar num mundo tornado finalmente "o céu na Terra" e manifestar assim a sua condição de único e genuíno Ser Supremo. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;E. Bloch dedicou uma longa e profunda reflexão às imagens utópicas da esperança contra a morte, em especial as da imortalidade da alma, da metempsicose, da ressurreição dos corpos, da vida além-túmulo, enfim, da morte como viagem. Assim, por exemplo, o herói vermelho que lutou contra a injustiça e o fascismo sacrificou a sua vida sem a esperança de renascer. Em casos como este, a certeza da comunidade concreta de consciência de classe absorve a questão da sobrevivência individual e constitui um Novum contra a morte: a unidade do individual e do colectivo, isto é, a solidariedade, torna o homem corajoso face à morte. O sacrifício da vida do herói não foi "em vão": lutar contra a opressão e a corrupção é contribuir para a libertação do futuro. A luta por um mundo melhor constitui o início da tarefa de fazer conscientemente a história, rompendo com a pré-história marcada pelo pecado do egoísmo e pela corrupção dos opressores e dos ladrões de colarinho-branco. A filosofia da esperança de E. Bloch confronta-se com o problema da morte, cujas "mandíbulas pulverizam tudo". Bloch defende a perspectiva da "extraterritorialidade" do núcleo existencial frente à morte e à caducidade, expressando a utopia do non omnis confundar: a esperança firme de que o núcleo autêntico do humano ultrapasse a bruta facticidade da realidade na sua figura obscura presente e não se volatilize para sempre com a morte do seu sujeito, mantendo a confiança de que, no futuro, o Ser prevaleça sobre o Nada. Ou, nas palavras de Bloch: "Eu não soçobrarei inteiramente na confusão, isto é, a melhor parte do homem não desaparecerá. A melhor parte do homem, a sua essência definitivamente descoberta, é também o último e o melhor fruto da história". Na obscuridade do instante vivido, cada ser humano acede ao seu núcleo, que, além de ser algo muito próximo do nosso ser, constitui o fundamento fundador: o ser-existência é imediato e é o fundamento do devir, tanto da caducidade do mundo como do futuro. É este núcleo obscuro da existência que impulsiona o processo do devir para a frente e para diante e que supera todas as suas formas de existir. Sendo fundamento da caducidade, ele não pode estar sujeito à caducidade e à morte. Cronos devora os seus filhos, mas não pode devorar o seu filho autêntico, o definitivamente cumprido ou realizado, porque este ainda não iniciou o seu processo, ainda não é, e, por isso, não pode ser afectado pela morte. Possui em torno de si o "círculo protector do ainda-não-vivo": o núcleo existencial é "imortal", porque, como ainda não começou o seu processo de vir a ser, impulsiona o processo de devir. É extraterritorial em relação à caducidade e à morte, no sentido de ser remetido para um eschaton de realização plena. A morte encontra-se apenas no momento da cisão, no qual o ser ainda não se realizou a si mesmo. A meditação blochiana da morte baseia-se nos conceitos de imortalidade da alma e de transmigração das almas, não na sua forma platónica, mas na forma que assumiu nas filosofias de Lessing, Kant e Fichte: a distinção blochiana entre vida e morte como núcleo da existência e casca fenoménica (invólucro) retoma a distinção entre o Eu transcendental, que caminha infinitamente para si mesmo na reflexão, tornando-se imortal, e os fenómenos condenados à mortalidade, através da transformação do sujeito transcendental e da sua conversão num sujeito que se supera infinitamente a si mesmo na esperança. É neste sujeito da esperança que reside o "imortal da consciência revolucionária-solidária": "o imortal na pessoa enquanto é o imortal das suas melhores intenções e conteúdos". A "alma da futura humanidade" aparece antecipadamente na consciência revolucionária. O núcleo existencial conquista-se a si mesmo, negando a história e o seu abismo mortal e, ao mesmo tempo, projectando-se no ainda-não-existente. (&lt;strong&gt;CONTINUA&lt;/strong&gt; com o título "&lt;strong&gt;Morte e Sentido da Vida 3&lt;/strong&gt;". Publicado em &lt;em&gt;&lt;strong&gt;CyberCultura e Democrcia Online&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;: &lt;a href="http://cyberdemocracia.blogspot.com/2009/04/meditatio-mortis-e-sentido-da-vida-3.html"&gt;&lt;strong&gt;aqui&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt; e &lt;strong&gt;&lt;a href="http://cyberdemocracia.blogspot.com/2009/04/meditatio-mortis-e-sentido-da-vida-4.html"&gt;aqui&lt;/a&gt;&lt;/strong&gt;.) &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;J Francisco Saraiva de Sousa&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4759866844732089627-8776083912172603669?l=cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/feeds/8776083912172603669/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4759866844732089627&amp;postID=8776083912172603669&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/8776083912172603669'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/8776083912172603669'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/2009/07/morte-e-sentido-da-vida-2.html' title='Morte e Sentido da Vida (2)'/><author><name>J Francisco Saraiva de Sousa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14064808742564506644</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4759866844732089627.post-6885027150582426602</id><published>2009-06-14T14:01:00.000-07:00</published><updated>2009-06-14T14:14:21.368-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberPhilosophy'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Imaginação Política'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberMedicine e Filosofia Médica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crítica da Ideologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Antropologia Filosófica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='História'/><title type='text'>Morte e Sentido da Vida (1)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;«&lt;em&gt;Os sábios experimentados da ciência da morte sabem que os moribundos têm de ser mantidos despertos e em plena consciência dos sintomas do seu fim. Doutro modo, eles não poderiam reconhecer a Luz Fundamental na sua realidade. A vida dos poetas assemelha-se a esse estado de confrontação em que o espírito se equilibra como uma agulha sobre um delgado fio; movida pelo sopro dos desejos egoístas e a força do eu, a agulha cai e a vida é arrastada de novo para a sua roda de padecimentos. (...) A arte de morrer é a operação do poeta&lt;/em&gt;». (&lt;strong&gt;Agustina Bessa-Luís&lt;/strong&gt;) &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A &lt;em&gt;meditatio mortis&lt;/em&gt; tem sido entendida como a reflexão sobre a finitude radical da existência humana e, como tal, foi sempre uma das grandes constantes da actividade filosófica. Nas tanatologias contemporâneas, a morte não é abordada como uma questão marginal, mas como a questão fundamental da hermenêutica da condição humana. A experiência da morte coloca o homem perante um limite concreto: a finitude da própria existência humana. A liberdade e a iniciativa humanas são impotentes diante do significado fundamental da própria existência: não fomos interpelados para vir ao mundo e não podemos fazer nada para permanecer no mundo. Parece que o nada está na raiz da nossa própria existência e que, por isso, somos incapazes de realizar o seu sentido, contando apenas com as nossas forças e com as relações históricas. O homem enfrenta esta alternativa concreta: agarrar-se à existência que lhe escapa irremediavelmente, sem poder ser o fundamento do seu significado (1), ou reconhecer a existência como um dom que lhe foi doado por Deus e confiar nessa misteriosa realidade que está na origem da existência (2). B. Pascal e S. Kierkegaard optaram pela segunda via desta alternativa. Segundo Pascal, "o homem excede infinitamente o homem", no sentido de ter sido criado para a infinidade: todo o seu ser é polarizado para Deus, o Ser que preenche o vazio que o homem encontra em si e ao seu redor no mundo. Precisamos, como disse Bergson, "sentir alguém acima de nós para sermos verdadeiramente nós". Atormentado pela impotência da razão e pela sua incapacidade de apreender a vida, Kierkegaard entrega-se à busca da salvação na fé e no abandono a Deus. Dado ser incapaz de conhecer, o homem enquanto indivíduo deve resolver-se a crer. O pessimismo da razão termina na confiança religiosa. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Dado a morte ser uma questão fundamentalmente antropológica (M. Scheler, P. Landsberg, E. Morin, T. Dobzhansky, K. Jaspers, Ivan Illich, V. Jankélévitch, E. Levinas, H. Jonas, P. Ricoeur, M. Buber, F. Rosenzweig, J. Moltmann, E. Bloch, H. Marcuse, T. W. Adorno), todas as antropologias filosóficas são confrontadas com a problemática da morte (P. Ariès, E. Kübler-Ross): "Eu não só estou vivo, como também consciente de estar vivo. Além disso, sei que não ficarei vivo para sempre, que a morte é inevitável. Possuo os atributos da autoconsciência e da consciência da morte" (Theodosius Dobzhansky). A análise filosófica da morte confronta-se com dois preconceitos: o preconceito de que todos sabem o que é a morte, dispensando assim uma análise profunda da mesma (1), e o preconceito de que o problema da morte foi completamente explicitado pela afirmação da imortalidade pessoal depois da morte (2). A filosofia não pretende fornecer uma fórmula que revele a natureza da morte, mas apenas clarificar o seu sentido para um ser que precisa realizar-se com os outros num mundo partilhado. A morte revela-se como ameaça que paira permanentemente sobre a vida de cada ser humano. No entanto, a morte manifesta-se na sua verdadeira realidade de morte na experiência da morte alheia, mais precisamente na experiência da morte da pessoa amada (Santo Agostinho, A. Schaff, L. Brunschvicg, G. Marcel). Isto significa que não temos uma experiência directa da nossa própria morte e que não podemos obter um conhecimento concreto da morte mediante a assistência, neutra e impessoal, prestada às pessoas que morrem: a percepção da realidade da morte é determinada ou, pelo menos, mediada pela estrutura intersubjectiva da existência (A. Schutz). A distinção conceptual que Jankélévitch faz entre a morte na terceira pessoa (morte anónima), a morte na segunda pessoa (morte dos entes queridos na relação dialógica eu/tu) e a morte na primeira pessoa (morte própria) é fundamental para a compreensão da dimensão intersubjectiva da morte e da finitude da existência. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A filosofia contemporânea analisou, com maior ou menor profundidade, todas as dimensões da morte, articulando e ligando o problema da morte às perguntas do sentido da vida (1), do sentido da história (2), da validade dos imperativos éticos absolutos (3), da dialéctica presente-futuro (4), da possibilidade da esperança (5), e da delimitação do sujeito e da pessoa humana (6). &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;1. A pergunta sobre a morte é a pergunta sobre o sentido da vida&lt;/strong&gt;. A problemática filosófica contemporânea da morte gira em torno das análises da morte feitas por Heidegger, as quais procuraram estabelecer a autenticidade da existência humana e descobrir o acesso ao Ser, sem levar em conta o problema da imortalidade pessoal depois da morte (Scheler). Para Heidegger, a morte não é um facto puramente extrínseco que advenha a uma existência já realizada e cumprida: a inevitabilidade da morte inscreve-se desde o princípio na estrutura ontológica da existência. Todos os seres humanos nascem, vivem e morrem. Isto significa que a existência humana pode ser definida essencialmente como &lt;em&gt;Sein-zum-Tode&lt;/em&gt;, ser-para-a-morte. Sendo ser-para-a-morte no duplo sentido, biológico e ontológico, a vida do homem terá sentido na medida em que tenha sentido a sua morte, e, inversamente, uma morte sem sentido degrada retrospectivamente a vida com a sua insensatez. A pergunta pelo sentido da vida exige o esclarecimento do sentido da morte. Para Heidegger, a morte integra-se na vida, constituindo o seu ponto final. Sartre viu no esforço de Heidegger uma tentativa para humanizar a morte, atenuando o seu carácter irracional e absurdo: a morte não confere sentido à vida, mas corta-lhe brutalmente um futuro que teria dado ao passado e ao presente a sua significação. A morte é, para Sartre, despojamento total que se impõe ao homem como facto puro ou acidente banal: "é absurdo termos nascido, é absurdo morrermos", porque a morte é não só o termo do nosso destino, mas também o aniquilamento de todas as nossas possibilidades. O carácter absurdo da morte fatal foi particularmente explicitado por A. Camus: o absurdo é entendido como uma relação entre o homem e o mundo, isto é, como um confronto entre o apelo humano e a opacidade do cosmos, ao qual a morte fatal imprime um cunho definitivo. Consciente do seu envelhecimento irremediável, o homem revoltado sabe que o tempo escapa ao seu controle: o horário da existência conduz inexoravelmente à noite do túmulo. A condição humana é uma aventura absurda, porque a morte faz da vida um fracasso e uma mentira. A prática filosófica de Thomas Nagel recapitula, numa linguagem sucinta e pretensamente analítica, as posições do existencialismo ateu francês: "Pensar na minha morte como um acontecimento no mundo é fácil; difícil é pensar no fim do meu mundo". A contingência do nosso nascimento e a inevitabilidade da nossa morte podem ser compreendidas do ponto de vista objectivo, mas dificilmente são apreendidas internamente, porque a morte aniquila o nosso mundo, as nossas experiências, os nossos pensamentos e as nossas possibilidades: a morte é, do ponto de vista subjectivo, um absurdo que contamina a própria vida. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Para Heidegger, a existência é fundamentalmente preocupação e angústia da morte. Esta angústia fundamental é distinta do medo sentido diante de algum perigo localizável: a angústia refere-se aqui ao possível ocaso do meu ser e, portanto, à perda total da minha existência. A angústia é o horror do nada, que, a qualquer momento, irrompe na existência humana. Nem todos os homens enfrentam friamente a irreversível necessidade da morte. A maioria procura fugir à angústia, entregando-se a todos os tipos de distracções, de modo a fazer da morte um mero facto quotidiano e neutro. A banalização da morte levada a cabo por esta atitude impessoal constitui um expediente para impedir o pensamento da morte como dimensão da existência autêntica. A morte não é, de forma alguma, o cumprimento ou a culminação da maturidade da existência, mas o ser no seu fim radical. Embora seja a suprema possibilidade do homem, a morte é a impossibilidade de todas as possibilidades humanas. A autenticidade exige a confrontação fria com a necessidade da morte, mediante a qual o homem participa da verdade e se converte em homem livre e autêntico. Ninguém pode morrer no lugar ou em vez do outro: cada um de nós morre por conta própria submerso numa solidão profunda e completa. Encarar de frente e de modo vertical (H. Plessner) esta possibilidade permanente constitui o único caminho aberto ao mortal para atingir a autenticidade. Heidegger não vê a vida como algo absurdo e recusa o suicídio: o homem deve aguardar e esperar a morte, antecipando mentalmente a morte inevitável e compreendendo à sua luz as possibilidades de momento. Este "esperar" (&lt;em&gt;erwarten&lt;/em&gt;) significa "ausência de esperança", o contrário do princípio esperança de Ernst Bloch: os projectos e as possibilidades do homem estão revestidos por um véu de nulidade e de vanidade. O próprio homem é nada e vanidade que confronta lucidamente durante toda a sua vida o nada da morte, e o mundo que habita não é o seu verdadeiro lar. Vivendo num mundo inóspito, o homem mais não é do que ser-no-mundo e ser-para-a-morte, cuja liberdade é liberdade para a morte (&lt;em&gt;Freiheit-zum-Tode&lt;/em&gt;). &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Na peugada de Heidegger, K. Rahner (teólogo) pensa que a vida, dado alcançar o seu fim com a morte, atinge com ela a sua totalidade. A vida do homem alcança a sua totalidade na morte. Porém, para compreender este pressuposto, é necessário distinguir entre a morte natural, que nada tem a ver com o pecado, e a morte da fuga ou do juízo, pela qual a morte natural se converte em separação de Deus. A vida só alcança a sua totalidade na morte quando esta ocorre no modo de abertura a Deus, como no morrer de Jesus. Caso contrário, a morte advém como afastamento de Deus, sob o signo do pecado. A abertura a Deus permite conduzir a vida à sua totalidade, a qual não se rompe com a morte pelo facto da fé cristã esperar pela ressurreição, isto é, pela vitória sobre o "último inimigo" (S. Paulo). Com esta concepção teológica da morte, Rahner evitou encará-la como uma sequela do pecado universal: S. Paulo via na morte e no seu domínio sobre a vida o índice decisivo da difusão universal do pecado, obrigando a teologia posterior a encarar a finitude da vida como pecado. O recurso a Heidegger possibilitou à teologia moderna evitar esse escolho (P. Tillich, G. Schumack, L. Boros, E. Jünger, H. Küng). &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;«&lt;em&gt;D'une certaine manière pourtant, il n'est peut-être pas défendu de parler de l' "a priori" létal: le mortel, bien avant d'être moribond, est moriturus, c'est-à-dire destiné à mourir; dès l'instant de sa naissance, le vivant est tel qu'il doit mourir; dès l'origine, sa constitution et le rytheme même de son existence, la succession des âges de la vie et les grandes transformations&lt;/em&gt; &lt;em&gt;biologiques de l'organisme sont accordés sur la durée limitée impartie à l'espèce humaine&lt;/em&gt;». (&lt;strong&gt;Jankélévitch&lt;/strong&gt;) &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;2. A pergunta sobre a morte é a pergunta sobre o sentido da história&lt;/strong&gt;. Ao colocar a morte no território exclusivo dos assuntos que dizem respeito aos indivíduos, a tanatologia do marxismo ortodoxo (G. Lukács, M. Verret, G. Mury, G. Martelet, R. Garaudy, A. Schaff) considera que a pergunta sobre a morte é filosoficamente irrelevante, no sentido da morte inevitável não comprometer o próprio sentido da existência humana e da missão histórico-social do homem no mundo. O marxismo é, nas palavras de Merleau-Ponty, "o único humanismo que ousa desenvolver as suas consequências": "O marxismo é, no essencial, essa ideia de que a história tem um sentido, isto é, que a história é inteligível e é orientada, que vai em direcção ao poder do proletariado que é capaz, como factor essencial da produção, de ultrapassar as contradições do capitalismo e de organizar a apropriação humana da natureza, como classe universal, de ultrapassar os antagonismos sociais e nacionais e o conflito do homem com o homem. Ser marxista é pensar que as questões económicas e as questões culturais ou humanas são uma só questão e que o proletariado, tal como a história o fez, detém a solução desse único problema. Para falar uma linguagem moderna, é pensar que a história é uma &lt;em&gt;Gestalt&lt;/em&gt;, no sentido que os autores alemães dão a essa palavra, um processo total em movimento para um estado de equilíbrio, a sociedade sem classes, que não pode ser atingida sem esforço e sem a acção dos homens, mas que se manifesta no seio das crises presentes como solução dessas crises, como poder do homem sobre a natureza e reconciliação do homem com o homem" (Merleau-Ponty). Ora, dado a história ser essencialmente luta, luta pelo reconhecimento (Hegel) e luta de classes (Marx), a revolução do humanismo socialista (E. Fromm) protagonizada pelas classes humilhadas e ofendidas "assume e dirige uma violência que a sociedade burguesa tolera no desemprego e na guerra e disfarça sob o nome de fatalidade". As revoluções não derramam mais sangue do que os impérios e a exploração hipercapitalista e, por isso, entre as diversas violências, a violência revolucionária deve ser preferida pelo facto de ser o futuro do humanismo realizado: ao contrário da violência retrógrada, a violência revolucionária tem um sentido, aquele que se supera no futuro humano. No horizonte mais vasto do sentido da história e da luta pela reconciliação universal do homem com o homem e do homem com a natureza, a morte, apesar da sua dureza psicológica, não constitui um problema humano, como defendem as "filosofias burguesas" da existência (G. Lukács, A. Heller, K. Kosic, A. Schaff, G. Petrovic, M. Markovic, S. Stojanovic): a problematicidade da morte é superada na e pela luta a favor da construção de uma sociedade mais justa, uma sociedade que ultrapasse as condições sociais que tornam, nas actuais circunstâncias de alienação e de exploração hipercapitalista, a morte problemática para os mortais (M. Verret). &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Para F. Engels, a morte do indivíduo é índice da mortalidade da espécie, isto é, a mortalidade microscópica é um reflexo localizado de uma mortalidade macroscópica que constitui a atmosfera em que se movem e respiram todos os seres vivos. A morte individual deve ser situada no horizonte da "morte total". A filosofia de Marx move-se no horizonte da finitude radical do ser humano e do próprio cosmos. A perspectiva de Engels encontra eco nos Manuscritos de 1844 do Jovem-Marx: "A morte parece ser uma dura vitória do género sobre o indivíduo e contradizer a unidade de ambos; mas o indivíduo determinado é apenas um ser genérico determinado e, enquanto tal, mortal". A recusa de toda a transcendência religiosa implica necessariamente uma interpretação da morte: a problematicidade pessoal da morte está ligada ao actual estado de alienação, mas, quando esse estado da sociedade for substancialmente alterado, a morte perderá o seu sentido negativo. Numa sociedade reconciliada, os indivíduos poderão morrer em paz depois de terem vivido e desfrutado de todas as possibilidades de uma existência humana profunda e sem alienações, incluindo a crença na imortalidade da alma ou da pessoa. O marxismo minimiza, de algum modo, a morte. Ao nível biológico, a morte é vista como um facto fisiológico incontornável: depois de terem cumprido as suas funções e missões, os indivíduos mais velhos e mais gastos devem ser substituídos por novos seres dotados de energia e de dinamismo. E, ao nível humano, dado o homem ser o "conjunto das relações sociais" (Marx), a morte individual deixa de ser morte alienada quando se morre a lutar contra toda a alienação social e económica (morte heróica versus morte trágica), sem alimentar a esperança no paraíso ou na imortalidade pessoal. Lutar por um futuro melhor é a tarefa prioritária do homem (G. Mury). &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Garaudy destacou o valor educativo da morte: dado burlar toda a propriedade privada, todos os bens e todas as desigualdades sociais, nivelando todos os mortais, e mostrar a insuficiência do amor em circuito fechado entre dois seres humanos, a morte ensina-nos, respectivamente, que a verdadeira dimensão do homem não reside no ter, possuir e consumir vorazmente, mas sim no ser (1), e que devemos ser receptivos à fraternidade universal (2), a única que sobrevive à morte do indivíduo. O homem deve perpetuar-se na humanidade futura, contribuindo para a realização de uma sociedade liberta da opressão e da miséria, onde cada indivíduo possa ser verdadeiramente homem. Somente realizando "feitos imortais" no sentido da construção de uma sociedade livre e justa pode o homem naturalmente mortal atingir o seu próprio tipo de imortalidade. Entre Marx e Heidegger, H. Arendt opta claramente pela perspectiva do primeiro quando afirma que a questão política fundamental não é a mortalidade, mas sim a natalidade, exorcizando, ao mesmo tempo, a relevância da vida como valor supremo. Em virtude da acção estar intimamente relacionada com a condição humana da natalidade, a categoria central do pensamento político, em contraposição ao pensamento metafísico, é a da natalidade e não a de mortalidade: "o novo começo inerente a cada nascimento pode fazer-se sentir no mundo somente porque o recém-chegado possui a capacidade de iniciar algo novo, isto é, de agir" (Arendt). Na sua meditação sobre a dimensão pessoal do homem doente e moribundo, J. Moltmann (teólogo) conclui que a vida e a mera sobrevivência, a saúde e a capacidade funcional, não constituem o sentido da vida: a mera vida biológica deve estar ao serviço da humanidade do homem e a saúde, ao serviço do sentido. A medicina não deve, na sua luta contra a doença e a morte prematura, reprimir os sofrimentos e os padecimentos humanos, a arte de morrer e a aflição humana: o sentido da humanidade do homem só pode ser descoberto numa existência vivida plenamente com todos estes padecimentos. O sofrimento e a punição ajudam o homem a crescer de modo saudável e responsável: a própria ideia de uma existência não-repressiva exige a erotização de toda a personalidade e a libertação das sexualidades polimórficas, mas não a abolição dos padecimentos e das aflições humanas. A libertação irrestrita dos instintos reproduz a estrutura repressiva da sociedade estabelecida, sem conduzir a uma existência autêntica; pelo contrário, conduz, como podemos verificar diariamente, "a uma sociedade de maníacos sexuais" (Marcuse) e de agressividade destrutiva. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;No entanto, Marx e Engels podem ser lidos à luz de outra chave hermenêutica: Se a finitude do homem singular reflecte e antecipa a finitude do humano, isto é, da humanidade e do mundo humanizado pelo homem, a tarefa de humanizar a natureza e de naturalizar o homem como meta da história e sentido da vida activa humana (Marx) torna-se questionável, sendo constantemente confrontada com a angústia da aproximação do fim (Marcuse): o triunfo da matéria opaca e viscosa sobre a racionalidade dialéctica, mediante a absorção dos restos mortais humanos e a sua incorporação na cadeia trófica. A aventura humana parece estar irremediavelmente condenada ao fracasso: o logos é sempre vencido pela força da matéria. H. Marcuse reconheceu claramente a "morte natural" ou a "necessidade suprema" como emblema da existência humana: a mortalidade inevitável dos homens reside, como viu H. Arendt, no facto da vida individual, dotada de uma história vital identificável desde o nascimento até à morte, provir da vida biológica. O curso rectílineo do movimento da vida individual intercepta o movimento circular da vida biológica: a mortalidade é, portanto, "mover-se ao longo de uma linha recta num universo em que tudo o que se move o faz num sentido cíclico" (Arendt). Na luta entre Eros e o instinto de morte (metapsicologia freudiana), o fluxo do tempo é, segundo Marcuse, o maior aliado natural da sociedade repressiva na manutenção da Lei e da Ordem: "O facto brutal da morte nega completamente a realidade de uma existência não-repressiva" e, neste aspecto, "a morte é a negatividade final do tempo". A previsão do "fim inevitável", presente a cada instante da vida individual, introduz um elemento repressivo nas relações libidinais, tornando o próprio prazer doloroso e forçando o homem à prática metódica da resignação. Esta frustração primária na estrutura instintiva do homem alimenta todas as outras frustrações e, na sua efectividade social repressiva, relega a liberdade para os domínios de uma "perpétua utopia": "o fluxo do tempo ajuda os homens a esquecer o que foi e o que pode ser", isto é, "fá-los esquecer o melhor passado e o melhor futuro". &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Como disse Adorno numa carta dirigida a Walter Benjamin: a reificação é esquecimento. Valendo-se de Hegel, Nietzsche e Marx, Marcuse explicita a concepção adorniana da reificação, encarando a capacidade de esquecer como a faculdade mental que sustenta a submissão e a renúncia e que, ao mesmo tempo, perdoa o que não deveria ser perdoado numa situação de prevalecimento da justiça e da liberdade, sarando e cicatrizando as feridas que contêm e reproduzem o veneno, sem no entanto derrotar as forças que as causam. Para Marcuse, bem como para Benjamin, somente a recordação investida nos seus direitos pode ser o "veículo da libertação". Como tarefa nobre do pensamento, a memória deve ser liberta dos deveres, da má-consciência, da culpa e do pecado, convertendo-se em recordação do seu conteúdo reprimido: a recuperação do temps perdu (Proust), o tempo da gratificação e da plena realização, da felicidade e da liberdade. Deste modo, Eros penetra na consciência e, movido pela recordação, "protesta contra a ordem da renúncia", derrotando "o tempo num mundo dominado pelo tempo". O temps retrouvé resgata a alegria passada e propicia a sua duração: "O tempo perde o seu poder quando a recordação redime o passado". Porém, esta derrota artística do tempo deve ser traduzida em acção histórica: a luta contra o tempo deve ser luta contra a dominação e a corrupção. A aliança entre o tempo e a ordem estabelecida deve ser dissolvida, de modo a impossibilitar que a infelicidade social organizada se apoie sobre a infelicidade privada natural e que a morte seja usada como um instrumento de repressão. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;De acordo com Marcuse, a hipótese do instinto de morte possibilita lutar pela "preservação do tempo no tempo", isto é, paralisar o tempo e conquistar a morte. O recurso a esta hipótese para resolver, no plano da acção histórica, o problema da morte dolorosa é, de certo modo, paradoxal. O organismo desenvolve-se sob a acção de dois instintos básicos: os instintos de vida que tendem para a criação e a composição da substância da vida em unidades cada vez maiores, e o instinto de morte que luta pela regressão ao estado isento de necessidades e de dor anterior ao nascimento, impelindo para a destruição da vida e para o regresso à matéria inorgânica. Dotado de uma estrutural pulsional antagónica, o organismo encontra-se num ambiente hostil à satisfação imediata dos impulsos da vida: a luta de Eros pela vida sob o princípio do prazer é constantemente frustrada pelo mundo ambiente que procura modificar os instintos, desviando-os das suas finalidades originais. Os instintos de vida são subjugados pelos instintos de morte e a satisfação é recalcada, adiada e substituída. Às três forças básicas da dinâmica psíquica (Eros, instinto de morte e mundo exterior) correspondem os três princípios fundamentais que determinam, segundo Freud, a estrutura psíquica: o princípio do prazer, o princípio do Nirvana e o princípio da realidade. O princípio do prazer exige a satisfação ilimitada dos impulsos de vida, o princípio do Nirvana impele para a regressão ao estado indolor pré-natal e o princípio da realidade refere-se à totalidade das modificações dos instintos logradas pelo mundo exterior. Por detrás desta tríade, opera a luta entre Eros e Tanatos, os quais partilham uma natureza conservadora comum que define a própria vida. Operando segundo o princípio do Nirvana, o instinto da morte tende para um estado de gratificação constante, isto é, para um estado sem carências e sem tensões e, neste sentido, aproxima-se de Eros: ambos anseiam pela neutralização e pela eternização do prazer, resistindo contra a perda de equilíbrio e o aparecimento de tensões. A tendência do impulso de morte para a ausência de tensão implica, segundo Marcuse, a redução gradual das suas manifestações destrutivas. À medida que o impulso de morte se aproxima desse estado, o conflito entre a vida e a morte torna-se cada vez mais reduzido, até que a vida se aproxima do estado de gratificação. A convergência do princípio do prazer e do princípio do Nirvana alcançada nesse estado de gratificação reforça Eros, libertando-o da sobre-repressão e levando-o a absorver o objectivo destrutivo de Tanatos. O retrocesso do sofrimento e da carência permite reconciliar o princípio do Nirvana e o princípio da realidade: os instintos procuram e alcançam a sua realização numa ordem não-repressiva, na qual a regressão ao estado indolor pré-natal pode ser neutralizada pela desejabilidade do estado de vida atingido e os instintos podem repousar num "presente realizado na sua plenitude". Apesar de continuar a ser um "facto" ou uma "necessidade suprema", a morte deixará de ser, na nova ordem não-repressiva (novo princípio de realidade), uma finalidade dos instintos. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Deste modo, embora de modo não tão radical quanto E. Bloch, Marcuse distancia-se claramente das teologias e das filosofias que celebram a morte como uma categoria existencial. A conversão perversa de um "facto biológico" numa essência ontológica é denunciada como uma traição da promessa de utopia e, portanto, como uma capitulação do pensamento filosófico diante da culpa da humanidade. Fiel à teoria de Marx, a filosofia negativa de Marcuse reage ao facto da morte com a Grande Recusa: a recusa de Orfeu, o libertador. Em vez de ser um instrumento de repressão, a morte pode tornar-se um "símbolo de liberdade", no sentido da "necessidade de morte" não refutar a "possibilidade de libertação final". A distinção entre "sucumbir à doença" e "morrer de uma morte natural depois de uma vida plenamente realizada" permite a Marcuse usar o morrer em agonia e dor como arma política da luta pela libertação da opressão, da corrupção e da exploração: "Não os que morrem, mas os que morrem antes de querer e dever morrer, os que morrem em agonia e dor, são a grande acusação lavrada contra a civilização repressiva". Tal como a usa Marcuse, a noção de morte natural não refere uma morte que sobrevém em seres humanos medicamente vigiados, sãos e de idade avançada, a morte medicalizada e hospitalar, cuja história é a história da medicalização da luta contra a morte. Marcuse sabe que o "acordo profissional" a propósito da morte e da doença é expressão do instinto de morte e da sua utilidade social numa ordem repressiva: a morte clínica é, nesta sociedade promotora da abdicação e da submissão, manifestação da profunda ligação entre o instinto de morte e o sentimento de culpa. A sociedade estabelecida e os seus poderes vigentes têm profundas afinidades com a morte: a noção de morte como "símbolo de escravidão e de derrota" reconduz, de certo modo, ao carácter necrófilo, tal como foi tematizado por E. Fromm. No sentido caracteriológico, a necrofilia é usada para descrever "a apaixonante atracção por tudo o que é morto, pútrido, doentio, a paixão de transformar o que é vivo em algo sem vida e de destruir pelo prazer de destruir, o interesse exclusivo em tudo o que seja puramente mecânico, enfim a paixão de despedaçar estruturas vivas". O tráfico de cadáveres, de órgãos e de seres humanos, bem como a "doação involuntária" dos corpos e dos órgãos e a estetização da morte, é a manifestação mais visível da sociedade necrófila, a qual prolonga criminosamente a vida dos ricos à custa do assassinato planeado dos pobres e da apropriação ilícita dos seus cadáveres. Em Marcuse, a morte natural é sinónimo de suicídio (não-depressivo) e de eutanásia. Tal como as outras necessidades, a morte pode tornar-se racional e indolor: "Os homens podem morrer sem angústia se souberem que o que eles amam está protegido contra a miséria e o esquecimento. Após uma vida bem cumprida, podem chamar a si a incumbência da morte, num momento da sua própria escolha". Marcuse é muito menos radical do que Benjamin e Bloch, os quais pretendem resgatar e redimir todos os sofrimentos passados: o advento do reino da liberdade não redime aqueles que morreram em dor. A sua recordação e a culpa acumulada devem levar-nos a lutar contra a actual opressão e corrupção. (&lt;strong&gt;CONTINUA&lt;/strong&gt; com o título "&lt;strong&gt;Morte e Sentido da Vida 2&lt;/strong&gt;". Foi publicado &lt;strong&gt;&lt;a href="http://cyberdemocracia.blogspot.com/2009/03/meditatio-mortis-e-sentido-da-vida.html"&gt;aqui&lt;/a&gt;&lt;/strong&gt;.) &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;J Francisco Saraiva de Sousa&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4759866844732089627-6885027150582426602?l=cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/feeds/6885027150582426602/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4759866844732089627&amp;postID=6885027150582426602&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/6885027150582426602'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/6885027150582426602'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/2009/06/morte-e-sentido-da-vida-1.html' title='Morte e Sentido da Vida (1)'/><author><name>J Francisco Saraiva de Sousa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14064808742564506644</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4759866844732089627.post-7524886579267554558</id><published>2009-05-20T07:42:00.001-07:00</published><updated>2009-05-20T07:59:50.690-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Filosofia da Técnica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberPhilosophy'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Epistemologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crítica da Ideologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='História'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cyberphilosophy e Matemática'/><title type='text'>Génese e Estrutura da Ciência Moderna (2)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;strong&gt;Terceira Secção&lt;/strong&gt;. «&lt;em&gt;Os leitores de novelas sherlockianas sabem como as pistas falsas perturbam a história e atrasam a solução. O método de raciocinar ditado pela intuição era uma pista errada que levou a ideias falsas sobre o movimento, as quais perduraram por séculos. A grande autoridade de Aristóteles foi talvez a causa principal da longa fé no intuito. Na Mecânica, que há dois mil anos é atribuída a esse filósofo, lemos o seguinte: O corpo em movimento estaciona quando a força que o impele cessa de agir&lt;/em&gt;». (&lt;strong&gt;Albert Einstein&lt;/strong&gt;)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;3. Desenvolvimento da Física Clássica&lt;/strong&gt;. De acordo com A. Koyré, podemos distinguir, na história do pensamento científico da Idade Média e do Renascimento, três épocas de desenvolvimento científico que correspondem a três tipos diferentes de pensamento científico: a física aristotélica, a física do &lt;em&gt;impetus&lt;/em&gt;, extraída do pensamento grego e elaborada no decurso do século XIV pelos nominalistas parisienses, e, finalmente, a física moderna, a de Arquimedes e de Galileu. Estas etapas encontram-se no próprio desenvolvimento do pensamento científico de Galileu, a quem se deve uma exposição deveras interessante da teoria do &lt;em&gt;impetus&lt;/em&gt;. A passagem da física aristotélica e da física do &lt;em&gt;impetus&lt;/em&gt; à física matemática de Galileu deve-se fundamentalmente à recepção e à compreensão gradual da obra de Arquimedes e do seu mestre Platão. As duas primeiras teorias pensam em termos de experiência quotidiana, enquanto a teoria de Galileu pensa em termos estritamente matemáticos: o seu livro da natureza está escrito em linguagem matemática.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;3.1. A Física de Aristóteles&lt;/strong&gt;. A física aristotélica é uma ciência teoricamente elaborada que, partindo naturalmente dos dados do senso comum, os submete a uma tratamento teórico extremamente coerente e sistemático. Para Aristóteles (384-322 a.C.), o fundamento da verdadeira ciência do mundo físico reside na percepção e não na especulação matemática, na experiência e não no raciocínio geométrico &lt;em&gt;a priori&lt;/em&gt;. A sua ciência que foi a ciência medieval articula intimamente uma metafísica finalista e a experiência normal do senso comum, dois traços que serão rejeitados por Galileu, Descartes e Newton. Quando atribuiu à autoridade de Aristóteles o atraso da "solução" do problema do movimento, Einstein esquece, talvez por ignorância e por preconceito positivista, que a física aristotélica, além de ser uma ciência coerente e corroborada pelos dados da experiência comum, exibe semelhanças com a sua teoria geral da relatividade: o movimento circular dos astros aristotélicos parece estar particularmente difundido no mundo, tanto ao nível macroscópico (galáxias e nebulosas) como ao nível microscópico (átomos e electrões). Einstein mostrou que uma curvatura local do espaço pode produzir movimentos deste género, e o seu universo, tal como o cosmos de Aristóteles, não é infinito, mas finito, embora tenha limites (noção estranha a Aristóteles). Não existe rigorosamente nada fora do universo einsteiniano, pela simples razão de todo o espaço estar dentro e não fora do universo: o tempo e o espaço estão no universo e, não como pensava Newton, o universo contido neles. Sem os recursos da geometria riemaniana, Aristóteles já sabia que fora do mundo não existe nada, nem pleno, nem vácuo (princípio da plenitude do universo ou &lt;em&gt;horror vacui&lt;/em&gt;), e que todos os lugares estão no interior do mundo. A diferença substancial entre Aristóteles e Einstein reside no facto da concepção do primeiro ser metafísica e da concepção do segundo ser matemática: o mundo finito de Aristóteles não é geometricamente curvado, como o de Einstein, mas é metafisicamente curvado. (&lt;strong&gt;Observação&lt;/strong&gt;: A relatividade especial mostrou que as distâncias e os intervalos de tempo dependem da velocidade e que a massa é equivalente à energia, enquanto a relatividade geral mostra que a massa determina a geometria do espaço circundante: Einstein rejeita, portanto, a tese de Leibniz de que o espaço é fisicamente vazio; o espaço é um campo físico, embora não seja o campo euclidiano indicado por Newton na sua experiência do balde.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Para Aristóteles, a ciência começa quando se procura explicar as coisas que parecem naturais, tais como "um corpo pesado cair para baixo" ou "a chama de um fósforo dirigir-se para cima". O seu objectivo é traduzir ou exprimir na sua linguagem elaborada estes dados do senso comum, ao mesmo tempo que os «transfigura». A distinção aristotélica entre movimentos naturais e movimentos violentos enquadra-se numa concepção de conjunto da realidade física, cujos traços principais são: a crença na existência de naturezas qualitativamente definidas (1), e a crença na existência de um Cosmos (2), mais precisamente a crença na existência de princípios de ordem em virtude dos quais o conjunto dos seres reais constitui um todo hierarquicamente ordenado e harmónico. Este último conceito implica que, no universo, as coisas estão distribuídas e dispostas numa determinada ordem, e que a sua localização não é indiferente, nem para elas, nem para o universo. Pelo contrário, cada coisa tem, segundo a sua própria natureza, um lugar determinado no universo, ou melhor, o seu lugar próprio. O conceito de lugar natural exprime, na física aristotélica, uma exigência teórica: um lugar para cada coisa e cada coisa no seu lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O conceito de lugar natural baseia-se numa concepção puramente estática da ordem, na medida em que, se cada coisa estivesse em ordem, estaria no seu lugar natural e aqui permaneceria para sempre. Isto significa que cada coisa resiste naturalmente a todo o esforço para a afastar do seu lugar natural. Para a expulsar desse lugar, é preciso «imprimir-lhe» algum tipo de violência, capaz de colocar um corpo fora do seu lugar, mas, após ter sido afastado do seu lugar, o corpo procura voltar a ele. O movimento implica alguma espécie de desordem cósmica, uma perturbação no equilíbrio do universo, porque é ou o efeito directo da violência ou, pelo contrário, o efeito do esforço do ser no sentido de compensar essa violência, para recuperar a ordem e o equilíbrio perturbados, isto é, para recolocar as coisas nos seus lugares naturais, onde devem ficar e permanecer. O movimento natural mais não é do que o retorno à ordem. Perturbar o equilíbrio, voltar à ordem: eis uma concepção estática e ordenada do cosmos que dispensa uma explicação do estado de repouso. A própria natureza ontológica do cosmos explica o facto da Terra estar em repouso no centro do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O conceito de uma ordem estática implica a ideia de que o movimento é necessariamente um estado transitório: um movimento natural cessa naturalmente quando o corpo atinge o seu objectivo. Porém, afirmar que o movimento cessa quando o corpo alcança o seu objectivo é o mesmo que dizer que o movimento não pode ser definido como estado, até mesmo como estado transitório, porque todos os corpos do universo tendem para a ordem cósmica. Para Aristóteles, o movimento é um processo de mudança, em oposição ao repouso, o qual, sendo o objectivo e o fim do movimento, deve ser considerado como um estado. Todo o movimento é mudança (actualização ou corrupção) e, por conseguinte, um corpo em movimento não só muda em relação a outros corpos (1), como também, ao mesmo tempo, está ele próprio submetido a um processo de mudança. O movimento afecta sempre o corpo que se move e, se o corpo for dotado de dois ou mais movimentos, estes perturbam-se mutuamente, entravam-se uns aos outros e, por vezes, podem ser incompatíveis. Considerado como um processo de mudança, um vir-a-ser, o movimento não pode prolongar-se espontânea e automaticamente. Para persistir, o movimento exige a acção contínua de um motor ou de uma causa e, quando esta causa cessa de exercer o seu efeito, o movimento do corpo também cessa. &lt;em&gt;Cessante causa cessat effectus&lt;/em&gt;. O tipo de movimento postulado pelo princípio de inércia é totalmente inadmissível na física aristotélica. Aristóteles não admite a acção à distância: cada transmissão de movimento implica um contacto. Só existem dois tipos de transmissão: a pressão e a tracção. Para fazer com que um corpo se mova, é preciso empurrá-lo ou puxá-lo. Não existem outros meios para pôr um corpo em movimento. Quando uma destas acções cessa, o corpo regressa ao seu lugar natural e permanece em repouso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A dinâmica aristotélica nega o vazio e o movimento no vazio, porque, na sua perspectiva, o vazio não só não favorece o movimento como também o torna impossível. Esta dupla-rejeição reflecte a antiga concepção grega da plenitude do universo, geralmente referida como &lt;em&gt;horror vacui&lt;/em&gt; ou aversão da natureza pelo vácuo: a natureza age sempre de maneira a evitar a formação do vácuo. A teoria aristotélica do movimento está ligada intimamente ao conceito de um espaço finito e completamente ocupado: o seu cosmos é auto-suficiente e autocontido, não deixando nada fora dele. Como vimos, quando um corpo é deslocado do seu lugar por uma força externa, ele tende a regressar ao seu lugar natural e este movimento efectua-se pelo caminho mais curto e mais rápido, portanto, em linha recta. Se o meio no qual o corpo se move não opusesse qualquer resistência ao seu movimento, tal como se passaria no vácuo, então o corpo dirigir-se-ia para o seu lugar com uma velocidade infinita. Ora, segundo Aristóteles, este movimento instantâneo no vazio é absolutamente impossível. E, no caso do lançamento, o movimento no vazio equivale a um movimento sem motor e, como o vazio não é um meio, não pode receber, isto é, transmitir e conservar o movimento, mais outra impossibilidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Um universo infinito não pode coexistir com o universo finito de Aristóteles, por duas ordens de razões fundamentais. Em primeiro lugar, um espaço infinito não tem centro: cada ponto está a igual distância de todos os outros pontos da periferia. Ora, se não existir centro, não só não há um lugar escolhido no qual o elemento pesado terra possa ser agregado, como também não há o intrínseco "para cima" e "para baixo" a fim de determinar o movimento natural de um elemento (terra, água, ar e fogo) ao regressar ao seu lugar próprio. Isto equivale a dizer que, num universo infinito, não existem lugares naturais, porque cada lugar é igual a qualquer outro. Aristóteles liga os conceitos de espaço finito e completamente ocupado, de modo a mostrar que a noção de vazio é incompatível com a ideia de uma ordem cósmica. As interacções da matéria e do espaço determinam o movimento e o repouso dos corpos. Com efeito, no vácuo não há lugares naturais ou mesmo quaisquer lugares: o vazio não é nada e situar qualquer coisa nesse nada é absurdo. Em segundo lugar, a noção de espaço infinito não só elimina a noção de centro, como também retira o homem e a Terra do centro do universo: ela é incompatível com o «facto» de toda a terra, água, ar e fogo estarem agregados num único ponto, nos seus respectivos lugares naturais. (O éter, um sólido cristalino, era, para Aristóteles, o elemento celeste.) No vácuo, não há lugares nem direcções privilegiadas, portanto, no vazio um corpo não teria razão para se mover numa direcção de preferência a uma outra, ou melhor, não teria razão para se mover. Descartes rejeita o vazio de modo mais radical do que Aristóteles: a sua identificação entre a extensão e a matéria leva-o a considerar o vazio como um nada existente, donde resulta a ideia de que o espaço não é uma entidade distinta da matéria que o "enche", bem como a ideia de um mundo indefinido. (Para Descartes, só Deus é infinito.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;3.2. A Física do Impetus&lt;/strong&gt;. O maior defeito da física aristotélica reside no facto de ser desmentida pela prática quotidiana do lançamento ou arremesso. Porém, Aristóteles não se rende e procura explicar o lançamento pela reacção do meio, o ar ou a água. A solução de Aristóteles é engenhosa e genial: o movimento, aparentemente sem motor, do projéctil é explicado por um processo turbilhonante no meio envolvente do corpo, neste caso no ar, que age sobre este último arrastando-o e impelindo-o. De certo modo, Aristóteles inventa um meio particularmente apto a mover-se, portanto, um "meio elástico": o ar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Os nominalistas parisienses, nomeadamente Buridan e Nicolau Oresme, retomam os argumentos de Filão, o fundador grego da teoria do &lt;em&gt;impetus&lt;/em&gt;. Filão aponta dois grupos de argumentos contra a dinâmica aristotélica: os argumentos de ordem material sublinham o quanto é improvável a suposição segundo a qual um corpo grande e pesado, por exemplo, a bala de um canhão, a mó que gira ou a flecha que voa contra o vento, possa ser movido pela reacção do ar, enquanto os argumentos de ordem formal assinalam o carácter contraditório da atribuição ao ar de um duplo-papel, o de resistência e o de motor, assim como o carácter ilusório de toda a teoria aristotélica. Filão acusa Aristóteles de ter deslocado o problema do corpo para o ar, sendo obrigado a atribuir ao ar o que recusa aos outros corpos, nomeadamente a capacidade de manter e conservar o movimento de um corpo separado da sua causa externa. Estes argumentos foram retomados, desenvolvidos e aperfeiçoados por Hiparco, João Filopono, Buridan, Nicolau Oresme, Alberto da Saxónia, Leonardo da Vinci e Benedetti, bem como pelo jovem-Galileu e pelo seu mestre Bonamico. A concepção do movimento que sustenta e apoia a teoria do &lt;em&gt;impetus&lt;/em&gt; é completamente diferente da concepção de movimento terrestre da teoria aristotélica. O movimento não é mais interpretado como um processo de actualização. Contudo, continua a ser visto como mudança e, como tal, exige a sua explicação pela acção de uma força ou de uma causa determinada. O &lt;em&gt;impetus&lt;/em&gt; é precisamente essa causa imanente que produz o movimento, o qual é, converso modo, o efeito produzido por ela. Assim, o &lt;em&gt;impetus impressus&lt;/em&gt; produz o movimento, isto é, move o corpo, ao mesmo tempo que desempenha outro papel muito importante: domina a resistência que o meio opõe ao movimento. Contudo, apesar das excelentes clarificações realizadas por Benedetti, a teoria do &lt;em&gt;impetus&lt;/em&gt; (força motriz) foi incapaz de elaborar um conceito novo e original do movimento. O jovem-Galileu mostrou que, embora fosse compatível com o movimento no &lt;em&gt;vacuum&lt;/em&gt;, a física do &lt;em&gt;impetus&lt;/em&gt; era incompatível com o princípio de inércia e, portanto, incompatível com o método matemático. O contributo original de Galileu será, como veremos, abandonar esta concepção e edificar uma física matemática na perspectiva da estática de Arquimedes, mediante a elaboração de um conceito novo de movimento. (Publicado &lt;strong&gt;&lt;a href="http://cyberdemocracia.blogspot.com/2009/02/o-nascimento-da-ciencia-moderna-3.html"&gt;aqui&lt;/a&gt;&lt;/strong&gt;.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;Quarta Secção&lt;/strong&gt;. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;em&gt;«(Na mecânica ondulatória,) as leis da natureza não têm um carácter tão exacto como na física clássica; não há já um determinismo rigoroso dos fenómenos, mas somente leis de probabilidade (= leis estatísticas). É o que exprime de modo preciso o célebre "princípio de incerteza" enunciado por Werner Heisenberg. As próprias noções de causalidade e de individualidade tiveram que ser submetidas a um novo exame, e desta considerável crise de princípios directores das nossas concepções físicas sairão, sem dúvida, consequências filosóficas ainda hoje não bem compreendidas&lt;/em&gt;». (&lt;strong&gt;Werner Heisenberg&lt;/strong&gt;)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Se lermos com muita atenção a obra de W. Heisenberg, ficamos com a impressão de que a revolução científica do século XX pode ser vista como uma espécie de revolução anti-copernicana, a qual exige uma nova filosofia. Quando formula em termos matemáticos as leis da natureza, a mecânica quântica "pressupõe sempre o homem e não devemos esquecer, como diz Niels Bohr, que, no espectáculo da vida, nunca somos apenas espectadores, mas também, constantemente, actores" (Heisenberg). O reconhecimento do homem como "actor" leva Heisenberg a apostar na cultura humanística que deriva inexoravelmente do pensamento grego e a identificar essa aposta com a "opção pelo Ocidente". Nesta perspectiva, não há "teorias mortas", como afirmam muitos burrecos nacionais que pretendem filosofar e criticar sem previamente terem adquirido conteúdos objectivos de conhecimento, como se a crítica fosse anterior ao conhecimento e à própria entrega ao objecto. A perspectiva destes luso-burrecos é a da tagarelice ou, como diz Heidegger, a da vida inautêntica e fácil de homens alienados do seu poder-ser. Darwin, Marx e Freud foram lidos como tendo levado a revolução copernicana até à intimidade do homem, embora Marx nunca tenha usado essa expressão para caracterizar a sua imensa revolução teórica. A mecânica quântica imprime outro rumo, recolocando o homem na natureza e atribuindo-lhe um papel activo no conhecimento da natureza. A imagem científica da natureza deixa de ser supostamente uma imagem da natureza "em si mesma" ou tal como Deus a concebeu na criação e passa a ser a imagem da relação do homem com a natureza. A noção de limite readquire um novo estatuto epistemológico e metafísico, questionando e comprometendo a própria noção de progresso. Deste modo, Heisenberg estabeleceu uma conexão essencial entre a "cosmologia" e a antropologia, conexão que foi pensada pelos físicos posteriores e, aparentemente, desprezada pelos filósofos absorvidos na tarefa de destronar ou destruir o homem. O positivismo teve este efeito perverso na cultura ocidental: "separar" as duas culturas (S.P. Snow), como se elas fossem irreconciliáveis, dando prioridade à cultura científica sobre a cultura filosófica. Contudo, tanto a revolução científica do século XVII como a revolução científica em andamento desmentem cabalmente o positivismo e a sua pobre visão do mundo. Nos seus últimos desenvolvimentos teóricos, a própria física "regressa" à filosofia ou, como diz Heisenberg, "é filosofia", e, curiosamente, quando Stephen Hawking fala do "fim da física", retoma um velho conceito hegeliano. Uma tal teoria unificada e, portanto, completa do cosmos, visa reconciliar os dois pilares da física contemporânea, a teoria da relatividade geral de Albert Einstein, que permite compreender o universo em grandes escalas (estrelas, galáxias e a imensidão do universo), e a mecânica quântica, que permite compreender o universo nas mais pequenas escalas (átomos, moléculas, electrões e quarks). A teoria das supercordas pretende casar as leis que regem o grande e o pequeno, superando os seus conflitos e mostrando que as duas teorias precisam uma da outra: toda a matéria e todas as forças (electromagnética, fraca, forte e gravítica) são unificadas sob o mesmo conceito de oscilações de cordas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;3.3. A Física de Galileu&lt;/strong&gt;. Durante o seu período de Pisa, o jovem-Galileu tenta, aliás na peugada de Benedetti, matematizar a física do &lt;em&gt;impetus&lt;/em&gt;, mas, como não consegue superar o seu impasse, será levado a edificar uma nova física, cujo modelo lhe é fornecido por Arquimedes. O jovem-Galileu desenvolve a dinâmica do &lt;em&gt;impetus&lt;/em&gt;, de modo a mostrar que o movimento do móvel é um efeito da força que o anima: a força motriz imprimida ao móvel explica o fenómeno do arremesso, sem ser necessário recorrer à reacção do meio, como fez Aristóteles. A noção de força motriz permitiria a formulação do princípio de inércia, desde que concebesse a continuação indefinida do movimento, mas, para Galileu e Benedetti, o movimento eterno era um absurdo, porque a força que produz um movimento não pode permanecer a mesma em dois momentos consecutivos e, por isso, o movimento produzido desacelera até se extinguir. Deste modo, a física do&lt;em&gt; impetus&lt;/em&gt; não só é incompatível com o princípio de inércia, como também nega a aceleração do movimento de queda. Para o jovem-Galileu, a velocidade ou a lentidão do movimento de queda depende do maior ou menor peso do corpo que cai. A velocidade não é função da resistência do meio, como em Aristóteles, mas é algo inerente e intrínseco ao próprio movimento: a velocidade da queda de um corpo é proporcional ao seu peso e o seu valor é constante para cada corpo dado. É certo que um corpo que cai, cai cada vez mais depressa, mas esta aceleração só se dá no início do movimento da queda até ao momento em que o corpo em queda atinge a sua velocidade própria, proporcional ao seu peso. Nesse momento, a velocidade permanece constante e o movimento acelerado transforma-se em movimento uniforme. A velocidade própria de um corpo em queda é função do seu peso, não do seu peso absoluto, mas do seu peso específico ou relativo. Com a introdução da noção de peso relativo, Galileu faz rebentar a física do impetus. O caso de um corpo pesado lançado ao ar verticalmente permite-lhe compreender que a leveza e o peso são definidos a partir dos efeitos que produzem: a leveza faz com que o corpo suba e o peso faz com que o corpo desça. Leveza e peso não são qualidades absolutas, mas sim propriedades relativas ou meras relações. Um corpo leve eleva-se e um corpo pesado desce em função do meio em que está colocado: a força com que sobe ou desce é medida pela diferença entre o seu peso específico e o peso de um volume igual do meio em que se encontra. O facto de um corpo possuir um peso absoluto leva Galileu a reconhecer que o único movimento natural é o movimento dos corpos pesados para baixo, ou seja, para o centro do mundo. A distinção entre peso absoluto e peso relativo, conjugada com a ideia de que a velocidade da queda de um corpo é função do seu peso relativo no meio dado, conduzem Galileu a reconhecer que é no vazio e apenas no vazio que os corpos pesam os seus pesos absolutos e caem com uma velocidade que é a sua velocidade própria. Com esta última noção, Galileu é levado a definir o movimento como estado. A ruptura com Aristóteles e a física do impetus consuma-se: Galileu já pode elevar-se ao nível de uma física matemática, embora tenha retido a noção de centro do mundo onde se situam os corpos pesados e ao seu redor, em camadas concêntricas, os corpos mais leves.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O que é o movimento para Galileu? O movimento é algo estranho que não afecta o corpo que dele é dotado, como pensavam os aristotélicos ou mesmo Leibniz: estar em movimento ou estar em repouso não afecta, isto é, não altera o corpo em movimento ou em repouso. O corpo é totalmente indiferente ao movimento e ao repouso. Assim, não podemos atribuir o movimento a um determinado corpo em si mesmo, porque um corpo só está em movimento em relação a outro corpo que supomos estar em repouso. Todo o movimento é relativo e, por isso, pode ser atribuído &lt;em&gt;ad libitum&lt;/em&gt; a um ou a outro dos dois corpos. Porém, embora seja relação, o movimento é um estado, tal como o repouso. Ambos são estados persistentes. De acordo com a famosa lei da inércia, a primeira lei do movimento de Newton, que não foi formulada por Galileu, como lhe foi atribuído pelos seus seguidores, Cavalieri, Torricelli e Gassendi, mas por Descartes, um corpo abandonado a si mesmo persiste eternamente no seu estado de movimento ou de repouso, a não ser que sofra a acção de uma força externa que transforme um estado de movimento em estado de repouso e vice-versa. A eternidade não é inerente a todo o tipo de movimento, mas apenas ao movimento uniforme em linha recta. Uma vez posto em movimento, um corpo conserva eternamente a sua direcção e a sua velocidade, desde que não sofra a acção de uma força externa. Embora conhecesse o movimento circular e eterno das esferas celestes, o aristotélico Simplício, no caso do diálogo galilaico, retorquía que nunca tinha encontrado um movimento rectilíneo permanente e com razão, porque um tal movimento, conforme mostrou Salviati, só pode ser produzido no vácuo. Isto significa que os corpos que se movem num espaço vazio e infinito não são corpos reais que se deslocam num espaço real, mas corpos matemáticos que se deslocam num espaço matemático homogéneo e infinito. A conclusão de Salviati de que todos os corpos caem com a mesma velocidade, independentemente do peso (massa), exige, evidentemente, o auxílio da segunda lei do movimento e da lei da gravitação de Newton. A lei da aceleração afirma que, se um corpo sofrer uma acção de uma força externa, ele acelerá no sentido dessa força, e a aceleração será proporcional à força e inversamente proporcional à massa do corpo (F= ma). A lei da gravitação universal de Newton afirma que todo o corpo, partícula ou quantidade de massa no universo atrai todos os demais corpos do universo, com uma força proporcional ao produto das suas massas e inversamente proporcional ao quadrado da distância entre eles. Estas leis do movimento, incluindo a lei da acção e reacção, e a lei da gravitação universal foram formuladas por Newton no seu livro "&lt;em&gt;Os Princípios Matemáticos da Filosofia Natural&lt;/em&gt;" (1687).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Antecipada filosoficamente por Giordano Bruno, a noção de universo infinito é consumada pela física de Newton. Embora acredite no éter que enche o espaço do nosso sistema solar, Newton concebe esse éter como uma substância de tal modo ténue e elástica que não chega a encher completamente o espaço físico. O movimento dos cometas mostra que existe espaço vazio, porque, caso contrário, não se moveriam com liberdade em todas as direcções, conservando o seu movimento, mesmo quando se movem na rota contrária à dos planetas. E, dado a matéria sem vis inertia (resistência) ser impensável, os espaços celestes são destituídos de matéria: a estrutura do éter é descontínua, isto é, compõe-se de partículas extremamente pequenas, entre as quais existe vácuo. Esta estrutura elástica do éter implica necessariamente o vácuo, ideia que Newton opõe à concepção cartesiana de um mundo constituído por matéria uniforme e que, portanto, se estende de modo contínuo, impedindo a elasticidade e o próprio movimento. Portanto, Newton considera inadmissível a existência de um espaço completamente ocupado ou de um plenum que oporia uma resistência extraordinária ao movimento, tornando-o impossível e obrigando-o a cessar, ao mesmo tempo que advoga que os espaços celestes são constituídos por um éter extremamente rarefeito, fino e ténue, dotado de uma estrutura granular, que possibilita a existência do vácuo e a recusa de um meio contínuo. Além disso, ao estipular a existência de um espaço absoluto e de um tempo absoluto, distintos do espaço e do tempo relativos, Newton pode conceber um tempo matemático que flui uniformemente, sem relação com nada exterior, e um espaço que permanece sempre semelhante e imóvel, de modo a garantir um movimento absoluto, uniforme, rectilíneo e inercial, distinções que serão abandonadas pela teoria geral da relatividade de Einstein. A libertação do espaço de tudo o que o enche identifica-o com o espaço euclidiano, aquele que toma a forma de um continente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A revolução galilaica consiste em explicar o ser real pelo ser matemático ou, como declara o próprio Galileu, o livro da natureza está escrito em caracteres matemáticos ou geométricos. O verdadeiro assunto do "&lt;em&gt;Diálogo dos Grandes Sistemas&lt;/em&gt;" não é tanto a oposição entre dois sistemas astronómicos, mas fundamentalmente a defesa da explicação matemática da natureza em oposição à explicação não-matemática do senso comum e da física aristotélica. Dirigido ao "grande público", o livro de Galileu visa a destruição da concepção aristotélica do mundo e da ciência e a sua substituição pela concepção copernicana do mundo, embora sem o fazer directa e explicitamente. Trata-se, portanto, de uma obra de filosofia da natureza escrita na forma de diálogo, cujos intervenientes são Salviati, o próprio Galileu, Sagredo, o leigo inteligente, e Simplício, o sage aristotélico. Em vez de "imaginar" o movimento em termos de esforço (impetus) e de deslocamento, como fazia a ciência medieval, Galileu "pensa"-o em termos de velocidade e de direcção. Contra a ciência aristotélica, baseada na experiência e na percepção dos sentidos, Galileu reclama o poder do pensamento e, por conseguinte, a herança do matematismo platónico: o pensamento puro e sem mistura, e não a experiência sensorial, é que está na base da "nova ciência matemática da natureza". Isto é dito claramente aquando da discussão do famoso exemplo da bala que cai do alto do mastro de um navio em movimento. Galileu explica longamente o princípio da relatividade física do movimento, a diferença entre o movimento do corpo em relação à Terra e o seu movimento em relação ao navio, e, a seguir, sem fazer qualquer referência à experiência, conclui que o movimento da bala em relação ao navio não muda com o movimento deste último. Quando Simplício lhe faz a pergunta, "Fizeste uma experiência?", Galileu responde: "Não, e não preciso fazê-la, e posso afirmar, sem qualquer experiência, que é assim, porque não pode ser de outra forma". A física galilaica desenvolvida em Pádua é uma ciência feita a priori. A teoria precede a experiência: eis o sentido do vector epistemológico estabelecido por Galileu. A experiência é inútil, porque, antes de toda a experiência, já possuímos o conhecimento que procuramos. Ao contrário da teoria do conhecimento elaborada mais tarde por Newton, fundada sobre o lema hypotheses non fingo (não imagino hipóteses), os conceitos galilaicos não são arrancados da experiência: eles são pressupostos e, como tal, são conceitos "fictícios". É certo que a realidade da experiência pode não estar completamente de acordo com a dedução, mas são estes conceitos prévios que nos permitem compreender e explicar a natureza e fazer "experiências", isto é, fazer perguntas e interpretar as respostas. As leis fundamentais do movimento, leis que determinam o comportamento espacial e temporal dos corpos materiais, são leis de natureza matemática, portanto, leis dotadas da mesma natureza que as leis que governam as relações das figuras e dos números. Estas leis não se encontram na natureza, mas no nosso espírito e na nossa memória, como ensinou Platão: conhecer é recordar. É por isso que somos capazes de dar provas puramente matemáticas das proposições que descrevem os sinais do movimento e de desenvolver a linguagem da ciência natural, de questionar a natureza através de experiências construídas de maneira matemática e de ler o grande livro da natureza que está escrito em linguagem matemática. A física galilaica é, pois, uma geometria do movimento, do mesmo modo que a física do divus Archimedes era uma física do repouso (hidroestática).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A passagem de um mundo fechado para um universo aberto, para utilizar a bela expressão de Koyré, é determinada, em última instância, pelo abandono de um estado natural predominante na Idade Média em que cada coisa estava no seu lugar próprio e a Terra em repouso permanecia no centro do universo (geocentrismo) e pela adopção de um estado natural no qual o trabalho é muitíssimo valorizado e o mundo, tal como a Terra girando em torno do Sol (heliocentrismo), se põe em movimento. Desta perspectiva, a dinâmica afigura-se como uma correspondência da economia de mercado aberta em vias de nascimento acelerado. O primado do movimento sobre o repouso significa que emergia, no novo mundo social, dominado pela burguesia mercantil, um mercado cada vez mais aberto e extenso, completamente em rota de colisão interna com o anterior mercado fechado, onde o trabalho e a actividade mercantil eram subestimadas pelos estratos sociais superiores da sociedade feudal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;No Renascimento, a linha divisória entre os seguidores de Aristóteles e os de Platão era clara: os platónicos eram aqueles que reivindicavam para as matemáticas uma posição superior, atribuindo-lhes um real valor e uma posição decisiva na física, enquanto os aristotélicos eram aqueles que viam a matemática como uma ciência abstracta e de menor valor do que a física e a metafísica, embora não duvidassem da certeza das proposições ou demonstrações geométricas e não negassem o direito de medir o que é mensurável e de contar o que é numerável. O que os distinguia realmente era a concepção que tinham da estrutura do ser e da estrutura da ciência. Neste campo de luta teórica, Galileu colocava-se na posição dos platónicos e era como platónico que os seus contemporâneos o viam: a sua filosofia matemática da natureza constituía um retorno a Platão e a sua ciência, uma vitória empírica de Platão sobre Aristóteles. Galileu mostrou que a ciência matemática da natureza era possível, sem no entanto ter refutado as objecções aristotélicas à matematização da natureza. Aristóteles alegava contra Platão que as qualidades sensíveis e as essências não podem ser matematizadas. Galileu (e a sua física dos graves), Descartes (e a sua física dos choques) e Newton (e a sua física das forças) conseguiram matematizar a física à custa de rejeitar as propriedades qualitativas e de renunciar ao mundo da percepção sensível e da experiência comum, substituindo-o pelo mundo abstracto e incolor de Arquimedes. O movimento é o movimento dos corpos arquimedianos no espaço homogéneo e infinito da nova ciência: o único movimento que é governado pelos números, isto é, pelas leges et rationes numerorum. (Publicado &lt;strong&gt;&lt;a href="http://cyberdemocracia.blogspot.com/2009/02/o-nascimento-da-ciencia-moderna-4.html"&gt;aqui&lt;/a&gt;&lt;/strong&gt;. &lt;strong&gt;FIM &lt;/strong&gt;da série "&lt;strong&gt;Génese e Estrutura da Ciência Moderna&lt;/strong&gt;".)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;J Francisco Saraiva de Sousa&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4759866844732089627-7524886579267554558?l=cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/feeds/7524886579267554558/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4759866844732089627&amp;postID=7524886579267554558&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/7524886579267554558'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/7524886579267554558'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/2009/05/genese-e-estrutura-da-ciencia-moderna-2.html' title='Génese e Estrutura da Ciência Moderna (2)'/><author><name>J Francisco Saraiva de Sousa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14064808742564506644</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4759866844732089627.post-4580491872488743116</id><published>2009-05-15T15:41:00.000-07:00</published><updated>2009-05-15T15:56:48.978-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Filosofia da Técnica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberPhilosophy'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Epistemologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crítica da Ideologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='História'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Cyberphilosophy e Matemática'/><title type='text'>Génese e Estrutura da Ciência Moderna (1)</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;«&lt;em&gt;A filosofia está escrita nesse livro imenso que está sempre aberto diante dos nossos olhos, quero dizer, o Universo, mas só podemos compreendê-lo se nos dedicarmos primeiro a compreender a sua língua e a conhecer os caracteres com que está escrito. Está escrito na linguagem matemática e os seus caracteres são triângulos, círculos e outras figuras geométricas, sem o recurso aos quais é humanamente impossível compreender uma palavra. Sem eles, é uma divagação vã num labirinto obscuro&lt;/em&gt;». (&lt;strong&gt;Galileu Galilei&lt;/strong&gt;)&lt;br /&gt;«&lt;em&gt;As matemáticas escrevem-se para os matemáticos&lt;/em&gt;». (&lt;strong&gt;Copérnico&lt;/strong&gt;)&lt;br /&gt;«&lt;em&gt;Se não puderes medir, o teu conhecimento é deficiente e insatisfatório&lt;/em&gt;». (&lt;strong&gt;Lord Kelvin&lt;/strong&gt;)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;Primeira Secção&lt;/strong&gt;. A Física pode ser definida como a "ciência da medida", isto é, como a ciência que exprime em números tudo aquilo que estuda. A definição de uma grandeza física deve prover um conjunto de regras para a calcular em termos de outras grandezas que possam ser medidas. Assim, por exemplo, quando o momento linear é definido como o produto da massa pela velocidade, a regra para o calcular está contida na definição, sendo apenas necessário saber como medir a massa e a velocidade. Ora, esta aliança entre a física e a matemática está na base da física matemática moderna e, como tal, constitui uma invenção relativamente recente: a filosofia matemática da natureza data dos séculos XVI e XVII e deve-se a Copérnico (1473-1543) e a Galileu Galilei (1564-1642), cujo precursor foi o seu mestre Arquimedes (287-212 a.C.), o &lt;em&gt;philosophus platonicus&lt;/em&gt; segundo a tradição doxográfica, fundador da estática enquanto ciência do equilíbrio. Copérnico e Galileu foram influenciados pelo neoplatonismo florentino que defendia o estilo matemático do pensamento (magia matemática), o culto do Sol, ideia subjacente à noção copernicana de um sistema construído sobre o Sol central (heliocentrismo), e a perfeição de um mundo infinito. Ambos abraçaram a epistemologia platónica, rompendo não só com a epistemologia aristotélica mas também com a física e a metafísica de Aristóteles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A Física abrange diversos ramos e disciplinas, entre os quais destacamos o mais famoso, a mecânica, que estuda as relações entre força, matéria e movimento. A mecânica compreende a dinâmica, que estuda o movimento e as forças que o causam, a estática, que trata de casos especiais em que a aceleração é nula, e a cinemática, que lida unicamente como o movimento, matematicamente falando. A dinâmica moderna cobre quase toda a mecânica e o seu fundador foi, num primeiro momento, Galileu Galilei. É esta fundação, mais precisamente a revolução científica, bem como o conceito de ciência nela implicada, que iremos estudar. A revolução científica dos séculos XVI e XVII, à qual estão ligados os nomes de Copérnico, Galileu, Descartes, Kepler e Newton, entre tantos outros, implicou uma mutação intelectual radical, da qual a ciência física moderna e a filosofia moderna são, ao mesmo tempo, os frutos e as expressões. O princípio de continuidade defendido por P. Duhem é cabalmente desmentido pelos estudos histórico-filosóficos de A. Koyré, T.S. Kuhn e H. Butterfield.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;1. Teorias da Revolução Científica&lt;/strong&gt;. A revolução científica dos séculos XVI e XVII constitui talvez a maior revolução intelectual consumada, embora ainda não tenhamos uma teoria cabal desta grande mutação intelectual que se inicia durante o Renascimento e que se prolonga até ao século XVIII, pelo menos até Kant. Geralmente, os seus estudiosos têm dado mais atenção à revolução copernicana e ao renovar da astronomia: a substituição da astronomia de Ptolomeu (século II d.C.) pela astronomia copernicana, substituição consumada por Kepler (1571-1630) graças às observações cuidadosas e fidedignas acumuladas por Tycho Brahe (1546-1601). Mas esta é uma mutação radical que se reflecte em diversos níveis do conhecimento e da vida cultural e social. Foram propostas, pelo menos, três teorias fundamentais para explicar esta mutação intelectual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;1.1.&lt;/strong&gt; A primeira teoria explica esta revolução pela transformação completa e radical de toda a atitude fundamental do espírito humano: o seu traço fundamental reside na substituição de uma &lt;em&gt;vita contemplativa&lt;/em&gt; (&lt;em&gt;theoria&lt;/em&gt;) por uma &lt;em&gt;vita activa&lt;/em&gt;. Geralmente, os defensores desta teoria tendem a destacar o papel de Bacon (1561-1626). Para Bacon, conhecer é poder. Isto significa que o conhecimento da natureza é virtualmente o domínio da natureza. A moderna ciência da natureza dirige-se não a um conhecimento teórico, mas a uma acção: ciência e técnica estão intimamente ligadas. A tendência mecanicista da física clássica é explicada por este desejo de dominar e de agir do homem moderno. A física de Galileu, de Descartes ou de Hobbes é uma &lt;em&gt;sciencia activa&lt;/em&gt; que visa tornar o homem "senhor e dono da natureza" (Descartes). Leroy e Borkenau explicaram o nascimento da ciência e da filosofia cartesianas pelo aparecimento de uma nova forma de empresa económica: a manufactura. Esta perspectiva não implica que a ciência clássica seja obra de artesãos, técnicos ou engenheiros: ela foi desenvolvida efectivamente por teóricos e filósofos. Apesar disso, Hannah Arendt ou mesmo Bergson têm razão quando a consideram como uma aplicação à natureza das categorias do pensamento do &lt;em&gt;Homo faber&lt;/em&gt;: "Não foi a razão, mas um instrumento feito pela mão do homem, o telescópio, que realmente mudou a concepção física do mundo", isto é, o que levou os fundadores, em especial Galileu e Descartes, ao novo conhecimento "não foi a contemplação, nem a observação, nem a especulação, mas a entrada em cena do &lt;em&gt;homo faber&lt;/em&gt;, da actividade de fazer e de fabricar" (H. Arendt).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;1.2.&lt;/strong&gt; A segunda teoria insiste sobretudo na luta de Galileu contra a autoridade e contra a tradição de Aristóteles e da Igreja, destacando o papel da observação e da experiência na elaboração da nova ciência da natureza. Esta teoria não é incompatível com a primeira, mas convém, neste momento, distinguir entre a "filosofia espontânea dos cientistas" (Althusser), tal como se revela depois do positivismo, uma degenerescência do impulso da revolução científica, e a filosofia da ciência: o discurso da experiência no sentido da "pergunta colocada à natureza" (Galileu) não é "real". As experiências relatadas por Galileu ou por Pascal não foram efectivamente realizadas e, se tivessem sido realizadas, os resultados desmentiriam as novas teorias. A teoria matemática precede a experiência e as experiências referidas pelos fundadores foram experiências de pensamento. Como observou H. Arendt, a moderna &lt;em&gt;reductio scientiae ad mathematicam &lt;/em&gt;anulou o testemunho da observação da natureza a curta distância pelos sentidos e esta anulação está claramente presente na obra de Giordano Bruno (1548-1600), que, acompanhando Nicolau de Cusa, defendeu os conceitos de universo infinito e de infinidade de mundos, povoados por outros seres inteligentes. De facto, esta perspectiva teórica da revolução científica pode ser esclarecida pela distinção que Kuhn estabelece entre "ciências clássicas" e "ciências baconianas": as primeiras protagonizaram a revolução científica, pelo menos nos seus primeiros momentos heróicos. A. Koyré e H. Butterfield têm razão quando afirmam que a filosofia de Bacon foi, em termos da nova ciência, uma espécie de "embuste". As descobertas experimentais desempenharam um papel pouco relevante na revolução científica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Em 1610, a Igreja Católica entrou oficialmente na luta contra o copernicianismo e os copernicanos deixaram de ser rotulados de infiéis e ateus e passaram a ser formalmente acusados de heréticos. Em Roma, Giordano Bruno foi queimado vivo na fogueira da Inquisição. Em 1616, o obra de Copérnico e todas as obras que afirmassem o movimento da Terra em torno do Sol foram colocadas no Índex, os copernicanos católicos foram expulsos e as suas opiniões condenadas e, em 1633, Galileu foi preso e obrigado a retractar-se. De facto, a Igreja tinha "razão" ao proceder deste modo, porque o copernicanismo era potencialmente destrutivo de toda uma forma ou estilo de pensamento, mas a sua reacção contra a nova ciência realizou-se durante a Contra-Reforma, portanto, mais como uma reacção contra a Reforma protestante do que pelo conhecimento pleno das implicações revolucionárias do copernicanismo. Muito antes da Igreja Católica ter tomado esta decisão oficial, a doutrina de Copérnico já era atacada por Lutero e por Calvino, mediante a alegação de que desmentia a Sagrada Escritura. Com a teoria de Copérnico, o mundo fechado cedia o seu lugar a um universo aberto: não somente um universo cognitivo mas também um novo universo social, onde o homem perdeu o seu lugar e a sua posição privilegiada na "criação": a sua alienação do mundo coincide com o subjectivismo da filosofia moderna e a racionalidade instrumental (Horkheimer &amp;amp; Adorno).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;1.3.&lt;/strong&gt; Nenhuma das teorias anteriores é completamente verdadeira ou completamente falsa: cada uma delas acentua traços importantes da nova ciência da natureza, embora não sejam necessariamente os traços mais marcantes. A. Koyré elaborou uma terceira teoria que afirma que a atitude intelectual da ciência clássica se caracteriza por dois traços que se completam um ao outro, a saber: a destruição do cosmos e, consequentemente, o desaparecimento na ciência de todas as considerações baseadas nessa noção de um mundo finito, nomeadamente o princípio aristotélico da teleologia (1), e a geometrização do espaço, isto é, a substituição da concepção de um espaço cósmico qualitativamente diferenciado e concreto, o espaço da física pré-galilaica, pelo espaço homogéneo e abstracto da geometria euclidiana (2). Isto significa que a ciência clássica fundada por Galileu e Newton pode ser caracterizada por duas características: a matematização (geometrização) da natureza e, por conseguinte, a matematização (geometrização) da ciência. Esta última característica deve-se mais a Descartes do que a Galileu ou mesmo a Newton.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Ora, o Renascimento trouxe consigo a ascensão da burguesia e, portanto, a ascensão de uma economia de mercado, na qual o valor qualitativo dos produtos do trabalho humano se evapora cada vez mais no valor quantitativo de troca desses produtos no mercado. A mercantilização de todos os homens e de todas as coisas transforma as qualidades do trabalho e dos seus objectos em magnitudes abstractas, expressáveis em números. Este interesse mercantil acentua-se com o desenvolvimento da manufactura. Aqui reside o interesse pelo cálculo e pelo domínio contável da realidade. Esta base económica da formação do cálculo matemático contribuiu decisivamente para o prestígio dos números, que na Idade Média foram considerados somente de um modo mágico, como mística aritmética. Podemos dizer que não há uma matemática medieval, embora os árabes tenham introduzido a álgebra e o número zero já fosse conhecido. A Península Ibérica que iniciou o movimento das descobertas geográficas auto-excluiu-se do processo capitalista: os seus livros de contabilidade limitavam-se a anotar as dívidas. A época do florescimento matemático desenvolveu-se em França, onde a relação entre a matemática e a economia burguesa foi particularmente estreita e evidente. A captação dos objectos da natureza numa ordem matemática está associada ao surgimento de uma economia de mercado. Este "factor extra-lógico" ajuda a compreender os traços destacados por Koyré da revolução intelectual do século XVII, levando em conta os traços acentuados pelos outras duas teorias expostas. A relação entre a matemática e a economia de mercado não é uma relação simples, mas uma relação complexa e mediatizada, sem a compreensão da qual não podemos explicar integralmente a revolução científica e as reacções cépticas e/ou adversas que produziu até aos nossos dias. A filosofia da matemática, pelo menos na sua versão logicista, é incapaz de explicar a relação entre a matemática e a realidade, talvez por ser demasiado platónica e por desprezar a sua associação com a economia de mercado, de resto revelada pela teoria de Marx. (Publicado &lt;strong&gt;&lt;a href="http://cyberdemocracia.blogspot.com/2009/01/capitalismo-e-nascimento-da-ciencia.html"&gt;aqui&lt;/a&gt;&lt;/strong&gt;.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;&lt;strong&gt;Segunda Secção&lt;/strong&gt;. «&lt;em&gt;Vejo estes espaços medonhos do universo que me envolvem e encontro-me preso a um canto desta imensa vastidão, sem que eu saiba porque estou colocado neste lugar, e não noutro, nem por que razão este pouco tempo que me é dado para viver me é atribuído neste momento, e não noutro de toda a eternidade que me precedeu e de toda aquela que há-de vir depois de mim. Apenas vejo infinidades de todos os lados, que me envolvem como um átomo e como uma sombra que dura apenas um instante e nunca mais volta. Tudo quanto sei é que em breve devo morrer, mas o que mais ignoro é esta morte que não poderei evitar.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;«&lt;em&gt;Posso muito bem conceber um homem sem mãos, sem pés, sem cabeça. Mas não posso conceber o homem sem pensamento: seria uma pedra ou um bruto. O pensamento faz a grandeza do homem. O homem não passa de um caniço, o mais fraco da natureza. Mas é um caniço pensante&lt;/em&gt;». (&lt;strong&gt;Blaise Pascal&lt;/strong&gt;)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O que os fundadores da ciência moderna, entre os quais Copérnico, Galileu, Kepler, Descartes e Newton, fizeram foi destruir um mundo e substitui-lo por outro. Ora, uma tal destruição implica necessariamente uma "reforma da nossa própria inteligência", para usar esta bela expressão de Espinoza, e a elaboração de um novo conceito de ciência, com o objectivo de substituir o ponto de vista natural e normalizado, geralmente identificado com o senso comum, por um outro ponto de vista, neste caso particular, pelo ponto de vista arquimediano, o da ciência universal: os neoplatónicos do Renascimento, em especial Ficino, Nicolau de Cusa e Giordano Bruno, muito antes de Copérnico ou de Galileu, foram os primeiros a abolir a dicotomia entre a Terra e o Céu que a cobria, promovendo o Sol à categoria de estrela nobre e dando-lhe um lugar nobre num universo eterno e infinito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;2. A Destruição do Cosmos&lt;/strong&gt;. A dissolução do Cosmos significa a destruição da ideia de um mundo de estrutura finita, hierarquicamente ordenado e qualitativamente diferenciado do ponto de vista ontológico, e a sua substituição pelo conceito de um Universo aberto, indefinido e até infinito, unificado e governado pelas mesmas leis universais. Neste novo universo, todas as coisas, sejam celestes ou terrestres, pertencem ao mesmo nível do ser, contrariamente à concepção aristotélica tradicional que distinguia e opunha os dois mundos, o do Céu e o da Terra. Com a fusão das leis do Céu e da Terra, a astronomia e a física tornaram-se interdependentes, unificaram-se e uniram-se. Esta grande unificação implicou o desaparecimento da perspectiva científica de todas as considerações baseadas no valor, na perfeição, na harmonia, na significação e no desígnio. Tais considerações desapareceram no espaço infinito do novo universo, onde uma geometria se fez realidade e no qual as leis da física clássica encontraram valor e aplicação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A destruição do Cosmos é fundamentalmente a perda do centro pela Terra e, como se tornou evidente no decorrer da revolução científica, a perda do privilégio do Homem, ou seja, a perda do lugar privilegiado do homem no cosmos. Blaise Pascal resume a última implicação da destruição do Cosmos nesta frase enfática: "O silêncio eterno destes espaços infinitos apavora-me". Ou, por outras palavras, a perda pela Terra da sua posição central e singular no mundo implicou a perda pelo homem da sua posição privilegiada no drama teocósmico da Criação. Doravante, o homem deixa de ser a figura central desse drama e é obrigado a sair da cena. A astronomia de Copérnico inicia esta destruição, embora permaneça prisioneira da concepção de um universo finito e ordenado: Copérnico deu o primeiro passo, detendo o movimento da esfera das estrelas fixas, mas hesitou em dar o segundo passo que seria dissolver essa esfera estelar num espaço ilimitado. O seu universo continua a ser um mundo ordenado e finito, cujo limite está fixado pela esfera das estrelas fixas. Thomas Digges levou a astronomia copernicana mais longe, substituindo o mundo fechado e finito pelo universo aberto, substituindo o diagrama copernicano do mundo por outro diagrama, no qual as estrelas se encontram distribuídas por toda a página, tanto acima como abaixo da linha com a qual Copérnico representou a última &lt;em&gt;sphera mundi&lt;/em&gt;. Até mesmo Johannes Kepler que fez a astronomia de Copérnico funcionar negou a infinidade do novo universo, por aceitar uma epistemologia empirista, sujeita às leis da óptica: os limites da astronomia são ditados pela visão e, por isso, não pode conceber coisas que desmintam as leis da óptica. (Kepler desconhecia o telescópio, posteriormente utilizado por Galileu.) Para Kepler, o mundo é uma expressão de Deus, simbolizando a Trindade e materializando na sua estrutura uma ordem e uma harmonia matemáticas. Embora aceite a nova astronomia, Kepler retém a metafísica aristotélica, alegando que não "é bom para o viajante perder-se naquele infinito". Deste modo, Kepler é levado a rejeitar e a refutar a concepção infinitista do universo, isto é, a hipótese da distribuição uniforme das estrelas no espaço, afirmando que o princípio da razão suficiente impede Deus de escolher uma estrutura adequada, portanto, geométrica, para um mundo infinito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Porém, como já vimos, Giordano Bruno, um dos alvos da crítica de Kepler, tinha desenvolvido a teoria do universo descentralizado, infinito e infinitamente povoado por outros seres inteligentes: em nome da movimento da Terra em torno do Sol, Bruno defende que "o mundo é infinito e, por conseguinte, não existe nele nenhum corpo ao qual coubesse &lt;em&gt;simpliciter&lt;/em&gt; estar no centro, sobre o centro, na periferia ou entre esses dois extremos do mundo". Tal como Nicolau de Cusa ou mesmo Lucrécio, Bruno regozija-se com a infinidade do mundo. O deslocamento da Terra do centro do mundo não é visto como uma degradação, mas como uma perfeição da obra criada por Deus. Com efeito, na filosofia de Bruno, o princípio da razão suficiente, posteriormente tematizado por Leibniz, reforça e suplementa o princípio da plenitude: a obra de Deus deve conter tudo o que é possível, isto é, inumeráveis seres individuais, inumeráveis Terras, inumeráveis astros e sóis, afim de ser perfeita e digna do Criador. Isto significa que Deus precisa de um espaço infinito para nele colocar o mundo infinito, isto é, o universo com dimensões infinitas e os seus inumeráveis mundos, um universo que não pode ser objecto dos sentidos, mas apenas do pensamento. A possibilidade implica a realidade. Esta concepção de Bruno contrasta fortemente com aquela que foi definida mais tarde por Pascal, a de um universo mudo e aterrorizante, ou mesmo com a da filosofia científica moderna, a de um mundo desprovido de sentido, do qual resultam o niilismo e o desespero. A sua concepção do espaço infinito foi adoptada e aperfeiçoada por Henry More e Isaac Newton (1643-1727).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Ora, uma tal revolução intelectual, pensada através do conceito de ruptura epistemológica de Gaston Bachelard, não tem nem pode ter "precursores". A sua novidade é radical e Galileu foi um dos seus principais protagonistas, na medida em que se colocou, sem qualquer ambiguidade, ao nível do ponto de vista arquimediano. Caverni e Duhem julgaram poder encontrar os precursores de Galileu em Buridano, Oresme ou mesmo no seu mestre Filão, os chamados "precursores parisienses de Galileu", mas este princípio de continuidade é cabalmente desmentido pelos estudos de E. Cassirer, A. Koyré e de T.S. Kuhn. Se há algum precursor, este só pode ser Arquimedes e o seu mestre Platão. (Publicado &lt;strong&gt;&lt;a href="http://cyberdemocracia.blogspot.com/2009/02/o-nascimento-da-ciencia-moderna-2.html"&gt;aqui&lt;/a&gt;&lt;/strong&gt;. CONTINUA com o título "&lt;strong&gt;Génese e Estrutura da Ciência Moderna 2&lt;/strong&gt;".)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;J Francisco Saraiva de Sousa&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4759866844732089627-4580491872488743116?l=cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/feeds/4580491872488743116/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4759866844732089627&amp;postID=4580491872488743116&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/4580491872488743116'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/4580491872488743116'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/2009/05/genese-e-estrutura-da-ciencia-moderna-1.html' title='Génese e Estrutura da Ciência Moderna (1)'/><author><name>J Francisco Saraiva de Sousa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14064808742564506644</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4759866844732089627.post-947211035485428915</id><published>2009-05-07T16:51:00.000-07:00</published><updated>2009-05-07T17:02:25.173-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberPhilosophy'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Imaginação Política'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberEstética'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Luso-Atrofia Cognitiva'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crítica da Ideologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='História'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Estética'/><title type='text'>Trilogia Poética de Guerra Junqueiro</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;«&lt;em&gt;O nosso grande poeta Guerra Junqueiro, atingindo a maturidade da razão adulta, revelou-se uma mui rara intuição filosófica, tornando incisivo o pensamento metafísico, que nele é sempre profundo, mercê da nítida flagrância duma imaginação igualmente opulenta na concepção e na expressão&lt;/em&gt;». (&lt;strong&gt;Sampaio Bruno&lt;/strong&gt;, &lt;em&gt;A Ideia de Deus&lt;/em&gt;) &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Numa nota final datada de 1885 e anexada pelos editores à sua obra &lt;em&gt;A Velhice do Padre Eterno&lt;/em&gt;, Guerra Junqueiro (1850-1923) apresenta em andamento a sua &lt;strong&gt;trilogia poética&lt;/strong&gt;: a &lt;em&gt;Morte de D. João&lt;/em&gt;, &lt;em&gt;A Velhice do Padre Eterno&lt;/em&gt; e, finalmente, o &lt;em&gt;Prometeu Libertado&lt;/em&gt;. Os dois primeiros poemas foram publicados, embora o segundo livro d' &lt;em&gt;A Velhice do Padre Eterno&lt;/em&gt;, cujo título primitivo era &lt;em&gt;A Morte de Jeová&lt;/em&gt;, não tenha sido editado com o título previsto d' &lt;em&gt;A Morte do Padre Eterno&lt;/em&gt;, e do último restam alguns fragmentos. Mas sabemos que, "depois de morto D. João e morto Jeová", Guerra Junqueiro pretendia "ressuscitar Jesus e desagrilhoar Prometeu": "Este último poema, o &lt;em&gt;Prometeu Libertado&lt;/em&gt;, será o fecho da trilogia, o complemento da minha obra", cujo plano estava concebido há muito tempo na mente de Guerra Junqueiro. O que prova a unidade substancial do pensamento de Guerra Junqueiro que, como qualquer outro grande criador e pensador, manifesta indecisões ou oscilações que, em vez de romper a linha condutora do pensamento em andamento, lhe emprestam rasgos de génio. &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A &lt;strong&gt;cristologia&lt;/strong&gt; de Guerra Junqueiro, elaborada no seu texto O «&lt;em&gt;Sacré-Coeur&lt;/em&gt;» (1888), onde apresenta a doutrina do "cristianismo integral", sempre foi e continua a ser anti-católica ou, pelo menos, anti-eclesial e anticlerical, e, se o poeta-filósofo parece romper com &lt;em&gt;A Velhice do Padre Eterno&lt;/em&gt;, quando chama "loucura monstruosa" à negação de Deus, proclamada por Nietzsche, o evangelista de "Satanás", fá-lo levado pela crítica hipócrita e difamatória que lhe foi dirigida pelos "homens entendidos", a "escória do público, a multidão instintiva e ordinária", porque o seu suposto período místico em que vive recolhido em si mesmo e coagido pela sua doença não significa uma adesão ao catolicismo e muito menos à Igreja Católica, cuja "opulência" constitui o seu maior "crime", sem escutar e seguir o voto de pobreza de S. Francisco de Assis: o seu misticismo inspirado nos místicos cristãos é contra a mediação de qualquer Igreja e, como tal, constitui uma força política revolucionária colocada ao serviço da revolução espiritual da humanidade: "O mundo caminha para um cristianismo integral, puro e perfeito, que absolutamente harmonize coração e razão, ciência e fé, natureza e Deus", termos que estiveram afastados uns dos outros durante séculos devido à própria "tragédia divina" que se repercute nos "dramas da alma humana e dos povos". A realização da justiça absoluta pertence ao futuro eterno reconciliado e redimido, donde Deus chama a sua criação à reconciliação santa e fraterna, que, apesar desse aspecto puramente escatológico, pode ser realizada pelo homem no seu exílio na Terra e na cidade dos homens, através da santificação e da espiritualização crescentes das obras dos "grandes homens" que antecipam aqui e agora o infinito. Este processo de ascensão é pensado a partir de uma dialéctica do desejo, a qual nos reconduz à &lt;strong&gt;fenomenologia da consciência antecipante&lt;/strong&gt; de Ernst Bloch, até mesmo quando este filósofo apresenta a fome como a tendência fundamental que move o «desejo» humano de justiça plena: "D. João resume em si tudo quanto há de doentio na sociedade moderna: o idealismo, o tédio, as nevroses, a indiferença, a dúvida, os paradoxos, a falta de carácter. D. João anda nos cafés, nos boulevards, nos teatros, na literatura, nas igrejas e nas consciências. Simboliza perfeitamente uma parte da sociedade moderna, pelo lado exterior dos costumes. É necessário matá-lo; moralmente, já se vê". E Guerra Junqueiro mata-o moralmente: "D. João, na sua qualidade de parasita, morre como deve morrer: de fome. Quem não trabalha não tem direito à vida". &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A "ideia simples e bela" que preside à concepção deste fecho da trilogia poética foi apresentada por Guerra Junqueiro assim: "A primeira parte é a epopeia do Trabalho, a glorificação de Prometeu pela humanidade e pela natureza. Na segunda parte, Jesus Cristo, levantando-se do seu túmulo, vem fulminar o abutre e desacorrentar Prometeu. O herói é libertado pelo santo. A crença e a ciência, a razão e a fé, depois dum combate de milhares de séculos, reúnem-se finalmente numa paz luminosa, numa comunhão indestrutível. A liberdade de Prometeu significa o desaparecimento de todas as tiranias, e a ressurreição de Jesus, a morte de todos os dogmas. Um é a justiça humana, e o outro a aspiração imortal para uma justiça absoluta. O Cáucaso e o Gólgota ficam sendo para a humanidade os dois grandes altares da religião eterna do Futuro". Na nota d' A Morte de D. João, Guerra Junqueiro lembra que "toda a questão tem dois lados, toda a medalha tem duas faces" e, por isso, depois da negação do "verme", a "face de Judas" personificada nas figuras de D. João e do Padre Eterno, levada a cabo nos dois poemas já publicados, respectivamente, é necessário "afirmar (no Prometeu Libertado) a justiça encarnada em duas figuras sublimes (do espírito humano), Cristo e Prometeu". Com efeito, "quando estes dois termos do espírito humano, há tantos séculos afastados, se identificarem numa harmonia completa, (em última análise, escatológica) o homem desde esse momento será justo, será bom, será feliz". Sem abdicar da noção de progresso, Guerra Junqueiro submete-a a uma crítica imanente que visa reconciliar num horizonte escatológico os dois grandes "altares da religião eterna do Futuro", Cristo e Prometeu. A santidade é "o termo e o destino da evolução do Ser" e "o universo não existe, nem se move senão para chegar a esse supremo resultado" que, no último poema, é apresentado nestes termos: "cada homem será (potencial e virtualmente) um deus" no advento da criação reconciliada no futuro eterno de Deus. Das ruínas da história (passada) governada pelo "Deus-Milhão" emergem, quais fagulhas incandescentes e despertas, as forças adormecidas do futuro: a reconciliação do homem com a natureza e a realização dos ideais da justiça, da república e da democracia. Segundo Sampaio Bruno, o primeiro filósofo português do Porto, aquele que teve a ousadia de enunciar que "Deus é omnisciente actualmente, mas não é omnipotente", antecipando o mito relatado recentemente por Hans Jonas para «justificar» o Holocausto, a novidade de Guerra Junqueiro reside no facto de ter esboçado, anulando a moral religiosa, a moral filosófica e a moral ascética, uma "moral cósmica", cujo princípio foi estabelecido por Novalis: "&lt;strong&gt;O fim do Homem é ajudar a evolução da Natureza&lt;/strong&gt;". Para Bruno, "o homem tem de dar contas do supremo dever que lhe incumbe, o dever para com a natureza inteira. Libertando-se a si, libertando os seus irmãos de espécie, ele contribuirá já para a libertação universal". &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;O Esboço do Poema publicado e prefaciado por Luís de Magalhães compreende cinco cantos. No Canto I, Prometeu no Cáucaso e Cristo no Calvário dialogam entre si: "Cristo quer levar o mundo para Deus" e "Prometeu quer destruir os deuses e fazer um deus de cada homem". O Canto II trata do Sermão de S. Paulo em prole da cristianização de um mundo devastado e corrupto, onde impera o "&lt;strong&gt;niilismo da alma&lt;/strong&gt;" e, por conseguinte, a "luxúria" da carne, "o pecado escandaloso", já denunciada num poema anterior, &lt;em&gt;A Morte de D. João&lt;/em&gt;. O Canto III é dedicado à "ressurreição pagã" e, portanto, à Renascença: Prometeu desagrilhoado escala o céu e mata os deuses. O Olimpo é transferido para a Terra, onde Prometeu revela, domina e entrega aos homens "as forças prodigiosas da natureza", de modo a libertar a humanidade e a tornar "cada homem um deus". Contudo, o Canto IV mostra que o "Deus-Milhão", o ídolo do homem fera, serve-se das "revelações e descobertas de Prometeu" para concentrar o seu poder "omnipotente" e escravizar a humanidade. Prometeu fica indignado ao ver que da sua obra "resultou o despotismo, a tirania, a miséria, o crime, a devassidão" e, sem desanimar, "prega a revolta aos escravos", convicto de que "os homens serão livres, serão iguais, serão fraternos". Porém, os escravos libertos tornam-se, por sua vez, tiranos, o que significa a "hecatombe da revolução" (francesa de 1789), portanto, o "triunfo do Deus-Milhão" e do "niilismo". O Canto V relata a "desilusão de Prometeu" que "supunha que os homens eram bons naturalmente e que, entregando-lhes as forças maravilhosas da natureza, se libertariam para sempre de todas as misérias terrestres". Prometeu medita: "E ainda que os homens se libertassem da miséria e da desigualdade das riquezas pela minha obra, os homens seriam absolutamente felizes, isto é, seriam perfeitos?" A resposta é um rotundo "não", porque "só a perfeição moral é perfeitamente verdadeira" e "a perfeição completa das almas exige necessariamente a imortalidade". Prometeu continua a meditar: "De que serviria converter o globo (terrestre) num paraíso, se o globo há-de morrer e voltar ao caos? De que serviria o triunfo da minha obra, se a morte ao cabo a aniquilava". E, como em sonho, Prometeu imaginou-se um Hamlet, precisamente o de William Shakespeare, que, no "cemitério do infinito", erguia da "vala comum eterna" as "caveiras pútridas dos mundos" (históricos anteriores), para as interrogar, quase à boa maneira socrática. Porém, este "inquérito arqueológico" dos mundos passados foi infrutífero, a arqueologia é muda, porque as caveiras "perderam a voz" e nada lhe disseram, e, por isso, "Prometeu acorda do sonho com um grito de angústia pavoroso": "A sua obra falira, e, em vez de libertado, sente-se mais escravo do que nunca. Agora as cadeias, que o agrilhoam, são muito mais duras do que o bronze, e nem todas as forças da Terra, juntando-se, as poderiam despedaçar. O abutre do Cáucaso roía-lhe o fígado, agora rói-lhe a alma. É o abutre da desilusão e do desespero, o abutre satânico, o abutre invencível. E então Prometeu, chorando, tem saudades das suas cadeias de escravo nas penedias do Cáucaso". Na Cena final, Guerra Junqueiro parece ansiar pelo reencantamento do mundo. "Cristo aparece-lhe e converte-o" e Prometeu "cristianizado" exclama: «Só agora sou livre. Foi Jesus Cristo que me libertou»". Este sumário do esboço do poema, escassamente preenchido pelos versos do poeta, representa o maior esboço de uma História Universal realizado por um pensador português, que, apesar de implicar Camões, o supera pela sua absoluta universalidade, deixando a «filosofia da história nacional», a mitologia do Quinto Império, de Fernando Pessoa reduzida à sua insignificância obscurantista glorificada, mais recentemente, por dois luso-filósofos imbuídos de espírito metabolicamente gordo chamados Agostinho da Silva e António Quadros. A postura de Guerra Junqueiro não é a de quem aguarda a chegada de um Messias que faça por todos aquilo que cada um deve fazer, mas a postura de um homem de acção: "Rezar e chorar, mas heroicamente, na acção e na luta, no mundo e para o mundo". E tal como Ernst Bloch, Guerra Junqueiro é um optimista militante, cuja concepção de história é habitada pela ideia de Revolução, pela qual se hão-de realizar o direito, a justiça e o resgate de todas as sociedades, porque, como diz o poeta, "A ideia é uma torrente e a História é uma montanha./ É a torrente de luz, torrente de verdades,/ que arrasa quando passa impérios e cidades,/ tronos, religiões, crenças e monumentos./ Desce co'a rapidez eléctrica dos ventos./ O fantasma da noite em vão lhe grita: Pára!" &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Em termos de periodização da &lt;strong&gt;História Universal&lt;/strong&gt;, Guerra Junqueiro parece aceitar a periodização da historiografia «normal»: Antiguidade Clássica, Idade Média e Tempos Modernos, períodos a que correspondem, na linguagem marxista, o modo de produção esclavagista, o modo de produção feudal e o modo de produção capitalista, respectivamente. Porém, os seus «critérios» não são puramente materiais mas espirituais, ou melhor, culturais, à luz dos quais encara e avalia o progresso da humanidade de um modo «paradoxal». Sem negar o progresso material da humanidade, Guerra Junqueiro destaca preferencialmente o seu lado negro e regressivo: Prometeu ajudou os escravos a libertarem-se das cadeias, mas estes, uma vez libertos, converteram-se em tiranos que servem unicamente o Deus-Milhão. O resultado da epopeia do Trabalho é sempre em qualquer período o niilismo da alma, aquilo a que podemos chamar a regressão cultural, que Guerra Junqueiro permite pensar em termos de pensamento gordo, isto é, da ditadura do engorda. S. Paulo evangelizou o mundo antigo, mas o resultado foi a emergência de um Igreja sedenta de poder e de riqueza, profundamente corrompida pelo poder estabelecido, o contrário da mensagem de S. Francisco de Assis. A revolução francesa foi levada a cabo em nome da liberdade, igualdade e fraternidade, e o resultado foi uma nova tirania e o niilismo da alma, talvez mais suavizada pelo facto de ter libertado a humanidade do jugo das Igrejas, mediante a secularização. No prefácio à segunda edição do primeiro poema, &lt;em&gt;A Velhice do Padre Eterno&lt;/em&gt;, na secção da "defesa" contra a "acusação", Guerra Junqueiro ainda responsabiliza o Deus-Ídolo, aquele que habita os tronos dos imperadores, dos reis, dos governantes ou dos dirigentes corruptos, por esta fatalidade da história da humanidade: "O Criador selvagem, o Átila furibundo, castrado e piolhoso, (...) civilizou-se. Ao deitar-se, era ainda um bárbaro; quando se levantou, era já um corrupto," que habitava "no luxo resplandecente da Grécia de Alexandre e da Roma dos Césares". Nesta crítica do Deus-Milhão, Guerra Junqueiro salvaguarda "o Rabi Jesus Cristo" que foi morto pelo Pai que o temia por causa dele ameaçar o seu "trono", deixando-o "depois, a um canto, na penumbra, (como) Deus aposentado, Deus honorário, sem influência, sem autoridade, mascando as suas cóleras, gemendo os seus reumatismos, com umas migalhas apenas da lista civil, que vergonha, que opróbrio! Jamais!" Porém, neste esboço do poema, &lt;em&gt;Prometeu Libertado&lt;/em&gt;, Guerra Junqueiro parece inclinar-se mais para a maldade radical (Kant) inerente à condição humana e, contrariando Rousseau, põe o seu Prometeu a pensar que, afinal, os homens não são naturalmente bons, porque, após lhes ter entregue as forças maravilhosas da natureza, eles não se libertaram para sempre de todas as misérias terrestres; pelo contrário, reproduziram-nas sempre de modo quase idêntico, o eterno retorno do mesmo, servindo o &lt;strong&gt;Deus-Milhão&lt;/strong&gt; e aprofundando a "&lt;strong&gt;niilite&lt;/strong&gt;" que domina o homem fera dilatada. Ao desvelar a dupla-face do progresso, uma visível e fenoménica, a da corrupção e das ruínas, a outra "encoberta" e essencial, a do espírito humano, Guerra Junqueiro vislumbra o «motor imóvel» que dinamiza e coloca em movimento perpétuo o ciclo infernal do eterno retorno que caracteriza a civilização: a mortalidade do mundo, dos seus habitantes e das coisas que o povoam. De certo modo, como pensa Prometeu, a mortalidade do homem justifica essa gula que o move ao longo da sua história vista enfaticamente como "inferno social", a catástrofe de Baudelaire e de Walter Benjamin. Só a esperança de imortalidade ou o Ideal enfrentando e aperfeiçoando o Real, pode contrabalançar a niilite, a doença crónica do processo civilizacional, e despertar a história para uma nova tarefa revolucionária: o reencantamento do mundo. Por isso, Guerra Junqueiro procede à ressuscitação poética de Jesus Cristo, o maior passo do Homem para o Divino, que, no mesmo texto, diz ao seu Pai: &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;"«Salvei o género humano. Purifiquei-o. Dum rebanho de corpos, fiz um exército de almas. De milhões de vermes, fiz milhões de astros. Como? Dizendo ao corpo: és nada!, e dizendo ao espírito: és tudo! Corpo, vai para o sepulcro. Espírito, vai para a glória eterna./ «Eliminando a carne, eliminei o pecado. O globo, que eu vi povoado de crimes, deixei-o estrelado de consciências. Converti a Terra e pus-lhe por cima um outro Céu. De hoje em diante, o Olimpo inteiro pertence-te. Os deuses gregos e romanos, deuses de prata, de oiro, de bronze, de alabastro, deuses de cinza, morreram para sempre./ Trago-te o império do universo. Aí o tens, meu Pai!»" &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;A saúde precária de Guerra Junqueiro, agravada pela recepção odiosa da sua obra, personificada na sua força maléfica e invejosa pela crítica positivista e estúpida de António Sérgio ou de Vieira de Almeida e até mesmo pela incompreensão de Leonardo Coimbra ou pela ambiguidade reconciliatória de Amorim de Carvalho, não lhe permitiram concluir a sua trilogia poética, que, de certo modo, antecipa uma reconciliação entre a razão e a fé, entre a ciência e a crença, entre Prometeu e Jesus Cristo, enfim entre a Grécia e a Religião Judaico-Cristã, as duas colunas essenciais da Civilização Ocidental. O Cristo de Guerra Junqueiro é um Cristo helenizado, mais precisamente platónico: O Sofrimento, a Dor ou a Luta espiritualizam a vida e o mundo e é nesta espiritualização que se conquista a Imortalidade. Num estudo anterior, intitulado &lt;/span&gt;&lt;a href="http://cyberdemocracia.blogspot.com/2007/07/guerra-junqueiro-poesia-e-filosofia.html"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;Guerra Junqueiro: Poesia e Filosofia &lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;(2003), apresentei uma nova chave de leitura da Filosofia da História de Guerra Junqueiro, onde tento alinhavar as linhas gerais da obra filosófica que o poeta-filósofo pretendia escrever com o título &lt;em&gt;A Unidade do Ser&lt;/em&gt;, sem ter levado em conta este projecto da trilogia poética que não foi concluído. A leitura crítica deste projecto da trilogia revela agora a robustez hermenêutica e redentora dessa chave de leitura, que, apesar de poder ser aperfeiçoada, ajuda a recuperar Guerra Junqueiro para o pensamento essencial, libertando-o desse exílio do esquecimento que se chama História da Literatura Portuguesa e sem abdicar da unidade essencial do seu pensamento. (Publicado &lt;strong&gt;&lt;a href="http://cyberdemocracia.blogspot.com/2008/09/guerra-junqueiro-o-projecto-da-trilogia.html"&gt;aqui&lt;/a&gt;&lt;/strong&gt;.) &lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;J Francisco Saraiva de Sousa&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/4759866844732089627-947211035485428915?l=cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/feeds/947211035485428915/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=4759866844732089627&amp;postID=947211035485428915&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/947211035485428915'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/4759866844732089627/posts/default/947211035485428915'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://cyberself-cyberphilosophy.blogspot.com/2009/05/trilogia-poetica-de-guerra-junqueiro.html' title='Trilogia Poética de Guerra Junqueiro'/><author><name>J Francisco Saraiva de Sousa</name><uri>http://www.blogger.com/profile/14064808742564506644</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-4759866844732089627.post-3332639708270622604</id><published>2009-05-01T06:31:00.000-07:00</published><updated>2009-05-01T06:44:43.400-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberPhilosophy'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Imaginação Política'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberBiologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crítica da Ideologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Antropologia Filosófica'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberAntropologia'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='CyberPhilosophy e Comunicação'/><title type='text'>Teoria da Internet Sexual</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:trebuchet ms;"&gt;A Internet oferece aos seus utentes três possibilidades: embelezamento das circunstâncias do mundo real, criação de um cenário de pura fantasia e computer sex, onde cada parte descreve online o que gostaria que a outra parte fizesse consigo até alcançarem em conjunto o orgasmo. Os factores que tornam os contactos online potencialmente sedutores e, frequentemente, aditivos, incluem a desinibição e a natureza anónima da Internet. Os utentes online são mais desinibidos, confiam mais nos outros e revelam facilmente aspectos íntimos e secretos das suas vidas. A percepção de confiança, intimidade e aceitação tem o efeito potencial de encorajar os utentes online a usar estas relações virtuais como uma fonte primária de companhia, de conforto ou mesmo de gratificação erótica.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;1. Internet Sexual&lt;/strong&gt;. Segundo Cooper (1998), existem três factores primários que facilitam o incremento da sexualidade online: accessibility, affordability e anonymity. O seu modelo é denominado o Triple A Engine:&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;1). Accessibility: existem milhares de sites disponíveis 24 horas por dia e 7 dias por semana.&lt;br /&gt;2). Affordability: a competição na Web mantém os preços/custos baixos e existem muitas maneiras de aceder de graça ao sexo.&lt;br /&gt;3). Anonymity: as pessoas julgam ou percebem as suas comunicações como sendo anónimas, o que parece incrementar um sentido de controlo sobre as situações.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Young (1999) elaborou uma variante do Triple A Engine, o ACE model: anonymity, convenience e escape. Nenhum destes modelos explica cabalmente o processo de desenvolvimento de relações online, embora forneçam os factores envolvidos na aquisição, desenvolvimento e manutenção das relações emocionais e/ou sexuais na Internet. Os meios virtuais parecem ter a capacidade de fornecer conforto, excitação e/ou distracção a curto prazo.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;As pessoas utilizam a Internet com diversas finalidades, tais como trabalho, aprendizagem e recriação, devotando grande quantidade de tempo a esta ciberdimensão. Porém, o tópico número um, aquele que é mais procurado na Internet, é o sexo (Cooper, 1998; Freeman-Longo &amp;amp; Blanchard, 1998). Os sites com material sexual explícito são os mais procurados e as pessoas usam determinados serviços on-line para satisfazer os seus interesses sexuais e estabelecer contacto com outras, em função de diversas agendas sexuais. Isto significa que a Internet providencia um novo nicho social para as mais diversas expressões sexuais. A Internet sexual inclui não só a pornografia convencional, mas também as pornographic picture libraries (commercial and free-acccess), vídeos e vídeo clips, sex shops, live strip-shows, live sex shows e voyeuristic Web-Cam sites (Griffiths, 2000). Porém, a Internet sexual é muito mais do que uma rede de sites ou de páginas sexuais criados por determinados produtores para consumo de uma vasta audiência mundial: os utentes da Internet usam os programas e as novas tecnologias para fins sexuais, criando espontaneamente uma vasta rede de conexões sexuais. A globalização da comunicação é assim acompanhada pela globalização sexual: a comunicação mediada por computador cria uma arena mundial para contactos sexuais. Com a Internet emerge uma nova forma de sexualidade: a telesexualidade (sexo à distância), sexualidade virtual ou cibersexualidade.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;1.1. Cyberaffair&lt;/strong&gt;. A utilização sexual da comunicação mediada por computador é, portanto, muito mais extensa do que o número de web-sites sexuais on-line. Uma troca de email ou uma conversa num chat room podem conduzir a um cyberaffair intenso e apaixonado e, eventualmente, promover encontros sexuais reais. Um cyberaffair pode ser definido como uma relação sexual e/ou romântica que é iniciada via contacto online e mantida predominantemente através de conversações electrónicas que ocorrem através do e-mail e em comunidades virtuais, tais como chat rooms, interactive games, newsgroups e, sobretudo, Windows Live Messenger (Young et al., 2000). Estas relações online convertem-se frequentemente em diálogos eróticos mútuos, o cibersexo, que, com a utilização da web-cam, possibilita a visualização das actividades sexuais. Quando visam marcar um encontro real, as pessoas trocam os números de telefone ou de telemóvel e iniciam primeiramente uma interacção por telefone antes do encontro face a face, embora possam começar por um encontro real num lugar previamente combinado.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;1.2. Cibersexo&lt;/strong&gt;. O cibersexo envolve utentes online que trocam entre si textos baseados em fantasias sexuais, frequentemente acompanhados por masturbação e outras actividades sexuais. O conceito de cibersexo tem sido definido de diversas maneiras. Blair (1998) usa-o para designar as interacções eróticas através de ciberdiscursos e aponta as suas limitações sensoriais. O discurso sexual da Internet pode ser combinado com auto-estimulação ou converter-se numa relação física offline. As offline physical coupling são, em muitos casos, antecedidas por trocas online e trocas de números de telefone e muitos casais ou pares conheceram-se e assumiram relações em real-time como resultado de relações românticas online. Porém, com a utilização da web-cam, a Internet já não é apenas um sistema de signos: o cibersexo não se reduz a uma actividade em que o signo substitui a coisa (Lacan).&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;2. Sites Web-Cam&lt;/strong&gt;. A minha pesquisa recente está debruçada sobre os sites Web-Cam. O que os seus frequentadores procuram não é tanto amigos/as com quem possam «conversar» e socializar, mas fundamentalmente parceiros sexuais de jogo com os quais trocam e-mails e, em privado, entregam-se à prática de cibersexo via web-cam. Nalguns casos, podem surgir oportunidades para encontros sexuais off-line marcados a breve ou a longo prazo. As distâncias podem ser superadas, desde que haja acordo entre as partes envolvidas: a relação virtual pode converter-se facilmente em relação real. O uso da Web-cam facilita primordialmente o sexo virtual, mas, mesmo assim, não é de descartar a possibilidade de um encontro sexual face a face. Esta necessidade de marcar encontros sexuais reais e virtuais mostra que estes utentes já possuíam uma adição ou compulsão sexual anterior à utilização sexual do computador: a Internet é utilizada para aumentar o pool de potenciais parceiros sexuais reais e/ou virtuais (Ross et al., 2007; Elford et al., 2004; Elford et al., 2001; Hospers et al., 2005). A compulsividade sexual é caracterizada pela solidão, baixa auto-estima e falta de auto-controle, e, de facto, estes traços estão presentes nestes utentes, sendo consistentes com os dos retratos de pessoas com adições sexuais (Cooper et al., 1999; Griffiths, 2004). Isto significa que o meio virtual pode influenciar o comportamento, mas não o determina. O modelo "monkey see, monkey do" dos efeitos dos mass media deve ser rejeitado, porque o "monkey has a brain": a perspectiva da sequência do comportamento sexual considera que os contactos com a cibersexualidade podem ser vistos como actividades auto-reguladas que se desenrolam em função de disposições individuais erotofílicas ou erotofóbicas para responder ao conteúdo sexual com afectos e avaliações positivas ou negativas (Fisher &amp;amp; Barak, 2000).&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;Ora, de acordo com a minha hipótese de trabalho, os sites web-cam não são apenas sites voyeurs, como supõe Griffiths (2000), mas também sites exibicionistas. Ou seja, a minha hipótese é a de que os actores/residentes desses sites são tendencialmente exibicionistas, enquanto a maior parte dos seus convidados e frequentadores são voyeurs, alguns dos quais podem tornar-se residentes. Esta hipótese assenta na tese de que o cibersexo deve ser visto como um tipo de expressão sexual que varia num continuum desde a mera curiosidade até ao envolvimento obsessivo (Leiblum, 1997). Para as pessoas que precisam de ajuda clínica, as perseguições sexuais on-line fazem parte integrante de uma constelação de traços associados ao isolamento social e a uma vida frustrante. Leiblum (1997) distingue três tipos de perfis clínicos de pessoas que recorrem ao cibersexo: o grupo dos loners, que compreende as pessoas para quem o cibersexo representa uma acomodação a situações de vida problemáticas ou empobrecidas, cada uma das quais a curto ou longo prazo; o grupo dos partners, formado por pessoas envolvidas numa relação off-line, cujo envolvimento com o cibersexo causa dificuldades sexuais e relacionais com o outro membro da relação; e o grupo dos paraphilics, constituído por pessoas que dependem do cibersexo para lhes fornecer uma fonte de estimulação e de satisfação das suas preferências e comportamentos sexuais. Embora estes perfis possam ser identificados isoladamente, os meus dados mostram que, no que diz respeito aos agentes/residentes inscritos nos sites web-cam, o perfil parafílico sobrepõe-se a um dos outros perfis, de modo a constituir perfis compostos parafílico/partner e parafílico/loner. Isto significa que os agentes/residentes manifestam invariavelmente um envolvimento obsessivo com o cibersexo, e que, entre os frequentadores dos sites web-cam, podemos encontrar diversos tipos de envolvimento, desde a mera curiosidade até ao envolvimento obsessivo.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;2.1. Oásis Eróticos Virtuais&lt;/strong&gt;. Os sites web-cam podem ser vistos como oásis eróticos virtuais. O conceito de oásis erórico foi forjado por Delph (1978) para designar um lugar considerado física e socialmente seguro de ameaças exteriores, de acordo com os padrões definidos pela subcultura gay, onde os seus frequentadores se reúnem para estabelecer interacções sexuais mutuamente desejadas. Ou seja, o oásis erótico é um lugar subculturalmente atribuído para a prática do sexo, portanto, um lugar que encoraja abertamente o sexo. A extensão deste conceito ao ciberespaço possibilita examinar certos sites sexuais como cloacas comportamentais virtuais acessíveis a qualquer utente, bastando para o efeito clicar, consultar o website e interagir com os outros. Como já vimos, a Internet sexual democratiza o acesso a todos os tipos de materiais sexuais explícitos, uns legais e outros ilegais (assédio sexual online, cyberstalking, pedophilic "grooming" of children, consensual erotic cannibalism), permite a exteriorização e a partilha de fantasias sexuais, e facilita a procura de parceiros sexuais sem sair de casa. Os sites web-cam são oásis eróticos virtuais muito populares e, como tal, encorajam abertamente a exteriorização "pública" das fantasias sexuais e as interacções sexuais entre os seus utentes de géneros, nacionalidades, etnias, status sócio-económico, idades, orientações e preferências sexuais diferentes. Ao contrário dos clássicos websites sexuais, em especial dos pornográficos, os sites web-cam permitem visualizar em tempo real actividades sexuais diversas realizadas por casais ou indivíduos "reais" online e estabelecer contactos com esses residentes, tendo em vista um encontro sexual virtual, de preferência recíproco e em privado via MSN. Os sites web-cam facilitam encontros sexuais que, ao contrário da masturbação individual, são dotados de uma qualidade partilhada, no sentido de que as fantasias são exteriorizadas e mutuamente construídas em tempo real com uma outra pessoa "real" online. Neste sentido, o cibersexo posiciona-se entre a excitação sexual resultante da visualização de material pornográfico e o contacto sexual real. Uns utentes ficam satisfeitos com estes contactos sexuais virtuais, outros desejam estabelecer contactos sexuais reais: o sexo virtual é, neste último caso, o primeiro passo que lhes permite acumular dados, avaliar as compatibilidades e, mais tarde, marcar um encontro real.&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;2.2. Cruzamento das Sexualidades&lt;/strong&gt;. A Internet permite uma melhor expressão da identidade, sobretudo daqueles utentes que são socialmente marginalizados e excluídos (McKenna, Green &amp;amp; Smith, 2001), como sucede com os homens e as mulheres homossexuais e bissexuais e com os homens heterossexuais sexualmente compulsivos ou com alguma preferência parafílica. Após terem revelado a sua identidade sexual genuína, a online selfdisclosure, estas pessoas tendem a tornar efectiva essa identidade assumida no meio virtual. Aliás, qualquer pessoa sente e sabe que o seu «verdadeiro self» (Karl Rogers) é melhor expresso online do que offline, devido ao Triple A Engine. Os homens homossexuais passam a maior parte do seu tempo escondidos e a ser interpelados como se fossem heterossexuais. Além de serem clandestinos numa sociedade heterosexista, os homens gay têm de lidar com as investidas eróticas e amorosas femininas que amordaçam a seu eu mais verdadeiro. Ora, a Internet possibilita a desmarginalização do self gay ou parafílico/exótico, que, pelo menos no meio virtual, quando assediado, pode simplesmente banir ou bloquear o endereço do abusador. A Internet quebra muros, elimina barreiras associadas com a geografia, a idade, o status sócio-económico, a etnicidade ou a nacionalidade, e ajuda a destruir preconceitos sexuais (Hillier, Kurdas &amp;amp; Horsley, 2001). Embora possam ser insultados verbalmente online ou via telefone por homens heterossexuais, sobretudo quanto tentam sexphone, os homens gay podem interagir de modo mais genuíno e próximo com eles, sem temer consequências negativas. Alguns homens heterossexuais trocam e-mails com homens homossexuais, com o objectivo de criar amizades online, e outros revelam interesse em explorar novos prazeres, podendo envolver-se em cibersexo homossexual. De facto, nas interacções online, os homens heterossexuais são muito menos preconceituosos e, por isso, mais abertos a outras possibilidades sexuais. Alguns fazem cibersexo com homossexuais, não porque estes tenham simulado uma personagem feminina online (gender-bending), o que acontece regularmente, mas porque, eles próprios durante as interacções online, mostraram interesse em experimentar novas formas de prazer sexual (Brown, Maycock &amp;amp; Burns, 2005).&lt;br /&gt;&lt;blockquote&gt;&lt;/blockquote&gt;&lt;strong&gt;2.3. Padrões Gerais&lt;/strong&gt;. Os sites web-cam são completamente dominados pelos homens: os seus residentes e frequentadores são predominantemente homens (1), muitos dos quais usam um perfil (ou inscrição) feminino para ter acesso privilegiado e privado às "cenas íntimas" dos machos heterossexuais, tais como "cum" ou "shoot your milk", e a imagem predominante é a do falo (2). Estas observações confirmam resultados de estudos anteriores. Os utentes da Internet não constituem um grupo homogéneo; pelo contrário, existem diversos subgrupos que podem ser distinguidos pelo género e pela idade. O género constitui a variável que permite distinguir os utentes de websites sexuais: os homens (2/3) utilizam muito mais estes sites do que as mulheres e também gastam mais tempo a visualizá-los (Morahan-M
